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30/09/2016

Movimento ou exercício?

Ultimamente na minha rotina seja nos clubes onde trabalho, quando ministro cursos, ou nas redes sociais diversos profissionais me perguntam quais são os melhores exercícios específicos para se aprimorar e aumentar força nos jogadores de futebol.

O que aparentemente é uma resposta simples, na verdade se torna um ponto chave crucial, relevante, um divisor de águas conceitual que irei abordar nesse artigo.

O que iremos discutir é qual deve ser o foco do nosso treino: os exercícios que escolhemos padronizados, ou o movimento específico do jogador de futebol na sua rotina de treino e jogo.

Antes disso vamos imaginar o corpo do atleta se movimentando, imaginando que todas as cadeias musculares agem de forma harmônica, organizadas e sincronizadas.

Gosto muito do exemplo de um indivíduo quando está dentro de um carro e precisa sair de dentro dele. Quantas articulações, grupamentos musculares agem ao mesmo tempo em diversos planos de movimento, apenas para o indivíduo conseguir sair do automóvel?

No esporte e, em especial no futebol, esse fenômeno acontece da mesma forma. O movimento acontece de forma multiarticular, multiplanar e dinâmico o tempo todo.

De uma forma bem objetiva, o corpo na sua essência não conhece o músculo. Ele reconhece o movimento e usa o músculo como um provedor para o movimento.

Quanto mais harmônico, sincronizado e equilibrado for o movimento, mais facilmente o atleta receberá as informações que os treinadores quiserem aplicar, seja elas quais forem. Sejam de cunho técnico/tático, de força ou de qualquer outro estímulo que por ventura a equipe técnica julgue necessário.

MOVIMENTO DO JOGADOR DE FUTEBOL

O futebolista tem no seu movimento as seguintes características:

  •  Base de apoio unilateral
  •  Integração tornozelo-joelho-quadril
  •  Core agindo na cadeia cruzada
  •  Movimentos dinâmicos, potentes de aceleração e desaceleração
  •  Desaceleração unilateral
  •  Movimentos multiplanar
  •  Alta sobrecarga excêntrica

Em um jogo de futebol o jogador chega a mudar de direção entre 1200 e 1400 vezes (Turner e Stweart ,2014), sendo aproximadamente 10% desse valor em alta intensidade.

Uma desaceleração em alta intensidade para um futebolista pode gerar uma sobrecarga de 3 a 5 vezes o peso corporal sobre uma base unipodal.

Esses valores são muito altos se fizermos uma relação individual em jogo de futebol onde um jogador pode desacelerar 140 vezes entre 3 a 5 vezes o peso corporal onde, mais da metade das vezes, será em apenas um dos membros (no membro não dominante, pé de apoio). Isso gera uma sobrecarga excêntrica altíssima atrapalhando o rendimento, aumentando muito a chance de lesões e recuperação para o próximo treino/jogo.

EXERÍCIOS TRADICIONAIS X MOVIMENTOS

O ponto chave desse artigo está aqui.

Até que ponto os exercícios tradicionais do treinamento de força contemplam as características do futebol?  Em especial da forma como analisamos acima?

Exercícios como agachamento, stiff, afundo, avanço, terra, e por ai em diante, tão difundidos e utilizados por treinadores para ganho de força (e por muito tempo utilizei também), qual é a transferência deles para o gesto esportivo do futebol?

Todos os exercícios citados acima são realizados com os dois pés no chão, apenas em um plano de movimento (sagital), sem nenhuma desaceleração excêntrica e geralmente feitos parados sem nenhuma forma dinâmica tão pouco potente de execução.

Esses questionamentos que devemos cada dia mais fazer e analisar antes de colocar uma sobrecarga extra nos nossos jogadores.

Precisamos saber como eles se movimentam para elaborar e simular exercícios que facilitem os gestos específicos de forma mais plena, equilibrada e específica.

Força sem controle não é nada, e movimento desequilibrado é porta aberta para lesões.

A vida não é feita de respostas e sim de perguntas e, são essas perguntas que quero deixar para vocês, na próxima falamos sobre outro tema.

Até….

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Comentários

  1. Jairo Corsino disse:

    Perfeito! Excelente artigo! Parabéns professor !

  2. Glaydson disse:

    Bom artigo.
    Porém em seus dois livros publicados você defende com muita ênfase que os exercícios de força máxima realizados em academia-campo e em CCF (agachamentos, avancos, stiff, levantamento terra, etc.) Seriam pre requisitos para o posterior desenvolvimento dos movimentos de força potentes (força explosiva e resistência de força explisiva).
    Você acredita que não seja mais necessário as sessões destinadas a essa manifestaçao de força.
    abraços e Parabéns pelo artigo.

    • na verdade professor, sim acredito sim que todas as manifestções são importantes, (força máxima, força explosiva e Resistência de FE), o que estou levantando a duvida é de como se aplicar.

      Se vale a pena como exercícios tradicionais como eu defendia, ou se podemos com os exercícios que facilitam o movimento especícifco do futebolista.

      Vale a reflexão.

      Grande abraço.

  3. Concordo em gênero número e gral. Informe quando vier a Brasília para cursos ou um bate papo Jorge Sallaberry Vianna tec C CBF

  4. Francisco deyjair duarte lima disse:

    Muito bom artigo, porem temos que ter um olhar tambem para distribuicao de sobrecargas e o prazer em exercitar-se e puxar ferro traz dinamismo , variedade ,confianca etc uma vez que o atleta realiza inumeras secoes de treinamento especicos.falo como atleta..
    Obrigado pelo espaço.

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