Entrevistas

29/05/2015

José Guilherme Oliveira, professor da Univ. do Porto

Foi na Universidade do Porto que tudo começou. Desenvolvida pelo professor Vítor Frade, a Periodização Tática apareceu para o mundo do futebol como uma nova metodologia de treinamento e que propunha a quebra de um paradigma da época, onde os treinos ainda eram baseados basicamente em princípios analíticos e mecanicistas.

José Guilherme Oliveira vivenciou de perto toda essa transformação na maneira de se pensar os treinos no futebol e, décadas depois, ainda é um grande defensor do método que tem entre os seus principais expoentes o atual treinador do Chelsea, José Mourinho.

Licenciado em Educação Física com a especialização em Futebol na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), além do mestrado em Treino de Alto Rendimento, o atual técnico do Porto B já atuou até como assistente da seleção de Portugal, como adjunto de Carlos Queiroz na Copa do Mundo de 2010.

Para ele, a Periodização Tática (PT) é uma metodologia que se diferencia das outras em praticamente tudo. O modo como se olha para o jogo e a forma como concebe o processo operacional para se criar uma equipe são alguns dos fatores que o profissional considera fundamentais deste método.

“A Periodização Tática parte da equipe e vai manipulando os diferentes níveis de complexidade, desde o coletivo até ao individual, passando pelo intersetorial, setorial, e grupal. Isto é, a PT pretende criar, com a articulação dos seus níveis de complexidade e através dos seus princípios metodológicos, um gênero de padronização neural, ou seja, uma padronização de conexões deliberadas, ao longo da semana e das diferentes semanas, que permitem que a equipe e os jogadores adquiram competências para resolverem os problemas que o jogo coloca, expressando-se através das ideias de jogo que se pretende para a equipe”, explica Oliveira.

Para que um treinador possa realmente aplicar a Periodização Tática, um dos pressupostos fundamentais é ter ideias de jogo. São essas ideias e as respectivas interações que possam existir entre elas que vão ser objeto de treino, acrescenta o treinador do Porto B.

“Não quer dizer com isso que a qualidade de jogo seja boa, porque a qualidade de jogo está relacionada com a qualidade das ideias dos treinadores. Se as ideias forem boas e atrativas, os padrões de jogo que a equipe evidencia terão essa matriz. Porém, se as ideias forem de um futebol aborrecido, a manifestação do jogo dessa equipe evidenciará essas características, isto é, também será enfadonho”, completa.

Nesta entrevista exclusiva à Universidade do Futebol, José Guilherme Oliveira ainda aponta o diferencial da formação acadêmica de Portugal em relação à pedagogia adaptada às práticas esportivas. Confira a íntegra:

 

Universidade do Futebol – Qual é a sua formação acadêmica e como se deu sua trajetória no futebol profissional?

José Guilherme Oliveira – Licenciei-me em Educação Física com a especialização em Futebol na Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP), na altura denominada de Faculdade de Ciências do Desporto e de Educação Física. Mais tarde, realizei o mestrado em Treino de Alto Rendimento, também com a especialização em Futebol, e no ano passado apresentei as minhas provas de doutoramento em Ciências do Desporto, que estão relacionadas com o treino de futebol, mais especificamente com “A influência do treino técnico sobre o “pé não-preferido” na redução da assimetria funcional dos membros inferiores em jovens jogadores de futebol”.

A minha trajetória no futebol profissional tem dois distintos momentos. O primeiro teve a duração de 4 anos, aproximadamente, e reporta-se às épocas de 1993/94 a 1996/97, ao serviço do Sporting Clube de Espinho, que participava na II Divisão Portuguesa. Todavia, na época de 1995/96, conseguimos ser promovidos à I Divisão Nacional Portuguesa e, em 1996/97, participamos no principal escalão do futebol português.

A partir dessa data, enveredei pela carreira de treinador principal nos escalões de formação e estive nessas funções até à época de 2007/08, no Futebol Clube do Porto. Em 2008/09, reiniciei a minha experiência no futebol profissional, passando a ser treinador assistente da seleção portuguesa, como adjunto do professor Carlos Queiroz. Mantive-me nessas funções até ao final da nossa participação na Copa do Mundo de 2010, na África do Sul.

Na temporada seguinte, 2010/2011, tive uma passagem muito rápida pela Associação Acadêmica de Coimbra, clube que disputava o Campeonato da I Divisão Portuguesa, mas por motivos de incompatibilidades com alguns jogadores, optei por terminar prematuramente a minha ligação ao clube.

No ano seguinte, voltei a treinar a formação do FC Porto e na época de 2013/14, em virtude de alguns ajustes que o clube fez no seu futebol profissional, fui convidado a ser o treinador do FC Porto B, tendo sido uma experiência muito enriquecedora e, simultaneamente, gratificante.

O erro é um mecanismo primordial no processo ensino-aprendizagem e, consequentemente, na evolução dos jogadores. O processo ensino-aprendizagem pressupõe experienciar e vivenciar um conjunto de contextos para que as equipes e respectivos jogadores estejam capacitados para resolver os problemas que o jogo lhes vai colocar, tanto a nível coletivo como individual, afirma

Universidade do Futebol – A inserção de aparatos tecnológicos para auxílio da comissão técnica já é vista de forma consolidada pelos principais clubes europeus? Se sim, a relação entre custo e benefício é válida?

José Guilherme Oliveira – As exigências que o futebol profissional evidencia atualmente são, de tal forma, grandes que tudo o que seja facilitador do trabalho da equipe técnica e permita uma melhor operacionalização da planificação e do treino, nas suas diferentes vertentes aquisitivas, avaliativas e de recuperação, são sempre positivas.

Face a essas exigências, a oferta de produtos tecnológicos tem-se exponenciado nas várias áreas de intervenção da preparação das equipes e dos jogadores – tática, observacional, fisiológica, médica, análise e avaliação de desempenho, entre outras. Se uns são realmente importantes na melhoria do trabalho, levando a um acréscimo da qualidade de desempenho da equipe e do jogador, outros nem tanto. Surgem por modas, pelo aparato que podem ter ou pelo aproveitamento de algumas aparentes lacunas que possam existir.

Sou da opinião de que as equipes técnicas, tendo em consideração a sua forma de trabalho, devem escolher os instrumentos que lhe são realmente importantes e produtivos. Penso que para umas equipes técnicas, pelos aspetos que assumem como relevantes, serão uns instrumentos, para outras serão necessariamente outros.

Exatamente por esse motivo não são raros os casos em que os clubes fazem investimentos em instrumentos numa temporada e, com a vinda de uma nova equipe técnica, no ano seguinte, esses instrumentos são colocados de lado e são adquiridos outros. No entanto, nos últimos tempos, tem existido uma oferta muito maior de equipamentos com características similares, o que tem baixado consideravelmente os custos.

Não obstante o referido, penso que ainda não existe nenhum instrumento que substitua a nossa capacidade de reflexão sobre os acontecimentos. Pretendo com isto mencionar que a falta de aparatos tecnológicos não deve servir de pretexto para nós não realizarmos, independentemente do contexto onde estamos inseridos, um trabalho de excelente qualidade. Por vezes, a escassez de meios apura muitas competências.
Universidade do Futebol – Qual o diferencial da formação acadêmica de Portugal em relação à pedagogia adaptada às práticas esportivas?

José Guilherme Oliveira – Nos últimos anos, em Portugal, existiu uma evolução muito grande nesse aspecto por dois fatores distintos que, coincidentemente, interagiram e elevaram bastante a qualidade do processo formativo.

O primeiro fator está relacionado com normas legislativas passadas pelo governo português e que se prendem com a obrigatoriedade de todos os treinadores, de qualquer escalão do futebol português, terem o respectivo curso para assumirem o cargo. Esse certificado pode ser tirado na Federação Portuguesa de Futebol, nas Associações de Futebol ou nas Escolas/Faculdades de Educação Física ou de Desporto que estejam habilitadas para fazê-lo.

Esta norma impôs que os clubes fossem obrigados a recorrer a pessoas especializadas e com formação adequada para as funções que tinham de desempenhar. Também teve o mérito de fazer com que as pessoas que já estavam a exercer as funções de treinador, e não tinham formação para tal, tivessem de se certificar, permitindo o aumento considerável dos seus conhecimentos e competências. Ou seja, uma norma legislativa resultou no acréscimo da qualidade da formação dos treinadores em Portugal.

O segundo fator está relacionado com a mudança de paradigma que os clubes tiveram de passar a assumir nos seus escalões de formação. Até alguns anos atrás, a participação dos jogadores nos escalões de formação dos diferentes clubes era gratuita, no entanto, atualmente, a maior parte dos clubes, por dificuldades financeiras, começou a ter necessidade de exigir um pagamento aos seus jogadores, de modo a poderem sustentar a sua formação. Essa mudança de paradigma, no futebol, permitiu um aumento da oferta e, consequentemente, um maior investimento na qualidade das infraestruturas oferecidas, assim como a necessidade de recorrer a treinadores mais qualificados. Desse modo, o recrutamento dos treinadores para os escalões de formação dos diferentes níveis de clubes é assente, na sua maior parte, em jovens licenciados em Educação Física e em Desporto com a especialização em Futebol.

Desta forma, o panorama da formação do futebol português está alicerçado em jovens treinadores com formação acadêmica específica que, na maioria dos casos, têm um passado de jogadores de futebol na formação ou em níveis secundários, pressuposto que não sendo imprescindível, penso ser importante no exercício da profissão.

Relativamente à formação do indivíduo enquanto jogador, penso que a formação geral desportiva não é muito relevante. O que será determinante é a sua formação específica sem que exista especialização precoce, sobretudo, da criança, aponta o treinador e docente José Guilherme Oliveira

Universidade do Futebol – Em sua opinião, quais os conhecimentos e competências o treinador deve possuir para ser um considerado um treinador de qualidade?

José Guilherme Oliveira – A competência de um treinador, atualmente, é multidisciplinar e eclética. Não é suficiente ser muito competente em termos de conhecimento de jogo e de metodologia de treino específica. Tem de ser um ótimo gestor de recursos humanos, porque tem de interagir e maximizar não só o rendimento dos jogadores, mas também dos diferentes elementos da equipe técnica, dos diferentes departamentos que tem ao seu dispor, como o médico, o psicológico, o fisiológico, o de observação, o de scouting, o de análise do rendimento, o de formação, o de informação, o diretivo, entre outros que poderão existir dependendo das equipes.

O treinador atual tem de ser um promotor de sinergias entre os diferentes departamentos de modo a que todos tenham a consciência da relevância do trabalho em equipe para a equipe e, simultaneamente, tenham a liberdade e a capacidade de interagirem para produzirem novos conhecimentos e capacidades, tanto para o respectivo departamento como para o time e o clube.

O treinador também tem de ser um líder, porque os clubes e as equipes necessitam sempre de alguém que indique os caminhos que devem ser seguidos. Se alguns devem ser traçados pelo departamento diretivo, muitos terão de ser pelo treinador e para que todos acreditem, trabalhem e se envolvam num projeto coletivo, é necessário um líder reconhecido por todos pelo mérito das suas ideias e pela capacidade de empreendedorismo que evidencia.

Um outro aspecto que acho muito relevante num treinador de qualidade é a capacidade que tem de transmitir as suas ideias e opiniões, tanto para a massa associativa do clube como para a imprensa. Um treinador deve ter um discurso que permita que os seus adeptos se revejam nas suas ideias e seja um catalisador positivo do envolvimento emocional que os adeptos nutrem pelo clube. Por outro lado, também deve ter um discurso claro, coerente, atraente e consistente para que a imprensa se torne um aliado pelo reconhecimento de uma postura meritória e não encontre contradições nem incoerências no modo de estar e na exposição das ideias ao longo dos tempos.

Uma boa liderança é muito importante tanto para a Periodização Tática quanto para qualquer outra metodologia de treino. Um líder orienta, direciona, motiva e envolve todos os que o rodeiam num projeto comum, mesmo que tenham objetivos individuais diferenciados, explica o profssional português

Universidade do Futebol – Qual a sua avaliação sobre o trabalho de José Mourinho? O que ele representa em termos simbólicos para o país?

José Guilherme Oliveira – O trabalho de José Mourinho enquanto treinador está à vista de todos e é patenteado pelos títulos que todos os anos ele conquista. Mais ainda, para o país e para a classe de treinadores, em Portugal, a relevância do seu êxito ultrapassa o aspecto pessoal para passar a ser nacional.

Com a sua forma de ser e de estar no futebol, com a metodologia de treino que utiliza e faz questão de em determinados momentos a assinalar, com o reconhecimento que foi granjeando ao longo dos anos, conseguiu com que o treinador português fosse reconhecido mundialmente e, a partir do seu êxito, muitos outros treinadores tiveram a possibilidade, também, de se afirmarem em diferentes países europeus, africanos e asiáticos.

José Mourinho é, atualmente, um dos maiores símbolos do desporto nacional português e estou convencido que, no futuro, será reconhecido como uma das figuras portuguesas, nas diversas áreas, que mais permitiu que Portugal fosse reconhecido mundialmente.
Universidade do Futebol – Como você definiria o que é a Periodização Tática e no que ela se diferencia dos outros modelos de periodização? Além disso, quais são os benefícios de usá-la como metodologia de treino?

José Guilherme Oliveira – A Periodização Tática (PT) é uma metodologia que se diferencia das outras em praticamente tudo, porém, existem dois aspectos que julgo serem nucleares. O primeiro é no modo como olha para o jogo. O segundo é na forma como concebe o processo operacional para criar esse jogo.

Não obstante esta minha opinião, não pretendo entrar em discussões de quais os benefícios de uma relativamente a outras, porque penso que essa é uma discussão inócua. Concentra-se a discussão no conflito quando, do meu ponto de vista, deve ser centralizada no esclarecimento para que depois as pessoas possam seguir as suas convicções e ideias. Até porque, antes de existir a PT e mesmo atualmente, existem outras metodologias em que os resultados são muito positivos para quem as utiliza. Como tal, não está em causa a credibilidade de umas relativamente a outras, mas sim em formas diferentes de ver e atuar perante a realidade, que neste caso é o futebol.

Voltando aos aspectos nucleares que referi no início desta questão, a PT olha para o jogo de futebol através de uma perspectiva que se alicerça no paradigma da complexidade. Como nos refere Edgar Morin, existem duas grandes formas de analisar e de intervir na realidade, através do paradigma da simplificação e do paradigma da complexidade.

O primeiro tem acompanhado muitas áreas do conhecimento e é responsável pela evolução dos seus conhecimentos. Evidencia-se pelo isolamento de algumas questões e, posteriormente, pelo estudo exaustivo e minucioso dos problemas levantados. Por sua vez, o paradigma da complexidade caracteriza-se por estudar os problemas sem os isolar, isto é, eles continuam inseridos no seu contexto de expressão. A análise que dele se faz está relacionada, também, com as interações que possam ter com tudo o que o rodeia e que possa existir reciprocidade de influência. Não se pretende dizer que apenas se estude o todo com todas as suas interações. Não!

Também se estuda as partes que constituem o todo, contudo, essas partes são estudadas com as interações de reciprocidade que elas evidenciam no contexto em que se manifestam. Para se perceber melhor esta abordagem, existe a necessidade de se entrar em algumas áreas que não estão diretamente relacionadas com futebol, contudo, ajudam a explicar como as coisas se articulam e emergem em fenômenos complexos, como são os casos da teoria dos sistemas, da teoria do caos, da cibernética, da geometria fractal, das neurociências, entre outras áreas.

Esta segunda forma de analisar e estudar os fenômenos tem particularidades distintas da primeira. Atribui importância a aspectos que, para a primeira, não são muito relevantes e, por sua vez, esta também não confere pertinência a coisas que a outra concebe. Ou seja, estamos perante duas distintas formas de analisar a realidade.

A PT assenta o seu entendimento e a sua construção nesta segunda. Como tal, tem que ser entendida nesta perspectiva e, normalmente, tenta-se ler a PT com o olhar do paradigma da simplificação. Esta é a primeira grande diferença de outros modelos.

Esta forma de interpretação da realidade repercute-se no modo como as pessoas dos diferentes paradigmas vêm e definem os problemas com que têm de lidar. O jogo, o treino, as dimensões do jogo, entre muitos outros fatos, tudo é visto numa perspectiva complexa. Por esse motivo, embora a PT possa evidenciar, em algumas circunstâncias denominações similares, os respectivos conceitos assumem interpretações distintas, porque as “lentes” que se utilizam para a sua interpretação também são diferentes e na maioria das situações incompatíveis.

A segunda diferença está relacionada em como o processo de construção é concebido. Estou consciente de que realmente existem outras concepções de treino que também têm como lógica assente no paradigma da complexidade, contudo, invertem a lógica que a PT utiliza para a construção da equipe.

A PT parte da equipe e vai manipulando os diferentes níveis de complexidade, desde o coletivo até ao individual, passando pelo intersetorial, setorial e grupal. Isto é, a PT pretende criar, com a articulação dos seus níveis de complexidade e através dos seus princípios metodológicos, um gênero de padronização neural, ou seja, uma padronização de conexões deliberadas, ao longo da semana e das diferentes semanas, que permitem que a equipe e os jogadores adquiram competências para resolverem os problemas que o jogo coloca, expressando-se através das ideias de jogo que se pretende para a equipe.

Assim, o que orienta todo o processo de construção são as ideias que o treinador tem acerca de como pretende que a equipe resolva os diferentes problemas com que permanentemente vai ser confrontada. O que modela o processo é o respeito e a interação dos princípios metodológicos

Tendo em consideração a importância que as ideias do treinador assumem em todo o processo, talvez seja pertinente clarificar alguns aspectos para que se fique esclarecido acerca do que se pretende dizer. As ideias vão sendo transmitidas aos jogadores através dos contextos de prática que se vão criando, expressos nos diferentes níveis de complexidade apresentados. Os jogadores com os seus conhecimentos, capacidades e características vão interagindo com essas ideias recriando-as, no entanto, sempre com os padrões gerais – ideias de jogo do treinador – perfeitamente identificáveis.

Por vezes, para melhor explicitar este conceito, costumo utilizar uma analogia com cores. Imaginemos que as ideias de jogo do treinador eram manifestadas pela cor azul. Quando a transmitimos aos jogadores, eles vão captá-las, mas essa percepção está condicionada pelos seus gostos, pelas suas experiências e por muitas outras coisas vivenciadas com a cor azul. Como tal, cada jogador assumirá a cor azul com uma tonalidade que pode ser distinta. Quando essas diferentes tonalidades interagem vai emergir uma nova tonalidade, que também de certa forma poderá ser desconhecida, contudo, será sempre azul.

A criação de um modelo de jogo é um processo idêntico. O treinador transmite as ideias, que serão interpretadas de forma diferente pelos jogadores e a respectiva interação vai fazer com que sejam recriadas, contudo, essas ideias terão sempre a cor azul e nunca amarela, vermelha ou verde. É um processo que na PT se denominou auto-eco-hetero. Como tal, o modelo de jogo é um processo dinâmico e não linear, em permanente construção, que parte sempre das ideias que o treinador tem para resolver os problemas que o jogo levanta.

Outras concepções partem do jogador e vão aumentando o nível de complexidade até chegar à equipe. Isto é, os jogadores, através das suas qualidades, competências e características é que vão direcionar o processo de construção da equipe. As ideias do treinador são secundarizadas pelo protagonismo que os jogadores assumem. Utilizando a analogia das cores anteriormente apresentada, podemos dizer que na PT sabemos qual vai ser a cor final – vai se o azul –, apenas não sabemos qual vai ser a tonalidade, porque essa está relacionada com os processos de interação que emergem da reciprocidade ideias-jogadores-ideias-jogadores. Já em outras concepções não sabemos qual a cor nem a tonalidade que vai surgir no produto final, tudo está muito mais dependente das características e capacidades dos jogadores, as ideias do treinador são secundarizadas.

Com isso, podemos afirmar que são processos de construção da equipe manifestamente diferentes.

Para que um treinador possa realmente aplicar a Periodização Tática, um dos pressupostos fundamentais é ter ideias de jogo. São essas ideias e as respectivas interações que possam existir entre elas que vão ser objeto de treino. Tudo o que se possa fazer no processo de treino é para que essas ideias sejam adquiridas, recriadas e exponenciadas por parte da equipe e dos jogadores, diz Oliveira

Universidade do Futebol – Costuma-se falar que a Periodização Tática nega todo tipo de exercício que não seja pautado na abordagem tática (exercícios com oposição, jogos reduzidos, etc.) isso é verdade? A Periodização Tática pode contemplar exercícios mais técnicos ou até físicos dentro da lógica do modelo de jogo? Se sim, qual percentagem destinada a este tipo de método?

José Guilherme Oliveira – Para responder a esta questão, a primeira coisa que temos de fazer é colocar os “óculos” da Periodização Tática (PT) e, desse modo, entender o conceito de tática para esta concepção.

A dimensão tática normalmente está associada ao plano organizacional da equipe. Porém, na PT, a dimensão tática não é apenas o plano organizacional, tudo o que se faz no jogo é tático. Quando um jogador que se encontra no lado oposto ao da bola se movimenta para abrir espaço, podemos considerar esse movimento como tático. Quando um jogador opta por fazer um passe em detrimento de um arremate, podemos considerar esse passe como tático. Quando um jogador se desmarca rapidamente para poder receber a bola isolado, podemos considerar essa desmarcação como tática. Ou seja, durante um jogo não existe qualquer ação de um jogador que não tenha uma intencionalidade, que surja no abstrato. Tudo acontece em função do que emerge do jogo, como tal, tudo é tático.

É nesta perspectiva que temos de olhar para a palavra tática e não na perspectiva simplesmente organizativa. Isto é, temos de olhar para a tática como uma dimensão complexa que emerge da interação das dimensões organizativa, técnica, fisiológica, psicológica e decisional. Se alguma destas não estiver presente, não existe a dimensão tática. Do mesmo modo, as outras dimensões também devem ser vistas como complexas, contudo evidenciam níveis de complexidade diferenciados.

Como exemplo, consideremos a dimensão técnica. Qualquer habilidade motora específica que se realize no jogo não surge por acaso, tem sempre uma intencionalidade, um objetivo que lhe está adjacente. Nesse sentido, quando estamos a criar contextos de prática cujo objetivo é o desenvolvimento técnico, não devemos esquecer esses pressuposto e, desse modo, criar contextos que deem sentido à habilidade. Esse sentido não deve ser só o jogo no abstrato, deve ser sim o jogo que pretendemos para a nossa equipe, em função das ideias que estão a ser transmitidas. Se o fizermos, tendo em consideração também outras particularidades que caracterizam as habilidades específicas do futebol – abertura, variabilidade, precisão, consistência, variabilidade, flexibilidade e equivalência motora – estamos a respeitar a complexidade com que a dimensão técnica se expressa no jogo de futebol.

Para as outras dimensões acontece exatamente o mesmo. Têm de ser sempre analisadas na sua complexidade e, por esse motivo, se diz que na PT a tática é a dimensão que coordena todo o processo de treino. Mas não é a tática organizativa, é a tática do todo, da equipe.

Vendo as coisas nesta ordem de ideias, penso que será fácil de entender porque é que não devem existir contextos de prática técnicos, físicos ou mesmo táticos que não estejam relacionados como o modelo de jogo que se está a criar.

Penso que ainda não existe nenhum instrumento que substitua a nossa capacidade de reflexão sobre os acontecimentos. Pretendo com isto mencionar que a falta de aparatos tecnológicos não deve servir de pretexto para nós

Comentários

  1. Profile photo of Renato Jardim Renato Jardim disse:

    muito esclarecedor 😉

  2. Denis Alves disse:

    Excelente entrevista.

  3. Profile photo of André André disse:

    ótima entrevista,

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