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13/07/2016

Flô, o goleiro “melhor do mundo”

Saudado como o maior nome do jornalismo esportivo paulista até o início dos anos 1970, Thomaz Mazzoni realmente fez jus à fama. Escreveu mais de 20 livros e almanaques de sucesso, e foi o editor e principal colunista de “A Gazeta Esportiva”, a partir de 1947 – quando transformou o matutino, criado graças à inquietude do grande Cásper Líbero, no mais lido e respeitado jornal de esportes do Estado de São Paulo.

Preferindo se autodenominar Olimpicus, pois conhecia várias modalidades esportivas como poucos, Mazzoni tinha uma admirável capacidade inventiva. E foi isso que o levou a batizar os grandes clássicos paulistas, com Santos x São Paulo virando San–São; Corinthians x Palmeiras, Derby; São Paulo x Palmeiras, Choque–Rei; e Corinthians x São Paulo, Majestoso.

Foi ele, também, que apelidou o Juventus , da rua Javari, de “Moleque Travesso”. O Corinthians, de “Mosqueteiro”. O São Paulo, de “Clube da Fé”. O Palmeiras, de “Campeoníssimo”. E o XV de Piracicaba, de “Nhô Quim”.

Para completar, o genial Olimpicus ainda produziu o primeiro romance esportivo da literatura brasileira. Uma obra escrita em 1939, em meio aos almanaques e outros livros, mas que só seria editada em 1941. Retratando a epopeia de um jovem goleiro, que atendia pelo apelido de Flô, o livro chegou às vitrines das livrarias provocando uma grande curiosidade. Um fato, inclusive, visto até como dos mais naturais, ainda mais pela força da grife Thomaz Mazzoni, capaz de obras respeitadas como “Histórico do Palestra”, “Problemas e Aspectos do Nosso Futebol”, “História do Futebol no Brasil (1894–1950)” e “O Brasil na Taça do Mundo de 1938” – este, seu maior êxito de crítica e público.

Quanto a uma análise concreta sobre o pioneiro romance de Mazzoni, o que fica logo latente é que Flô, o goleiro “melhor do mundo” se apresenta como uma obra de leitura leve, sem complicações. De texto transparente. E deixa evidenciada – ao menos, aparentemente – que só deseja contar uma história. Singela; das mais comuns. Mesmo centrando a sua temática em um personagem nada usual: um desportista. Melhor dizendo, o goleiro de um time de futebol.

Apesar das evidências iniciais, de que irá traçar o elogiável perfil de um jovem e vitorioso atleta, os caminhos da história mudam de rota pouco depois. E, inesperadamente, começam a invadir um universo tortuoso. Na verdade, um mundo de sombras e mistérios, que desemboca nos subterrâneos do futebol. Um ambiente costumeiramente frequentado por escroques, por personagens de reputação, no mínimo, duvidosa. Onde a intriga e a corrupção acabam comprando a honestidade e o caráter de tantos descuidados – ou fracos de espírito.

Mazzoni também invade alguns dramas familiares. E penetra na tumultuada relação amorosa de Flô. Um jovem simples e apaixonado por Lydia, que corresponde à altura, e também é apaixonada por ele. Só que, em meio aos planos e sonhos do casal, surge a ganância de um pai ambicioso e autoritário. E é a partir daí que se desenrola toda a trama – ou melhor, todo o drama – envolvendo o goleiro do Velox.

Do Flô sempre aclamado, e cotado até para a Seleção Nacional, ao Flô arrasado, tomando “frangos” homéricos e acusado, inclusive, de ter-se “vendido” aos cartolas dos maiores adversários, é tudo rápido. Muito rápido. E a ressureição do herói só vem à custa de uma tragédia, e de quando o inesperado entra em campo.

No desfecho – recheado com fortes pitadas de emoção –, Flô recupera o velho cartaz, é campeão com o Velox e recebe a ansiada recompensa maior: o beijo apaixonado de Lydia. Mas, para que ocorresse um final tipicamente feliz, Thomaz Mazzoni fez questão de expor as habituais mazelas que via no futebol brasileiro. Em especial, os desmandos ocorridos na fase de preparativos e durante a Copa do Mundo de 1938. Uma aventura, que ele acompanhou bem de perto.

Péris Ribeiro — jornalista e escritor. Autor de “Didi, o gênio da folha-seca”, vencedor do I Prêmio João Saldanha de Jornalismo Esportivo, em 2011, como o Livro do Ano.

Sobre o Autor

Thomaz Mazzoni foi um dos mais importantes jornalistas esportivos da história da imprensa brasileira, destacando-se por seu trabalho em jornais, obras publicadas e revistas de São Paulo na primeira metade do Século XX.

Italiano de nascimento, mas brasileiro por escolha – naturalizou-se em 1945 −, Mazzoni chegou ainda criança ao Brasil em 1909, junto com toda a família.

Criou-se na região do Braz, na Rua do Gasômetro, reduto da crescente colônia italiana na cidade de São Paulo. Segundo relatos de familiares, teria sido um bom ponta-esquerda quando jogava na “Várzea do Carmo” – possivelmente, esta é a razão de remeter sempre com ares saudosos aos tempos “áureos da várzea”.

Ao longo de sua carreira, produziu 16 livros, o Almanaque Esportivo (entre 1929 e 1941) e mais de 5.000 crônicas para “A Gazeta Esportiva”. Seu livro “História do Futebol no Brasil 1894–1950” é referência obrigatória para jornalistas, acadêmicos e aficionados de uma maneira geral.

Suas trajetórias biográficas e bibliográficas ainda estão renegadas a poucos trabalhos de pesquisa. Agora, a LivrosdeFutebol.Com se compromete, sob as bênçãos da família Mazzoni, a reeditar toda a obra do notável jornalista.

Faleceu meses antes da Copa do Mundo do México, de 1970, não testemunhando a vitória do Brasil. Mas, com seu estilo militante e ousado, deixou gravado o seu nome no jornalismo esportivo brasileiro e sua obra como legado histórico para os admiradores do futebol nacional.

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