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20/04/2017

A importância do preparador físico no modelo de periodização tática no futebol contemporâneo

O futebol é sem dúvida um dos esportes mais praticados e acompanhados no mundo.

Segundo Osgnach et al. (2010) futebol é uma modalidade esportiva de intensidade variada, que envolve períodos de repouso, de baixa, moderada e alta intensidade. O treinamento do atleta em diferentes intensidades, respeitando a especificidade do jogo implicou em uma primária quebra de paradigma do treinamento, visto que em tempos mais remotos tinha-se a errônea ideia de que quanto maior fosse o deslocamento dos atletas, maior seria o condicionamento físico deste, independente da forma como este fosse realizado.

O treinamento esportivo implica na divisão do tempo total da temporada de treinamento em pequenos períodos denominados de fases, permitindo assim maior organização e controle das variáveis (BOMPA, 2002).

Por muito tempo houve uma segmentação dos aspectos físicos, técnicos e táticos, em que o treinador ficava responsável pela parte tática e o preparador físico pelo desenvolvimento do condicionamento dos atletas. Autor contemporâneo, Garganta (2004) afirma que um dos aspectos mais importantes na preparação dos jogadores para a competição é o treinamento que visa principalmente a organização tática da equipe.

 

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Figura 1 – Por muito tempo a preparação física foi elaborada de forma que se atingisse o ápice de cada aspecto de forma segmentada.

Entretanto, no futebol atual o tempo de preparação se tornou muito curto, com a pré-temporada (período compreendido entre o início dos treinamentos e o início da temporada competitiva) durando em média de 15 a 20 dias, o que exige com que os atletas alcancem desempenho satisfatório nas distintas valências em períodos curtos de tempo. Além disso, o desempenho deve ser mantido ao longo de toda temporada, visto a configuração contínua das competições, demonstrada, por exemplo, pelo modelo de pontos corridos, presente nos principais torneios nacionais (Campeonato Brasileiro, por exemplo) e internacionais (Premier League – ING; Série A – ITA; Liga de Fútbol Profesional – ESP).

Nesse sentido uma nova forma de periodização do treinamento surge contemplando o desenvolvimento físico, técnico e tático de forma conjunta dentro do contexto da modalidade – modelo este que ficou conhecido como periodização tática (PT). Segundo Mesquita (2000) a PT vem a ser uma metodologia de treinamento desenvolvida na construção e qualificação de um modelo que visa relação mais forte com as questões táticas propostas pelo treinador, qualificando e fundamentando o treinamento na construção de um “jogar” específico para a equipe.

Com isso, atualmente o preparador físico passa a ter funções que vão muito além daquelas tradicionais voltadas à orientação das atividades de desenvolvimento exclusivo da valência física. Nesta segunda quebra de paradigma, o preparador físico contribui com a organização tática da equipe, uma vez que seus treinamentos devem ser orientados para o desenvolvimento integral do atleta dentro dos padrões de jogo preestabelecidos. Sendo assim, a parte física não é o fator principal a ser desenvolvido, já que as exigências físicas são propostas dentro do contexto do jogo, em que o jogador deve assumir a forma tática específica desde o início da preparação.

Além disso, Castelo (1996) descreve que os treinamentos serão idealizados a partir de um modelo em que haja processo de ensino-aprendizagem, de forma que os jogadores compreendam o modelo de jogo proposto através da organização e do desenvolvimento das vivências e tomadas de decisões, envolvendo a integração do treinamento cognitivo. No mesmo sentido, Queirós (1996) descreve de forma sistemática e metódica que o modelo de jogo deve preconizar ideias de como se pretende que a organização tática seja praticada, definindo as tarefas e comportamentos técnicos e táticos de cada jogador por meio dos treinamentos.

Enfatiza-se então assim que o treinamento deve ser pensado em relação à organização individual e coletiva, envolvendo atividades que desenvolvam capacidades físicas (resistência anaeróbica lática e alática, agilididade, força e potência musculares); capacidades motoras (tempo de resposta, tempo de bola, habilidade óculo manual; controle de força) e capacidades cognitivas (memorização e aprendizagem motora, tomada de decisão).

Tal abordagem apresenta algumas vantagens em detrimento das demais consideradas mais clássicas, dentre elas: (1) qualificar um modelo de jogo proposto do treinador aos jogadores, desenvolvendo integralmente as variáveis físico-técnico-táticas dos atletas; (2) desenvolver a tomada de decisão de forma coletiva e individual a partir de atividades ou situações mais próximas possíveis da situação real de jogo; (3) economia de tempo e sessões de treinamento melhor organizadas.

Para os profissionais da preparação física este modelo é de extrema relevância, pois desde o início dos treinamentos, a preparação englobará todos os aspectos envolvidos no desempenho de modo a exigir uma atuação mais conjunta dos membros da comissão técnica, especificamente do head coach com seus respectivos physical trainers.

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Figura 2 – Na periodização tática todos os aspectos são desenvolvidos conjuntamente no treinamento.

Pivetti (2012) descreve que a periodização tática é uma metodologia que concebe o treinamento como um processo de ensino-aprendizagem, regendo-se por princípios metodológicos próprios que rompem com o convencionalmente instituído, já que se suporta em uma sustentabilidade científica, ainda que esta esteja em processo de desenvolvimento e elucidação.

Atualmente o fundamental papel do preparador físico é pensar e elaborar o treinamento de seus atletas de forma que os aspectos físicos, técnicos e táticos sejam desenvolvidos de forma conjunta dentro de modelos específicos da modalidade e, mais que isso, do padrão de jogo que se pretende implantar, o que exige que os meios e métodos empregados sejam elaborados da maneira mais próxima possível da realidade.

Conclusão

O papel do preparador físico atual é trabalhar em conjunto com o treinador possibilitando cada vez mais melhora no modelo de jogo da equipe ao longo da temporada, com todo treinamento estando subordinado ao modelo de jogo, inclusive o treino físico. Contudo, cabe então aos pesquisadores e aos preparadores físicos maiores investigações a respeito deste modelo de periodização, fornecendo além de um modelo teórico, uma fundamentação científica que torne mais segura a aplicação deste modelo em detrimento de outros já bem estabelecidos.

* Universidade Metodista de São Paulo; Universidade Municipal de São Caetano do Sul; Universidade São Judas Tadeu

 

 

 

Referências

BOMPA, T.O. Periodização: teoria e metodologia do treinamento. 4 ed. São Paulo: Phorte, 2002.

CASTELO, J. Futebol–A organização do jogo. 1996.

GARGANTA, J. Atrás do palco, nas oficinas do futebol. In: : GARGANTA, J. O., J.; MURADA, M (Ed.). Futebol: de muitas cores e sabores. Reflexões em torno do desporto mais popular do mundo. Porto: FCDEF-UP, 2004.  p.228-34.

OSGNACH, C., S. POSER, R. BERNARDINI, R. RINALDO, and P. E. DI PRAMPERO. Energy Cost and Metabolic Power in Elite Soccer: A New Match Analysis Approach. Med. Sci. Sports Exerc., Vol. 42, No. 1, pp. 170–178, 2010.

QUEIRÓS, C. M.; QUEIRÓS, J. Estrutura e organização dos exercícios de treino em futebol.    1986.

PIVETTI, B. Periodização Tática. O Futebol-arte alicerçado em critérios.  São Paulo: Phorte, 2012.

Comentários

  1. Profile photo of Bruno Bruno disse:

    Bela reflexao! Realmente sera de verdadeira importancia um preparador fisico nos proximos anos seguindo estas novas metodologias ?!

  2. A necessidade do preparador físico aumenta a cada dia, conteúdo super interessante, deveríamos ter mais artigos como este…

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