Entre o discurso e a prática

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Estudei durante grande parte da vida em uma escola católica e conservadora. Não havia uniformidade ideológica no corpo docente, é verdade, mas a maioria fomentava pouco a formação de qualquer traço de consciência crítica nos alunos. Aulas eram expositivas: professor escrevia, alunos copiavam; professor falava, alunos anotavam. Interações eram restritas a janelas para dirimir dúvidas, mas essas dúvidas raramente mudavam o roteiro ou a lógica didática estabelecida.

Essa figura de professor que eu me acostumei a ver é o que fez com que técnicos de futebol fossem chamados de professores. Muitos são formados em educação física, egressos de aulas de educação física, e uma das consequências diretas disso é a profusão de abordagens pedagógicas que emulam a dinâmica de salas de aula do passado.

No entanto, as linhas pedagógicas que funcionavam anos atrás têm sido gradativamente abandonadas. Um número cada vez maior de escolas tem pensado a formação a partir da construção de seres pensantes, capazes de tomar decisões críticas independentemente do contexto. Essa alteração de matriz tem relação direta com características geracionais, muitas delas relacionadas ao meio em que as crianças estão inseridas. Os millennials não aprendem como seus antecessores aprendiam e não são seduzidos pelo mesmo tipo de didática.

O futebol está inserido nisso, é claro. Os “professores” não têm, assim como na sala de aula, o domínio total do saber e da disciplina. Há um número cada vez maior de atletas que reagem mal a abordagens tecnicistas e hierarquia militarizada. Uma das principais explicações para o sucesso da seleção brasileira depois da troca de Dunga por Tite é justamente essa diferença de discurso: enquanto um era conservador e defendia a supremacia pelo cargo, o outro se impõe pelo trabalho e pelo conhecimento mostrado no dia a dia.

É natural que esse choque geracional imponha dificuldades e exija dos treinadores uma nova linha pedagógica. É natural que isso crie dilemas de comunicação em qualquer grupo de trabalho. A questão é: os técnicos se preocupam com isso?

Também existe um choque cada vez maior entre os técnicos e a própria mídia. O modelo de exposição e discurso, sem que as coisas sejam colocadas em contexto ou discutidas, também está cada vez mais perto da extinção.

Em 2017, o futebol brasileiro tem oferecido alguns exemplos dessa dificuldade de comunicação. É o caso de Rogério Ceni, ex-capitão, eterno ídolo e atual treinador do São Paulo. O comandante tricolor montou uma equipe baseada em suas convicções de jogo, que valoriza a posse de bola, tem movimentações ofensivas alinhadas ao que é feito em grandes equipes da Europa e ataca qualquer oponente de igual para igual.

Rogério ainda é um técnico em construção, num início de trajetória, e por isso possui uma margem de erros maior do que outros comandantes de equipes do primeiro escalão do futebol brasileiro. Contudo, o que mais chama atenção nos primeiros meses do treinador é a dissociação entre discurso e realidade.

O São Paulo foi eliminado da Copa do Brasil, caiu nas semifinais do Campeonato Paulista, caiu diante do Defensa y Justicia na Copa Sul-Americana e perdeu para o Cruzeiro na primeira rodada do Brasileirão. Em comum, todos os percalços do time tricolor na temporada tiveram entrevistas coletivas de Rogério Ceni com um tom similar.

No último domingo (14), por exemplo, Ceni teve de explicar por que o time dele havia perdido para o Cruzeiro em Belo Horizonte. Usou números favoráveis ao São Paulo, lembrou que os paulistas dominaram mais a bola, citou o número de chances criadas e até minimizou a construção do gol que selou o placar.

É o que Ceni tem feito em praticamente todos os reveses, como mostrou o UOL Esporte na última semana. O técnico sempre se fia em números positivos, defende o desempenho de sua equipe e tenta combater críticas com dados que fazem apenas retratos parciais do que aconteceu em campo.

O discurso de Ceni funciona cada vez menos com imprensa e torcedores dos tempos atuais, e isso é extremamente positivo para o futebol nacional. A questão é: será que existem os mesmos problemas de comunicação com os atletas?

Vivemos um período em que vários treinadores de currículo estão alijados de times grandes no Brasil. Luiz Felipe Scolari está na China, Vanderlei Luxemburgo está sem emprego, Muricy Ramalho tem trabalhado como comentarista. Outros nomes, como Celso Roth, Joel Santana e Emerson Leão, sequer são cogitados quando uma diretoria começa a construir uma equipe.

Em comum, além da idade e do currículo, o que esses treinadores têm é uma abordagem pedagógica que não combina mais com os jogadores atuais. É o risco dos atletas que fazem transição de carreira sem a devida preparação: eles podem passar temporadas repetindo o que faziam quando ainda estavam em campo, oferecendo exercícios e ideias que não condizem com os tempos atuais.

Sustentar esse discurso é cada vez mais complicado, e não apenas no futebol. Há mudanças na população, há um perfil diferente dos jovens, e perfis diferentes lidam de formas diferentes com as mesmas informações. No futebol, o risco de não perceber essa dissociação entre discurso e técnica é criar um abismo intransponível. Esse é apenas mais um desafio para Rogério Ceni.

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