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06/12/2014

A inteligência no futebol: uma experiência prática

Há muitos “caminhos” para se chegar a bons resultados no futebol e há um consenso por parte dos treinadores que o jogador deva ser treinado taticamente, fisicamente, tecnicamente, psicologicamente e que os jovens jogadores devam estudar.

Há alguns anos tenho estudado, desenvolvido e testado na prática o meu “caminho”. Além disso, tenho observado o “caminho” de alguns amigos treinadores. No que diz respeito à formação do jogador de futebol, muito se discute sobre a hierarquização dos aspectos que devam ser trabalhados. Tenho algumas suposições e também algumas dúvidas.

Até que ponto o Modelo de Jogo da equipe influencia na formação do jogador? Até que ponto a inteligência do jogador influencia no Modelo de Jogo da equipe? Até que ponto a inteligência do jogador pode ser treinada em campo? Infelizmente ainda não tenho as respostas, mas reforcei minhas suposições.

Em 2014 retornei ao Rio de Janeiro, onde fui convidado para treinar equipes universitárias onde:

– Jogadores não são profissionais;
– Treinam 1 vez por semana (1 a 2h por sessão de treino);
– Treinam de 3 a 5 meses até as competições;
– Tem 1 competição alvo por semestre;

Neste período treinei a equipe de futebol da Faculdade Nacional de Direito (UFRJ) e a equipe de futsal da Medicina da Souza Marques e tudo (pelas razões citadas acima) indicava que o “jogar” que poderia ser construído neste período (até 5 meses), com jogadores amadores e treinando 1 vez por semana seria de baixa qualidade.

Confesso que iniciei o trabalho pensando em um Modelo de Jogo mais simples, com menos detalhes e abrindo mão de alguns princípios de jogo que acredito em função do pouco tempo e da baixa frequência dos treinamentos até o campeonato. Começamos os treinamentos, priorizando a melhora da velocidade das respostas dos jogadores frente às ações requisitadas pelo jogo, neste caso, mudar rapidamente a postura de quem ataca e passa a defender e de quem defende e passa a atacar.

A resposta dos jogadores foi (para mim) surpreendente e já nas primeiras sessões estávamos em um nível muito bom. Após a melhora da velocidade das respostas, começamos a definir padrões gerais de defesa e ataque e, novamente, em poucas sessões o conteúdo já estava dominado pelos jogadores. Com os conteúdos gerais passados, começamos a enriquecer o Modelo de Jogo com conteúdos específicos em situações de pressão e saída de pressão, sempre em velocidade e utilizando os princípios gerais trabalhados anteriormente.

Após alguns meses de trabalho e relativamente poucas sessões de treino, as equipes já jogavam intensamente, controlavam o jogo em posse da bola e respondiam rápido e organizadamente quando a perdiam. Nas sessões de treino restantes ainda conseguimos definir e treinar padrões defensivos de bolas paradas em situações de escanteios, faltas laterais, faltas frontais e tiros de meta.

Disputamos os torneios das duas equipes em junho, onde fomos campeões jogando bem e controlando todos os jogos. No caso do futebol, fazendo transições intensas, organizadas e em velocidade. Defensivamente pressionando alto, com linha de impedimento, compactação e balanços defensivos quase perfeitos. Ofensivamente jogando com passes curtos, apoiados e controlando o jogo com posse no campo do adversário. Infelizmente, por estar sozinho nas competições, não consegui gravar os jogos, mas quem presenciou viu um “jogar” extremamente organizado e eficiente.

Como seria possível treinar menos, com jogadores amadores e ter um resultado tão expressivo? Não me refiro aqui aos títulos e sim ao modo como as equipes se comportaram nos jogos pelo pouco tempo que treinaram. Jogaram contra equipes amadoras obviamente, mas jogaram com um nível de organização “profissional”.

Após a minha breve experiência, pude concluir (sem nenhum embasamento científico) que o nível cognitivo dos jogadores (fora do campo) influencia bruscamente na velocidade da construção de uma forma (complexa, rica em detalhes) de jogar.

O que podemos levar desta experiência em nível universitário para a prática na realidade dos clubes brasileiros onde os jogadores normalmente não são estudantes de medicina ou direito? Lembrando que os jogadores profissionais têm melhores condições físicas e técnicas, treinam mais vezes e o processo de treino leva anos.

Novamente questiono… Até que ponto o Modelo de Jogo da equipe influencia na formação do jogador? Até que ponto a inteligência do jogador influencia no Modelo de Jogo da equipe? Até que ponto a inteligência do jogador pode ser treinada em campo?

Há um consenso que o jogador deva estudar para “ser alguém” no caso de não se tornar um jogador de futebol profissional. A formação educacional do jogador brasileiro é muito pouco valorizada, é vista como “perda de tempo” de treino no campo ou mero cumprimento da lei pelos clubes, ao invés de ser vista como uma poderosa aliada que pode melhorar o desempenho individual e coletivo em campo.

Um jogador que entenda mais rapidamente as informações passadas pela comissão técnica e tenha senso crítico (dentro e fora de campo), não estaria mais preparado para ter uma carreira longa e vitoriosa? Quantos jogadores “acima da média” ainda terão que destruir suas carreiras por falta de (in)formação e conhecimento? Seria esta uma das razões para o abismo entre os treinadores e jogadores europeus e brasileiros?

Ainda não tenho as respostas. Tenho suposições e alguns questionamentos…

*Alberto Tenan é mestrando em Treino Desportivo (ULHT – Lisboa) 

Comentários

  1. Ricardo disse:

    Ótimo questionamento! Tive a oportunidade de ter essa experiencia como jogador universitário e hoje vivencio o lado de formação de atletas em clube profissional e se nota-se justamente isso atletas que estão dentro do período correto escolar tem um melhor entendimento em relação aos que estão aos outros…

  2. Raphael disse:

    Parabéns pelo site!

  3. Profile photo of mario mario disse:

    Muito bom o questionamento.Na minha opinião o atleta que está estudando, está trabalhando bem a mente em todos os aspectos, e isso facilita para ele um bom entendimento do treino, e do que fazer ao ser estimulado no treinar e no jogar.Quando se trabalha com categoria de base já se tem uma grande dificuldade de fazer que o jogador que chega através de uma avaliação por exemplo, consiga assimilar com rapidez todo o conteúdo aplicado pela comissão técnica do clube,mas creio que se ele está com a mente sendo estimulada na escola, a tendencia é que ele consiga bons resultados em breve tempo.Para o garoto que vem da escolinha do clube já fica mais fácil de assimilar o conteúdo, porque ele na escolinha já vai vivenciando e praticando a maior parte do trabalho que ele encontrará na categoria de base, tudo feito logicamente com muito cuidado para não queimar etapas.Por isso creio que principalmente o garoto que vem da rua e chega no clube sem experiencia de uma escolinha se ele estiver estudando, responderá positivamente e em breve tempo ao que se pede.

  4. Texto e reflexão excelentes! E questionamento extremamente pertinente e relevante! Hoje, trabalhando com categorias de base e já tendo aplicado testes de inteligência (trabalho com Psicologia do Esporte) em atletas da categoria com a qual trabalho, especificamente, junto com o acompanhamento dos treinos e jogos, eu consigo ter uma percepção muito semelhante do assunto. Porém, pude notar também que mesmo os atletas com mais dificuldade de compreensão e com pouco desenvolvimento cognitivo, conseguem ter leituras praticamente “incríveis” de situações de jogo, de elaboração de estratégias para solucionar problemas em uma jogada, seja no treino ou no jogo. Esse aspecto muito ligado a atletas que apesar desse baixo desenvolvimento cognitivo e intelectual, são atletas que possuem uma larga experiência no esporte e podem ser considerados “veteranos” em sua categoria. Esses mesmos atletas, porém, sem dúvida possuem uma certa dificuldade na compreensão de aspectos táticos e posicionamento. Muito, acredito eu, por conta de um baixo desenvolvimento de abstração e orientação espacial, que são questões muito trabalhadas na escola em algumas matérias da educação escolar desde muito jovem.

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