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06/02/2017

Os riscos da primeira impressão

Como definir quais impressões superficiais podem servir como parâmetro?

É extremamente difícil evitar a euforia ou lutar contra os rótulos em um ambiente como o futebol. Um lance pode mudar drasticamente a percepção em torno de um jogador ou de um time inteiro. No início da temporada 2017, há vários exemplos que colocam isso em pauta: como definir quais impressões superficiais podem servir como parâmetro?

Um exemplo perfeito sobre essa esquizofrenia é o São Paulo. A temporada começou com goleadas em amistosos e com o título da Florida Cup, competição amistosa disputada nos Estados Unidos. No último domingo (05), contudo, a estreia no Campeonato Paulista não foi nada auspiciosa: derrota por 4 a 2 para o Audax, resultado que levantou uma série de questões sobre o time e o início do trabalho do agora técnico Rogério Ceni.

Afinal, o São Paulo é o time que goleou nos primeiros jogos ou o time que foi goleado no domingo? A resposta, como costuma acontecer em discussões assim, é algo entre os dois extremos. O trabalho de Ceni ainda é incipiente demais para ser avaliado, e ainda que fosse consolidado mereceria algo além de uma análise tão binária.

Ceni tenta incutir no São Paulo uma proposta diferente de jogo, e mudar conceitos sempre demanda uma série de adaptações. Esse processo jamais ocorre sem percalços, e é fundamental que todos os envolvidos (jogadores, comissão técnica, dirigentes, jornalistas e torcedores, por exemplo) entendam isso.

A lógica também pode ser aplicada ao Grêmio, ao Atlético-MG, ao Vasco, ao Palmeiras, ao Corinthians, ao Santos ou a tantos outros times que têm oscilado muito no início da temporada. Não é possível tirar qualquer parâmetro do que tem acontecido nas primeiras rodadas dos estaduais ou dos regionais.

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Tampouco é possível admitir empolgação. O Flamengo e o Fluminense, times de bom início em 2017, são apenas isso: times de bom início. É possível que ambos evoluam a ponto de se tornarem equipes equilibradas e de bom nível, mas também é possível que algo dê errado no meio do caminho.

É a lógica que acontece com Gabriel Jesus, atacante de 20 anos que tem sido a grande notícia do futebol brasileiro em 2017. Revelado pelo Palmeiras e negociado com o Manchester City em agosto do ano passado, o camisa 33 debutou na equipe inglesa e rapidamente se tornou um dos principais xodós do elenco. No último domingo, marcou dois gols e decidiu a vitória sobre o Swansea.

Torcedores, jornalistas e até o técnico Pep Guardiola, já fizeram elogios efusivos a Jesus. O atacante realmente chama atenção pelo repertório técnico e pela postura – parece não se deslumbrar ou se incomodar com as coisas que acontecem rapidamente em sua carreira.

É impossível não lembrar de Alexandre Pato, atacante que foi craque antes de ter sido. No dia em que estreou entre os profissionais do Internacional, o jogador foi cercado por um batalhão de gente e tratado como estrela sem sequer ter tocado na bola. A situação ficou ainda mais insólita depois de ele ter sido o grande destaque em uma vitória sobre o Palmeiras.

Aquela tarde em São Paulo criou um Alexandre Pato que nunca existiu. O atacante jamais deixou de ser um jogador de talento, mas também não se tornou o astro que algumas pessoas correram para dizer que existia ali. Talvez os holofotes tenham atrapalhado, mas há uma série de outras possibilidades. Quem pode dizer com exatidão o que vai acontecer no futuro de um jovem que tem menos de 20 anos?

No fim, a lição que todos esses exemplos oferecem é a mesma: a vida pode ter muitos desvios e não depende apenas de aspectos como talento ou dedicação. Tudo (absolutamente TUDO) pode influenciar no desempenho de um atleta ou na construção de uma carreira.

Por isso é tão difícil fugir dos rótulos. Existe uma tendência natural de enxergar a vida com uma perspectiva maniqueísta, de separar pessoas entre boas e ruins, de taxar atletas como craques ou imprestáveis. Isso permeia o processo de construção de comunicação, evidentemente, e perpassa todas as etapas – dos atletas, dos times e dos campeonatos, por exemplo.

Evitar rótulos é um desafio, mas também define um processo alicerçado e bem fundamentado. Os times brasileiros não são apenas o retrato do que aconteceu nos dois meses de 2017. Gabriel Jesus não é apenas o que aconteceu nos primeiros jogos dele com a camisa do Manchester City. Ninguém é tão linear ou tão raso. A temporada 2017 mal começou, mas já é possível aprender muito com o que tem acontecido.

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