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17/11/2016

Fatores sistêmicos e estruturais que explicam e definem as atuais governanças e a gestão das instituições do futebol brasileiro – PARTE 1

POR QUÊ OS CLUBES BRASILEIROS NÃO TEM UMA GESTÃO EFICAZ? Porque os clubes estão nesta situação de penúria,  endividamento constante, sendo que 85% do povo Brasileiro gosta e consome futebol? Ainda somos o país desta prática e penta campeões mundiais!

Éramos para ser exemplo de trabalho, administração, métodos de treinamento. Mas o tempo passou e não acompanhamos a evolução esportiva e perdemos espaço e valorização a cada temporada diante de um cenário mundial que caminha para a profissionalização do esporte.

Veja abaixo alguns dados extremamente relevantes da situação de má administração e governança dos nossos clubes.

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A pergunta é:  Mas como chegamos a esta situação?

Um dos diagnósticos é a ausência de governança associada a uma conjuntura permissive, devido ao formato político de nossos clubes. Um formato de “ASSOCIAÇÕES DESPORTIVAS”  sem fins lucrativos e uma cultura única e exclusivamente pela vitória.

Seguimos o raciocínio e vamos voltar um pouco no tempo e verificar algumas mudanças positivas, sendo que nossa governança esportiva não deu atenção necessária.

Até os anos 80 a fonte de recursos dos clubes era oriunda de Ticketing e venda de “passes” de atletas. A partir da década de 90, além destes recursos, outros foram agregados como:  TV, patrocínios, marketing e ticketing, além da cessão de direitos federativos/econômicos e do crescimento dos planos de sócio torcedor.

Os clubes sociais são organizações sem fins econômicos, ou seja, sem fins lucrativos. Com características e administração do setor público,  terceiro setor e setor privado.

No setor público temos o Governo, Recolhe tributos, Legisladores, Profissionais, e Administradores públicos.

No Terceiro Setor (sem fins econômicos), existe uma Diversidade de Organização , Isenção  de tributação, a Produção Não Distribui Lucro, Conselho Diretivo próprio e não remunerado (voluntário) e um Presidente.

Setor Privado: necessidade de atender o Mercado, existe Tributação, produz e distribui Lucro, possui um Conselho Diretivo próprio e remunerado.

Podemos observar nos aspectos descritos acima que todos eles estão inseridos em nossos clubes de futebol. Fato que torna a governança muito mais complexa.

Algumas características são peculiares nesta radiografia que estamos fazendo, como:

• dedicação voluntária, parcial e não exclusiva dos dirigentes;

• funções diretivas exercidas de maneira não necessariamente especializada;

• crescente expectativa por eficiência, eficácia e transparência;

• em um momento em que diversos clubes pequenos e médios têm cada vez menos capacidade de atender a estas expectativas.

Dentro deste contexto, alguns dilemas são extremamente conflituosos. Um deles é o dilema de orientação: satisfazer público interno ou externo?

Mercado externo:  (negócio) – Torcedores, mídia, patrocinadores, investidores e parceiros que viabilizam o clube economicamente.

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Mercado interno: (política) – Quadro de sócios, associados e conselheiros que decidem quem vai estar no poder.

Outro conflito e não menos importante que o descrito acima é o dilema gerencial: atividades sociais x futebol profissional? Este dilema consome tempo e muito dinheiro dentro de um clube que se diz de futebol, mas não abre mão de sua característica social. Onde surgiu a base de nossos clubes de futebol, porém com alto investimento no futebol a definição de ação é fundamental para a saúde financeira e gerenciamento deste sistema.

Um detalhe importante na caracterização de nossos clubes é alto grau de politização, fazendo com que fique muito forte a disputa pelo poder. Fazendo com que posições de comando ocupadas por membros do quadro associativo, definidos por meio de eleições e não por capacidade técnica.

Inevitavelmente estas disputas afetam o ambiente da instituição e no ambiente futebol normalmente invadem o vestiário.

Com este cenário de disputa pelo poder e ânimos acirrados politicamente é inevitável acordos pela manutenção do poder ou busca por ele, sendo assim, articulações políticas fazem com que sejam oferecidas posições e funções como recompensa à fidelidade e apoio,  acarretando incompatibilidade entre funções e qualificações e rotatividade nas posições de comando por critério político.

Em um contexto em que só a vitória interessa, estas combinações são extremamentes perigosas devido a seus critérios de decisão serem políticos, baseados na emoção de torcedores/diretores abnegados ou apenas pela manutenção do poder! Qual o meu legado? Como serei lembrado? O que pesará no momento de novas eleições? São algumas das métricas de avaliação exclusivamente esportiva. Um desestímulo total ao compromisso com fatores de governança!

Esta condição histórica resultou na situação de insolvência atual dos clubes. Aliado a relação com credores, poder público e o mercado,  risco moral extremecido, uma permissividade e complacência desmedida, aliado a clientes do futebol pouco exigentes.

No fim, trata-se de um problema sistêmico de falta de governança, uma consequência da falta de estímulo à boa governança. Que nos remete e resulta numa gestão ineficaz. Inoperante!

Algumas novidades e ações tendem a longo prazo mudar esta característica pouco saudável de nossos clubes; mas sem suporte decisivo do poder público,  estas ações podem não acontecerem.

• Lei de Responsabilidade Fiscal no Esporte

• Comitê de Reformas CBF (Reforma Estatutária, Código de Ética, Licenciamento, etc.)

• Movimento Bom Senso FC.

• Maturidade do mercado.

Para que estas condições aconteçam, alguns critérios, suportes e supervisão precisam acontecer como:

• maior rigor do poder público e credores;

• maior exigência dos clientes do futebol;

• regulamentação do setor.

O resultado desta prática será uma boa governança, uma boa gestão e um produto. Um Futebol Brasileiro forte e competitivo como em outras ligas mundiais.

*Sobre o Autor – Marcelo Duarte, durante 15 anos atuou como Preparador Físico em clubes Profissionais do Brasil e exterior. Após migrar de área, desde 2014 atua como Gestor Profissional em Clubes de Futebol. Sócio e Diretor da MD SPORTS Assessoria e Consultoria Esportiva. Diretor Geral do SEMINÁRIO CATARINENSE FUTEBOL TOTAL.

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