Entrevistas

05/05/2017

Luiz Rigolin, especialista na coordenação de projetos de escola de futebol

As escolas de futebol apresentam inúmeras oportunidades para clubes e empreendedores, um mercado ainda pouco explorado no Brasil

Luiz Rigolin é Doutor em Educação Física e autor do livro “Desempenho esportivo: Treinamento com crianças e adolescentes”. É especialista na coordenação de projetos de escolas de futebol e instrutor dos cursos da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), ministrando a aula “Gestão de Escolas de Futebol” no módulo de gestão e didática no ensino de futebol e detecção de talentos no curso da Licença C. Referência no assunto, Rigolin esclarece como se estruturam as escolas de futebol no país, suas possibilidades dentro de um modelo de negócio para os clubes e os processos pedagógicos que podem auxiliar no desenvolvimento do futebol brasileiro.

Universidade do Futebol – Qual sua relação profissional com o futebol?

Luiz Rigolin – Minha relação profissional é restrita às escolas de futebol. Sou instrutor da licença C da CBF, que é a licença específica em escolas de futebol, e além disso tenho uma empresa, a Fity, que trabalha com consultoria e assessoria para escolas de futebol. Já atendemos clubes como o Corinthians, Bahia, instituições como a CBF e jogadores como o Neymar. A ideia do trabalho que temos feito para escolas de futebol é prestar uma consultoria bem ampla nas áreas administrativa, de marketing e pedagógica, apresentando soluções para que os clientes possam desenvolver melhor o negócio.

No Corinthians, por exemplo, efetuamos várias mudanças na forma do trabalho do Chute Inicial [a escola de futebol do clube], desde o desenvolvimento de metodologias até um novo processo de gestão. Desenvolvemos também um modelo de negócio para as escolas de futebol da CBF e atualmente prestamos uma consultoria para o grupo Sforza, que é quem vai fazer o trabalho da escola do Neymar, tanto para questões administrativas quanto para questões pedagógicas. Já desenvolvemos manuais e DVDs instrutivos para pais, a quem interessar, é possível acessar esse material no site da Fity.

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Universidade do Futebol – O que diferencia a prática entre instituições focadas no alto rendimento e as que pensam no futebol educacional?

Luiz Rigolin – Grande parte das escolas de futebol está centrada em rendimento. O que acontece é que de acordo com o branding dessas escolas, de acordo com a identidade, com a filosofia delas, algumas costumam dizer que agregam outros valores como educação, cidadania e ética. Em algumas escolas você realmente consegue ver esses valores, mas outras é muito difícil. Encontrar escolas que tenham foco educacional, só educacional, é muito raro. Isso se explica pois, se você for pensar em termos de mercado, não sei como uma escola conseguiria se enquadrar trabalhando estritamente com esse foco.

Aquelas que têm um foco mais educacional são desenvolvidas dentro das escolas formais de ensino fundamental e médio, como é um projeto que a gente tem hoje chamado “futebol escola”. É um projeto pioneiro que estamos lançando no Brasil, no qual unimos o desenvolvimento motor, do futebol e o educacional.

Universidade do Futebol – Qual a contribuição das escolas de futebol para a formação de jogadores de alto rendimento atualmente?

Luiz Rigolin – Ainda é pequena. Dos jogadores que chegam ao alto rendimento, poucos passaram por escolas de futebol. A maioria deles aprende a jogar futebol em locais que não são institucionalizados, aparecem meio que por acaso, não é algo que foi feito dentro de uma escola de futebol. Porém, em razão da violência e também desse processo do aumento da densidade demográfica que acontece com a construção de muitos prédios nas cidades, a conurbação, com a questão da tecnologia, cada vez mais as escolas vão ser responsáveis por formar esses jogadores. No futuro breve não vai haver espaço para que o futebol se desenvolva de maneira livre como vinha sendo desenvolvido até hoje. Com certeza, daqui a um tempo, a escola de futebol vai ser mais responsável por formar esses jogadores de alto rendimento.

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Universidade do Futebol – Como é possível aperfeiçoar esse processo?

Luiz Rigolin – A primeira coisa que deveria acontecer no futebol é a gente perder menos tempo com essas polêmicas como a que foi levantada pelo Renato Gaúcho, que disse ter ficado na praia o tempo inteiro, que não precisava fazer cursos na Europa para poder dirigir uma equipe. Acho, também, que é preciso um pouco de cuidado para analisar a declaração, porque ele mesmo explicou que a intenção era dizer que não adianta ir até a Europa, ficar uma semana e falar que se aperfeiçoou. Concordo com ele nesse sentido, pois uma semana não vai mudar a sua vida. Porém, ao mesmo tempo, acho importantíssimo os profissionais se conscientizarem cada vez mais que saber fazer não significa saber ensinar. Se você pegar uma criança ou um adolescente que tem dificuldades de executar um movimento simplesmente olhando, seria necessária uma didática, uma pedagogia para poder ensinar de outras formas. Você teria que criar exercícios para conseguir adequar essas dificuldades a outra maneira de ensinar. O futebol tem que deixar de lado um pouco essa questão de teóricos e práticos porque os extremos, na verdade, são negativos. Hoje a demanda é por profissionais que tenham experiência com o futebol e ao mesmo tempo busquem conhecimento para se desenvolver.

Está ficando cada vez mais claro, não só aqui como em outros países, que só a experiência prática não é suficiente para ser um bom profissional. O sujeito que vem da prática, e que de repente só pensa em prática por prática, precisa entender que o fato de ele saber fazer não significa que ele saiba ensinar. Para saber ensinar você precisa dominar muito bem a didática e a pedagogia, não simplesmente saber executar um fundamento do futebol ou um posicionamento tático. A criança que tem muita habilidade ou facilidade em aprender vai conseguir, de repente, aprender simplesmente olhando. Porém, a maioria vai precisar de processos pedagógicos e didáticos para que ocorra a aprendizagem. Esse aperfeiçoamento vai acontecer quando os profissionais buscarem cada vez mais conhecimento no lado teórico e vivências no lado prático, para que o seu trabalho seja desenvolvido com uma qualidade cada vez maior.

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Universidade do Futebol – Como as escolas de futebol contribuem para o incentivo da prática pelas garotas?

Luiz Rigolin – As escolas de futebol para o feminino ainda são feitas em iniciativas mais pontuais, de ex-jogadoras de futebol que têm escolas de futebol feminino, de algumas escolas que têm turmas mistas, enfim… O que vejo é que esse é um nicho de mercado adormecido que tem muita demanda. Tem muita menina querendo jogar futebol, e você consegue ver isso nas escolas de ensino fundamental e médio. Acho que é um caminho muito bom para se investir, mas é preciso um programa que venha da confederação, das federações, ligas e clubes, para você chegar a ter a escola. Pelo que li recentemente, parece que a CBF colocou algo em seu estatuto que até 2019 os clubes vão ter que ter o futebol feminino [na verdade os clubes da Série A deverão manter equipes de futebol feminino já em 2018 para participar da competição nacional]. Acredito que as federações vão caminhar para o mesmo sentido e no caso específico de escolas acredito que a gente tem que começar um processo de abandonar um pouco do preconceito que existe.

Universidade do Futebol  – Em quais pontos é possível melhorar nesse sentido?

Luiz Rigolin – Faço um paralelo com o que aconteceu na década de 80 com relação a meninos jogarem vôlei. Na época se dizia que era um esporte mais para meninas e o vôlei superou isso: hoje não tem mais nada a ver essa história de que só menina joga vôlei. Afinal de contas, temos vários títulos no masculino, foi um esporte que praticamente encantou o Brasil. Acho que o caminho do feminino é o mesmo. Temos que, por iniciativas particulares ou em conjunto, investir tempo, dinheiro, conhecimento e experiências nessa área que é uma demanda muito importante da nossa sociedade. Tem que haver um processo de investimento, de desenvolvimento e aperfeiçoamento de profissionais para trabalhar com esse nicho. É preciso ter uma preocupação com o preconceito, no sentido de desmistificar e acabar com ele.

Universidade do Futebol –  É possível conciliar em um mesmo ambiente da escola de futebol estudantes com deficiências físicas e cognitivas e outros que tenham potencial para o alto rendimento?

Luiz Rigolin – Não sou especializado nessa área, alguém especializado no ensino do esporte para crianças com deficiências físicas e cognitivas pode contribuir mais com essa resposta, mas como no “futebol escola” temos essa área, contamos com uma consultoria para isso, então posso dividir algumas dessas informações. O que a minha consultora diz é que é sempre muito importante você possibilitar a aula das crianças com deficiência físicas ou cognitivas em conjunto com as outras, mas você tem uma série de questões aí em jogo. Ponto número um: o professor que vai trabalhar tem que ter conhecimento para isso, caso contrário ele não vai conseguir ministrar essa aula. Ponto número dois: na medida em que o professor não souber conduzir a aula e ocorra alguma dificuldade, por exemplo, essas crianças com deficiências físicas ou cognitivas não conseguirem acompanhar os exercícios sugeridos para as crianças que não possuem a deficiência, isso pode gerar um grande problema. Aquelas que não têm a deficiência podem querer sair da aula para buscar algo do nível delas, e as que têm deficiência podem se sentir rejeitadas seguindo o mesmo caminho. Então, para resumir essa questão, é preciso que existam momentos específicos só das crianças deficientes e das tidas como normais. A mistura pode acontecer eventualmente e tem que ser acompanhada por um profissional muito bom que entenda as demandas de todos os indivíduos. Caso o contrário, a experiência não será bem-sucedida, posso afirmar isso, pois já vivi a situação na prática.

Universidade do Futebol – Como os clubes podem usar escolas de futebol dentro de um modelo moderno de negócio?

Luiz Rigolin – A primeira coisa que os clubes precisam entender, e que poucos deles dão importância ou entendem, é que uma escola de futebol, inicialmente, formaria os torcedores do clube. Se uma criança chega ali, é bem tratada, tem uma boa aula, já começa a gostar do clube. Em alguns casos ela tem possibilidade de entrar como mascote, com a equipe profissional e pode se aproximar ainda mais. O que vejo é que, ou pelos clubes não darem muita importância para as escolas de futebol ou por elas não serem gerenciadas de maneira profissional, o modelo de negócio das escolas de futebol no Brasil acaba sendo ainda muito incipiente. Primeiro porque eles falam que é um sistema de franquia, mas se você for ver os contratos, a forma com que se constrói a relação comercial não justifica um trabalho de franquia. O que acontece é, no máximo, um sistema de licenciamento. Além disso, vejo que eles estão muito preocupados com a quantidade e pouco preocupados com a qualidade. Eu, por exemplo, pensaria em, em vez de abrir centenas de escolas, investir em grandes centros de excelência em que fosse feito o trabalho com qualidade. Seria agregado muito mais valor financeiro e à marca do clube. Atualmente, o que acontece é que o clube empresta a marca dele para a maior parte dos proprietários fazerem das escolas aquilo que eles acharem melhor. Essa relação entre clubes e proprietários de escola não é tão profissional, em minha opinião eu diria até que é pouco profissional. Justamente a partir do momento que eles melhorarem essa relação, tornarem isso um pouco mais profissional, com certeza, o processo de formação de futuros jogadores pode melhorar. Acredito que a renda que essas escolas podem fornecer ao clube ajudaria a sustentar boa parte ou até a totalidade das suas categorias de base. Você tem vários valores que as escolas de futebol podem agregar ao clube, formação de jogadores, torcedores e até ajudar a bancar financeiramente a estruturação das categorias de base, mas acredito que eles precisam melhorar muito o modelo de negócio que apresentam hoje.

Universidade do Futebol – A diminuição da idade da formação vem sendo muito discutida. Qual sua opinião sobre o assunto e qual o lugar das escolas nessa discussão?

Luiz Rigolin – Sou contrário à especialização precoce no futebol. Se assim for, a criança vai seguir um único caminho. Em caso de insucesso no futebol, como ela não teve o desenvolvimento motor, por exemplo, dos membros superiores, do tronco, de outros movimentos que vão além do futebol, de maneira adequada, quando ela tiver 12, 13 anos, perceber que não tem aptidão para futebol e quiser migrar para outra modalidade, inclusive de maneira competitiva, já vai ser tarde demais. Porém, essa questão é muito ampla. Só para ilustrar a complexidade do tema, eu abordo o tópico em um livro meu de 500 páginas [o livro a que Rigolin se refere é o “Desempenho esportivo. Treinamento com crianças e adolescentes”]. Outra questão importante é que não há como garantir que uma criança que comece mais cedo no futebol vá se tornar craque por isso. Provavelmente, mesmo que ela começasse a se especializar com 12 ou 13 anos, mas tivesse passado por um programa esportivo mais geral, em várias modalidades, que daria uma vivência motora para ela, seria possível vê-la se tornando um grande talento. Então, não dá para responder essa pergunta de maneira reducionista.

Sobre o papel da escola nesse processo de especialização precoce, acredito que na escola é bem importante você fazer um trabalho de conscientização com os pais. Não só da importância desse trabalho de desenvolvimento e coordenação motora, que isso vai ser aproveitado pelo adolescente, pelo adulto, para o futebol e para sua vida de maneira geral, mas também fazendo entender que esse trabalho menos específico ajuda muito no futebol. Todos os programas que a gente tem desenvolvido, toda a metodologia, tem uma preocupação muito especial com esse detalhe. Se você não fizer isso, a priori eles vão te cobrar, falar que colocaram os filhos na escola para aprender futebol e não outras coisas. Na escola você tem muito mais abertura para fazer esse trabalho de desenvolvimento motor do desenvolvimento das habilidades motoras básicas da coordenação do que você teria na base, porque na base o trabalho já é mais especializado.

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Universidade do Futebol – O que é possível melhorar no ambiente das escolas para que o processo de ensino do futebol possa ser mais saudável para crianças e adolescentes?

Luiz Rigolin – É um processo longo. É preciso que exista uma melhora na parte de gestão das escolas pelos clubes e também do processo de gestão dos proprietários das escolas de futebol. Existem escolas nas quais o proprietário atende o pai, dá aula, faz a limpeza do banheiro, praticamente faz tudo, e isso não é um processo profissional, é amador. É preciso também qualificar cada vez mais os professores. Em minha opinião, se existe um lugar em que deve haver uma preocupação em se ter educadores e não simplesmente boleiros, esse lugar se chama escola de futebol. Justamente por ser uma escola, investir nisso deve ser um princípio. Vejo de maneira otimista essa última pergunta, até por ser instrutor da licença C e ver que as pessoas estão buscando conhecimento, a frequência com que sou procurado para coordenar grupos de estudos para escolas de futebol vem aumentando, vejo que as pessoas estão preocupadas – pelo menos algumas delas. Conseguindo entender essa necessidade, elas vão estar à frente das outras, percebendo aos poucos que a formação nas suas escolas se dará de uma maneira mais efetiva e que seu negócio vai se tornar mais produtivo em termos financeiros. Acredito que esse é o futuro.

 

*Revisão: Guilherme Costa

Comentários

  1. Bernardo disse:

    Nem acho que o mercado TAO pouco explorado aqui…mas deve crescer sim!

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