Entrevistas

03/03/2017

Bruna Benites – zagueira do Houston Dash

A atleta foi eleita capitã da Seleção Brasileira de Futebol Feminino nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro

Jogando pela Seleção Brasileira de Futebol Feminino desde 2012, Bruna Benites ganhou o posto de capitã nos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016. Nascida em Cuiabá, e formada em fisioterapia, a zagueira já vestiu as camisas de Mixto Esporte Clube, Esporte Clube Comercial, Foz Cataratas Futebol Clube e São José Esporte Clube.

Com passagem pelo campeonato Norueguês – foi vice-campeã pelo Avaldsnes Idrettslag-, Bruna agora tem um novo desafio na carreira: disputar a principal liga de futebol feminino dos Estados Unidos, National Women’s Soccer League, defendendo o Houston Dash.

A competição norte-americana conta com apenas 5 jogadores estrangeiros por equipe. A meia Andressinha e a lateral Poliana, ambas colegas de Bruna na seleção, completam a equipe. Os Estados Unidos da América são o país que mais têm jogadoras registradas, 91%, em confederações como CONCACAF e UEFA.

A Universidade do Futebol aproveitou a visita da atleta a Jundiaí/SP para realizar a entrevista que você confere a seguir.

Universidade do Futebol – Qual a sua trajetória no futebol?

Bruna Benites – Tenho muito orgulho em dizer que sou uma atleta olímpica. Participei dos Jogos Olímpicos, Londres-2012 e Rio-2016. Comecei a jogar aos 13 anos, em Cuiabá/MS. Meu objetivo sempre foi estudar – tanto é que me formei na faculdade de fisioterapia antes de sair de casa para jogar futebol. Meu primeiro clube “profissional” foi o Foz Cataratas, em 2011. Acho que minha carreira não poderia começar de uma maneira melhor, já que conquistamos o título da Copa do Brasil. No ano seguinte, 2012, veio a primeira convocação para a seleção brasileira e desde então tenho feito parte da equipe. Se Deus permitir, por mais alguns anos – desde que eu mereça, é claro.

Universidade do Futebol – Quais são as principais dificuldades que você já enfrentou como atleta de futebol feminino no Brasil?

Bruna Benites – Acredito que a maior dificuldade do futebol feminino aqui no Brasil é a instabilidade dos clubes. A gente inicia o ano sem saber se o clube conseguirá cumprir com as suas obrigações para com as atletas durante a temporada completa. Muitos clubes passam por dificuldades e acabam tendo que acabar com as equipes por falta de patrocínio.

Arquivo Pessoal/ Crédito: Lucas Figueiredo
Arquivo Pessoal/ Crédito: Lucas Figueiredo

Universidade do Futebol – As atletas de hoje têm a consciência de tudo que o futebol feminino passou até o momento? Por exemplo, a questão da proibição da prática: como isso é abordado entre vocês?

Bruna Benites – Sinceramente, eu acho que nem todo mundo sabe disso. Todas sabem da dificuldade que a nossa modalidade enfrenta atualmente no Brasil e que isso não é de hoje, mas tem muito mais detalhes que nem todas conhecem. É claro que hoje qualquer pessoa tem acesso a informação. O Museu do Futebol, por exemplo, tem um espaço lindo que conta a história do futebol feminino. A nossa abordagem maior é no sentido de encontrarmos uma maneira para ajudar no crescimento da modalidade daqui em diante.

Universidade do Futebol – Como você enxerga o modelo de gestão dos clubes que você já passou, do próprio São José e da seleção brasileira? Quais as principais diferenças?

Bruna Benites – É bem diferente a realidade do clube e da seleção. O futebol feminino não é considerado profissional no Brasil, mas acredito que a seleção talvez seja o que mais se aproxima disso. Tive o prazer de fazer parte de uma das equipes mais vitoriosas do futebol feminino brasileiro, que é o São José. Acredito que o apoio que o clube recebia da prefeitura da cidade fazia toda diferença. É mais tranquilo trabalhar e ter resultados quando se tem segurança.

Universidade do Futebol – Como as pessoas interessadas em trabalhar com futebol feminino podem ingressar nesse mercado?

Bruna Benites – Para mim, a melhor forma de iniciar qualquer tipo de trabalho é aprendendo sobre ele. Precisamos de pessoas que estejam interessadas em conhecer a realidade da modalidade e desenvolver estratégias para que possamos melhorar essa realidade, com pessoas qualificadas para ingressar no futebol feminino.

Arquivo Pessoal/ Crédito: Lucas Figueiredo
Arquivo Pessoal/ Crédito: Lucas Figueiredo

Universidade do Futebol – E como podemos dar mais espaço para as mulheres?

Bruna Benites – Primeiramente incentivar cada vez mais a qualificação das mulheres para que elas possam tomar a frente do futebol feminino, pois quem pode entender melhor uma modalidade feminina do que as próprias mulheres? Sou totalmente favorável a mulheres no comando do futebol feminino em todas as frentes (direção, coordenação, comando técnico, etc.) desde que elas sejam qualificadas, que estudem para que possam assumir essas posições.

Universidade do Futebol – Como você vê o futebol feminino pós-olimpíada? Você enxerga alguma melhora?

Bruna Benites – Sinceramente, não vejo muita diferença. A única mudança perceptível para mim é que houve um pequeno aumento do interesse do público em relação ao futebol feminino.

Universidade do Futebol – Sabemos que o futebol feminino traz várias problemáticas de salário. Você, formada em fisioterapia, precisa ter dupla jornada? Já precisou? Se sim, como conciliou isso?

Bruna Benites – Infelizmente, esse é um dos maiores problemas do futebol feminino no nosso país. Por isso me considero privilegiada por poder me dedicar apenas ao futebol.

Universidade do Futebol – Quais as principais diferenças do futebol feminino no Brasil e no exterior? Você presenciou algo que te marcou quando foi disputar campeonatos fora do país?

Bruna Benites – Acredito que seja a seriedade com que a modalidade é tratada, o calendário de competições e o comprometimento das atletas com o trabalho que é realizado. Existe uma grande diferença em ser atleta e ser jogadora. No Brasil, o que eu vejo é que temos várias jogadoras e poucas atletas.

Arquivo Pessoal/ Crédito: André Borges
Arquivo Pessoal/ Crédito: André Borges

Universidade do Futebol – Qual seria um primeiro passo para desenvolver o futebol feminino?

Bruna Benites – Incentivar o futebol feminino principalmente nas escolas. Eu acredito muito que esporte aliado a educação é um instrumento poderoso. É claro que isso é um trabalho que precisará de muito tempo para dar resultados. Por exemplo, na minha época, se eu quisesse jogar futebol teria que ser com meninos porque as meninas tinham que praticar outro esporte. Isso não pode mais acontecer! Se a menina é pequena e quer jogar futebol ela tem que ter onde jogar, onde desenvolver os fundamentos da modalidade para que possa evoluir e aprimorar a sua técnica.

Universidade do Futebol – Como capitã da seleção brasileira, você sente o peso de ter que fazer algo a mais para o desenvolvimento deste esporte? Comente essa experiência.

Bruna Benites – Acho que a responsabilidade do desenvolvimento da modalidade tem que ser de todo mundo, atletas, dirigentes, treinadores e também da sociedade. As atletas estando comprometidas com o trabalho; os dirigentes, proporcionando suporte e estrutura adequada para a prática do esporte; treinadores se qualificando e mantendo-se sempre atualizados, procurando trazer o melhor em termos de conhecimento para melhorar a qualidade do jogo e, é claro, a sociedade deixando de lado o preconceito de que o futebol não é um esporte para mulheres, entre outras coisas.

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