O passado recente explica a desestruturação geral do Haiti, que conviveu durante anos em um cenário político atribulado. Em 2010, o país foi devastado por um terremoto de sete graus na escala Richter, que matou mais de 200 mil pessoas. E somente na força divina e no amparo proveniente da família e dos amigos restantes que muitas pessoas conseguiram se reerguer.
Vinte e três mulheres, representantes da seleção feminina de futebol haitiana, entretanto, viram o Brasil também como um porto seguro. E o esporte passou a integrar a remontagem sentimental da mais pobre das nações americanas.
Por intermédio de uma parceria entre a federação de futebol daquele país, o Ministério da Defesa, a Marinha do Brasil, a ONG Viva Rio e a Universidade Federal de Viçosa, viabilizou-se a preparação da equipe para a Copa Ouro, torneio eliminatório para a Copa Mundo que acontece este ano, na Alemanha.
"Foram três meses de um aprendizado fantástico, nutrido por inúmeras situações dentro e fora de campo, em que eu e toda comissão técnica nos tornávamos seres humanos melhores a cada momento", definiu Augusto Moura de Oliveira, escolhido como treinador daquele time.
Ele conviveu com atletas como Betty Sanoun, que aos 25 anos quase perdeu a vida por causa do forte tremor - a meio-campista permaneceu soterrada por um dia inteiro após o desabamento de sua residência, na capital Porto Príncipe. Foram mais de dois meses de preparação envolvendo todas as avaliações físicas, laboratoriais, jogos amistosos e escolha das vinte mulheres que viajariam ao México para representar o Haiti na competição internacional.
"Muitos foram os aprendizados, pois pretendíamos respeitar as características do futebol haitiano; porém, implantarmos um estilo brasileiro de atuar dentro de campo, com qualidade na posse de bola, variações táticas e mais liberdade nas ações técnico-táticas individuais e coletivas", revelou Augusto, que encontrou um pouco de resistência e dificuldade para implementar suas ideias.
Em termos práticos, o coordenador técnico da escola de futebol Fogo Maringá enalteceu a importância de aplicar o treinamento de forma globalizada, com o intuito de otimizar a questão técnica dos gestos motores das atletas. Princípios de ataque e defesa, em jogos reduzidos, foram delineados por Augusto e sua comissão, formada por: Alexandre Lemos (assistente técnico), Jorge Augusto (preparador físico), Luiz Carlos (preparador de goleiros) e Paulinho (Massagista).
Êxitos em termos de resultado à parte - o Haiti acabou não se classificando para o Mundial feminino -, a experiência de Augusto diante de um cenário histórico suplantou qualquer outro fator. Nesta entrevista concedida à Universidade do Futebol, ele fala mais sobre sua atuação com as haitianas e aborda ainda de maneira profunda o processo de formação do jogador brasileiro, a partir das ideias do livro Escola de Futebol: dicas administrativas e pedagógicas para alcançar o sucesso, de sua autoria.