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21/09/2016

Creatina: recurso ergogênico para atletas de futebol?

A utilização de diferentes recursos ergogênicos com objetivo de melhorar o desempenho nas práticas esportivas é uma intervenção comum, principalmente no alto rendimento. Entretanto, faz-se necessário compreender as características da modalidade a ser trabalhada, bem como a influência fisiológica que a estratégia nutricional escolhida terá sobre o organismo dos indivíduos.

Frente ao exposto, torna-se necessário entender as características fisiológicas e de desempenho da modalidade abordada.

Os atletas de futebol percorrem em média 10 a 13 Km por partida, sendo que os jogadores de meio campo são aqueles que realizam maior deslocamento em relação aos demais (MOREIRA, TEODORO e RESENDE, 2013; STOLEN, CASTAGNA e WISLØFF, 2005). Estudo conduzido por MOHR, KRUSTRUP e BANGSBO (2003) avaliou a distância total percorrida durante partida oficial da modalidade em jogadores profissionais, tanto de nível internacional (European Champions League) como de nível nacional (Liga Dinarmaquesa), encontrando distância percorrida de 10.86 ± 0.18 km (2,43 ± 0,14 km em atividades de alta intensidade) e 10.33 ± 0.26 km (1,90 ± 0,12 km em atividades de alta intensidade), respectivamente, o que sugere que mais importante do que a distância percorrida pelos atletas é a intensidade e as execuções técnicas que foram realizadas durante os jogos.

Visto o exposto, cabe ressaltar que os atletas realizam em média 150 sprints numa única partida, sendo 60% < 5m, 35% entre 5 e 20m e 5% > 20m (FERRAUTI e REMMERT, 2003). Em modalidade semelhante, na prática indoor do futebol, Polito et al. (2015) analisou 10 atletas de futsal da categoria sub-13, com idade entre 12-13 anos, constatando que a distância total percorrida nas quatro partidas analisadas foi diferente de acordo com a posição tática ocupada pelo jogador: 2.1 km para goleiros, 4.5 km para fixos, 3.7 km para alas e 4.3 km para pivôs. Para velocidade média, os autores observaram valores de 5.29 km/h, 11.14 km/h, 9.22 km/h e 10.67 km/h, respectivamente.

Deste modo, fica evidente a necessidade metabólica energética que estes necessitam durante o jogo, uma vez que os momentos decisivos do jogo envolvem a realização de exercícios em altas intensidades e de curta duração (MOREIRA, TEODORO e RESENDE, 2013).

Apesar do futebol ser uma modalidade predominantemente aeróbica (baixa e moderada intensidade e de longa duração), as ações que definem os placares nos jogos são aquelas que utilizam o metabolismo predominantemente anaeróbico (alta intensidade e curta duração), tendo como substrato principal o ATP-CP. Essa predominância fica evidente quando analisada a redução do pH muscular e das concentrações de Inosina Monosfato (IMP) durante um jogo (BANGSBO, IAIA e KRUSTRUP, 2007).

Pelas características da modalidade em questão, a presente revisão se configura em estudar como tem sido utilizada a suplementação de creatina como recurso ergogênico para os atletas dessa modalidade, já que a literatura científica demonstra que a suplementação deste substrato eleva a duração da via ATP-CP (FERRAUTI e REMMERT, 2003). Esse efeito é constatado principalmente em exercícios realizados em elevadas intensidades e de curta duração (5-10 segundo), enquanto que em exercícios mais longos, o efeito dessa estratégia diminui, respeitando assim o Princípio da Especificidade (FERRAUTI e REMMERT, 2003).

Metabolismo da creatina

A síntese endógena da creatina ocorre pelo fígado utilizando, para isso,  três aminoácidos: glicina, arginina e metionina, sendo que nosso organismo apresenta cerca de 2 gramas por dia (sendo 1g proveniente da produção endógena e 1g proveniente da alimentação, principalmente de origem animal) (FERRAUTI e REMMERT, 2003; SILVA e BRACHT, 2008).

Uma vez dentro da célula, esse composto é convertido em fosfocreatina e armazenada principalmente nos músculos esqueléticos (SILVA e BRACHT, 2008). Parte dessa fosfocreatina gerada, é convertida em creatinina (derivado metabólico desse processo), que por sua vez é excretada pelos rins (SILVA e BRACHT, 2008).

No citoplasma celular, mais especificamente no interior da mitocôndria, a geração de energia pela via ATP-CP ocorre através da hidrólise de adenosina trifosfato (ATP) em adenosina difosfato (ADP) e fosfato inorgânico (PI) pela enzima ATPase (FERRAUTI e REMMERT, 2003; ROBERGS, GHIASVAND e PARKER, 2004). Para a ressíntese do ATP, a enzima creatina kinase mitocondrial (CK) condensa o fosfato (advindo da hidrólise de creatina fosfato) com o ADP, formando assim ATP como produto final (ROBERGS, GHIASVAND e PARKER, 2004).

Suplementação de creatina

A fase inicial da suplementação desse recurso ergogênico é denominada de “carregamento” ou “saturação”, que dura em torno de 5 dias com doses diárias de 20 a 25g, tendo o objetivo de elevar a quantidade de creatina total no organismo, promovendo aumento de aproximadamente 25 a 35 mmol. kg-1, atingindo valores de 150 – 160 mmol · kg-1 (FERRAUTI e REMMERT, 2003). Após essa fase, doses diárias recomendadas pela literatura são de 2g/dia, considerado suficiente para manter o efeito da fase de carregamento (FERRAUTI e REMMERT, 2003). É sugerido ainda que a suplementação seja feita em conjunto com carboidrato, o que parece aumentar a secreção de insulina na corrente sanguínea, facilitando assim a absorção do composto (SILVA e BRACHT, 2008; FERRAUTI e REMMERT, 2003) e a consequente absorção deste na musculatura esquelética (FERRAUTI e REMMERT, 2003; ROBINSON et al, 1999).

Com relação aos efeitos agudos, estudos utilizando modelos de exercícios intermitentes não constataram efeitos na melhora do desempenho de sprints realizados em cicloergômetro (KINUGASA et al, 2004). Entretanto, quando analisado o efeito crônico, Graef et al (2009) observaram melhoras no limiar ventilatório após 4 semanas de suplementação de creatina combinada com treinos intervalados de altas intensidades em uma amostra com 43 participantes de ambos os sexos. Já no estudo de Mujika et al (2000), avaliando 19 atletas de futebol do sexo masculino, que encontravam-se no período de competição, foi constatada uma melhora aguda na realização de sprints de 15 metros quando esses sujeitos fizeram o uso da creatina para refazer o teste, tendo um intervalo de 7 dias de um teste para o outro.

O estudo de Claudino et al. (2014) avaliou o efeito crônico da suplementação de creatina na força e potência dos membros inferiores de 14 atletas de futebol do sexo masculino (18 ± 0,9 anos) durante a fase de pré-temporada (duração de 7 semanas). Os autores constataram que após o período de intervenção, o grupo placebo teve menor desempenho na impulsão vertical (-0,7%), quando comparado ao grupo suplementado com creatina (+2,4%).

Ramirez-Campillo et al. (2015) investigaram o efeito da combinação do treinamento pliométrico com a suplementação de creatina durante seis semanas sobre a potência de membros inferiores (identificada por meio do desempenho no teste de impulsão vertical, teste de sprint de 20 metros e no RAST-TEST). A amostra foi composta por 30 atletas de futebol do sexo feminino (22,9 ± 2,5 anos), que foram divididas em três grupos, sendo: 1 – Treinamento combinado com suplementação de creatina; 2 – Treinamento combinado com placebo (glicose) e 3 – Controle. Os resultados encontrados no estudo são descritos na tabela abaixo:

TESTE GRUPO MÉDIA DE BASE MUDANÇA (%) APÓS SUPLEMENTAÇÃO
Tempo do sprint no Rast Test (s) CONTROLE 7,35 ± 0,5 -0,6
PLACEBO 7,08 ± 0,6 -4,2
CREATINA 7,48 ± 1,0 -5,3
Sprint de 20 m (s) CONTROLE 3,99 ±  0,2 -0,2
PLACEBO 3,97 ±  0,3 -3,2
CREATINA 3,98 ± 0,4 -3,3
(Adaptado de RAMIREZ-CAMPILLO et al, 2015)

 

Os autores constataram que nos testes anaeróbicos (Rast test e sprint de 20 metros), o grupo creatina e placebo aumentaram o desempenho (diminuição em percentual no tempo total de execução no momento pós relacionado ao pré) (p<0,05), mas somente o grupo creatina apresentou diferenças significativas no RAST-TEST quando comparado aos grupos placebo e controle.

Conclusão

Dada as características físicas e performáticas do futebol, que se caracteriza enquanto modalidade intermitente com alta prevalência de estímulos anaeróbicos aláticos, a utilização da creatina como recurso ergogênico pode trazer benefícios com relação ao desempenho desses atletas durante as partidas disputadas. Pode-se ainda justificar a utilização dessa estratégia pelo fato de:

  • • Aumentar a concentração de CP intramuscular, ajudando a sustentar contrações musculares em sprints longos (FERRAUTI e REMMERT, 2003);
  • • Momentos decisivos do jogo envolvem a execução de movimentos de alta intensidade, de modo que a concentração de CP irá favorecer a manutenção da via ATP-CP (FERRAUTI e REMMERT, 2003; RAMIREZ-CAMPILLO et al, 2015);
  • • Aumentos da força muscular dos membros inferiores, podendo colaborar com a realização dos fundamentos técnicos da modalidade (FERRAUTI e REMMERT, 2003; CLAUDINO et al, 2014);

Melhoras no desempenho de sprints, principalmente naqueles que envolvem deslocamentos aproximados de 20 metros (RAMIREZ-CAMPILLO et al, 2015).

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

1 – MOREIRA, P.V.S; TEODORO, B.G.; RESENDE,N.M.; MAGALHÃES N.A.M. Metabolismo no Futebol x Treino Intervalado.REVISTA BRASILEIRA DE FUTEBOL, V. 4, N. 2, P. 9-17, 2013.

2 – STOLEN T.; CHAMARI,K.; CASTAGNA, C.; WISLØFF, U. Physiology of soccer. SPORTS MEDICINE, v. 35, n. 6, p. 501-536, 2005.

3 – MOHR, M.; KRUSTRUP, P.; BANGSBO, J. Match performance of high-standard soccer players with special reference to development of fatigue. JOURNAL OF SPORTS SCIENCES, V. 21, P. 519-528, 2003.

4 – BANGSBO, J.; IAIA, F.M.; KRUSTRUP, P. Metabolic response and fatigue in soccer. INTERNATIONAL JOURNAL OF SPORTS PHYSIOLOGY AND PERFORMANCE, V. 2, N. 2, P. 111, 2007.

5 – POLITO, L. F. T.; BRANDÃO, M. R. F.; CHARRO, M. A.; BOCALINI, D. S.; JÚNIOR, A. J. F. Parâmetros de intensidade e sudorese de jogadores de futsal por posição de jogo. REVISTA BRASILEIRA DE MEDICINA DO ESPORTE. V. 21, N. 5, 2015

6 – SILVA, E. G. B.; BRACHT, A. M. K. Creatina, função energética, metabolismo e suplementação no esporte. REVISTA DA EDUCAÇÃO FÍSICA/UEM, V. 12, N. 1, P. 27-33, 2008.

7 – FERRAUTI, A.; REMMERT, H. The effects of creatine supplementation: A review with special regards to ball games. EUROPEAN JOURNAL OF SPORT SCIENCE, V. 3, N. 3, P. 1-27, 2003.

8 – ROBERGS, R. A.; GHIASVAND, F.; PARKER, D. Biochemistry of exercise-induced metabolic acidosis. AMERICAN JOURNAL OFPHYSIOLOGY-REGULATORY, INTEGRATIVE AND COMPARATIVE PHYSIOLOGY, V. 287, N. 3, P. R502-R516, 2004.

9 – ROBINSON, T. M.; SEWELL, D. A.; HULTMAN, E.; GREENHAFF, P. P. Role of submaximal exercise in promoting creatine and glycogen accumulation in human skeletal muscle. JOURNAL OF APPLIED PHYSIOLOGY, V. 87, N. 2, P. 598-604, 1999.

10 – KINUGASA, R.; AKIMA, H.; OTA, A.; OHTA, A.; SUGIURA, K.; KUNO, S. Short-term creatine supplementation does not improve muscle activation or sprint performance in humans. EUROPEAN JOURNAL OF APPLIED PHYSIOLOGY, V. 91, N. 2-3, P. 230-237, 2004.

11 – GRAEF, J.; SMITH, A. E.; KENDALL, K. L.; FUKUDA, D. H.; MOON, J. R.; BECK, T. W.; CRAMER, J. T.; STOUT, J. R.  The effects of four weeks of creatine supplementation and high-intensity interval training on cardiorespiratory fitness: a randomized controlled trial. JOURNAL OF THE INTERNATIONAL SOCIETY OF SPORTS NUTRITION, V. 6, N. 1, P. 1-7, 2009.

12 – MUJIKA, I.; PADILLA, S.; IBAÑEZ, J.; IZQUIERDO, M.; GOROSTIAGA, E. Creatine supplementation and sprint performance in soccer players. MEDICINE AND SCIENCE IN SPORTS AND EXERCISE, V. 32, N. 2, P. 518-525, 2000.

13 – CLAUDINO, J. G.; MEZÊNCIO, B.; AMARAL, S.; ZANETTI, V.; BENATTI, F.; ROSCHEL, H.; GUALANO, B.; AMADIO, A. C.; SERRÃO, J. C. Creatine monohydrate supplementation on lower-limb muscle power in Brazilian elite soccer players. JOURNAL INTERNATIONAL SOCIETY SPORTS NUTRITION, V. 11, N. 11, P. 32, 2014.

14 – RAMIREZ-CAMPILLO, R.; GONZALEZ-JURADO, J. A.; MARTINEZ, C.; NAKAMURA, F. Y.; PENAILILLO, L.; MEYLAN, C. M. P.; CANIUQUEO, A.; CANAS-JAMET, R.; MORAN, J.; ALONSO-MARTINEZ, A. M.; IZQUIERDO, M. Effects of plyometric training and creatine supplementation on maximal-intensity exercise and endurance in female soccer players. JOURNAL OF SCIENCE AND MEDICINE IN SPORT, 2015.

¹ Universidade Cruzeiro do Sul (UNICSUL)

² Universidade São Judas Tadeu (USJT)

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