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03/11/2016

A Congruência de hábitos divergentes em direção a um “jogar” emergente

O processo de ensino-aprendizagem/treino e a (re)construção de hábitos comportamentais

No início de um processo de ensino-aprendizagem/treino, e sendo assim, de construção de um “jogar” específico, o treinador pode se deparar com jogadores cujos comportamentos preferencialmente adotados na resolução de determinados problemas levantados pelo jogo, estes intimamente influenciados por sua experiência e histórico de sucesso em situações semelhantes, são diferentes ou contrários aos comportamentos pretendidos pelo treinador. Em outras palavras, os hábitos apresentados por este(s) jogador(es) são divergentes em relação aos princípios de jogo que sustentam o novo “jogar” concebido pelo treinador.

Deste modo, quando seu “padrão de resposta” previamente estabelecido é questionado ou confrontado por um novo “conjunto de respostas possíveis” inerentes aos princípios de jogo deste novo “jogar”, o jogador pode sentir desconforto e insegurança frente esta situação, aspectos que se não forem bem geridos pelo treinador podem se transformar em desconfiança e/ou num sentimento de indiferença perante o processo, levando a uma consequente inadaptabilidade ao novo “jogar”.

Sendo a equipe um sistema complexo composto por elementos em interação e de dinâmica organizacional, a interdependência apresenta-se como um princípio característico desta realidade. O princípio da interdependência faz com que qualquer comportamento de um dos elementos no interior do sistema tenha repercussão no comportamento dos demais, repercutindo na estrutura do sistema como um todo. Em outras palavras, os comportamentos empregados por um jogador, ao apresentarem uma inadaptabilidade referente aos princípios de jogo (dinâmica organizacional) da equipe, podem prejudicar o funcionamento e a fluidez do “jogar” coletivo (sistema).

Contudo, da matriz operacional do processo de ensino-aprendizagem/treino, surgem algumas ferramentas ou meios que podem auxiliar o treinador na resolução deste problema, isto é, guiar as decisões e ações deste jogador em direção ao “jogar” pretendido.

O exercício apresenta-se como ferramenta primordial a serviço do treinador, mas mais do que um exercício qualquer, ele deve ser Específico, para isso ele deve visar a concretização dos comportamentos pertinentes ao “jogar”. Daqui depreendemos o surgimento de dois conceitos fundamentais inerentes à prática do exercício específico:

a) O princípio da Especificidade, mais do que uma especificidade referente à modalidade, uma Especificidade referente ao “jogar” pretendido. É o futuro como elemento causal do processo.

b) O segundo conceito é o de Propensão. O respeito por este princípio metodológico faz com que o exercício proposto possibilite a aparição do(s) princípio(s) desejado(s) a um nível superior ao do jogo, deste modo, o exercício torna-se propenso à manifestação contínua do(s) comportamento(s) pretendido(s) para um determinado contexto.

Neste ponto, sentimos a necessidade de explicitar também sobre o conceito de repetição sistemática, que está intimamente ligado ao princípio das propensões e que é igualmente imprescindível para um processo que visa a incorporação de comportamentos/princípios de jogo.

Um dos principais objetivos de um processo de ensino-aprendizagem/treino que visa a construção de um “jogar” Específico, mais do que a simples exercitação sem sentido, é a criação de hábitos comportamentais referentes aos princípios de jogo que sustentarão a dinâmica organizacional da equipe. Portanto, o conceito de repetição sistemática vem para contribuir neste sentido, na criação de hábitos convergentes ao “jogar” objetivado. Como referia Aristóteles: “Nós somos o que repetidamente fazemos. Excelência, portanto, não é um ato, mas um hábito”.

Entretanto, mesmo a criação de um exercício propenso ao surgimento dos princípios pretendidos, respeitando a Especificidade do “jogar” e enquadrado num processo que reconhece o valor da repetição sistemática, pode não ser suficiente na criação/re-criação de hábitos comportamentais. A intervenção do treinador no exercício e o modo como ele gere as emoções durante o processo é de fundamental importância.

Às vezes o exercício criado pelo treinador está bem ajustado e configurado para o surgimento dos comportamentos pretendidos, entretanto, se não houver uma intervenção Específica por parte do treinador no exercício, as decisões e interações manifestadas pelos jogadores podem assumir contornos divergentes em relação ao(s) princípio(s) almejado(s). Neste sentido, o papel do treinador como catalisador positivo dos comportamentos perspectivados para a forma de jogar desejada por meio do feedback transmitido antes, durante e depois do exercício, é essencial dentro do processo de incorporação de princípios. É a intervenção do treinador no exercício que possibilitará a aproximação entre os hábitos e comportamentos criados e evidenciados pelos jogadores no aqui-e-agora e o “jogar” pretendido (elemento causal do processo). Por esse motivo é que se diz Específica.

Não obstante, mais do que uma intervenção de caráter neutro, destituída de um componente emocional, o feedback transmitido pelo treinador deve vir associado as emoções positivas quando as interações manifestadas pelos jogadores são congruentes com o “jogar” almejado, gerando assim estados corporais também positivos. Isso facilitará a evocação destes mesmos comportamentos adaptando-os à contextos semelhantes no futuro (competição).

É da natureza do ser humano, face um determinado problema, evocar da memória os comportamentos/ações empregados com sucesso na resolução de problemas semelhante no passado e que “marcaram” um estado positivo no corpo, reproduzindo-o no aqui-e-agora. Portanto, evidencia-se a importância das emoções na construção de hábitos saudáveis na consecução do “jogar”.

Destarte, tendo em conta as ideias apresentadas, apreende-se que um processo de ensino-aprendizagem/treino orientado para a construção, desenvolvimento e refinamento contínuo e permanente de uma determinada forma de jogar concebida pelo treinador, operacionalizada através de exercícios Específicos e propensos ao surgimento dos comportamentos e interações desejadas e sua respectiva repetição sistemática, sem descurar a importância da intervenção Específica imbuída de emoções positivas, é o que possibilitará a re-invenção de antigos ou a re-construção de novos hábitos nos jogadores. Neste momento, a divergência de comportamentos dará lugar a congruência em direção ao novo “jogar” emergente.

*Graduado em Educação Física – Faculdade Metropolitana de Blumenau (SC)

Idealizador do GEPAF (Grupo de Estudos e Pesquisas Aplicadas ao Futebol) (http://gepafestudos.wix.com/futebol).

Comentários

  1. Osni disse:

    Muito bom,

  2. HÉLIO CEZAR TEODORO disse:

    Sr. Renan Mendes, já está sendo percebido por muitos que os problemas não só do futebol mas de toda a nossa sociedade, como um todo, se me permite discordar, em termos embasado toda a cultura na filosofia de fundo platônico/aristotélico, pois, dentre os muitos equívocos destes filósofos, que a excelência longe de de estar no hábito, está na inteligência e inteligência não pode ser exercitada e ou cultivada, mas talvez possa ser ativada, que é diferente, pois, o jogador inteligente vai fazer e agir de forma eficiente conforme as solicitações da situação real do jogo sem necessidade, talvez, de todos estes estrênuo e ineficaz esforço positivo de condicionar os seus gestos, o que na verdade o torna mais um robô do que um atleta ao destruir sua capacidade de criação, e é o que os especialistas desse esporte têm feito invariavelmente, o que não deixa de ser uma tragédia, e que talvez explique o baixo nível e a ausência de craques de nosso futebol atual.
    No nosso livro “Futebol, uma revolução à vista: Decifrados, enfim, os segredos da genialidade de nossos craques”, pelo Clube de Autores, nós tentamos esmiuçar estes e outros equívocos que se originaram na sua maioria na filosofia daqueles filósofos acima, e entre elas está a deturpação do chamados “Sensus Comunis” de Parmênides e Empédocles, principalmente por Aristóteles, e que nos leva à forma de ver que eles, aqueles pré-socrátivos acima, denominavam de “eidem” ou estado “B” da mente (segundo os gregos há 4 formas de ver: blepen, teorein, eiden e opsetai e que têm que ser aprendidas) e que em tese seria a condição de um Pelé e que possivelmente tenha dado toda a sua capacidade que o levou a se tornar nada menos do que o melhor jogador de todos os tempos e que quando a entendermos vai revolucionar toda a forma de lidar com o futebol, pois, seria a princípio a forma de agir de um craque como Pelé e que diferentemente de um dom é uma capacidade e pode ser ativada em qualquer atleta e assim tal entendimento iria nos facultar a capacidade de tirar todos os nossos atletas do mais baixo nível cognoscitivo, que é “blepen”, e torná-los todos uns Pelés, que no nosso atual paradigma parece impossível, mas, se tal entendimento nos deu tantos craques, então impossível não é, certo?

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