Entrevistas

07/04/2017

Bruno Loureiro Batista – Analista tático no AC Milan

Trabalhando na área de análise tática de perfomance, o analista tático está completando sua sétima temporada no clube italiano

Comportamento já muito comum entre os profissionais dos clubes de futebol da Europa, estudar a própria equipe para a próxima partida utilizando a tecnologia como uma das principais ferramentas, tem ganhado cada vez mais importância no futebol brasileiro.

No Velho Continente, a maioria das equipes estão estruturadas e já contam com grandes departamentos para a análise de desempenho. São equipados com ferramentas que auxiliam na captação de dados informativos, tanto quantitativos como qualitativos, das equipes e dos jogadores, auxiliando também nas futuras contratações.

No AC Milan, o foco da análise de desempenho é voltada quase que 100% para a própria equipe. “O foco principal das análises é sempre a interpretação de nossa equipe em relação aos princípios que procuramos expressar em campo independente de qualquer variável, como por exemplo: adversário, sistema tático, resultado vigente, entre outros”, diz Bruno Loureiro sobre a importância da análise de desempenho na metodologia de trabalho dentro do clube.

Desde 2011 trabalhando como analista tático no AC Milan, Bruno Loureiro Batista, após uma pequena carreira como jogador na Itália, está completando sua sétima temporada no clube italiano trabalhando na área de análise tática de performance.

A seguir você pode conferir na íntegra a entrevista concedida à Universidade do Futebol.

Universidade do FutebolComo surgiu a oportunidade de trabalhar na Itália?

Bruno Loureiro Batista – Tenho uma história longa com a Itália. Tive uma pequena carreira como jogador de futebol e quando tinha 20 anos recebi um convite para vir a Itália realizar testes em uma equipe da Série C. Infelizmente meu passaporte europeu não saiu no tempo previsto, tive que voltar para o Brasil, assim abandonei minha carreira profissional como jogador de futebol e resolvi cursar Educação Física. Alguns anos depois de me formar voltei para a Itália, já com meu passaporte europeu, e comecei a trabalhar em um pequeno clube de Milão, como treinador das equipes da base. Em seguida me inscrevi para ser treinador no Milan Junior Camp, realizei curso de treinador para aprender sua filosofia e, neste curso, tive a oportunidade de conhecer muitas pessoas do clube. Fui para Portugal trabalhar no MJC (Milan Junior Camp) e quando voltei recebi um convite para realizar um estágio no AC Milan. Depois de 6 meses de estágio fui convidado pelo responsável das categorias de Base AC Milan, Filippo Galli, a fazer parte da equipe de Análise Tática das categorias de base que acabara de se formar. Estou realizando este trabalho desde 2011, sendo esta minha sétima temporada.

Universidade do Futebol – Você começou sua carreira como treinador. Como foi a migração para análises táticas?

Bruno Loureiro Batista – Foi um processo natural, uma consequência do meu embasamento acadêmico, da experiência como treinador e da minha curiosidade em entender o jogo a partir de dados numéricos e visualização de vídeos. Enquanto como treinador no Brasil, por conta própria já realizava o scout numérico da minha equipe, durante meu estágio no AC Milan tive a oportunidade de me aprofundar em análises de partidas.

Universidade do Futebol – Conte-nos um pouco sobre sua função e rotina de trabalho no AC Milan.

Bruno Loureiro Batista – Temos uma rotina intensa: são seis dias por semana, realizamos análises pré, pós e durante os jogos, seguimos todos os jogos (casa e fora) das equipes do U19 ao U15, além de gravarmos e analisarmos treinos das mesmas categorias (U19, U17, U16 e U15), realizamos também gravação e análise de uma partida por semana de equipes menores entre U14 ao U11.

Fazemos a análise tática de performance, que tem como principal característica ser, além de qualitativa e quantitativa, uma análise conceitual, ou seja, baseada não apenas na periculosidade e êxito das ações (gols, ocasiões, etc) mas, principalmente, de acordo com a nossa identidade de jogo. Isso nos permite ter uma avaliação menos subjetiva e situacional uma vez que os princípios a serem analisados são reconhecíveis durante todo o jogo.

A análise vídeo com os jogadores é considerada um método de treinamento dentro de um microciclo semanal e é realizada ao menos uma vez por semana com todas as equipes da U19 ao U15. Os jogadores junto com o analista tático e o staff técnico têm a oportunidade de rever não apenas o que aconteceu no jogo anterior, mas de analisar em base os princípios da nossa identidade e o andamento de um determinado conceito. Os esforços são voltados para o processo de formação e não para realizar as análises de forma estratégica para a partida seguinte.

As análises realizadas durante as partidas têm como objetivo dar um feedback live de um determinado princípio de jogo em fase de posse e não posse de bola. Ao fim do primeiro tempo mostramos para o treinador duas ou três observações e desenhos pertinentes a um conceito predeterminado e/ou comportamentos táticos que possam ajudar a equipe a se expressar em campo da melhor forma possível dentro da nossa metodologia e identidade de jogo. Ou seja, havendo o comando de jogo através da posse de bola.

Durante a semana realizamos estudos e análises de clubes que tenham princípios similares ao nosso. Isso nos dá a oportunidade de estudar e entender certos comportamentos de tática coletiva, setorial e individual que ajudam no processo de aprendizado durante as análises semanais das equipes no seu processo de formação.

Equipe AC Milan| Crédito: Arquivo Pessoal
Equipe AC Milan| Crédito: Arquivo Pessoal

Universidade do Futebol – Como você se mantém atualizado em sua área de atuação?

Bruno Loureiro Batista – Como analista de performance, creio que a busca do conhecimento tem que ser constante e em 360°, ou seja, para que um analista consiga analisar jogos e interpretar os dados, primeiramente tem que ter um embasamento teórico e um conhecimento muito amplo sobre o jogo. É muito importante ter a mesma linguagem do treinador e, para isso, é imprescindível o estudo tático técnico (Curso UEFA, Licença CBF ), além dos estudos e cursos específicos que existem de Match Analysis e interpretação de dados.

Dentro de um staff técnico das equipes é muito comum a figura do analista de performance e isto nos dá a oportunidade de trocar experiências com outros profissionais de outras equipes italianas e internacionais.

Nos últimos anos muitas empresas se especializaram no fornecimento de estudos e interpretação de dados, e muitos cursos de Match Analysis e Data Analysis são realizados, como exemplo: DIGITAL PANINI, SICS, OPTA, STATS, entre outros, afim de trazer o que é de mais atual neste mercado e, por estar em uma grande equipe como o AC Milan, trabalhamos com diversas plataformas de estudo que nos permite e exige uma atualização constante. Com o nosso software de gestão e análise (Digital Panini) temos um curso de atualização anual que juntamente com profissionais de outras equipes discutimos as maneiras de interpretação de dados estatísticos, Match e Training Analysis afim de acompanhar o dinamismo do futebol.


Universidade do Futebol – Como a análise tática de performance pode contribuir para um trabalho mais interdisciplinar e sistêmico dentro de um clube de futebol?

Bruno Loureiro Batista – As análises realizadas e o estudo através do vídeo têm fundamental importância no trabalho interdisciplinar pois, o atleta como entidade única, não pode ser dividido em técnico, tático, físico e mental, e essa concepção exige que todas as áreas estejam estreitamente ligadas. A análise de performance por meio das imagens e dados, traz informações concretas para que todos os profissionais dos demais setores tenham um entendimento e uma linguagem comum.

No AC Milan são realizadas duas reuniões semanais com o Responsável Técnico (Edgardo Zanoli) e todos os membros do staff das equipes U19 ao U15 (Treinadores, auxiliares, preparador atlético, preparador de goleiros, analistas táticos, psicólogos) nas quais através das análises realizadas pelo nosso departamento nos aprofundamos nos nossos princípios de jogo que são apresentados pelas equipes. Essas reuniões têm como um dos objetivos entender e refletir como conseguir expressar sempre nossa identidade de jogo independente de qualquer variável.

Através das reuniões temos a oportunidade de compartilhar estudos realizados pelo nosso departamento de Training Analsys e visualizar estudos realizados pelos outros setores, como por exemplo: dados físicos de nossas categorias em função ao modo que jogamos. Isto pressupõe uma reflexão e adaptação no planejamento dos treinamentos com a participação de todos os membros do staff.

Crédito: Arquivo Pessoal
Reunião de análise| Crédito: Arquivo Pessoal

Universidade do Futebol – Falando sobre a cultura italiana e seu futebol, o que mais te surpreendeu nos primeiros meses de trabalho?

Bruno Loureiro Batista – A cultura italiana de futebol e sua escola de treinadores são mundialmente reconhecidos por haver um grande conhecimento tático e estudo sobre as ocupações dos espaços principalmente em fase de não posse de bola. Os estudos são de acordo com quatro referências comuns (bola, companheiro, adversário e posição relativa ao gol).

A primeira coisa que me surpreendeu foi a definição de termos e nomenclatura oficial para cada tipo de ação (do gesto técnico individual às ações de tática coletiva). Isso faz com que todos tenham uma linguagem comum para o entendimento, discussão, e princípios a serem aprendidos, ensinados, estudados e aplicados.

A importância do aspecto tático nas equipes é muito importante desde as categorias de base, seja pela interpretação dos sistemas de jogo nas duas fases de jogo (posse e não posse de bola) seja pelo conhecimento de tática coletiva como a marcação a zona, ao homem e ao homem na zona (não posse) ou a procura contínua da superioridade numérica e verticalização veloz e organizada em contra-ataques. No nosso caso temos uma identidade que busca o comando do jogo por meio da posse de bola focado na ocupação dos espaços e não nos sistemas de jogo.

Universidade do Futebol – Sabemos que a produção de informação no futebol atual é cada vez maior, por outro lado o tempo de treinamento e o espaço entre um jogo e outro é menor a cada temporada. Para você, quais métodos e estratégias podem ser utilizados para lidar com este paradoxo?

Bruno Loureiro Batista – Essa é uma dificuldade comum na maioria dos clubes o que exige muita clareza na interpretação dos dados de acordo com os objetivos da equipe.

Existem alguns softwares, por exemplo, que realizam “tracking live” das partidas nas quais a cada 15 minutos o analista de desempenho recebe informações físicas (acelerações, distâncias, velocidade…) técnicas (bolas jogadas, passes, posse de bola…) táticas (warmzone, distância entre jogadores e setores, key zone…) e até mental (capacidade de escolha, campo de visão, dificuldade da ação).

Creio que está na capacidade, embasamento e sensibilidade do analista a interpretação correta dos dados para que sejam filtrados de acordo com os objetivos preestabelecidos ou pontuais da equipe que devem ser muito claros. Isto possibilita a otimização do tempo disponível para a programação de um microciclo de treinamentos até a próxima partida.

A tecnologia de hoje, de uma forma geral, nos disponibiliza uma grande quantidade de informação de maneira imediata. Para que ela se transforme em conhecimento aplicado, é necessário embasamento para torná-las aliadas dentro de um contexto tão complexo como o futebol, onde existem diversas variáveis que podem atenuar a essência dos números.

Análise Live| Crédito: Arquivo Pessoal
Análise Live| Crédito: Arquivo Pessoal

Universidade do Futebol – Como está estruturado o departamento de análise de desempenho no AC Milan? Existe integração com as categorias de base do clube?

Bruno Loureiro Batista – Hoje nas categorias de base somos em cinco analistas táticos mais cinco estagiários, totalizando dez profissionais. Todos os analistas possuem o Curso UEFA “B” para treinadores e são formados em educação física.

Através do software de gestão realizamos a análise de performance, recebemos do treinador a programação semanal durante toda a temporada com informações das tipologias, nome e descrição de todos os treinamentos. Isto é necessário para se ter um data base e entender exatamente o que, como e com quem foi realizado cada tipo de trabalho com o tempo investido durante todo seu período de formação no clube.

Nós fazemos parte de um sistema de rotação no staff técnico de todas as categorias, isso significa que a cada dois meses todos os analistas táticos, assim como os preparadores físicos, mudam de categoria, permitindo interação, conhecimento, confronto de ideias e diálogo com diferentes profissionais e jogadores. Este tipo de metodologia permite um conhecimento amplo de toda a estrutura tendo como objetivo principal uma linguagem comum e linear de formação.

A equipe profissional dispõe de dois analistas táticos, que fazem parte do staff técnico, e mais três colaboradores. A Área Scouting tem direta colaboração com a equipe profissional que existe através da coleta e análises de dados, além da gravação e visualização de treinamentos e jogos.

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre o departamento e o treinador principal com suas estratégias de coleta de dados e apresentação das informações?

Bruno Loureiro Batista – Temos uma relação direta com o treinador principal com discussões diárias. Se discute e se decide juntos os materiais a serem apresentados na reunião com os atletas. Como citado anteriormente podemos utilizar imagens de outras partidas, treinamentos ou outras equipes que utilizem dos mesmos princípios para servir de exemplo uma vez que a análise é conceitual e não situacional ou estratégica.

O foco principal das análises é sempre a interpretação de nossa equipe em relação aos princípios que procuramos expressar em campo independente de qualquer variável, como por exemplo: adversário, sistema tático, resultado vigente, entre outros.

Temos participação no suporte dentro de campo durante os treinamentos. Junto ao treinador e seu auxiliar temos também como função a observação e intervenção direta com os atletas, permitindo que posteriormente os comportamentos vistos em campo possam ser melhores analisados durante o training analysis.

Reunião do staff técnico com Edgardo Zanolli| Crédito: Arquivo Pessoal
Reunião do staff técnico com Edgardo Zanolli| Crédito: Arquivo Pessoal

Universidade do Futebol – A área de análise de desempenho é muito nova no Brasil, porém com amplo crescimento nos últimos anos. Na Itália esta realidade é muito diferente?

Bruno Loureiro Batista – Sabemos cientificamente que um treinador é capaz de lembrar no máximo de 30% de uma partida, apenas este dado nos dá a importância do suporte da análise de desempenho em qualquer âmbito. Na Europa, em geral, a utilização de dados e imagens é bastante difundida (principalmente na Inglaterra), e na Itália não é diferente. Dentro dos cursos para Treinador UEFA existe uma específica para match analysis. É comum em equipes da terceira e até quarta divisão terem o serviço de análise de desempenho para suas equipes.

Nas categorias de base ainda está em crescimento este departamento, mas a maioria das equipes da primeira divisão e algumas da segunda divisão possuem ao menos um analista para as equipes da base.

A estrutura do departamento de análise de desempenho do AC Milan nas categorias de base foi pioneira na Itália, sendo hoje considerada uma referência nacional e europeia com ampla atuação no processo de formação dos atletas.

Universidade do Futebol – O setor de análise de desempenho cresceu muito na última década. Para você, o que ainda deve ser desenvolvido nesta área e quais avanços podemos esperar para os próximos 10 anos?

Bruno Loureiro Batista – A análise de desempenho é indispensável em qualquer esporte e acompanha a evolução natural da tecnologia voltada para potencializar a prestação dos atletas.

É importante ressaltar que ela é um suporte indispensável na convicção ou mudança de uma tomada de decisão de um jogador, preparador físico, treinador e dirigentes, não se tornando mais importante que a relação humana principalmente no futebol que, dentre os esportes coletivos, é o menos previsível segundo os dados.

Creio que em relação a produção de informações físicas e tático-técnicas estamos chegando em um grau de excelência muito alto. Um dos caminhos a serem desenvolvidos será o aspecto mental, que na minha opinião, é o mais difícil, menos explorado e que tem uma grande influência na prestação dos atletas.

O futuro do esporte é a “velocidade mental” e sua capacidade de escolha. Creio que o desenvolvimento da tecnologia, análise e interpretação de dados para este setor será essencial para auxiliar na formação do chamado “jogador inteligente”. Muitas equipes e jogadores começaram a entender e aceitar a integração de um Mental Coach em um staff técnico e, cada vez mais, vem sendo utilizado vídeos e dados estatísticos com objetivo de entender e melhorar os aspectos mentais do jogador durante uma partida, como exemplo: a concentração, leitura de jogo, ansiedade, entre outros. O chamado “Inner Game” (jogo interior).

Comentários

  1. SINCLAIR DANTAS DE FREITAS GARCIA disse:

    Excelente matéria ,parabéns ao Bruno e ao A.C. MiLAN pela excelente estrutura e mentalidade ….

  2. cesar augusto SILVEIRA disse:

    No Brasil ja temos , mas precisamos melhorar e muito ,poucas equipes dao valor e nao sabem da importancia parabens

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