Entrevistas

14/09/2016

Luis Felipe Castelli – Preparador Físico e Chamador da Seleção Brasileira de Futebol de 5

"Jogar em casa vai ser uma experiência única. Ter a torcida a favor gera uma grande responsabilidade, mas utilizaremos da vibração e energia da torcida à nosso favor"

No Brasil, na década de 50, existem relatos que cegos jogavam futebol com latas ou garrafas. Mais tarde, nas instituições de ensino que os apoiavam, começaram a jogar com bolas revestidas de sacolas plásticas. Nas Olimpíadas das APAEs, que aconteciam em Natal, ocorreu o primeiro campeonato de futebol com jogadores deficientes visuais, no ano de 1978.

Em 1984, ocorreu a primeira Copa Brasil, em São Paulo, porém o Comitê Paralímpico Internacional (IPC), reconhece o campeonato ocorrido na Espanha, em 1986, como o primeiro campeonato entre clubes. Organizado pela IBSA, em 1997, a Copa América de Assunção, foi o primeiro torneio reconhecido na América do Sul, onde participaram quatro seleções (Brasil, Argentina, Colômbia e Paraguai), tendo como grande campeão, o Brasil.

O primeiro mundial, teve como sede o Brasil, em 1998, na cidade de Paulínia, em São Paulo. Vencendo a Argentina na final, o Brasil foi o primeiro campeão mundial na categoria.

Nos Jogos Paralímpicos de Atenas-2004, o futebol de 5 fez sua primeira participação na competição e, como aconteceu no mundial, o Brasil venceu a Argentina nos pênaltis, por 3 a 2. A Seleção Canarinho consagrou-se tricampeã ao vencer mais dois títulos Paralímpicos, em Pequim-2008 e Londres-2012. O atleta Nilson Silva, falecido em 2012, foi o responsável pelo Brasil ser a primeira equipe a marcar um gol em Jogos Paralímpicos.

Luis Felipe Castelli é preparador Físico e Chamador (integrante da comissão técnica que fica atrás do gol adversário orientando os atletas no terço ofensivo do campo) da Seleção Brasileira de Futebol de 5, e concedeu entrevista à Universidade do Futebol para falar um pouco mais sobre a modalidade e as expectativas para os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016.

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Universidade do Futebol- O futebol de 5 é um esporte adaptado para deficientes visuais, mas por que essa regra não se aplica ao goleiro?

Luis Felipe – O futebol de 5 é uma modalidade exclusiva para atletas cegos. A exceção no esporte são para os goleiros, os quais não apresentam deficiência visual. Os principais motivos para isso são: 1º Preservar a integridade física do atleta com deficiência visual, ou seja, no momento em que um atleta realizar um chute no gol (e que geralmente são chutes fortes de distância muito curta), a bola poderia acertar qualquer parte do seu corpo e lesionar, no momento em que colocamos um atleta sem deficiência, minimizamos essa situação; 2º Contribuir na orientação dos jogadores da defesa enquanto a bola está no terço defensivo (regra que será melhor explicada nas próximas perguntas). Se o goleiro fosse cego teria maiores dificuldades para fazer a leitura do jogo, uma vez que sua capacidade de observar as movimentações do jogo estariam prejudicadas. E por fim, o terceiro motivo é proporcionar maiores dinamismo na modalidade através da recolocação da bola em quadra de forma mais rápida e precisa, além de evitar placares elásticos durante os jogos.

Universidade do Futebol – O Brasil foi campeão nas três edições dos Jogos Paralímpicos, em Atenas-2004, Pequim-2008 e Londres-2012. Como vocês estão se preparando para os Jogos do Rio?

Luis Felipe – A Seleção Brasileira de futebol de 5 é atualmente tri-campeã paralímpica (sendo que só tiveram 3 edições em jogos paralímpicos – 2004, 2008 e 2012), tetra-campeã mundial (1998, 2002, 2010 e 2014) e tri-campeã dos Jogos Parapan-Americano (2007, 2011 e 2015). Estamos a 9 anos invictos nos principais campeonatos da modalidade. Em relação aos Jogos Paralímpicos Rio 2016, toda nossa comissão técnica (Fábio Vasconcelos – técnico; Josinaldo Sousa – Auxiliar Técnico; João Paulo Borin – Fisiologista; Vivian Paranhos – Nutricionista e Lucas Leite Ribeiro – Médico) têm se dedicado ao máximo dentro de suas respectivas funções. Sabemos que detalhes podem ser decisivos e estamos trabalhando para que possamos buscar o ouro dentro de casa. A preparação física dos jogadores, na qual eu e o Prof. Dr. João Paulo Borin somos responsáveis, temos como principal meta fazer com que os atletas consigam render ao máximo dentro do sistema de jogo proposto pelo nosso Treinador Fábio Vasconcelos. Para isso, além da prescrição de exercícios de forma individualizada, realizamos constantemente o controle e monitoramento da carga de treinamento e de competição imposta aos atletas. Para isso, utilizamos de recursos tecnológicos como o GPS (parceria que temos com a empresa OneSports), o qual fornece informações acerca da distância total percorrida, o número de ações em alta intensidade, acelerações e desacelerações de cada atleta. Utilizamos também o frequencímetro cardíaco para analisarmos a dinâmica do comportamento da frequência cardíaca de cada atleta em diferentes sessões de treinamento e jogos. Com isso, conseguimos mapear a atuação de cada jogador e direcionamos os treinamentos para aquilo que de fato precisam melhorar, ou seja, aproximamos cada vez mais os treinamentos dos jogos.

Universidade do Futebol – No grupo do Brasil estão a Turquia, Marrocos e Irã. Qual equipe representa maior dificuldade?

Luis Felipe – Todas as equipes que estão na chave do Brasil são equipes muito fortes. Jogamos contra a Turquia na estreia do mundial em 2014, felizmente ganhamos, porém, é uma equipe com nível de marcação muito forte e que sempre surpreende nas competições. Marrocos e Irã são os respectivos campeões continentais, ou seja, estamos em uma chave bem nivelada. São excelentes equipes e que jogam de forma diferente, o que nos obriga a estar preparados para diferentes situações. O treinador Fábio Vasconcellos, além de constantemente observar a forma de jogar das outras equipes, tem se dedicado muito a implantar seu próprio sistema de jogo, o que durante alguns eventos testes resultou em boas atuações e vitórias.

Universidade do Futebol – Você poderia nos falar um pouco sobre os jogadores do Futebol de 5 e suas principais características?

Luis Felipe – Assim como em qualquer outro esporte coletivo convencional, os jogadores de futebol de 5 apresentam bom domínio dos fundamentos técnicos, uma eficiente compreensão do sistema tático e condicionamento físico para suportar a demanda do jogo. Porém, devido à restrição da capacidade de enxergar, os principais jogadores do futebol de 5 apresentam uma boa noção espacial e percepção auditiva, sem essas duas variáveis, seria impossível praticar o futebol de 5. A primeira envolve basicamente a noção do atleta em saber onde está, para onde pode e deve deslocar, saber onde seu companheiro de equipe está localizado, enquanto que, na segunda variável, o atleta deve ser capaz de distinguir e conseguir captar e realizar as orientações dadas do seu técnico, goleiro, chamador e dos seus companheiros de equipe, afinal durante a partida, as orientações da equipe adversária ocorrem simultaneamente.

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Universidade do Futebol – Sendo um esporte Paralímpico, o que foi mantido e o que não foi em relação ao futebol de salão? Quais são as regras do Futebol de 5?

Luis Felipe – O futebol de 5 baseia-se nas regras do futsal. Por exemplo, o jogo é iniciado com 4 jogadores de linha e um goleiro, as substituições são ilimitadas e a dimensão da quadra oficial é de 40x20m (porém, pode ser jogado tanto em piso sintético quanto superfície de madeira ou cimento). As principais adaptações realizadas na modalidade foram: A bola com guizo interno para facilitar com que o jogador identifique a localização da bola; As bandas laterais, que na verdade são estruturas de 1,20m de altura que são colocadas em cima das linhas laterais da quadra, impedindo a saída de bola pela lateral, o que torna o jogo mais dinâmico; O goleiro sem deficiência visual, como forma de preservar a integridade do atleta e a 4) A figura do  chamador ou guia, geralmente representado por um membro da comissão técnica que tem como objetivo principal auxiliar e orientar os atletas durante as ações e movimentações no terço ofensivo. No futebol de 5, a quadra é dividida em 3 setores, no setor defensivo, somente o goleiro pode comunicar-se com seus atletas. No setor central, somente o treinador pode orientar seus atletas enquanto que, no setor ofensivo, somente o chamador (guia) pode orientar os atletas. Caso alguém oriente o atleta fora do seu setor, é demarcado falta. Vale destacar para aqueles que acompanharão nossa equipe durante os Jogos Paralímpicos Rio 2016, que durante as partidas do futebol de 5, os árbitros da partida solicitam aos torcedores que mantenham silêncio no momento em que a bola está rolando para que os atletas não sejam prejudicados dentro de quadra, afinal quanto maior o barulho externo, menor a possibilidade do atleta identificar e conduzir a bola.

Universidade do Futebol – Para você o fator casa, contribui ou atrapalha?

Luis Felipe – Apesar de termos atletas jovens na equipe, todos já participaram nos principais campeonatos da modalidade. Jogar em casa vai ser uma experiência única. Ter a torcida a favor gera uma grande responsabilidade, mas utilizaremos da vibração e energia da torcida à nosso favor.

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