Artigos

17/03/2017

Professores de Educação Física e suas contribuições: Um aliado das meninas na desmistificação das práticas do futebol nas escolas

A mulher vem ganhando espaços no mundo esportivo, principalmente nos esportes considerados legitimamente masculinos, como é o caso do futebol. Com isso as portas do mundo esportivo se expandem e geram uma desconstrução do tradicional, enfraquecendo assim, a desigualdade entre os gêneros.

Mesmo o futebol sendo uma realidade na sociedade brasileira, nas escolas, as meninas sofrem preconceitos pela pouca coordenação motora e falta de técnica compatível para a prática da modalidade, tudo isso somado com o descaso que os meninos fazem quando a mulher tenta praticar o esporte neste ambiente. Esta concepção de superioridade do sexo masculino está relacionada com as significações do termo gênero, construído historicamente e que segundo Goellner (2009) funciona como uma categoria social que identifica o macho da fêmea.

Para assegurar a prática no ambiente escolar, as meninas contam com a figura do professor de Educação Física, haja vista que os meninos querem se apossar das aulas, por considerarem que o futebol é uma modalidade genuinamente masculina.

O que ninguém comenta é que esta atitude dos meninos é fruto de significações históricas que contam com a ajuda de dois decretos que ao longo da história proibiram as mulheres de jogar futebol por aproximadamente quarenta anos, como conta Castellani Filho (1988). O primeiro Decreto-lei 3.199, dizia que “às mulheres não se permitirá a prática de desportos incompatíveis com as condições de sua natureza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacional de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país”.  O segundo decreto aconteceu em 1965, quando o Conselho Nacional de Desportos, passou a proibir a mulher de praticar os esportes considerados “violentos” sendo estas assim praticamente excluídas do mundo dos esportes, tais como o futebol, futebol de salão, futebol de areia, pólo aquático, rugby, halterofilismo e baseball.

Estes fatos contribuíram para o lento desenvolvimento do esporte no país e a modalidade sofreu um retardo significativo no seu crescimento, o que neste caso, colaborou para legitimar o esporte como genuinamente masculino. Tal situação se propaga até os dias atuais e é considerada pelo autor Bourdieu (2011) uma categoria de análise de dominação masculina, podendo ser sentida em todos os espaços, inclusive no âmbito esportivo e escolar.

Para melhor entender esta dinâmica velada e inconsciente, o estudo buscou entender como este comportamento é constituído dentro das escolas, usando como foco principal o ponto de vista das próprias meninas do Ensino Fundamental de uma cidade do interior paulista, objetivando compreender como a figura feminina enxerga a prática da modalidade dentro da Educação Física Escolar.

Com a intenção de melhor compreender os comportamentos dos gêneros, recorreu-se aos aportes teóricos do Sociólogo Frances Pierre Bourdieu, contando com sua categoria de análise de violência simbólica contra as mulheres, pois conforme o autor citado anteriormente, a violência simbólica atribui definições que se consolida como situações de forças entre os dominantes e os dominados entre os gêneros.

Depois de feitas as análises, o estudo concluiu a importância das práticas pedagógicas do professor de Educação Física para garantir que as meninas pudessem praticar futebol nas aulas sem interferências dos meninos, tendo em conta que Finck (2011) ressalta que compete ao docente de Educação Física oportunizar a meninos e meninas as práticas do conteúdo programado.

As respostas das alunas entrevistadas indicaram que elas sentiam-se motivadas quando o professor de Educação Física realizava interferências a favor delas na prática do futebol nas aulas e instituía que estas não só poderiam como deviriam praticar a modalidade na escola. Neste momento, pelos depoimentos consentidos nas entrevistas, o gênero feminino se sentia valorizado e respaldado pela atitude do professor em devolver a elas o espaço que por direito está na Constituição Brasileira (1988), onde diz que “homens e mulheres possuem os mesmos direitos e deveres”.

O objetivo julgado importante neste contexto é que a prática do futebol nas escolas independe do tático, da técnica ou da coordenação que a modalidade necessita, devendo priorizar única e exclusivamente a vivência da prática da modalidade e o professor de Educação Física deve ficar atento a isto.

Esta finalidade está discriminada nos Parâmetros Curriculares Nacionais da Educação Física, Brasil (1997) quando o mesmo ressalta que “Participar de atividades de natureza relacional, é reconhecer e respeitar suas características físicas e de desempenho motor, bem como a de seus colegas, sem discriminar por características pessoais, físicas, sexuais ou sociais”. Visto desta forma, o conteúdo futebol na escola deve ser entendido e desenvolvido pelo professor de Educação Física como participativo envolvendo a todos sem distinção ou discriminação, quebrando desta forma, os paradigmas das questões de gênero tão inconscientemente impostas pela sociedade e que são levadas no cotidiano para o interior das escolas e principalmente para as aulas de Educação Física.

Partindo destes fatos tão normais nas aulas de Educação Física, os profissionais da Educação Física Escolar devem trabalhar os conteúdos baseados nos procedimentos conceituais, procedimentais e atitudinais como afirma Zabala (1988). Estes conhecimentos segundo Darido (2001) são em muitos casos esquecidos pelos docentes ou tratados de forma superficial nas aulas de Educação Física e isso gera a reprodução dos hábitos, os quais são apenas legitimados a um único poder: o futebol como esporte para a classe masculina. Com esta perpetuação ocasionada pelas atitudes impensadas de alguns profissionais, os conceitos são apenas reproduzidos ao longo dos anos tidos como naturais, quando deveria ser feito de forma democrática.

Enquanto os professores não atentarem para a importância que estes têm na desmistificação das práticas do futebol nas escolas, esta prática continuará sendo “coisa de menino” e o vôlei, por exemplo, “coisa de menina”. Assim, as significações históricas serão simplesmente incorporadas e reproduzidas o que restringe a oportunidade da mulher praticar qualquer esporte que lhe convém, em qualquer espaço, como o escolar.

Atento a estes conceitos e a seriedade com que as questões de gênero necessitam ser abordadas no ambiente escolar, os profissionais de Educação Física poderão colaborar ainda mais com a participação do gênero feminino nos esportes praticados nos espaços escolares, garantindo que as vivências esportivas sejam realmente democráticas, sem distinção de gênero como expôs a pesquisa, desmistificando assim, as práticas para homens e mulheres que se consolidaram ao longo dos séculos.

*Marina Toscano Aggio de Pontes: Professora de Educação Física; Mestra Profissional em Educação: Processo de Ensino Gestão e Inovação. Pela Universidade de Araraquara.

*Professor Dr. Fábio Tadeu Reina: Professor de Educação Física; Doutor em Educação Escolar pela Unesp de Araraquara; Pós Doutorado realizado junto ao departamento de Ciências da Educação Unesp Campus de Araraquara SP (núcleo de sexualidade).

 

Comentários

  1. Profile photo of sebastiao sebastiao disse:

    Ainda temos uma estrada longa a seguir, fazer com que os docentes em educação física vença essas barreiras do pré conceito contra a mulher ou quem seja diferente no seu modo de ser ou agir.
    Fica ai a questão nos educadores precisamos vencer nossas limitações e sermos como bussola a guiar nossos educandos, bom colegas que possamos engrossar as fileiras do saber sem pré conceito ou indiferença seja de sexo ou opção sexual.

Deixe uma resposta

Sobre a Universidade do Futebol

A Universidade do Futebol é uma instituição criada em 2003 que estuda, pesquisa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relacionados ao universo do futebol, enquanto atividade econômica e importante manifestação de nosso patrimônio cultural, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, e que conquistou o reconhecimento e credibilidade da comunidade do futebol.

Posts Recentes

Cursos em Destaque

© 2016 Universidade do Futebol. Todos os direitos reservados.