Entrevistas

28/10/2016

Gislaine Nunes, advogada

Como ela pretende abalar as estruturas do futebol brasileiro - de novo

Conhecida por ser a responsável pela liberação de uma centena de atletas no fim da década de 90 e início dos anos 2000, período posterior à aprovação da lei Pelé que provocou uma grande transformação na relação entre clubes, jogadores e representantes, a advogada Gislaine Nunes pretende novamente modificar as estruturas do futebol.

Formada na Instituição Toledo de Ensino, em Bauru, e sócia Benemérita do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo, tirou do papel a Liga de Futebol Paulista [LFP], competição que vem sendo disputada ao longo de 2016 e que proporcionou a alguns clubes a possibilidade de jogar regularmente. Gislaine pretende dar o pontapé inicial para um processo de diminuição da participação e importância das federações, CBF e CONMENBOL, na organização de competições de clubes.

A Universidade do Futebol conversou com a advogada sobre os desafios que a Liga enfrenta, lei Pelé, direito dos jogadores e outros assuntos que você confere nesta entrevista.

Universidade do Futebol – Quais foram os principais direitos dos jogadores de futebol profissional que puderam ser garantidos de maneira mais eficaz através da Lei Pelé? 

Gislaine – Tudo, né? Os jogadores de futebol eram escravos quase no sentido literal – só não dormiam em senzalas, de resto era tudo igual. Existia a fixação do passe após o término do contrato, que gerava um prejuízo muito grande para os atletas e suas famílias. Do início da década de 90 até 1998, quando a lei foi aprovada, sabíamos até de casos de suicídio de atletas, que eram completamente abafados pelos clubes, assim como jogadores que acabavam se entregando às bebidas, famílias sendo desestruturadas.

A lei Pelé veio para trazer o equilíbrio na relação entre clube e atleta. Porém, infelizmente, ela foi bastante mutilada pelo lobby que os clubes fizeram. De qualquer maneira, os principais direitos são a rescisão após três meses de atraso de salários e o direito de imagem, que era um pouco mais amplo, e mesmo assim os clubes, por serem tão arcaicos, provincianos e se acharem os donos do mundo, ainda continuam fazendo besteiras nesse sentido. O caso do Ronaldinho no Flamengo é um exemplo: conseguimos tirá-lo de lá já com a última alteração da lei, que prevê o direito de imagem tendo caráter cível, desde que não remeta ao contrato de trabalho. Esses clubes não tem capacidade para fazer diferente – há uma coação para que o atleta assine um direito de imagem que na verdade caracteriza a remuneração. Além disso, a lei Pelé prevê todos os direitos de um trabalhador comum, como fundo de garantia, décimo terceiro salário, férias, registro em carteira e finalmente o fim do passe.

Os clubes viram que o remédio foi amargo, mas positivo, aprenderam a respeitar um pouco mais os atletas, ficaram um pouco mais receosos de cair no atraso salarial. Hoje os atletas são menos alienados. Apesar de ainda serem desunidos, cada um sabe de seus direitos.

Ronaldinho, ao lado de Dadá Maravilha, em sua despedida do Atlético Mineiro.
Ronaldinho, ao lado de Dadá Maravilha, em sua despedida do Atlético Mineiro.

Universidade do Futebol – O início da década passada marcou uma quebra de paradigmas nas relações trabalhistas entre jogadores e seus empregadores. Dentro desse período, muitos clubes falharam em se adaptar à nova realidade. Quais eram nessa época os principais “erros”, tantos morais, na sua avaliação, quanto legais, cometidos pelos clubes nessa fase de transição? 

Gislaine – Os clubes eram muito mais arcaicos e provincianos do que ainda são. Nesse período se colocava os jogadores encostados, sem rescisão ou punições previstas na CLT, apenas treinando separado, ou afastados em casa, sem participar dos jogos. Eles não pagavam férias, atrasavam salários e forçavam as transferências para onde convinha.

Em 1998 houve a aprovação e publicação, mas existia o vacatio legis, a vacância da lei, que na prática significou que os clubes tiveram dois anos para se adaptar ao fim definitivo do passe. Só que eu comecei a protocolar pedidos de liminares na Justiça do Trabalho, que eram intermináveis, assim que a lei saiu, em março [de 98]. Por ter trabalhado dentro do projeto, fui uma das únicas advogadas, quando a lei Pelé saiu, a já estar praticamente pronta dentro do sindicato, com muitos processos de atletas. A gente chegava a liberar 10 atletas por semana.

Eram muitos os jogadores que vinham nos procurar, justamente alegando isso, que não recebiam, que eram obrigados a jogar daquela forma, que quando se machucavam eram dispensados, tratados como se coisa fossem. Dentro ainda desse período, quando os clubes viram que a lei realmente iria entrar em vigor, ser colocada em prática, eles ainda teimavam em não pagar férias, décimo terceiro, não tratar o jogador quando se machucava, mandando embora e pronto, simplesmente encostando os atletas por atos de indisciplina. Quando começamos a libertar os atletas e fazer valer a lei, os clubes ficaram mais receosos, mas isso demorou uns quatro anos a partir da aprovação – eles continuavam achando que eram os coronéis, que os jogadores eram seus escravos.

O Pelé foi criado e cresceu na Vila Curuçá, em Bauru, junto com o meu pai. Nós fizemos um contato para a produção de um programa que tínhamos, por volta de 2006, 2007. Quem veio me procurar foi ele –  talvez tenha visto em alguma entrevista que eu também era de Bauru. Conversava muito com sua assessora, até que um dia ele me mandou um e-mail dizendo que estava muito feliz por saber que eu era filha de quem era, que meu pai foi um amigo dele de infância. Quando fui visitá-lo para a gravação ele me disse uma coisa muito bacana que não vou esquecer nunca mais. Após a aprovação e publicação da lei, ele havia ouvido de muitos dirigentes de clubes que essa seria só mais uma lei Zico, que não iria valer de nada, ninguém iria mudar nada. Disse então que cada vez que eu libertava um atleta tinha uma torcida muito grande dele e quando cheguei dentro do seu escritório me falou “aqui você tem um fã-clube. Você fez valer aquilo que eu tanto buscava para os atletas. Você é a rainha da minha lei”. Foi algo que me deixou muito lisonjeada.

Os clubes apostavam que a lei não iria se fazer valer. Não esperavam que apareceria uma esposa de jogador de futebol que passava muita necessidade e por isso buscou para seu marido a liberdade antes da lei e que, quando ela foi aprovada, fez valer todos os direitos que cabiam a ele  e aos outros atletas. Sempre digo que a lei Pelé foi meu bilhete premiado. Sem sombra de dúvidas, fui a advogada mais beneficiada com a lei.

Universidade do Futebol – Houve evolução nesse cenário? Os clubes estão atualmente mais preparados, organizados? Como se deu esse avanço?

Gislaine – Estão porque têm medo. Eu aposto com você que quando a Portuguesa sair desse buraco – espero sinceramente que ela não venha a ser leiloada, não quero ser culpada disso, mas pelo jeito vai ser inevitável -,  te garanto que ela nunca vai ter os desmandos que teve. Vai aprender muito, assim como outros aprenderam. Hoje eu já não tiro mais atleta do São Paulo, do Vasco ou do Flamengo em uma leva grande. Eles estão encontrando a lei naquilo que  podem fazer. Ainda dão algumas escorregadinhas, mas muito menos.

Universidade do Futebol – Em entrevista à Universidade do Futebol, em 2007, você destacou a relação humana que conseguia construir com seus clientes. Qual importância disso para o sucesso no relacionamento advogado-cliente?

Gislaine – Acho que a maioria dos advogados não faz isso em outras áreas, mas eu com os jogadores de futebol, até por ser casada com um ex-atleta, me acostumei muito a lidar com eles. Quando comecei a representar os jogadores, grandes nomes do futebol, os libertei para que fossem fazer suas fortunas e suas carreiras fora do Brasil e via a dificuldade que eles tinham. Os clubes ameaçavam de morte, coagiam dizendo que iam à FIFA, que não iriam deixar jogar, ligavam fazendo oferta de dinheiro para mim, para que eu desistisse do processo, mentisse para os jogadores.

Acabávamos nos tornando amigos, principalmente das famílias, antes e durante o processo, porque o atleta era muito inseguro. Eles estavam presos ali, e aí surge uma advogada que teve a coragem de enfrentar um Eurico Miranda, o Clube dos Treze, que formou um cartel com o intuito de não contratar jogadores que haviam sido meus clientes. Isso causou um desespero muito grande neles. Eu dizia que era mentira. Se houvesse o interesse eles seriam sim contratados, era como soltar um passarinho da gaiola. Então, essa relação minha com os jogadores se fez necessária, até porque eu tenho esse estilo de mãezona de falar “olha meu filho, vem aqui vamos fazer assim”, de dar bronca quando precisa. Eles se sentem seguros ao meu lado.

A maioria dos atletas hoje paga para que a Gislaine faça a audiência e não meus advogados do escritório, pela segurança que eu transmito, pela característica maternal. Tenho um lado muito humano. Não posso citar nomes, mas uma pessoa importante do nosso futebol aqui de São Paulo muitas vezes ligava para desabafar, perguntar o que eu achava, como devia ser. Eu dava umas broncas. Sempre procuro ter o lado mais humano com eles acho que é muito importante.

Universidade do Futebol- Quais são os serviços prestados por você e seu escritório atualmente?

Gislaine – Nós advogamos para os jogadores de futebol e para outros perfis de clientes. Temos, por exemplo, a expertise de trabalhar com casos de prisão por pensão alimentícia adquirida no atendimento a jogadores. Somos procurados por isso, mas também em várias outras áreas. Além disso, prestamos uma assessoria a atletas que têm problemas com seus agentes nessa relação promíscua estabelecida entre eles. Eu, particularmente, não gosto dessa figura do agente que fica ali todo mês pegando o salário do jogador; gosto do empresário que vai lá, faz a negociação, pega o que é dele e vai embora, esse sim. Acho que o jogador tem que cuidar da própria conta, do dinheiro dele, da vida dele, procuramos fazer isso. Ter um bom advogado acho que é o que basta. Não precisa ter um sanguessuga pendurado ali, todo o mês pegando dez por cento do bruto. Temos no escritório a expertise de fazer tudo isso, na parte pessoal, de cuidar da vida familiar.

Universidade do Futebol – A Liga é um projeto separado?

Gislaine – A Liga é um projeto paralelo. Infelizmente, a Liga não tem como pagar advogados, então meus advogados fazem tudo lá – nós só temos estagiários por enquanto. Os clubes não vieram me procurar por causa do meu escritório; eles vieram atrás de proteção. “A doutora Gislaine é um remédio amargo, é brava, então não vai deixar que ninguém mexa conosco”. Mas sou severa com eles também – fico em cima em relação a pagamento, registro em carteira. Apesar de a Liga ainda não ter sido reconhecida pela CBF, eu não estou nem aí para eles. Sigo a lei Pelé. A competição está totalmente amparada pela lei e temos todos os contratos de atletas registrados no nosso BID .

Universidade do Futebol – Como surgiu a ideia da criação dessa competição?

Gislaine – Alguns clubes do interior vieram me procurar há sete anos, perguntando sobre a possibilidade da criação de uma competição paralela. Disse que a lei Pelé permite que exista uma liga, mas achava que nem as federações, nem a CBF iriam aceitar. Era uma briga grande, e eu não tinha tempo para fazer isso naquele momento – não estava disposta a entrar nisso. Foram embora, acabou a conversa. No ano passado eles vieram me procurar em um número maior, o que me fez ir à federação [Federação Paulista de Futebol – FPF] sondar a possibilidade. Fui lá e conversei com o Reinaldo [Reinaldo Carneiro, Presidente da FPF], que ficou muito bravo: “Liga? Isso é fazer bagunça dentro do futebol. Esses clubes não tem condição, se tivessem condição estariam aqui”. Falou, falou e pensei: bom, agora já vi por que vou montar a Liga. vou aceitar esse desafio. Se os clubes quiserem vou ajudá-los a montar esse campeonato.

Fui ajudando a se organizarem, criar estatuto. Antes de ter a primeira assembleia, procurei a secretaria de esportes do estado, tive o apoio deles e comecei a fazer, junto com meu escritório, toda a parte legal da Liga. Na primeira assembleia fui eleita presidente da Liga, o que não era minha intenção, mas agora vejo que foi importante porque nós tivemos, e estamos tendo ainda, bastantes críticas. A FPF nos notificou dizendo que nós copiamos o nome do campeonato, o logo da federação, enfim, nós incomodamos, essa é a realidade.  Se não tivesse meu nome ali acho que a Liga não existiria, até por que ela funciona nas minhas dependências, com quase tudo que é meu, conta com a ajuda dos meus profissionais, acho que ela precisava dessa estrutura inicial. Espero que agora e no ano que vem, já no fim desse ano, ela caminhe sozinha, independente da estrutura da presidente.

Semana que vem [Conversa realizada no dia 25/09] estamos entrando com uma ação. Vamos pedir junto ao poder judiciário o reconhecimento forçado da CBF, pois ela tem que nos reconhecer, isso é lei. Como administradora nacional do desporto ela tem que nos reconhecer. Essa ação já está quase pronta, vamos entrar com ela e sei que seremos vitoriosos.

Universidade do Futebol – Por que é importante para a Liga que a CBF reconheça a competição?

Gislaine – Para os clubes terem segurança, porque querendo ou não eles sempre questionam isso, e porque a própria lei fala. Para que um clube tenha direito à indenização correspondente à sua formação ele tem requisitos a cumprir que a lei Pelé estabelece. Existe esse contrato de bolsa aprendizagem. A lei Pelé, que é uma lei especial, revoga uma lei ordinária. Então a lei Pelé é suprema – acima dela só temos a constituição federal, onde ela silenciar consulta-se a CLT e o código de processo civil. Na lei Pelé diz que para os clubes terem como válido este contrato de bolsa aprendizagem eles têm que ser reconhecidos e registrados na entidade de administração nacional do desporte, que é a CBF. Então, como eu vou dar garantia para meus clubes, para meus formadores de atletas com seus futuros direitos econômicos, se a CBF, como determina a lei, não reconhece a Liga?

E quando um atleta vier transferido do XV de Jaú [FPF] para o Corinthians de Prudente [Liga], como fazemos se a CBF não aceita meu BID? O jogador não vai poder jogar? Vai ter seu direito ao trabalho tolhido pela CBF? Ela quer estar acima da constituição federal? Por esse motivo, pela legislação remeter à CBF em alguns casos, eu preciso que ela reconheça a Liga. Inclusive, já ajudei na criação de ligas no Pernambuco, Ceará, Rio de Janeiro e Paraná. Vamos fazer em Belém. A gente manda estatuto, ata, modelo de assembleia, auxiliamos com toda a expertise adquirida varando madrugada para criar BID, que foi o mais difícil de tudo, orientamos como registra o nome… Enfim, as ligas estão se proliferando pelo Brasil.

Universidade do Futebol – Por que um clube paulista escolheria disputar a Liga e não a série B [Quarta divisão Paulista] ?

Gislaine – Primeiramente porque precisa pagar uma grande quantia de dinheiro para se filiar, se já estiver filiado ele não tem condições de pagar a arbitragem, não recebe nada. Só agora o senhor Reinaldo Carneiro criou uma competição e está chamando os clubes – inclusive os que disputam a Liga – para irem jogar com o pagamento da arbitragem. Na Liga demos bola, arbitragem, que nos custou mais de 800 mil reais. Aliás, estamos devendo para árbitros, pois até o momento tenho colocado do meu bolso, mas parei com isso porque a Liga tem que se manter. Estamos atrás de patrocinadores para poder bancar essa arbitragem, pagar os atrasados e finalizar a competição. Está sendo complicada a vida da Liga, mas os clubes preferem, até pela relação mais humana talvez que nós tenhamos. Veja, esses clubes que estão conosco foram colocados à margem pela federação, foram excluídos. Na Liga os tratamos de maneira respeitosa, decente, reconhecendo que são clubes, entidades e agremiações de prática desportiva que não têm dinheiro, que precisam se reestabelecer e só farão isso a partir do momento em que eles entrarem em campo, tiverem um campeonato, que é o caso da Liga. Esses clubes, Bebedouro, Jalesense, Corinthians de Prudente ficaram jogados de lado pela federação e viram na Liga uma oportunidade. O que eles nos dizem é que não querem saber de federação. A partir de segunda feira [A entrevista foi realizada no dia 25/09, domingo] estreia a TV Liga. Os jogos serão televisionados online.

Universidade do Futebol – Como ela vai se manter se, por ora, é deficitária?

Gislaine – A Liga vai se manter. A maior preocupação era ela passar de cinco jogos. Passou, agora vai. Quando esse campeonato terminar, em dezembro, teremos mais clubes filiados que não participaram neste ano. Então, são mais times que já estão vindo para nós, a Liga vai se manter. Sei que nós vamos conseguir mais patrocinadores. Estamos fechando essa semana [A entrevista foi realizada no dia 25/09, domingo] já com dois deles – um que já é bem conhecido no meio televisivo. Teremos mais patrocinadores, vai surgir o interesse por ela, tenho fé nisso. Se eu não acreditar não adianta nada, entendeu? Sei que nós vamos nos manter. A Liga por si só vai ser viável porque ela não é o meu negócio, é o negócio dos clubes e vai se manter, tenho clareza disso.

Universidade do Futebol – Com patrocinadores? 

Gislaine – Isso. Até porque a gente ainda não tem a televisão. Nós tivemos uma procura da televisão, mas que não foi concretizada. Não sei se houve aí um boicote – o que me disseram é que houve uma retaliação por parte de algumas pessoas ligadas ao futebol. Então, nós não temos uma televisão hoje, mas segunda feira agora [A entrevista foi realizada no dia 25/09, domingo] já começamos a ter as nossas aparições na web. Vou procurar trazer atletas de nome para dar uma entrevista, falar a respeito da Liga. Inclusive, a TV está sendo montada em uma das minhas propriedades também.  Vai ser saudável para a Liga, pois as pessoas vão ter mais contato, saber do que se trata. Teremos uma maior divulgação.

Universidade do Futebol – A Liga se apresenta como um modelo alternativo ao atual, com as federações praticamente monopolizando a organização do futebol, é possível afirmar que o seu surgimento representa uma nova quebra de paradigmas como aconteceu no início dos anos 2000?

Gislaine – Com certeza. A Liga foi fundada dentro da secretaria de esportes. O governo do estado cedeu um auditório para nós, fizemos nossa assembleia de fundação lá. Havia mais de cem pessoas. Quando cheguei ao escritório, após a cerimônia, minha secretária avisou que eu havia recebido uma ligação do Ministério dos Esportes. Retornei, quem tinha entrado em contato era o Rogério Haman, que na ocasião era o secretário nacional do futebol. Ele disse que ligava em nome do ministro para parabenizar pela iniciativa, pela criação da Liga, porque isso fatalmente no Brasil iria acontecer, com todos os Estados, assim como temos na Europa e Estados Unidos. “Acredito que a CBF ficará apenas com o selecionado brasileiro”, ele disse, e se colocou à disposição na ocasião mencionando “você tem o meu telefone pessoal para que os clubes inclusive entrem no Profut”.

Como um clube da Liga vai entrar no Profut se ele não está reconhecido pela CBF? Veja, mais um motivo pelo qual tenho que ter o reconhecimento dela. Aliás, é o contrário: ela tem que reconhecer se estou apoiada pela lei. Para entrar no Profut o que você precisa? Ser uma entidade de prática desportiva. Você só é uma entidade de prática desportiva se tem o futebol profissional e se tem a sua regulamentação dentro do que a lei Pelé determina, o que procurei fazer para a Liga. Os nossos contratos são todos como determina a lei Pelé: contrato de trabalho com rescisão, com cláusula, multa, atestado médico assinado, tudo direitinho. Os atletas têm a sua carteira de identificação, as carteiras profissionais dos atletas todas registradas – pelo menos é o que os clubes nos passam. Pedi para que o jurídico fique a par. Nosso tribunal de justiça segue as regras do código disciplinar brasileiro. Temos o nosso TJD montado, que inclusive funciona em uma propriedade nossa também. Estamos completamente embasados e seguindo todos os requisitos que a lei determina.

Universidade do Futebol – A legislação desportiva brasileira atual atende a todas as necessidades de desenvolvimento do futebol brasileiro? Faltam novas leis? Falta mais fiscalização? Ou os dois?

Gislaine – A lei Pelé era boa quando saiu. Hoje ela foi tão mutilada que precisa de mais ajustes. Tentaram regulamentar o direito de imagem, como se ele tivesse caráter cível se não remetido ao contrato de trabalho, o que é uma tremenda balela. Como você vai fazer um contrato de imagem com todos os jogadores? Contrato de imagem é personalíssimo. Não cabe para todos os atletas, tem que ser para alguns – aqueles que realmente têm a imagem utilizada pelos clubes. A atividade do agente é muito mal regulamentada dentro da lei Pelé, citando que o contrato dura por um ano, que ele não pode interferir. Então acho que a lei carece de vários ajustes, mas o lobby dos clubes é sempre muito forte e aí, quando a categoria vai se manifestar é uma minoria que não tem força.  Todas as vezes que a lei sofreu alteração foi a pedido dos clubes e com um lobby muito incisivo deles. A lei precisa ter a voz dos dois lados, mas no Brasil acho que isso vai ser muito difícil. Até por isso, acho que as ligas vêm muito a calhar nesse momento, onde o futebol sofreu com muitos escândalos. Tudo o que é novo assusta, mas tenho certeza que os clubes se sentirão mais seguros e confortáveis tendo mais voz ativa dentro da Liga. Inclusive vou dizer: depois que nós entrarmos com essa ação, as federações e a CBF vão buscar uma alteração na lei para que as ligas não existam no Brasil, mas aí já vai ser tarde.

Universidade do Futebol – O arcabouço jurídico que sustenta clubes de Futebol – muitos deles criados na primeira metade do século XX, como entidades sem fins lucrativos – pode ser mudado nos próximos anos? Veremos os clubes se transformando em empresa?

Gislaine – Só se houver obrigatoriedade. Na Liga, a maioria dos clubes são empresa. Para eu desconsiderar a personalidade jurídica de um clube, para entrar um dinheiro da conta do presidente, é uma luta. Fora esse leilão da Portuguesa, do estádio que eu penhorei, que o nosso escritório fez esse belíssimo trabalho de conseguir garantir o direito dos atletas através disso, o clube nos deve muito. Fora isso, nós desconsideramos a figura do presidente, do Ilídio Lico. Quando ele era presidente da Portuguesa, entramos na conta dele, penhoramos seu imóvel e a conta da empresa – o que não precisaria acontecer se fossem empresas e respondessem por suas atitudes como na Europa. Acredito que se houvesse uma obrigatoriedade dizendo “a partir de hoje os clubes devem se transformar em empresas, respondendo por seus atos criminalmente, civilmente, etc”, muitos presidentes que dizem que estão nos clubes por amor e que não recebem nada, o que é uma tremenda de uma mentirada, não estariam onde estão. A maioria deles fica para poder receber, sim. Ganhar em cima do clube, largar a sujeira deles lá e depois irem embora deixando o problema para o outro. Vão matando os clubes. Isso aí, sim, é a verdade, e não o dirigente que fala que largou empresa, largou a vida toda porque ama o clube, Isso é conversa, isso é mentira. Se a lei mudasse não ia existir isso.

O tradicional clube paulistano sofre com seguidas quedas de divisão e luta para continuar na ativa.
O tradicional clube paulistano sofre com seguidas quedas de divisão e luta para continuar na ativa.

Universidade do Futebol – É possível imaginar grandes clubes do futebol migrando para a disputa da Liga no futuro e uma liga nacional?

Gislaine – Já está registrada a liga nacional em nosso nome. A federação foi lá e tentou registrar, mas nós criamos a oposição do registro via marcas e patentes, pois a minha intenção, criando todas essas outras ligas, é que nós tenhamos nossa liga nacional, que tenhamos um presidente a altura dela e também para a Liga daqui. Meu período na Liga não é longo, não quero ficar como presidente. Não tenho estrutura para isso – nem emocional, nem idade. Já estou velha, cansei, preciso cuidar da minha família, da minha vida pessoal e a liga consome bastante tempo. Estou na Liga todos os dias, pois é no mesmo prédio onde fica meu escritório. Então sempre que posso fico lá para poder ajudar e orientar.

Como nossa competição é sub-23 alguns clubes grandes não utilizam esses atletas, nós fomos procurados por dois deles que de repente sumiram. Imagino o que deve ter acontecido, mas acredito sim que vai haver. A partir do momento que a Liga crescer, tenho planos internacionais para que a Liga tenha seu campeonato com nossos irmãos em outros países. Já estou em contato com pessoas da Argentina, Colômbia. Acredito que não vai ter espaço para dois – ou fica a Liga ou a federação. Não posso deixar de acreditar, estou lutando para isso. O legado que vou deixar para o próximo presidente é esse, assim como fiz com a lei Pelé.

Fico impressionada como eu não tinha medo na época. Hoje ando com segurança, carro blindado. Antigamente, até por não ter condição financeira para isso, não andava com nada, não tinha medo, a necessidade falava mais alto. Não imaginava o que é um dirigente e o que ele é capaz de fazer.

Tudo isso que eu fiz, modéstia à parte, dentro do futebol com a lei Pelé no Brasil, permite hoje que tenhamos vários profissionais, estudantes, advogados escrevendo seus livros, fazendo seus seminários, como o juiz que trabalhou no caso do Ronaldinho e falou para mim que enquanto eu estava libertando o Juninho Pernambucano “era um estudante que admirava seu trabalho”. Tudo isso se deve a esse desbravamento lá atrás . Se eu tivesse me acovardado, não teria libertado os atletas. Fui a primeira advogada a trabalhar com a lei Pelé, então eu quero fazer isso com a Liga. Fui a pioneira com a criação da Liga no Brasil. Quando criei a Liga, fui até a CBF, deixei lá o estatuto, a ata. Fui muito bem recebida lá e eles  nos elogiaram, disseram que ela estava muito bem constituída. Falaram que a Primeira Liga não foi lá se apresentar, não foi lá dizer “vocês podem me reconhecer?”, e a despeito disso a CBF diz para a FIFA que eu me criei à revelia deles. Mentira. Tenho meu protocolo dizendo que estive lá com o nosso pedido de reconhecimento, isso estou mostrando e juntando no processo. Concluo reiterando que em minha opinião não haverá espaço para dois.

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