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04/03/2017

A culpa é do goleiro!

A importância de errar no processo de ensino-aprendizagem

“Perdemos por causa do goleiro!” Quem nunca ouviu essa frase? Isso não é nenhuma novidade. Essa expressão é usada inúmeras vezes, mas antes de entrar neste debate falarei um pouco sobre os goleiros…

O futebol como atividade cognitiva exige o desenvolvimento da percepção e decisão de seus atletas que, para fazê-lo bem, necessita de técnica. Para escolher e executar a melhor técnica, ela deverá ser feita pelo goleiro dentro de um espaço e tempo adequados, contextualizada com a situação-problema. Para isso, o jogador deve saber o porquê, como e para quê a executa, fazendo-a de forma eficaz. Além disso, o goleiro deve conhecer o que acontece ao seu redor (companheiros, bola, adversário, condição do tempo e do campo etc.) a fim de decidir a melhor solução e executar o gesto motor com êxito.

Quanto mais inteligente for o comportamento de jogo, melhor o rendimento do goleiro no âmbito tático da equipe, lembrando que, além de todos esses fatores, ainda temos o componente físico do atleta que deve ser propício para a atividade. Desenvolver a inteligência de jogo, saber lê-lo, ter boa comunicação na organização da equipe e fazer sua função tática são extremamente importantes para o goleiro nos dias atuais, além, é claro, de proteger a meta, sob o iminente risco do erro, que fatalmente resulta em gol adversário.

Depois de ler os parágrafos acima, que são somente algumas das necessidades da posição, você acha fácil ser goleiro? Imagine se esse goleiro tiver 12 anos… Essa idade é só para ilustrar, mas será que os treinadores, os torcedores, os outros jogadores, os pais dele, os pais dos outros jogadores do time pensam o quão difícil é a situação daquela criança? Acredito que não, pelo menos a maioria, infelizmente.

Muitos vão falar que a cobrança deve existir, pois faz parte do futebol, mas o que devemos analisar é se a estrutura, o trabalho que o atleta recebe, a idade e o nível de competição correspondem ao que é cobrado. Isto é real tanto na base como no profissional.

Que o treinamento de goleiros tem evoluído é fato, porém essa realidade não é geral. Muitas escolas de futebol e até equipes não têm um profissional capacitado para ministrar os treinamentos com qualidade. Entendo que várias escolinhas não têm condições de ter um profissional específico, mas será que os responsáveis não poderiam procurar saber mais sobre a posição? Seria difícil um pouco de estudo acerca dessa tão difícil e específica função?

A evolução das crianças, atletas amadores ou mesmo atletas profissionais deve ser constante, e nada melhor para auxiliá-los como o conhecimento. No entanto, tem algo tão ou mais importante em minha visão: não basta ter conhecimento se não souber como usá-lo para guiar o atleta, isso corresponde à didática utilizada, e com essa ideia, destaco algo que os profissionais devem entender…

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A importância do erro!

Voltando à reflexão sobre o goleiro de futebol e pensando no mais acentuado problema, que, a meu ver acontece na juventude, é que, aquele menino aspirante a goleiro profissional, ou mesmo e mais importante, um ser humano em formação enfrenta muitos problemas, dificuldades, erros e derrotas, mas, em contrapartida, muitas vitórias, aprendizado com as experiências enfrentadas e amizades, etc.

Se bem estimulado o esporte pode nos preparar muito bem para a vida, pois, ao usufruir deste, temos as mais diversas experiências e sensações. Grande parte do que iremos enfrentar na vida profissional, social etc, são vividas em nossa formação no esporte. A prática esportiva é importantíssima, e consequentemente os profissionais atuantes nessa área são igualmente importantes e, para isso, eles devem se preparar para exercer essa difícil função.

Apesar do conhecimento que o professor/treinador possui ser importante, é a sua aplicação que distingue uma intervenção de excelência de uma intervenção comum (Woodman, 1983, cit. Mesquita, 2002). O modo como o professor/treinador orienta o processo de aprendizagem, nomeadamente através da relação que estabelece com os praticantes, demonstrada em atos e palavras, interfere nas performances alcançadas. (More e Franks, 1996, cit. Mesquita, 2002).

Ninguém sabe tudo, porém, a busca do conhecimento tanto da função exercida, como da melhor didática a ser aplicada deve ser um objetivo. Nesse processo, o erro é um grande aliado.

A presença do erro é inevitável. Ele deve ser usado para evolução e as atitudes relacionadas a ele precisam estar voltadas para suas causas: nível que se encontra o atleta; será que o atleta errou por não saber o que fazer? Será que ele foi preparado para tal situação? Está sendo oferecido um treinamento de qualidade? A didática do treinador/professor é boa? O professor tem conhecimento sobre o assunto? Etc).

Ignorar o erro é inibir futuras aprendizagens significativas do atleta. Em muitos casos, é preciso errar para, então, acertar. É neste equilíbrio existente entre o erro e o acerto que está a chave do sucesso.

Considera-se que ao avaliar o erro do atleta, lhe serão propiciadas oportunidades de progresso. Entretanto, ignorá-lo é simplesmente deixar o atleta cometê-lo constantemente sem nenhum avanço. Uma das principais tarefas de um professor/treinador é ajudar os alunos a evoluírem e a perderem o medo de falhar (Mesquita, 2002).

Quando escutamos o “treinador” dizendo ao goleiro: “- Você errou!” “Foi frango!” “Esse salto está errado!” “Você é um “mão de pau!” “Você está fazendo errado!” Ou, até mesmo nos elogios, quando ele diz após qualquer defesa do goleiro, mesmo que não sendo a melhor escolha, gesto técnico, ou movimento seguro (segurança física do atleta) “- Muito bom!” “Você é bom!” “Boa!”, etc., essas atitudes irão, no máximo, funcionar como motivação no segundo caso, mas não irão contribuir para a evolução do atleta, uma vez que são críticas e elogios sem significado de aprendizagem.

Entende-se que as críticas não influenciam na aprendizagem, não educam, geram apenas agressividade e distanciamento (CURY, 2003).

Para explicar o porquê de uma determinada atitude ser melhor, a utilização do erro ou até mesmo do acerto é muito mais proveitosa. Além disso, antes mesmo de explicar os porquês, creio que seja melhor questionar o atleta sobre o que aconteceu, fazendo perguntas que levem o praticante a encontrar as causas dos seus erros e a descobrir a melhor solução para corrigi-los e, assim, ele mesmo desenvolver a autonomia, a autoanálise e correção, pois, no esporte, principalmente no futebol e mais ainda na posição de goleiro que se trata de habilidades de natureza aberta, não tem o certo absoluto. Por mais que se estude e se atualize, que é algo indispensável, sempre há espaço para a inovação e, se o atleta é treinado a fim de desenvolver sua autocrítica, sabendo analisar os erros, entendendo suas limitações e usando tudo para sua evolução, teremos, no mínimo, um grande potencial.

Os erros são um elemento indissociável do processo de formação no futebol (Araújo, 2006), já que é através da sua “identificação”, ou seja, da tomada de consciência dos próprios erros, que os jogadores podem evoluir para novos patamares (Pacheco, 2006). O erro constitui-se como um ponto de partida para o jogador construir um padrão novo, que efetivamente reinventa o estabelecido, enriquecendo-o.

Portanto, os treinadores/professores e pais devem pensar muito em suas ações, reflitam sobre as condições oferecidas aos atletas, reflitam sobre a importância do resultado de uma partida de futebol, sobre a pressão que os atletas sofrem, sobre toda a imprevisibilidade de cada jogada no futebol, pensem não só nos acertos, mas também nos erros e em como identificar suas causas a fim de usá-los para a evolução. E, finalmente, utilizem o esporte para o progresso do atleta como um grande ser humano!

 

 

BIBLIOGRAFIA

ARAÚJO, D. (2006). Entrevista in Fonseca, H. (2006). Futebol de Rua, um fenómeno em vias de extinção? Contributos e implicações para a aprendizagem. Porto. Monografia de Licenciatura apresentada à FADEUP.

CURY, A. J. (2003). Pais brilhantes, professores fascinantes. Rio de Janeiro: Sextante, 2003.

LLOPIS, L. (2010). Implicación y relación del portero en el juego colectivo. Madrid 2010: Revista ABFUTBOL.

MACHADO, J. (2008). QUEM ERRA… APRENDE. A importância do Erro enquanto constrangimento indissociável do processo de ensino – aprendizagem do Futebol. Porto: J. Machado. Dissertação de Licenciatura apresentada à Faculdade de Desporto da Universidade do Porto.

MESQUITA, I. (2002). O Papel do Elogio no Processo de Ensino-Aprendizagem. In J. Adelino, J. Vieira & O. Coelho (Eds.), Treino e Jovens (pp. 27-37). Lisboa: Centro de Estudos e Formação Desportiva.

PACHECO, R. (2006). Entrevista in Fonseca, H. (2006). Futebol de Rua, um fenómeno em vias de extinção? Contributos e implicações para a aprendizagem. Porto. Monografia de Licenciatura apresentada à FADEUP.

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