Colunas

02/01/2017

As dietas fracassadas e o futebol brasileiro

A rotina acaba mudando uma série de aspectos relevantes do cotidiano e, por isso, o futebol brasileiro ainda tem dificuldade para se consolidar em diferentes âmbitos

Publicada no livro homônimo, a crônica “Eu sei, mas não devia”, da escritora Marina Colasanti, lista uma série de concessões que as pessoas naturalizaram em suas rotinas. A gente se acostuma a morar em apartamentos com visão obstruída, a acordar sobressaltado, a ler sobre guerras, a ser conduzido, diz o texto. E por admitir que essas coisas são normais, a gente acaba mudando a visão ou o jeito de lidar com uma série de aspectos relevantes do cotidiano. É por essa sucessão de transgressões que o futebol brasileiro ainda tem dificuldade para se consolidar em diferentes âmbitos.

Vivemos numa realidade em que a CBF (Confederação Brasileira de Futebol) é uma caixa preta composta por federações de gestão ainda mais nebulosa. O arcabouço é sustentado por clubes igualmente afetados por práticas deletérias e por pessoas que vislumbram nessa seara apenas um caminho mais curto para o benefício próprio. A estrutura é viciada, o que naturaliza práticas absolutamente nocivas. Cria-se um ciclo interminável de malfeitos e conformismo.

Segundo pesquisa da University College London, baseada no Reino Unido, o cérebro humano se acostuma a ilícitos. O estudo acompanhou o comportamento da amígdala cerebral, estrutura envolvida na geração de respostas emocionais como angústia e medo, para constatar que existe uma tendência orientada à desinibição sobre a desonestidade quando ela traz benefício e não é punida.

O futebol brasileiro vive entre as duas realidades: o ciclo de malfeitos e conformismo e a naturalização de atitudes orientadas apenas ao benefício próprio. Falta controle, mas existe uma carência ainda maior de autoanálise (no sentido individual, mas também a avaliação de instituições pelas próprias instituições).

É por isso que o inconformismo tem de ser o primeiro passo dado pelo futebol brasileiro em 2017. Não podemos começar o ano “deixando para lá” ou simplesmente passando por cima do que ficou na temporada passada.

Que ninguém comece 2017 achando que a tragédia envolvendo o avião que levava a delegação da Chapecoense é coisa do passado. Que ninguém esqueça dos dirigentes brasileiros envolvidos em escândalos de corrupção no futebol mundial. Que ninguém pense que é normal ou que o Brasil está imune ao recente escândalo de assédio sexual de menores no futebol britânico.

Slider-Site(1)

O Brasil vive um momento especialmente instável no campo político, exacerbado por uma reação de muitas pessoas ao deixar o estado de catarse. O inconformismo ainda é puro e pouco adulto – quase como uma birra de criança.

Há muito o que mudar no futebol brasileiro, e essas alterações passam necessariamente por uma revisão de postura. Que o ano novo represente para todos uma chance de olhar para dentro e iniciar essa reflexão que o mundo todo precisa – não apenas no esporte.

Que essa evolução individual seja contínua e que nos ajude a aceitar mais, mas não no sentido mais frequente do verbo atualmente. Que possamos entender que pessoas erram, mas que não sejamos passivos.

A temporada 2016 nos deu uma série de demonstrações de que pequenas mudanças de postura podem ter imensos reflexos. Vejam o que aconteceu com a seleção brasileira depois da mudança de apenas um profissional – Dunga foi substituído por Tite no comando da equipe nacional, e isso alterou toda a percepção do país sobre a equipe.

A mudança deve começar de dentro e pode até ser pequena, mas só vai acontecer quando entendermos que somos agentes desse processo. Você já começou a pensar em como fazer sua parte?

Comentários

  1. Você me pergunta se eu tenho, sim? Após os fatídicos 7×1 uma indignação profunda me atingiu sendo um professor de Ed. Física, resolvi me mexer pensei temos que mudar uma geração e só começando pela base. O que fazer? como fazer? contrariando o “ilustre técnico Renato Gaúcho” resolvi estudar, primeiro um curso de preparação física para a BASE e depois um de técnico categoria C, já estou pré-inscrito para o de categoria B. Qual não foi minha surpresa quando vi outros profissionais resolveram fazer o mesmo então temos uma luz no fundo do túnel. Uma andorinha não faz verão, mas acho que uma revoada está acontecendo, creio que nos próximos anos vão se levantar novos profissionais, que me perdoem os atuais, nada contra, creio que o empirismo vai dar passagem ao cientificismos. O estudo a atualização, profissionais com mestrado, Doutorado e pós Doutorado estão impulsionando uma nova geração fazendo profissionais estudarem e aplicarem seus conhecimentos a favor do nosso futebol. Já temos profissionais como o mestre Tite, Roger Machado e a vinda de técnicos formados na ATFA ( Associação de treinadores de Futebol da Argentina) já estão fazendo e faram muito mais diferença.Professor Jorge Sallaberry Vianna pos-graduado em treinamento esportivo e Futebol, Credenciado pela CBF em Preparação Física e Técnico categoria ‘C’.

Deixe uma resposta

Sobre a Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol, enquanto atividade econômica e importante manifestação de nosso patrimônio cultural, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, e que conquistou o reconhecimento e credibilidade da comunidade do futebol.

Posts Recentes

Cursos em Destaque

© 2016 Universidade do Futebol. Todos os direitos reservados.