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02/03/2017

Fisioterapia Esportiva no Futebol

Atualmente é notório que os clubes brasileiros entendem cada vez mais a necessidade e importância do investimento em estruturas modernas e em profissionais qualificados para compor seus “staffs” nas áreas de desempenho e saúde. Alguns gestores esportivos já conseguem visualizar de forma nítida os resultados práticos dessa combinação, desde a melhora do desempenho dos atletas em campo, até uma grande economia financeira por conta de uma melhor condição de preparação e cuidado dos seus elencos.

Sabemos bem que o futebol profissional evoluiu muito nas últimas décadas, principalmente no que diz respeito a exigência física imposta aos jogadores. Estudos apontam que a intensidade de treinamentos e jogos é bem maior nos dias de hoje, e que dinâmica de jogo também mudou, tornando-se mais rápida, com muitas mudanças de direção e alternâncias de velocidade dos atletas. Aliado a isso, temos o “fator calendário”, influenciando diretamente de modo que alguns clubes brasileiros chegam a disputar mais de 70 jogos por temporada. E para suportar tudo isso, o corpo do futebolista precisa estar muito bem preparado para não sofrer com as temidas lesões.

Um estudo científico de 2013, encomendado pela UEFA, aponta que um atleta afastado por lesão durante um mês significou um custo médio de 580 mil euros para os clubes. Em outra pesquisa realizada e divulgada para a Premier League em 2015, foi contabilizado o número de jogadores lesionados, o número de dias/semanas/meses que estes jogadores ficaram afastados por conta das lesões, derrotas causadas pela ausência destes jogadores, salários, custos de tratamentos e diminuição de arrecadação financeira associada a todos estes fatores, mostrando assim que os clubes ingleses gastaram cerca de 410 mil libras por jogador lesionado no ano. Na última temporada, dados da Premier League junto a uma consultoria de seguros mostraram que os jogadores ficaram em média 28 dias afastados por conta de lesões, causando um prejuízo de aproximadamente 660 milhões de reais aos clubes. Apesar de ainda não existirem estudos oficiais que apontem este tipo de estatística em relação ao futebol brasileiro, os dados extraoficiais do Campeonato Brasileiro da série A de 2016 (números não confirmados pelos clubes e não pertencentes a um estudo científico) apontam a ocorrência de mais de 800 lesões em atletas, o que resultaria uma média de 40 episódios por clube se fossem divididos de forma equitativa. Para conhecer um valor aproximado dos custos decorrentes destas lesões no futebol brasileiro, bastaria o gestor de cada clube fazer o mesmo cálculo da Premier League (salários, tempo de afastamento, custos de tratamentos, etc). Com certeza, não é pouco dinheiro.

Parafraseando Fábio Mahseredjian, preparador físico de referência mundial e multicampeão por onde passou: ´o futebol não é uma ciência, mas a ciência pode melhorar o nível do futebol’. E a Fisioterapia, no caso específico, a Fisioterapia Esportiva é a ciência responsável por estudar, avaliar, diagnosticar, prevenir e tratar os distúrbios do movimento dos atletas, sejam eles causados por alteração genética, traumas ou lesões. Além disso, vale ressaltar que a Fisioterapia Esportiva é uma especialidade profissional reconhecida, representada e chancelada pela Sociedade Nacional de Fisioterapia Esportiva (SONAFE), ou seja, assim como existe o médico do esporte, o advogado do esporte, o próprio gestor do esporte, também existe o Fisioterapeuta Esportivo. Esse profissional é o mais indicado para trabalhar com o alto rendimento e desenvolver um trabalho multidisciplinar imprescindível junto aos demais profissionais da comissão técnica (técnicos, preparadores físicos, fisiologistas, médicos, nutricionistas, psicólogos, etc).

Nesse sentido, é importante salientar que a fisioterapia esportiva pode contribuir muito na diminuição dos prejuízos financeiros dos clubes, causados pela incidência de lesões nos seus atletas. O grande segredo da fisioterapia esportiva está em sua forma atual de ação, onde deixou de seguir um modelo apenas curativo e dependente. Como já mencionado, hoje o trabalho é multi e interdisciplinar e deve partir de uma avaliação detalhada da capacidade funcional e de movimento de cada jogador, particularmente, respeitando o princípio da individualidade e especificidade. Através desta avaliação global é possível identificar, entre outras coisas, déficits motores, compensações posturais e desequilíbrios musculares, por exemplo. A partir daí, é possível traçar estratégias de prevenção para diminuir os riscos de lesões causados por esses fatores, bem como planos para que o atleta tenha uma melhor condição física para suportar as demandas de treinos e jogos.

Da mesma forma é realizado um trabalho cada vez mais importante  conhecido como “recovery” ou recuperação – processo onde o fisioterapeuta do esporte utiliza todos os recursos de sua competência para diminuir os efeitos do desgaste fisiológico que o atleta sofre, colocando-o apto mais rapidamente à atividade. Assim, na rotina de jogos a cada 2 ou 3 dias, como em grande parte da temporada no Brasil, esse trabalho passa a ser indispensável. Por fim, o tradicional, e não menos importante, trabalho de reabilitação de lesões mais graves -importantíssimo para que o jogador retorne de forma rápida e segura ao campo -, no mesmo nível físico e técnico ou as vezes até melhor do que antes da lesão.

O certo é que o investimento em estrutura, tecnologia, aparelhos de avaliação e tratamento somado a profissionais devidamente capacitados, que possuem o conhecimento científico atualizado e experiência clínica, também agrega o diferencial que garante e tranquiliza o atleta na hora de assinar um contrato, pois ele saberá que terá uma excelente condição de trabalho e será bem assistido durante sua atividade.

Portanto, é indiscutível que de nada adianta ter os melhores atletas em sua equipe se não houver quem possa cuidá-los da maneira mais adequeada. Pois,  por melhor que o atleta seja, seu desempenho em relação a qualidade e sua participação constante na equipe está diretamente relacionado aos profissionais que atuam nos bastidores, bem como a estrutura que esses profissionais dispõem. A realidade é que o futebol precisa cada vez mais de especialistas, e a Fisioterapia Esportiva oferece esse profissional.

*Fisioterapeuta

Especialista em Fisioterapia Esportiva – Sonafe

Pós Graduado em Ciências do Esporte e da Saúde

Formação em Gestão Profissional do Esporte

Comentários

  1. Jue Santana disse:

    Parabéns Anderson, pela bela narrativa da fisioterapia esportiva no futebol, hoje já estamos mudando o cenário pois o Coffito e crefitos já
    reuniram com a CBF para a implantação do Fisioterapia esportivo na súmula no jogos do futebol Brasileiro, na hora do jogo em campo junto a comissão técnica, já que atuamos antes e após e agora durante a partida. Quando nós visualizamos o gesto que lesionou e bem mais fácil previamente tratar e mais rápido reabilitar para volta a atividade esportiva.

  2. Anderson Dorneles disse:

    Muito obrigado pelo comentário, amigo e colega Jue Santana, Grande ícone da Fisioterpaia Esportiva!
    Obrigado a todos que prestigiaram o texto. Fico a disposição para contatos no email: fisiodorneles@hotmail.com

    Abraços

  3. Rodrigo Teixeira disse:

    Parabéns pelo texto, Anderson. Abraço

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