Entrevistas

08/04/2016

“Educar Pelo Futebol – meu time é nota 10!” já impacta 200 mil crianças, afirma Coordenador do UNICEF Brasil

Rodrigo Fonseca destaca o caráter transformador e a importante responsabilidade social que o futebol proporciona

Defender e promover o esporte como um direito de toda a criança e adolescente, como parte integral do seu desenvolvimento humano. Essa é a missão do equatoriano Rodrigo Fonseca como Coordenador do Programa de Esportes para o Desenvolvimento do UNICEF, o Fundo das Nações Unidas para a Infância.

Fonseca está no Brasil desde 2013, após experiências nas seções do UNICEF no Equador e no México. Sob sua responsabilidade estão os programas de qualificação profissional desenvolvidos em parceria com a Universidade do Futebol, projetos como a Caravana do Esporte da ESPN e o trabalho de advocacy junto ao poder público para importância da massificação do acesso à prática esportiva.

Nesta entrevista exclusiva à UdoF, ele destaca o caráter transformador e a importante responsabilidade social que o futebol possui, num país que vive a modalidade “quase como uma religião”. Fonseca ainda explica como a relação com Santos e o Barcelona impulsionam projetos desde as categorias de base até financiamento de programas sociais na África.

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Universidade do Futebol – Como o UNICEF enxerga a prática do esporte?
Rodrigo Fonseca – O esporte sempre tem que ser praticado num ambiente seguro, saudável e inclusivo. Toda criança – meninos, meninas, pessoas portadoras de deficiência – tem que participar dessa prática esportiva. O UNICEF cuida de que esse acesso à prática esportiva seja garantido tanto na escola quanto nos momentos de lazer das crianças e dos adolescentes, e também dentro do processo de formação profissional de jovens atletas que sonhem com uma carreira profissional no esporte de alto rendimento. Temos que enxergar [a formação do atleta] como um processo de formação de cidadãos. O programa de esportes do UNICEF no Brasil cobre as três dimensões do esporte: educativa, de alta performance e como prática de lazer.

UdoF – Qual o papel do futebol na proteção da infância num país como o Brasil?
Rodrigo – Acho que num país como o Brasil em que o futebol é quase uma religião, um esporte com um apelo e com um poder de convocatória massivo e patrimônio cultural, o futebol tem muitas formas de garantir os direitos das crianças e dos adolescentes e se converter em um agente de inclusão social e desenvolvimento. Por exemplo, o futebol é uma ferramenta ótima para introduzir nos jovens valores como liderança, trabalho em equipe, responsabilidade, respeito pelos colegas e respeito pelos rivais. O futebol também pode promover aquela busca positiva pela vitória, sempre de um jeito solidário, responsável e buscar atingir a vitória no campo de jogo, mas respeitando regras de um jeito colaborativo e construtivo.
O futebol também tem o poder de levar mensagens que dificilmente seriam ouvidas pela grande maioria da população. Através de atletas, de jornalistas esportivos, de outras referências do futebol, você consegue levar mensagens para toda a população em prol do direito do esporte e de outros direitos das crianças e dos adolescentes. O futebol pode se tornar uma ferramenta de garantia dos direitos cidadãos.

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Treinadores de Futebol da Academia Tauichi Aguilera da Bolívia, que também fazem parte do programa Educar por el Fútbol – Mi Equipo es Nota 10!, com os diretores do CAF (Banco de Desenvolvimento da América Latina) , representantes do UNICEF Bolívia, Brasil e Universidade do Futebol.

UdoF – Como são as parcerias desenvolvidas pelo UNICEF no futebol de alto rendimento, como nos casos do Barcelona e do Santos, por exemplo?

Rodrigo – Os clubes de futebol têm a possibilidade de serem agentes positivos para a sociedade. O Barcelona da Espanha reconheceu que a marca deles, a instituição deles, tinha um poder gigante para fazer o bem. E há mais de dez anos que assinaram uma parceria, na qual eles cediam um espaço de patrocinador máster do uniforme como ferramenta de apoio às ações do UNICEF. Além das contribuições econômicas para os programas sociais (o contrato foi recentemente renovado até 2020 e o Barcelona contribuirá com 2 milhões de euros por ano), essa parceria é importante pelo alcance que tem. Alguns dos programas do UNICEF no Brasil são apoiados pelo Barcelona, entre eles os cursos que a gente tem com a Universidade do Futebol, como o “Educar Pelo Futebol – meu time é nota 10! “ e o curso “Princípios para Educar Bem o Futebol”. Além disso, o Barcelona apoia outros programas nossos no Brasil como o “Portas Abertas para a Inclusão”, que é um projeto para a inclusão das crianças portadoras de deficiência nas escolas por meio da prática esportiva. A nossa parceria com o Barcelona também incentiva projetos em Gana, na África do Sul e na China.
Em relação à parceria com o Santos, a gente pensa que o DNA do clube, que é conhecido como “Meninos da Vila”, tem muito a ver com a visão de crianças e adolescentes que o UNICEF tem também. Juntos trabalhamos nas áreas de promoção e divulgação de mensagens dos direitos das crianças. Trabalhamos também com a base, no processo de formação profissional e esportiva dos atletas. Agora estamos procurando maneiras de atuar na colaboração para tentar ações de arrecadação de fundos, para estabelecermos uma rede de proteção daqueles meninos que treinam nas escolinhas do clube, promovendo ações que vão além da comunicação e focadas em impactos programáticos dos direitos das crianças e dos adolescentes.
A gente tem também, por exemplo, o apoio do Wolfsburg, da Alemanha, em outros programas que a gente tem com a Universidade do Futebol como o “Educar pelo Esporte – o professor é nota 10! “. Temos outros parceiros no mundo como o Manchester United, o Olympiakos e o Boca Juniors. Enfim, o ambiente do futebol tem muita sinergia com aquilo que o UNICEF pretende desenvolver para as crianças e adolescentes.

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Rodrigo Fonseca do UNICEF, Guillermo Ackermann da Federação Peruana de Futebol e Eduardo Tega da UdoF.

 

UdoF – Como surgiu o programa Educar pelo Futebol – meu time é nota 10? Como iniciou a parceria com a Universidade do Futebol e como este projeto é desenvolvido?
Rodrigo – O UNICEF identificou, em uma pesquisa sobre categorias de base, muitas violações dos direitos da criança e do adolescente, tais como afastamento ou abandono da escola, separação da família –estes jovens não têm garantido o seu direito à convivência familiar e são vítimas de assédio, abuso, violência, que muitas vezes é tolerado por eles, pois acham que é um preço a ser pago para chegar a jogar num nível profissional. Vimos também que muitas vezes as próprias famílias são quem favorecem aquele ambiente de violação dos direitos destes jovens, quando, por exemplo, tiram-nos da escola porque acham que se o menino passou numa peneira num clube ele vai ser uma mina de ouro e melhorar a situação econômica e social da família. A educação passa a ser fator secundário no processo de formação das crianças e jovens.
A partir de uma análise estratégica, chegamos à conclusão de que o melhor jeito de tentar reverter aqueles riscos e transformá-los em oportunidades era por meio da sensibilização e qualificação profissional de todos aqueles que trabalham no futebol, por meio de programas que pudessem levar conteúdos técnicos, táticos e incorporar elementos de sensibilização social para que aqueles profissionais que atuam nas categorias de base dos clubes possam se tornar agentes de transformação, cientes do papel que exercem na vida desses meninos.
Uma vez que tínhamos um plano traçado, encontramos nas propostas de valor da Universidade do Futebol muita sinergia com o que a gente acredita. A Universidade do Futebol já tinha um programa e a metodologia oferecida era muito do que a gente precisava.
O professor Medina também tinha uma experiência profissional e pedagógica muito importante. A Universidade do Futebol tinha muitas relações com o mundo do futebol e do esporte, tanto com clubes, quanto com treinadores e pedagogos. Assim nasceu o “Educar pelo Futebol – o meu time é nota 10”. Devido à grande demanda e considerando os recursos e as vagas limitadas, criamos um curso um pouco mais resumido chamado “Princípios Para Ensinar Bem o Futebol”, que é aberto, gratuito para todas aquelas pessoas que gostariam de acessar a um conteúdo inovador.

UdoF – Quantas pessoas já foram impactadas por esses cursos, em termos de professores e de crianças e adolescentes beneficiados pelo projeto?
Rodrigo – Já formamos milhares de profissionais que beneficiaram pelo menos 200 mil crianças através dos conteúdos que oferecemos. Temos uma média: cada professor que qualificamos beneficia de 100 a 120 crianças por ano. Apenas o “Educar pelo Futebol – o meu time é nota 10! “ já formou quase 600 profissionais das categorias de base dos principais clubes brasileiros, incluindo Flamengo, Botafogo, Fluminense, Bahia, Vitória, Santos, São Paulo e Corinthians. Contamos também com a participação de clubes de porte médio, jornalistas esportivos, gestores de clubes, pessoal de secretarias de esporte, dos ministérios, dos governos. Temos uma quantidade importante de alunos formados.
Dentro do outro projeto que o UNICEF tem com a Universidade do Futebol, que é o “Educar pelo Esporte – meu professor é nota 10!”, tivemos 567 professores participando do projeto, atendendo cerca de 128 mil crianças e adolescentes. Quando se pensa em professores de escolas o impacto é bem maior pelo maior número de turmas que cada professor atende. O impacto dobra ou triplica. Esses conteúdos estão agora sendo preparados para que sejam parte também da oferta do programa do projeto “Transforma”, da Rio 2016. Daqui a pouco o UNICEF vai ter o módulo de qualificação dos profissionais da rede do Transforma.
Para finalizar, também temos mais de 3 mil profissionais, dos quais 750 já foram formados pelo programa “Princípios para Ensinar Bem o Futebol”. Nosso intuito é de continuar expandindo esta parceria para atingir ainda mais jovens e mais profissionais no Brasil e na América Latina.

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Daniele Medeiros é uma das professoras nota 10, que faz parte do programa Educar pelo Esporte – Meu professor é nota 10! realizado pelo UNICEF e Universidade do Futebol, com apoio estratégico do VlF Wolfsburg da Alemanha e Western Union.

UdoF – Em 2016 deu início o processo de internacionalização do “Educar Pelo Futebol – meu time é nota 10!”. Como tem sido esta experiência?
Rodrigo – A partir da troca de experiências da Universidade do Futebol e do UNICEF com profissionais de outros países, constatamos que existia uma demanda de outros países que ainda não tinham as mesmas condições no âmbito do esporte para o desenvolvimento, com fins educativos. O Brasil ainda é uma referência para a região e a partir desse interesse que a gente observou dos nossos colegas da América Latina, decidimos ampliar o escopo do programa e agora estamos trabalhando com parceiros fortes no Peru e na Bolívia.
O UNICEF está abrindo a primeira edição do “Educar por el Fútbol – Mi Equipo es Nota 10!”, que é a primeira versão em espanhol do curso. Estamos com alunos da Bolívia, do Peru, da Costa Rica, da Espanha, da Colômbia e Equador. As novas tecnologias da informática e da internet simplificam o processo de universalização do conhecimento. Estamos traduzindo e dando contexto a esse conteúdo aos demais países da América Latina. Com poucos recursos conseguimos potencializar uma iniciativa como essa.
O Ministério do Esporte da Bolívia tem interesse que seus funcionários participem de um programa de formação. Convidaram todos os clubes da elite do futebol boliviano para participarem, como The Strongest, Bolívar, Jorge Wilsterman, ou seja, clubes da primeira divisão da Bolívia estão fazendo o curso. O mesmo aconteceu no Peru, com o apoio do Ministério do Esporte e da Federação Peruana de Futebol. Temos o pessoal da Federação da Costa Rica, das categorias de base fazendo o curso. Também uma equipe profissional no Equador. O interesse é grande.

No lançamento do programa Educar por el Fútbol - Mi Equipo es Nota 10! na Bolívia com Tito Montaño (Ministro do Esporte da Bolívia), Katarina Johansson (representante do Unicef Bolívia), Eduardo Tega (CEO da Universidade do Futebol ) e Xavier Askargorta (ex-treinador da Seleção Boliviana).
No lançamento do programa Educar por el Fútbol – Mi Equipo es Nota 10! na Bolívia com Tito Montaño (Ministro do Esporte da Bolívia), Katarina Johansson (representante do Unicef Bolívia), Eduardo Tega (CEO da Universidade do Futebol ) e Xavier Askargorta (ex-treinador da Seleção Boliviana).

 

 

Comentários

  1. Profile photo of Rúbio Rúbio disse:

    Muito bom!
    Tem previsão de novas turmas?

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