Entrevistas

03/02/2017

Marcelo Massa, doutor em Educação Física

Como o efeito da idade relativa pode prejudicar a seleção e formação de jogadores de futebol

Com mestrado e doutorado em educação física pela Universidade de São Paulo – USP – na área de Biodinâmica do Movimento Humano, o professor Marcelo Massa investe grande parte de seus estudos no esporte de alto rendimento, tentando entender como se dá a detecção, seleção e promoção de talentos esportivos. Suas pesquisas se baseiam em conhecimentos sobre o crescimento e desenvolvimento humano, desenvolvimento motor e o treinamento em longo prazo.

Líder do grupo de estudo e pesquisa em capacidades e habilidades motoras – GEPCHAM – da USP, é uma das referências quando o assunto é o efeito da idade relativa, fenômeno que ocorre em larga escala em esportes com muitos praticantes, como é o caso do futebol, distorcendo o processo de seleção e formação de jogadores. O efeito da idade relativa é o tema central da entrevista concedida pelo professor à Universidade do Futebol.

Universidade do Futebol – Qual sua relação pessoal e profissional com o futebol? 

Marcelo Massa – Desde a minha primeira infância gostava muito de jogar futebol. Aos 11 anos comecei a jogar nas equipes do Juventus. Eu vinha em uma ascensão muito positiva lá, mas, curiosamente, por volta dos meus 13, 14 anos, comecei a ficar um menino muito pequeno, franzino e com baixa estatura. O treinador da equipe na época conversou com meus pais dizendo “olha, seu filho não vai crescer, futebol não é mais para ele. O futebol mudou, agora a gente precisa de garotos mais fortes. Ele vai continuar aqui participando, mas não vai ser mais tão aproveitado”. Isso refletiu de maneira bastante negativa na minha motivação em continuar tentando um futuro no futebol, porque acreditei muito no que esse treinador estava falando. Porém, ele não era formado em Educação Física, era um ex-jogador de futebol, não tinha muitos conhecimentos acerca do crescimento, desenvolvimento, maturação, estava baseado exclusivamente naquilo que ele achava. Não tinha noção nenhuma da avaliação, do prognóstico de desenvolvimento da criança e do adolescente.

Aquilo pra mim foi muito complicado. Por sorte o que aconteceu é que acabei ficando um bom tempo no banco de reservas e o técnico do XV de Jaú acabou vindo conversar com o meu pai. Nós tínhamos ido fazer um jogo contra eles, e como eu fiquei no banco ele foi questionar a razão disso, pois costumava me acompanhar jogando. Meu pai explicou o que o meu técnico havia dito e aí esse treinador discordou, disse que eu ainda tinha muito a desenvolver, que eu estava apenas passando por uma fase e iria ficar tão grande quanto os outros ou até maior. Ele fez um convite para o meu pai, para que ele me autorizasse a jogar no XV de Jaú e como o Juventus realmente não via nenhuma perspectiva em mim eles acabaram me dando a liberação. Saí bastante desacreditado do Juventus e em nenhum momento o que pesou foi o futebol e sim o tamanho.

No XV comecei a ter uma perspectiva renovada de poder me tornar um jogador de futebol profissional. Fiquei mais ou menos oito meses na equipe e após um jogo, se não me engano do Campeonato Paulista ou alguma Taça São Paulo, uns olheiros japoneses fizeram uma proposta para que eu pudesse ficar no Japão por dois anos, o que realmente aconteceu.

Clube por onde Marcelo passou disputa atualmente a J-League, primeira divisão japonesa. Crédito: Yokohama Marinos - Site Oficial – Divulgação
Clube por onde Marcelo passou disputa a J-League, primeira divisão japonesa. Crédito: Yokohama Marinos/Site Oficial/Divulgação

 

Acabei tendo essa oportunidade de jogar no Japão em 1988, antes de o Japão se tornar um regime de futebol profissional, na época tudo era semiprofissional. Fui para um clube que na época se chamava Nissan, da fábrica de carros, que quando se profissionalizou passou a se chamar Yokohama Marinos. Tive experiências muito interessantes para a minha vida, fui para lá com 17 anos de idade, muito novo, e depois desses dois anos acabei retornando para o Brasil. Voltei a jogar no XV de Jaú, mas não fui aproveitado.

Na medida em que eu vi que não estava avançando, fui ficando desgostoso, perdendo o prazer pela prática do futebol nesse ambiente, que sabemos ser, ainda nos dias atuais, tão difícil, cheio de oportunistas, de pessoas com outros interesses atravessando o seu caminho.

Chegou uma hora em que pensei se deveria continuar insistindo ou procurar uma carreira mais consistente. Acabei tendo essa decisão solitária de parar de jogar e ir estudar. Não tive muito apoio do meu pai, meus amigos também não queriam que eu parasse de jogar. Foi uma decisão bem difícil, na época sofri muito, mas acho que foi a mais acertada. Deu tempo de, com 22, 23 anos, entrar na faculdade de Educação Física. Durante o curso fui descobrindo uma série de conhecimentos relacionados às Ciências do Esporte que me fizeram entender muitas coisas que tinham acontecido comigo durante os anos da minha infância e adolescência. Sem dúvida nenhuma senti na pele uma série de consequências decorrentes dessa prática que não era fundamentada e que de fato desgastava os jovens tanto física quanto emocionalmente. Infelizmente sou produto disso tudo, mas isso me abriu uma serie de janelas dentro da universidade. Não por acaso comecei a estudar o ambiente onde o talento se desenvolve, tentando entender a complexidade dos fatores que estão nesse contexto. O que me leva hoje em dia a continuar estudando o assunto, contribuindo de alguma maneira para a formação de conhecimento nessa área.

Hoje em dia atuo na USP no curso de Educação Física e Saúde, sou líder de um grupo de pesquisa na área de capacidades e habilidades motoras e vice-líder de outro grupo na área de adaptações biológicas ao exercício físico. Nesses grupos mantenho uma linha de pesquisa que mais me dá prazer, justamente aquela sobre o processo de treinamento em longo prazo e o talento esportivo. Procuro dentro dessa linha estabelecer alguns tipos de parcerias com outros docentes, colegas daqui dos grupos e também com profissionais que atuam no esporte. Tivemos a possibilidade de manter uma parceria consistente, que durou cerca de três anos, com a base do São Paulo em Cotia. Lá pudemos fazer uma série de trabalhos e observações, entre elas das questões da maturação biológica, do efeito da idade relativa e do quanto isso interfere no processo de seleção e promoção de talentos nas categorias de base do São Paulo e, consequentemente, do futebol não só brasileiro como mundial.

Universidade do Futebol – O que é o efeito da idade relativa? 

Marcelo Massa – O efeito da idade relativa reside na observação de que sujeitos nascidos nos primeiros meses do ano tendem a ter vantagens sobre aqueles nascidos nos últimos meses. Essas vantagens se desenvolvem principalmente nos anos entre a infância e a adolescência. Então, teoricamente, quem nasceu no começo do ano, por exemplo, em janeiro, tem cerca de 300 dias a mais de desenvolvimento quando comparado ao sujeito que nasceu no mesmo ano, porém em dezembro. Logo, o sujeito mais velho tende a apresentar algumas vantagens.

Essas vantagens podem se desdobrar tanto sobre as questões biológicas como também comportamentais. No âmbito biológico, o sujeito que nasceu no começo do ano, nessa fase de adolescência, quando comparado ao que nasceu no final do ano, terá esses 300 dias a mais de desenvolvimento. O que pode repercutir no seu crescimento em estatura, sendo mais alto, mais pesado, com uma maior concentração de testosterona, que contribui para o desenvolvimento da força e uma maior valoração nos testes de impulsão, velocidade, agilidade, potência e força. Teoricamente, o sujeito nascido no começo do ano tem grandes chances de ser momentaneamente mais alto, mais pesado, mais forte, mais ágil e ter mais potência.

Isso, em um ambiente competitivo, faz com que ele tenha grande vantagem no desempenho esportivo. Se a gente imaginar que no futebol existe uma disputa de espaço, contato físico, em uma bola em profundidade você depende da velocidade, em uma disputa de bola você depende da força, fica fácil de entender que esses sujeitos tendem a ter vantagem. Isso sob o prisma biológico.

Quando a gente pensa nas questões comportamentais, que também são afetadas pelo efeito da idade relativa, o raciocínio é o seguinte: O sujeito que nasceu no início do ano tem maior tempo de prática. Ele tem mais horas de treinamento, experiência e aprendizado do que o que nasceu no final do ano. Logo, ele tende a ter melhores respostas táticas e técnicas no campo de jogo, tomar decisões melhores, resolver problemas de maneira mais inteligente, ser mais criativo. O efeito da idade relativa é um pacote que faz com que os sujeitos que nasceram no começo do ano não sejam apenas mais fortes, velozes, mas também mais capazes de resolver problemas, tomar decisões e serem mais criativos.

Quando somamos tudo isso, percebemos que ele tende a ser um sujeito que se avalia melhor, com uma autoestima melhor e uma percepção de competência mais elevada, mais encorajado. Não somente por ele sentir isso, mas pelo próprio sistema, os professores, treinadores, família, todo mundo acaba encorajando muito mais esse sujeito do que aquele que nasceu no final do ano, que acaba sendo aquele que até joga bem mas é fraquinho, não consegue chegar na bola, perde a bola com facilidade…

O que nasceu no final do ano é taxado como o fraquinho, e o que nasceu no começo como o talentoso, só que o grande risco de todas essas observações é que elas valem apenas para o momento. O sujeito que nasceu no começo do ano não é necessariamente o mais talentoso, ele é o que naquele momento está respondendo melhor ao que está sendo cobrado dele. O que nasceu no final do ano não necessariamente vai ser o eterno fraquinho, naquele momento ele não está respondendo tão bem porque ele não está tão maduro, ainda não está tão preparado, não tem tanta experiência. Na verdade, quando a gente leva essa avaliação ao pé da letra corre um grande risco, pois pode estar superestimando quem nasceu no começo do ano, subestimando quem nasceu no final e, dessa forma, errando com todos.

Por isso, a gente observa no futebol mundial que a maioria dos atletas que chega ao alto nível é de sujeitos que nasceram no primeiro trimestre do ano. Existe percentualmente um número muito menor de atletas de futebol nascidos no final do ano. Isso demonstra na prática que, não só no Brasil, mas no mundo, isso tem sido distorcido, infelizmente, nas categorias de base.

Houve uma busca muito grande nas últimas décadas por sujeitos que fossem altos, fortes, em detrimento da seleção e promoção de talentos. Começaram a procurar equivocadamente adolescentes que já fossem altos e fortes, descartando os outros sujeitos que por não terem respostas tão contundentes na adolescência foram deixados de lado e desmotivados no processo de promoção de talentos.

Universidade do Futebol – Então o processo de formação de jogadores favorece mesmo os mais velhos… 

Marcelo Massa – Na verdade a gente pode até estender para outras áreas. O efeito da idade relativa não é exclusivo do futebol, nem do esporte. Se a gente for observar desempenho escolar, existem pesquisas mostrando que alunos nascidos no começo do ano tendem a ser melhores. Outros estudos mostram que CEOs de empresas multinacionais, os grandes executivos têm uma tendência a serem  nascidos no começo do ano. Esse fenômeno do efeito da idade relativa está presente em vários domínios do conhecimento. No futebol ele tem se expressado de uma maneira muito contundente por ser uma modalidade esportiva muito praticada, com muita demanda. Temos centenas, milhares de jovens disputando uma vaga de jogador de futebol profissional, isso faz com que o efeito da idade relativa fique ainda mais forte, porque o selecionador muitas vezes não tem o preparo e acaba pegando aquele que está mais pronto no momento. No momento esse jovem vai responder muito bem, é capaz até que ele seja campeão nas categorias de base em função disso, mas no médio prazo ele tende a estabilizar o desempenho e aí ele acaba ficando pelo caminho.

O que a gente vê é muito isso: uma equipe ganhando tudo nas categorias de base e quando você vai observar quase ninguém foi promovido para o profissional. Ou seja, sujeitos que foram escolhidos sob o efeito da idade relativa, de uma maneira inconsciente, por quem estava selecionando. O profissional muitas vezes não está alerta quanto a isso, não leva em consideração o momento, não faz uma análise mais profunda e coloca em xeque todo o processo de promoção de talentos, é um prejuízo enorme. Quem atua na base tem que saber realizar um trabalho detalhado e profundo para entender o desempenho daquele jovem que ele está observando.

Para saber se aquele jovem está respondendo bem única e simplesmente porque está sob o efeito da idade relativa ou se ele está respondendo bem porque de fato tem um bom prognóstico de desenvolvimento futuro que o fará chegar ao profissional.

Universidade do Futebol – Como uma comissão técnica pode, entre aspas, adivinhar qual o estágio de desenvolvimento de cada jogador? 

Marcelo Massa – Isso não requer adivinhação. Hoje em dia temos recursos das ciências do esporte para poder observar cada sujeito dentro dessa complexidade. A data de nascimento, por exemplo, não é preciso nenhuma tecnologia sofisticada para saber, é só pegar o RG do garoto. Nas ciências do esporte existem maneiras de saber índice de maturação biológica. Dá para saber também qual o tempo de prática que ele tem, quando começou, através de um inventário ou anamnese. Com isso você coleta informações que vão além daquilo que está sendo observado no campo de jogo em que está acontecendo o teste, ou a popular peneira. O selecionador, infelizmente, às vezes é aquele sujeito que fica ali na beira do campo, que fica na arquibancada, e que não está levando mais nada em consideração. Essa prática não contribui, ao contrário, prejudica muito o processo de promoção de talentos. É fácil saber quem é bom hoje, qualquer um sabe. Qualquer um que sentar na arquibancada, mesmo sem ter nenhuma formação específica, vai ver o jogo e identificar quem rendeu melhor naquele dia, não precisa ser profissional para fazer isso. Agora, saber quem vai ser bom daqui dez anos de treinamento, crescimento, desenvolvimento e maturação, requer uma avaliação mais profunda.

Hoje em dia isso é muito difundido nos cursos de educação física e esporte, os grandes clubes possuem profissionais que dominam esse conhecimento, talvez o que falte seja colocar em prática, porque as avaliações não requerem um aparato de última geração, nem exames laboratoriais sofisticados. Conseguimos, até com certa facilidade, observar essas variáveis que interferem na seleção do talento e aí vamos diminuindo os erros. Senão é como brincar de deus, de ser adivinho, enfim… O que é muito perigoso.

Universidade do Futebol – O efeito da idade relativa impacta diferentes modalidades e meninas e meninos de maneiras variadas?

Marcelo Massa – Sobre o efeito da idade relativa, quando pensamos em esporte, a maioria dos estudos têm sido feita sobre o futebol. O futebol realmente exerce uma atração muito forte, pela valorização cultural que existe da modalidade. Quando buscamos estudos em outras modalidades esportivas, também podemos encontrar o efeito da idade relativa, por exemplo, eu mesmo tive o prazer de participar de uma publicação em que fizemos um estudo com os cem melhores tenistas de cada ranking mundial e encontramos o efeito da idade relativa também no tênis. Fora do Brasil tem alguns estudos feitos no rugby e em outras modalidades, dependendo da valorização cultural que ela tem em determinado país, isso tende a reforçar o efeito da idade relativa. É aquela ideia, quanto mais gente procurando, mais forte é o impacto da seleção e aí, se o selecionador não estiver devidamente atualizado e preparado para fazer a seleção, ele vai acabar distorcendo e pegando quem está mais alto e mais forte.

Então, o efeito da idade relativa tende a ocorrer também em outras modalidades, mas isso vai depender muito do quanto ela é valorizada naquele país. O rugby no Brasil começou agora, é uma modalidade que exige muito do tipo físico. A gente poderia imaginar que nesse esporte tenha efeito da idade relativa, afinal de contas, quem está selecionando os atletas deve estar bastante preocupado com força, potência e tudo mais… Só que eu estou com alguns dados preliminares sobre o rugby no Brasil que não apontam o efeito da idade relativa no país. Será que os profissionais que trabalham na modalidade estão fazendo uma avaliação melhor do que aqueles que trabalham com o futebol? Não necessariamente, muito se deve ao fato de que no país o rugby ainda é uma modalidade que está no estágio inicial de desenvolvimento. Hoje em dia a demanda que existe para você ser um atleta de rugby não é tão forte quanto no futebol. Isso faz com que ele seja menos criterioso na hora de selecionar os seus talentos, gerando oportunidades sem discriminar altura, força, ao contrário, quanto mais gente estiver se aproximando do rugby no Brasil, melhor. Essa modalidade está em um estágio tão inicial que as pesquisas têm mostrado isto, nas nossas equipes de rugby não existe o efeito da idade relativa.

Quando a gente compara masculino e feminino, o feminino não tem tão forte aquele fator biológico da testosterona, óbvio. Na mulher o hormônio que desempenha papel fundamental para o seu desenvolvimento são os estrógenos, e eles não provocam o aumento da massa muscular, tampouco da potência, velocidade, enfim… O efeito da idade relativa na mulher, pela questão biológica, é mais ameno, não é tão decisivo. Porém, isso não exclui toda aquela questão das horas de prática, experiência, tempo de treinamento, vivência… Existem menos estudos no feminino, mas alguns estudos que foram feitos apontam o fenômeno. Para citar um desses, existe um trabalho bem interessante de iniciação científica feito na Escola de Educação Física e Esportes daqui da USP, onde uma aluna da graduação fez um trabalho com basquetebol feminino no Brasil e verificou o efeito da idade relativa. Ainda é um cenário que merece ser mais estudado, explorado.

Universidade do Futebol – Como trabalhar da melhor maneira possível a facilidade dos mais velhos e a dificuldade dos mais novos no processo de formação sem prejudicar nenhum dos dois? 

Marcelo Massa – Para responder a essa pergunta eu gosto de fazer uma analogia com o ambiente escolar, por exemplo, na sala de aula. O professor de português, matemática, seja qual for a disciplina, trabalha tanto com o sujeito que nasceu no começo do ano como com o sujeito que nasceu no final do ano. Ele tenta dar reforços positivos e motivar os dois, tenta fazer com que todos os alunos da sala independente do mês de nascimento saiam com os conteúdos adquiridos dentro de uma avaliação satisfatória daquele ano, daquela gama de conteúdos necessários para que eles possam avançar para o ano seguinte. Vejo que essa analogia com o ambiente escolar, com a sala de aula, é a mesma para o esporte. A gente não tem que proteger o que nasceu no final do ano e vice-versa. Temos que saber trabalhar com todos, saber quem é aquele sujeito que estamos ensinando ali na categoria de base, quem está sendo beneficiado, de repente, pelas questões maturacionais, pelo efeito da idade relativa e quem momentaneamente ainda está um pouco aquém nesse processo de desenvolvimento.

A partir do momento em que eu começo a saber trabalhar com todos em função dessa avaliação mais completa e mais complexa, mas não mais difícil, porque ela é de alta aplicabilidade, a verificar cada sujeito no grau de desenvolvimento no qual ele se encontra, começo a entender por que ele está respondendo melhor ou pior e tenho a possibilidade de interagir com ele no sentido de colaborar com seu desenvolvimento. Um sujeito que leva muita vantagem física, que tem muita facilidade nesse sentido, acaba se tornando, às vezes, até displicente em outros tipos de treinamento que requeiram o desenvolvimento de habilidades. Com o conhecimento da situação posso chegar nele e falar “olha, você está bem, jogando bem, você é titular, mas a gente precisa continuar trabalhando para desenvolver suas habilidades. Seus colegas também vão crescer e amadurecer e se você não trabalhar, amanhã ou depois você já não vai conseguir levar a vantagem que leva hoje”. Isso faz com que esse jovem tome consciência de que ele precisa se empenhar para continuar se desenvolvendo, esse jovem vai acabar também valorizando o trabalho que está sendo feito com ele nessa mediação com o professor, com o treinador .

O treinador nessa avaliação, inclusive, vai poder eventualmente trabalhar com ele em outras posições do jogo, porque às vezes, momentaneamente pelo tamanho, pode estar sendo aproveitado como centroavante, zagueiro, mas se não for mais crescer depois pode ser que se torne o mais baixo de todos e de repente a posição ideal para ele seria a de lateral. Quando eu sei fazer uma avaliação, consigo mediar o processo de treinamento com esse jovem, no sentido de realmente promovê-lo em longo prazo. Tenho a possibilidade de fazer um trabalho completo, que o preserve na modalidade. Motivando a evolução e o desenvolvimento do sujeito, mostrando-o que não pode depender apenas do recurso que possui hoje.

Isso também deve ser feito com o sujeito no final do ano. De repente agora ele está ficando no banco, mas aí é trabalhar com ele ”não desista, nós vamos continuar desenvolvendo suas habilidades. Seus colegas já estão mais maduros então estão respondendo melhor, mas você ainda vai passar por esse processo de maturação, ainda vai ganhar força, velocidade. Não se preocupe se você não está jogando hoje, estamos preparando-o para jogar mais para frente”. O mais importante é conversar com a família, informar o que está acontecendo em termos de prognósticos de desempenho. Ou seja, na medida em que você cria um ciclo virtuoso ao redor desse jovem, fica muito melhor de você promovê-lo. Do contrário, estaremos sempre superestimando de um lado, subestimando de outro e errando com todos.

A melhor maneira é você saber trabalhar com cada um. Não é por que eles estão na mesma categoria competitiva que eles estão no mesmo estágio de desenvolvimento maturacional e também de treinamento. A categoria competitiva serve para dar algum norteador de competitividade entre os jovens, mas cada um vai estar em um estágio diferente do treinamento e da maturação. O treinador tem que saber trabalhar com todos, da mesma maneira que o professor na sala de aula, não precisa separar. A gente tem que saber trabalhar. O profissional da nossa área tem conhecimento para isso.

Infelizmente, no futebol tem muita gente atrapalhando. Ainda tem gente que não é formada, diretores, pessoas que estão especulando no mercado e atravessam esse caminho, induzindo às vezes um garoto que não tem condição, mas que está mais pronto no momento, por estar mais maduro, a ser jogador. O outro que teria condição acaba ficando fora do processo porque naquele momento não está tão bem desenvolvido.

Universidade do Futebol – Existem exemplos de clubes ou países que trabalham bem e minimizam o efeito da idade relativa? 

Marcelo Massa – Infelizmente na prática eu não vejo isso sendo trabalhado de uma maneira planejada. É um ou outro treinador isoladamente que considera isso nas suas observações. Isso no mundo inteiro, pelos resultados nas pesquisas que temos. Se eu for pegar as pesquisas, o efeito da idade relativa no continente europeu, inclusive na Alemanha, é esmagador. Na Europa, os estudos demonstraram que o efeito da idade relativa chega a ser maior do que no Brasil. Na Ásia, o efeito da idade relativa é muito forte, em outros países sul-americanos também… Só no continente africano o cenário é um pouco diferente. A África é o único continente que a gente pode dizer que os estudos não têm indicado um forte efeito da idade relativa, pois as datas de nascimento não são tão confiáveis. Eles levam mais tempo entre o nascimento e o registro, e aí as datas não são necessariamente fidedignas. Quando isso é transportado para as pesquisas, a gente acaba não encontrando muito efeito da idade relativa no continente africano.

Mesmos clubes e países com reconhecidos processos de formação pecam na hora de diminuir os impactos do efeito da idade relativa. Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Site oficial Santos FC/Divulgação
Mesmos clubes e países com reconhecidos processos de formação pecam na hora de diminuir os impactos do efeito da idade relativa. Crédito: Pedro Ernesto Guerra Azevedo/Site oficial Santos FC/Divulgação

 

Então, o efeito da idade relativa é um fenômeno mundial, não só no esporte, ele está presente em todos os domínios do conhecimento. No futebol, que é o assunto principal que nós estamos tratando, vejo que existem muitos treinadores que estão embasados nesse tipo de conhecimento. Até por estar dando aula há vinte anos no ensino superior e ter a possibilidade de formar muitos profissionais da área, alguns que atuam no futebol. Tenho o prazer de encontrá-los atuando em alguns clubes e vejo que a prática deles, felizmente, me dá orgulho. Quando tento conversar com eles sobre a visão do clube em que trabalham, o que ouço é que isso não necessariamente está sendo padronizado como uma estratégia do clube. Por incrível que pareça, mesmo os clubes de grande tradição nas categorias de base ainda deixam a desejar nessa avaliação mais pormenorizada, dessa complexidade que envolve os anos da adolescência. Muito ainda pode ser melhorado. Tenho feito alguns levantamentos nos campeonatos que a gente tem nas categorias de base da Federação Paulista e o efeito da idade relativa é alto.

Gostaria de poder dizer aqui que esse ou aquele clube trabalha de uma maneira fundamentada e precisa nas avaliações das categorias de base, mas infelizmente não posso afirmar isso. Os trabalhos são isolados, é um ou outro treinador que aplica essas observações.

ARTIGOS DE REFERÊNCIA

O efeito da idade relativa no futebol, 2009. Gerson Correia e colaboradores.

O efeito da idade relativa no futebol: O estudo de caso do São Paulo Futebol Clube, 2014. Marcelo Massa e colaboradores.

Efeito da idade relativa no futebol: Análise de jogadores sub-elite e elite no Brasil, 2012. Dalton Pinheiro Pinto e colaboradores.

Efeito da idade relativa nas categorias do futebol brasileiro: Critérios de seleção ou uma tendência populacional? 2016. Felipe Nunes Rabelo e colaboradores.

Efeitos da idade relativa na seleção de talento no futebol, 2007. Thiago Rogel e colaboradores.

Comentários

Deixe uma resposta

Sobre a Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol, enquanto atividade econômica e importante manifestação de nosso patrimônio cultural, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, e que conquistou o reconhecimento e credibilidade da comunidade do futebol.

Posts Recentes

Cursos em Destaque

© 2016 Universidade do Futebol. Todos os direitos reservados.