Entrevistas

26/08/2015

Alexandre Bourgeois, ex-CEO do São Paulo FC

O futebol não foi uma aparição repentina na vida de Alexandre Bourgeois, 47. Nascido em Paris (França), ele já havia passado pelas categorias de base do Bourdeaux antes de decidir priorizar os estudos – formou-se em matemática na Suíça e construiu carreira em instituições financeiras de Estados Unidos, França e Brasil. Foi a partir de 2010, porém, que o executivo resolveu transformar o esporte em meio de vida.

Além de ter comandado por quatro anos o fundo de investimento Teisa, criado por gente ligada ao Santos, que vendeu em 2013 uma das fatias de Neymar para o Barcelona, Bourgeois assumiu em junho de 2015 o cargo de CEO do São Paulo, função que se desligou meses depois. Paralelamente, desenvolveu um modelo matemático para aumentar a eficiência de gestão no jogo. Foi o suficiente para transformá-lo no criador do “Moneyball brasileiro”.

O título tem a ver com o livro “Moneyball – o homem que mudou o jogo”, escrito pelo norte-americano Michael Lewis. A obra conta a história de Billy Beane, general manager do Oakland A’s, que contratou um profissional chamado Peter Brand para ajudar na reformulação de seu elenco. Brand havia desenvolvido uma fórmula matemática para avaliar o desempenho no beisebol, e isso mudou radicalmente o jeito de a equipe encarar seus possíveis reforços. O resultado levou a equipe mediana a enfileirar 20 vitórias, recorde da liga de beisebol dos Estados Unidos, e o texto virou filme em 2011, com direção de Bennet Miller e Brad Pitt e Jonah Hill nos papéis principais.

Bourgeois não esconde inspiração no livro, mas o modelo criado por ele foi adaptado à realidade do futebol. A premissa era a mesma – criar um algoritmo que “explicasse” o jogo –, mas ele teve dificuldade para incutir no raciocínio a gigantesca quantidade de variáveis da modalidade. A solução para isso foi ignorar o gol, e a fórmula foi concluída no fim de 2014.

“Enquanto eu fazia com o gol, não chegava a lugar nenhum. Montei modelo em que o que importava era ter condição de fazer o gol e a posse de bola, e aí fui juntando as peças. Aí começou a andar”, relatou o executivo em entrevista exclusiva à Universidade do Futebol.

No bate-papo realizado por telefone, Bourgeois contou que ofereceu o algoritmo a alguns clubes brasileiros, mas o modelo foi rejeitado. Aí o executivo encontrou o que ele classifica como uma das principais dificuldades do esporte no país: a inépcia dos gestores, o que cria um cenário de morosidade.

Uma das metas de Bourgeois no São Paulo é mudar isso. O executivo concluiu na segunda-feira (24) um plano de ação para reformular totalmente a gestão do clube. A ideia dele é implantar o projeto ainda neste ano, mas todas as propostas ainda dependem de crivos da diretoria e do conselho do time.

Leia a seguir a íntegra da entrevista com Alexandre Bourgeois, ex-CEO do São Paulo Futebol Clube:

Universidade do Futebol – O senhor já tinha uma carreira consolidada no mercado financeiro em 2010, quando começou a trabalhar com futebol. Por quê? Migrar para o esporte foi uma decisão sua ou uma oportunidade de mercado?

Alexandre Bourgeois – Eu que decidi. Decidi ir para o futebol em 2010 e aí participei do projeto Teisa – fui CEO e toquei o dia a dia. Ali a gente começou a implantar algumas ideias em termos de gestão, e eu paralelamente fui olhando coisas sobre o Moneyball.

 

Universidade do Futebol – Por que o Moneyball?

Alexandre Bourgeois – Eu li o livro e achei espetacular. Quando vi aquilo, pensei que seria ótimo se conseguíssemos fazer algo para o futebol. Comecei a desenvolver e entender o que era necessário, e uma das coisas que eu fiz foi tirar a importância do gol. Enquanto eu fazia com o gol, não chegava a lugar nenhum. Montei modelo em que o que importava era ter condição de fazer o gol e a posse de bola, e aí fui juntando as peças. Aí começou a andar.

Livro “Moneyball”, escrito por Michael Lewis, virou filme em 2011 e foi protagonizado por Brad Pitt. Obra serviu de inspiração para algoritmo desenvolvido por Bourgois

Universidade do Futebol – E depois que o algoritmo ficou pronto? O senhor ofereceu a algum clube?

Alexandre Bourgeois – Apresentei a alguns clubes, mas ninguém se interessou muito. Não foi algo que teve muita repercussão, mas para mim foi ótimo.

 

Universidade do Futebol – Com base no que os estudos mostraram, quais conclusões o senhor tirou sobre o futebol brasileiro?

Alexandre Bourgeois – O futebol brasileiro em geral é ineficiente e improdutivo. O que nós temos é um cenário de má gestão e amadorismo frente a crescimentos muito grandes da parte dos clubes. Eles eram pequeninos há 20 anos e hoje são gigantes, mas os gestores ainda são amadores e têm pouco profissionalismo.

 

Universidade do Futebol – E em campo? Como essa ineficiência se reflete nas decisões e no modelo de jogo?

Alexandre Bourgeois – Hoje você tem muita gente desatualizada e não tem investimento em tecnologia. O que você vê hoje, por exemplo, é uma mudança de perfil. O Brasil sempre teve os melhores camisas 9 e os melhores camisas 10 do planeta, ou pelo menos cinco ou seis entre os dez melhores, e hoje não tem nenhum. Houve uma necessidade dos clubes de se adaptarem à realidade financeira, e eles partiram para a ideia de formar determinado tipo de jogador que os europeus queriam. Descartamos muito talento em potencial por causa disso. Falta muita capacidade de analisar o que está acontecendo, de olhar o futebol de maneira menos empírica e mais objetiva. Tanto na parte de contratação do jogador quanto do ponto de vista técnico.

 

Universidade do Futebol – As análises surpreenderam o senhor em algum aspecto? Qual?

Alexandre Bourgeois – O que você percebe quando aplica a fórmula é que muitos times se encaixam por empirismo, mas isso tem um custo muito alto. O cara gasta muito mais do que o necessário porque tem de tentar três, quatro ou cinco vezes antes de chegar ao ideal. É uma margem muito alta.

 

Universidade do Futebol – Como solucionar isso, então? É possível otimizar a gestão no futebol brasileiro?

Alexandre Bourgeois – A solução é uma revolução no futebol. As pessoas precisam entender que isso está se tornando uma indústria, e que como toda indústria ela precisa ser tocada por profissionais de grande qualidade. Se não for assim, a gente vai ficar cada vez menor. O mundo ficou global, as marcas ficaram globais, e a gente ficou cada vez menor.

 

Universidade do Futebol – O senhor acha que essa revolução pode acontecer de forma orgânica, partindo dos clubes, ou é necessário que um órgão superior intervenha?

Alexandre Bourgeois – Acho que isso deveria partir dos clubes. O melhor fórum para fazer isso é entre os clubes.

 

Universidade do Futebol – Mas se o diagnóstico é tão claro, por que não há iniciativas com esse direcionamento?

Alexandre Bourgeois – Porque ninguém sente necessidade. Como ninguém é dono dos clubes, tanto faz se eles estão bem ou mal financeiramente. Ninguém está perdendo dinheiro ali. Então, tanto faz.

Alexandre Bourgois foi convidado por Carlos Miguel Aidar, presidente do São Paulo Futebol Clube, e assumiu em junho de 2015 o cargo de CEO na equipe do Morumbi.

Universidade do Futebol – Como surgiu a possibilidade de trabalhar no São Paulo?

Alexandre Bourgeois – Foi uma circunstância que me levou a aceitar a posição de CEO. Eu já estava no mercado do futebol e fui convidado pelo presidente no início do mês de junho de 2015.

 

Universidade do Futebol – No São Paulo, o senhor encontrou os mesmos problemas de gestão destacados no futebol brasileiro?

Alexandre Bourgeois – O mesmo que você encontra em qualquer clube brasileiro: ineficiência, basicamente. O trabalho é feito com um custo muito alto e com descontrole financeiro. Isso você tem em qualquer equipe.

 

Universidade do Futebol – E como o São Paulo trabalha para mudar isso?

Alexandre Bourgeois – Concluímos um plano de ação para isso. Submeti ao presidente na segunda-feira passada, e agora vai ser votado. Esse plano é algo que transformaria o São Paulo em um clube de ponta no ponto de vista mundial.

 

Universidade do Futebol – Como? Quais são as bases do plano?

Alexandre Bourgeois – Redução de custo, reestruturação de dívida, aumento de receita, governança, compliance, regras de gestão…. Tudo que se faz numa empresa normal, mas que o futebol brasileiro sempre negligenciou.

 

Universidade do Futebol – Se o plano for aprovado, em quanto tempo será possível implantá-lo?

Alexandre Bourgeois – Acho que até o fim do ano. Queremos implantar as bases para no ano que no ano que vem seja possível colher os frutos.

 

Universidade do Futebol – Já é possível falar em metas concretas para esse plano?

Alexandre Bourgeois – Nós falamos muito em números, mas o que interessa mais é a ação: reduzir custo e aumentar receita. O déficit foi de R$ 100 milhões em 2014, por exemplo, e é preciso que se torne 0.

Universidade do Futebol – E em âmbito pessoal, quais são suas metas no futebol?

Alexandre Bourgeois – A minha meta hoje é o São Paulo Futebol Clube, e eu já declarei isso. Quando eu achar que as maiores faculdades do Brasil tiverem seus melhores alunos interessados em trabalhar no São Paulo eu vou poder sair porque minha missão teve êxito. Quero que a maioria dos estudantes queira trabalhar ali porque o desafio é legal, a cultura é boa e os profissionais são bem qualificados. Quero que eles vejam isso no futuro. Além disso, não penso em nada como carreira.

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