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10/05/2017

Futebol e tecnologia

“Temo o dia em que a tecnologia se sobreponha à humanidade. Então o mundo terá uma geração de idiotas”. (Albert Einstein)

A utilização da tecnologia pode ser empregada de diversas formas no futebol e em todas interfaces que o cercam: arbitragem, análise de jogo, preparação física, fisiologia, fisioterepia, entre outras, com suas ramificações peculiares em cada área. E a cada dia que passa, várias variáveis são estudadas e diversas informações são colhidas.

Reprodução: Imagem retirada do site www.8columnas.com.mx
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Tudo necessário e importante, especialmente se não quisermos tirar o protagonismo do jogo e do jogador. E a evolução tecnológica é importante mas não pode tirar a essência do jogo e virar uma nova forma de “absolutismo” que toma conta do inconsciente de todos, gera informações em excesso e domina e mecaniza todas as decisões dos participantes do processo.

Abordo isso por que, cada vez mais, vejo a obsessão humana pelo controle da espécie, sendo um tema debatido com mais veemência nos últimos anos. Estamos criando tecnologias, máquinas, inteligência artificial que vão adquirindo autonomia e ultrapassando nosso limiar humano de inteligência. E o problema é que não sabemos onde essa porta de entrada vai nos levar. Nesse contexto, o futebol pode perder um pouco sua essência se insistirmos densamente no excesso de tecnologia?

Stephen Hawking, um dos mais relevantes cientistas do mundo, que usufrui de uma tecnologia particular para se comunicar envolvendo uma inteligência artificial, disse que “o desenvolvimento da inteligência artificial total poderia significar o fim da raça humana”. Essas máquinas avançariam por conta própria e se reprojetariam em ritmo sempre crescente. Os humanos, limitados pela evolução biológica lenta, não conseguiriam competir e seriam desbancados.”

Ele acrescenta que “nosso futuro é uma corrida entre o crescente poder da tecnologia e a sabedoria com que a usamos. Em curto prazo estamos preocupados em quem controla a tecnologia. Em longo prazo teremos que nos preocupar se poderemos controlá-la”.

Muitas são as repercussões dos avanços tecnológicos, tanto positivas quanto negativas. Será que seu poder pode trazer algumas armadilhas que carregam efeitos silenciosos? Elas podem terceirizar paulatinamente o uso de nossa memória? Uma memória que cria um eventual avanço tecnológico pode enfraquecer? Se a memória é um processo humanizante, o uso excessivo de máquinas nos dispensaria agir e nos obrigaria apenas a reagir?

Reprodução: Foto retirada do site www.batterymart.com.mx
Reprodução: Foto retirada do site www.batterymart.com.mx

 

O filósofo Jean-Michel Besnier também fala um pouco sobre tecnologia e inteligência artificial, para ele: “se quiséssemos nos limitar a considerar as nossas máquinas como meras ferramentas, poderíamos efetivamente pensar que a inteligência artificial estivesse a serviço da construção cultural, simbólica do humano. O recurso a um instrumento permanece opcional. Mas o problema com toda tecnologia é que ela quer ser hegemônica. E a alienação começa assim que começamos a perder a iniciativa. A inteligência artificial quer estar em todos os lugares e, portanto, nos obrigar a interagir com ela. A escolha de recorrer ou não a um instrumento desapareceu. Por isso, somos forçados a nos comportar como máquinas. Chamei isso em um livro de “síndrome da tecla asterisco” (L’Homme simplifié). Somos forçados a responder às injunções abstratas e, portanto, não somos mais considerados seres inteligentes. Um neurobiólogo vai explicar isso dizendo que a interação com a máquina ativa as mesmas áreas do cérebro que a realização dos automatismos. A inteligência artificial em ação na internet produz o mesmo efeito: os buscadores e seus algoritmos levam você de um link a outro e afastam-no da reflexão. Nós não lemos mais, fazemos uma varredura, transformados em scanners”.

Numa outra visão, o científico Geoffrey Hinton afirma que “futuramente não crê que as máquinas dominarão a humanidade. Se produzirá uma simbiose. Os computadores com simuladores de redes neurais e as pessoas trabalharão com eles. Não creio que acabaremos dominados pelas máquinas e, se isso ocorrer, será em um futuro muito distante. Não sabemos como funciona o cérebro em profundidade, mas sabemos que quando aprende algo modifica a força de conexões entre os neurônios. E sabemos mais ou menos como funciona um neurônio. Assim podemos criar um modelo informático aplicando os princípios de um neurônio e podemos desenhar um algoritmo de aprendizagem de forma que o sistema melhore a medida que aprende”.

Seguramente a tecnologia sempre teve presente na existência própria da vida humana, desde os primórdios, em diversos níveis de complexidade. Mas nos últimos anos alguns questionamentos vêm acontecendo, é só pararmos para refletir: o grande uso da tecnologia vem gerando alguns distúrbios na vida cotidiana? E no futebol, com um universo particular, será que a construção excessiva de aspectos acessórios, de tecnologias excessivas, pode tirar um pouco a sua natureza?

Ainda acredito que a maior tecnologia do futebol é o jogo e o jogador.  Por isso, de nada adianta uma tecnologia sofisticada para manter pessoas presas. A dominação da tecnologia mastigando o trabalho para todos, mecanizando, só que superficialmente evoluindo aos olhos nus, pode ajudar, e claro, ajuda, mas não pode tornar desnecessário todo processo natural de valores profundo de quem realmente joga o jogo e está no jogo.

Abraços e até a próxima quarta!

Comentários

  1. Grande Rodrigo, concordo, refleti muito sobre as abordagens advindas de análises e opiniões matemáticas sobre aspectos humanos, e realmente a “conta” não bate. Até onde os números refletem o sentimento? Os níveis de certas substâncias refletem a particularidade de uma pessoa? A ciência oferece uma resposta, mas não coloca a mão no fogo, apenas deduz, estatisticamente!

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