Entrevistas

06/01/2017

Anderson Nicolau – preparador físico

"Hoje em dia o preparador físico necessita estar totalmente voltado ao lado tático e técnico. Sou totalmente adepto a essa prática"

Nascido em Mauá, na região do grande ABC, o preparador físico Anderson Nicolau sempre teve o sonho de ser jogador de futebol profissional. Aos 17 anos entrou para a faculdade de educação física ao perceber que não teria futuro promissor e, em busca de uma área com a qual se identificasse, encontrou a preparação física.

Durante o período universitário estagiou na Fedato Esportes, uma empresa especializada em consultoria em fisiologia do exercício com foco em clubes brasileiros e no exterior. Além de ter passado por clubes como Cruzeiro, Guarani–MG, Gama, onde foi eleito o melhor preparador físico do Campeonato Brasiliense de 2011, e Ipatinga.

Após esse período em clubes brasileiros, Anderson deu o primeiro passo em sua carreira no exterior ao ser convidado para liderar a parte física do clube mais tradicional do Iraque, o Al Shorta SC, na época comandado pelo treinador Lorival Santos. Com uma temporada bem-sucedida e a primeira participação na Liga dos Campeões da Ásia, Anderson Nicolau foi eleito o melhor preparador físico do torneio.

Em 2015 foi contratado pelo Buriram United, clube mais tradicional da Tailândia, a convite de Alexandre Gama, na época treinador da equipe asiática. Após um ano e meio no clube, o preparador físico aceitou o convite do treinador Hélio dos Anjos para trabalhar no Al-Faisaly, da Arábia Saudita.

Atualmente, Anderson está trabalhando no Chiangrai United, da Tailândia, junto com o treinador Alexandre Gama. Em entrevista concedida à Universidade do Futebol, em 2016, quando trabalhava no Al-Faisaly, o preparador físico falou sobre suas experiências no exterior, a adaptação as novas culturas e metodologia de treinamento, e suas expectativas quanto ao futuro da profissão no futebol e nos clubes. Acompanhe a matéria na íntegra.

Chiangrai United (Tailândia)
Anderson Nicolau, a esquerda, no novo clube Chiangrai United, da Tailândia

Universidade do Futebol – Fale sobre sua trajetória no futebol e sua formação profissional, por favor.

Anderson Nicolau: Minha trajetória no futebol começou ainda na adolescência e como muitos garotos eu também sonhava em ser jogador de futebol. Porém, percebendo que não teria um futuro promissor como atleta, comecei a pensar no futebol de outra forma e procurei uma área a qual me identificasse. E foi nesta linha de pensamento que veio a preparação física. Com isso, me formei em Educação Física pelo Centro Universitário de Belo Horizonte.

Universidade do Futebol – Como você se mantém atualizado em sua área de atuação?

Anderson Nicolau: Estou sempre me atualizando e em busca de mais conhecimentos. Estando fora do Brasil, temos uma oportunidade de diálogo e conversas com profissionais de todo o mundo. Em 2016, quando estava no Brasil na transição da Arábia para a Tailândia, procurei cursos e visitei alguns clubes para trocar ideias com outros profissionais.

Universidade do Futebol – Quais eram suas condições de trabalho na Arábia Saudita e como foi viver em um país tão diferente em termos culturais, e tão distante do Brasil?

Anderson Nicolau: O clube (Al-Faisaly) nos ofereceu uma estrutura bem interessante, já que estavam dispostos a mudar em vários aspectos. O clube conta com um excelente centro de treinamento, composto por três campos de grama natural e um com grama artificial. Há também academia e um hotel que atende como concentração em dia de jogos. Esta foi a minha terceira temporada no mundo árabe e tenho um respeito muito grande pela cultura local e pelos aspectos religiosos. Quando se trabalha em clubes árabes há a necessidade de se adaptar rapidamente aos costumes, porém é essencial que isso não interfira na essência do treinamento. As adaptações são, por exemplo, nos horários de treinamentos, por conta do clima ou da religião, mas sempre é preciso manter a qualidade da atividade.

Al-Faisaly (Arábia Saudita) (8)
Anderson Nicolau no Al-Faisaly, da Arábia Saudita

Universidade do Futebol – Qual é a importância dessa interação com outras culturas para o desenvolvimento de sua carreira? Tem sido de fundamental importância para o crescimento pessoal e profissional?

Anderson Nicolau: Ter passado por três países, trabalhando com jogadores de várias nacionalidades e enfrentando comissões técnicas de vários países, tem me possibilitado ver o futebol de uma forma muito global e é algo que sempre me exige uma busca incessante pela excelência. Existe uma falsa impressão de que em países pouco tradicionais como Iraque, Tailândia e até mesmo na Arábia Saudita não se pratica futebol de alto nível. No Iraque, por exemplo, a equipe do Al Shorta, que era a que eu trabalhava, era a base da seleção iraquiana, que fora a 4ª colocada na Copa da Ásia de seleções. No Buriram, da Tailândia, a equipe estava no top 10 das maiores equipes da Ásia. Ou seja, são equipes que mesmo não sendo conhecidas do grande público, têm uma cobrança muito grande. A pressão por resultados é enorme e isso é o que faz com que você não se acomode e sempre busque evoluir.

Universidade do Futebol – Há muitas diferenças em relação à cultura na preparação desportiva dos jogadores de futebol no Iraque, Tailândia e Arábia Saudita? E em relação as avaliações físicas, como isso é trabalhado?

Anderson Nicolau: Esta diferença tem diminuído bastante nos últimos anos. Como citei anteriormente, nesses países você encontra jogadores que já trabalharam com comissões técnicas de vários lugares, como brasileiros, espanhóis, franceses etc. Não existem mais barreiras no futebol. É claro que é necessária uma adaptação e entender o país, a cultura, os jogadores e até mesmo a religião, porém, não enfrentei problemas nesse aspecto da aceitação do trabalho e consequentemente pude realizar as avaliações e reavaliações ao longo das temporadas.

Universidade do Futebol – Como tem sido a contribuição dos profissionais brasileiros para o desenvolvimento do futebol nos países árabes, de modo geral?

Anderson Nicolau: Tem sido de fundamental importância e de uma relevância muito grande. Tivemos as semifinais da Liga dos Campeões da Ásia (AFC Champions League) e das quatro equipes envolvidas na disputa, duas possuem preparadores físicos brasileiros. São profissionais que estão há muito tempo fora do Brasil e, por isso, acabam passando despercebidos do grande público. Porém, são profissionais do mais alto nível. O Fabio Lefundes realiza um trabalho fantástico no Jeonbuk Hyundai, da Coreia do Sul, enquanto o André Lima é o preparador físico do El Jaish, do Qatar. Ambos são profissionais que se tornaram referências nesses centros e representam muito bem a preparação física brasileira.

Universidade do Futebol – De que forma o clima da região afetou o planejamento das equipes locais e da seleção? E a religião islâmica, obriga-os a muitos ajustes em suas atividades? 

Anderson Nicolau: Acredito que esse seja um dos motivos principais para que dificilmente vejamos uma equipe ou seleção árabe disputando com igualdade uma Copa do Mundo ou torneios de grande magnitude. É preciso entender que para um árabe o futebol é secundário. Para se ter uma ideia, os atletas praticam o ramadã (mês sagrado muçulmano) e, nesse período de 30 dias, necessitam de uma adaptação muito grande dos controles nutricionais, já que ultrapassam mais de 12 horas em jejum prolongado e sem ingestão de água. Com o forte calor, os treinos necessitam ser realizados apenas no período noturno também. São vários ajustes que precisam ser realizados e isso é algo que certamente afeta o rendimento e gera uma dificuldade muito grande em se atingir o ápice da forma esportiva.

Universidade do Futebol – Qual a fronteira entre a participação do preparador físico no amparo psicológico aos atletas, e o trabalho propriamente dito de um profissional específico da área? Você aborda conceitos de autoajuda e neurolinguística no seu trabalho diário?

Anderson Nicolau: Sempre buscamos ajudar os atletas de uma forma mais ampla e, em caso de necessidade ou percepção da comissão técnica, entramos mais a fundo com algum deles. E a chegada de uma comissão técnica liderada pelo professor Hélio dos Anjos exigiu muito deste lado. Afinal, a estrutura do clube, junto com o grupo de trabalho e seus jogadores, já estavam acostumados à uma condição estável na competição, com o objetivo somente de manutenção da equipe na primeira divisão. Com o Hélio dos Anjos, que é um treinador extremamente vitorioso no futebol da Arábia Saudita, tentamos mudar essa situação e mostrar aos jogadores que eles podem chegar mais longe.

Universidade do Futebol – Em sua opinião, qual a utilidade do scout técnico para o desenvolvimento do trabalho de campo da preparação física com os atletas? Você é adepto dessa prática?

Anderson Nicolau: O futebol entrou em uma linha de trabalho que acredito que não terá mais volta. Hoje em dia o preparador físico necessita estar totalmente voltado ao lado tático e técnico. Sou totalmente adepto a essa prática. Durante o período em que estive na Tailândia e também agora por último na Arábia Saudita, com o Hélio dos Anjos, sempre trabalhei de acordo com o modelo de jogo voltado ao que o treinador deseja. Tudo que se referia ao aspecto técnico/tático conversávamos no início da semana e projetávamos os trabalhos dentro das variáveis físicas da semana e adicionando o componente técnico/tático.

Anderson Nicolau com os atletas do Al-Faisaly, da Arábia Saudita
Anderson Nicolau com os atletas do Al-Faisaly, da Arábia Saudita

Universidade do Futebol – Em relação à Arábia Saudita, Iraque e Tailândia, como é a difusão do futebol entre as crianças? Há boas possibilidades para se formar mais jogadores em médio prazo? Qual a sua contribuição nesse processo?

Anderson Nicolau – Nos três países o futebol é muito difundido entre as crianças e há o sonho dentro dos clubes de formar grandes jogadores não só para as equipes principais, mas, principalmente, para as seleções nacionais. Posso dizer que nos três clubes nos quais eu trabalhei no exterior havia um trabalho bem estruturado de base. No Buriram, em 2015, chegou a ocorrer um processo de avaliação que envolveu 8 mil garotos e todo o trabalho foi realizado por profissionais brasileiros. No Iraque, o Al Shorta tinha um bom trabalho de formação e, inclusive alguns jogadores da Seleção Iraquiana que vieram pra Olimpíada do Rio de Janeiro, em 2016, saíram da base do clube, como o Dhurgham Ismail e o Sherko Kareem. O Nashat Akram, que já foi eleito o melhor jogador da Ásia, também foi formado pelo clube. No Al-Faisaly também há um trabalho de base bem integrado com o profissional e nós fazíamos sempre treinamentos do profissional com o Sub-20. O que posso citar como contribuição nesse processo foi um trabalho que fizemos no Buriram com jogadores do Sub-15. O clube identificava jogadores promissores e nós fazíamos trabalhos de força e mobilidade com eles, deixando-os mais preparados para um dia jogar na primeira equipe.

Universidade do Futebol – O treinador português José Mourinho defende um modelo de treino integrado, no qual não se separam os aspectos físicos, técnicos, táticos e psicológicos. O que você pensa a respeito disso e como vê a aplicação de ideias como essa no futebol brasileiro?

Anderson Nicolau: Mourinho foi um pioneiro e entrou com muita força no futebol mundial com as ideias do treino integrado. Acredito que este modelo é muito valorizado e necessário para atingir o ápice do entendimento do jogo. O futebol brasileiro está mudando e começamos a perceber essas situações nos treinamentos, porém ainda encontramos no Brasil uma percepção de bons treinos ou bom treinador atrelados ao resultado do campo. Toda mudança gera conflitos e necessita de tempo para ser entendida e respeitada – o que não quer dizer que não haverá questionamentos. O futebol como um todo mudou e se adaptar às novas tendências é uma obrigatoriedade. O treinador precisa chegar a um clube já sabendo o que deseja para sua equipe e, consequentemente, o preparador físico tem de saber o pensamento do treinador para atingir o modelo de jogo previsto.

Universidade do Futebol – Qual é a relevância do conhecimento acadêmico para a melhoria da atuação do profissional de preparação física no futebol?

Anderson Nicolau: O lado teórico é fundamental e devemos as evoluções na área da preparação física a isso. Acredito que uma junção da teoria ao lado prático proporciona um profissional mais completo. Não se tem mais espaço para o empirismo, necessitamos estar embasados com a teoria.

Anderson Nicolau no Buriram United, da Tailândia
Anderson Nicolau no Buriram United, da Tailândia

Universidade do Futebol – Considerando a integração dos trabalhos físicos e táticos aplicados, nessa perspectiva, como você vê a inserção do preparador físico na comissão técnica daqui a alguns anos? Você acredita que existe chance de essa função perder sua aplicação?

Anderson Nicolau: Não acredito que o preparador físico será extinto. Inclusive, ele já está passando por um processo evolutivo. Mas a figura daquele preparador físico que ficava com um cronômetro na mão, mandando atletas realizar séries de exercícios físicos em grupos ou corridas ao redor do campo, na minha concepção está em extinção no mercado. Hoje treinadores, clubes e os próprios jogadores exigem um profissional que faça com que os atletas evoluam em vários aspectos do jogo. O preparador físico necessita estar totalmente envolvido com as ideias do treinador e saber o que a equipe deseja. Saber o que o treinador espera de sua equipe é fundamental para elaboração da semana de treinamento.

Universidade do Futebol – De forma geral, quais os principais obstáculos que você vê hoje em dia para se implantar nos clubes de futebol trabalhos que tenham uma visão sistêmica e interdisciplinar? Quais as vantagens que você vê na implantação de um trabalho com estas características?

Anderson Nicolau: Acredito que hoje seja um pouco menos complicado implantar uma visão sistêmica e interdisciplinar. Mesmo no Brasil, onde o resultado é sinônimo de bom trabalho, já há a abertura a esse tipo de metodologia. Mas é fato que no futebol em geral toda tendência ou evolução do treinamento é condicionado ao resultado e nas primeiras dificuldades apresentadas pelas equipes, muitas pessoas colocam em cheque a metodologia aplicada. A partir daí muitos acreditam que a melhora da equipe está condicionada a uma volta aos treinos do passado. Acreditar no que está se fazendo, com embasamento científico e a proposta de jogo desejada pelo comando técnico é fundamental para se obter resultados. Acredito que estes trabalhos, além de serem específicos, procuram entender os porquês juntamente com toda a complexidade do jogo, explorando movimentos e situações dentro do acervo motor dos atletas, e os deixando mais completos e prontos para entenderem as necessidades da modalidade.

Universidade do Futebol – Xavi Hernández, considerado “um cérebro” do futebol europeu nos últimos tempos, tem uma frase: “No soy fuerte, ni rápido, ni habilidoso, soy un jugador muy de la calle. Simbolizo el juego de equipo, por eso me eligieron el mejor de la Eurocopa”. Que avaliação você faz dela?

Anderson Nicolau: Xavi Hernandez realmente é um jogador que é sinônimo de jogo coletivo, jogo em equipe onde o ‘eu’ não prevalece sobre o ‘nós’. Porém, não concordo com ele ao dizer que não é forte ou não é rápido. Ele pode não ser forte como lutador, pode não ser rápido como velocista, mas dentro do futebol ele tem um entendimento esplêndido do jogo. Um jogador não consegue entrar na história de uma equipe como o Barcelona, batendo recordes de partidas jogadas e ganhando prêmios individuais, sem ter as qualidades necessárias para ser um grande jogador. O que ele priorizou em sua carreira foi não querer ser mais do que o futebol, nem ser mais do que seus companheiros ou a própria equipe.

Comentários

  1. Tacio Bispo disse:

    Ótima entrevista e idéias. Parabéns Anderson Nicolau.

  2. william brnicky disse:

    O grande camisa 10 F.C. Panayots….

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