Entrevistas

13/05/2016

San Francisco Deltas inaugura o futebol profissional no Vale do Silício

Torcedores, tecnologia e transparência são os pilares do clube

O Vale do Silício, região da Califórnia mundialmente conhecida como pólo de inovação e tecnologia, agora tem a sua startup de futebol profissional: o San Francisco Deltas. A partir de 2017, o clube disputará a NASL, North American League Soccer, disputada entre outros clubes pelo Fort Lauderdale Strikers, da qual Ronaldo Fenômeno é sócio, e do histórico New York Cosmos, clube que já teve em seu plantel Pelé e Beckenbauer.

Como toda startup da região, o SF Deltas nasceu com uma estrutura enxuta, um time de executivos visionários e com aporte de investimento oriundos da indústria da tecnologia.

Antes de contratar comissão técnica e os atletas, os dirigentes do clube foram às ruas. A primeira missão foi escutar a comunidade, apresentar suas ideias, a filosofia do clube e colher os feedbacks. Assim, constituíram a torcida antes do time, “a verdadeira alma e o sangue de um clube”, segundo Brian Andrés Helmick, CEO da equipe.

Com a adesão crescente, o Deltas mobilizou seus fãs, conquistaram uma audiência com a Prefeitura de San Francisco e obtiveram a autorização para uso do estádio municipal como a casa do clube.

Somente com a torcida e o estádio assegurados, o clube anunciou a contratação do brasileiro José Carlos Brunoro, ex-dirigente do Palmeiras e um dos fundadores do Audax, como Diretor de Futebol.

A relação com a comunidade, a inovação e a transparência estão no DNA. Medidas como a participação permanente dos torcedores nas decisões e a reserva de 30% dos assentos com preços populares atraíram muitas pessoas, de diversas nacionalidades, que vivem no Vale do Silício.

Por mais de uma hora, a Universidade do Futebol conversou com exclusividade com o CEO do Deltas, Brian Andrés Helmick, colombiano de 39 anos, e com o Diretor de Comunidade, Ricardo Geromel, brasileiro de 28 anos, irmão do zagueiro do Grêmio, Pedro Geromel. Ambos estão radicados há vários anos nos EUA, país em que cursaram o ensino superior e se uniram na paixão pelo futebol. A entrevista com a dupla foi realizada por Skype, direto do escritório do SF Deltas em San Francisco, Califórnia.

Universidade do Futebol: O que motivou dois latinoamericanos a montarem um clube de futebol nos EUA e não na América do Sul, por exemplo, na Colômbia ou no Brasil?

Brian Andrés Helmick: Nossos países tem essa paixão, tem um nível muito mais alto campo, mas como organizações não tem a mesma transparência que os EUA. O que queremos fazer aqui é aproveitar as melhores práticas dos dois mundos. Vamos trazer do Brasil, da Colômbia, da América Latina, essa paixão, essa alegria. O jogo que a gente tem é o jogo bonito, o jogo mais emocionante, queremos trazer isso para cá.

E aqui temos transparência. Aqui pagam os jogadores sempre em dia. Imagina essa inovação? (risos) Pagam conforme o combinado. Isso é uma prática do mercado americano.

Um aspecto aqui do Vale do Silício é a tecnologia. A gente pode trazer uma inovação tecnológica relevante. Somos uma startup do futebol: tem o lado do campo, tem o lado da operação e tem o lado da tecnologia. Queremos criar coisas e compartilhar para melhorar o esporte no mundo todo. Lembre que estamos na região que empresas que começaram na garagem, hoje valem bilhões de dólares.

Não temos essa visão de que América Latina é ruim, EUA é bom. Vamos trazer o melhor desses mundos e incorporar tudo isso aqui no SF Deltas.

UdoF: Quais aspectos tornam o futebol um bom investimento nos EUA em geral e no Vale do Silício em particular ?

Andrés: Primeiro, a consciência do americano em termos de futebol. Faz décadas que a molecada joga futebol o tempo todo, mas quando chegam na adolescência não existem ídolos que consolidem o público para vida adulta. E nos outros esportes já possuem vários heróis, como o basquete, futebol americano, beisebol e isso muda a preferência dos jovens. A internacionalização do futebol europeu ajudou também. Aqui tem muita molecada com camiseta do Messi, do Cristiano Ronaldo. Isso fez crescer o interesse permanente pelo futebol.

Melhorou bastante o acesso ao futebol. Tanto físico quanto virtual. Antigamente era muito difícil chegar ao local dos jogos. San Francisco é pequena mas não é fácil de você transitar. Agora com Uber e outros aplicativos ficou muito mais acessível. Tornou-se muito mais fácil transportar pessoas para o estádio.

E a forma como dá pra acompanhar o jogo, os atletas, o treinador, por conta do Facebook, do Twitter, coisas que temos há cerca de 5, 7 anos, ajudam muito. Isso gera mais aproximação e mobilização.

Conseguimos que 1,5 mil pessoas mandassem cartas de apoio ao SF Deltas e 200 pessoas tirassem folga no trabalho para apoiar o projeto na demanda pelo estádio junto à prefeitura.

UdoF: Como surgiu o San Francisco Deltas?

Andrés: Já tive uma empresa de tecnologia aqui no Vale, que foi bem sucedida e a vendi em 2014. Um investidor, que havia me apoiado na empresa anterior e nos tornamos bons amigos, me procurou para me convencer sobre a oportunidade de começar um time de futebol profissional em São Francisco. Como já havia sido investidor sabia que não podia deixar a paixão pelo futebol atrapalhar minhas decisões. Todo investidor corre o risco de se apaixonar pelo projeto e não perceber que determinadas coisas são inviáveis.

Comecei a avaliar e vi que dos cinco clubes mais ricos do mundo pela Forbes três eram de futebol: Real Madrid, Barcelona e Manchester United. Os outros dois são os Yankees do Beisebol e os Cowboys do Futebol Americano. Só que você seguindo essa lista vai ver que dos 50 times de maior valor, 42 ficam nos EUA. Incrível pensar que um país só tem tantos times nessa lista. Os EUA são um país enorme e tem o maior mercado de esportes do mundo, só que destes 42 times nenhum é de futebol. Como o maior esporte do mundo não tem perfil alto no maior mercado de esportes do mundo?

Quis entender porque as tentativas de clubes de futebol aqui (na Califórnia) não deram certo. As razões principais, na minha opinião, são falta de investimento adequado, profissionalismo dos projetos e entender bem a cidade em que vai montar o clube.

Assim, entramos com o olho bem aberto sobre o quanto precisavámos de dinheiro. Depois, demonstramos profissionalismo ao público. E era importante identificar que 40% da população de San Francisco nasceu fora dos EUA. A proporção é parecida com Nova Iorque. Mas Nova Iorque tem 20 milhões de habitantes, San Francisco 850 mil. Então precisamos conhecer essa diversidade, as diferenças culturais, conhecer o mercado que iríamos investir.

Em São Francisco é possível, ao contrário de Nova Iorque, buscar de verdade essas pessoas, conhecer os espaços delas. Temos mercado colombiano, brasileiro, inglês, indiano. Nossa estratégia tem que ser diferente. Um fã de cada vez. Se você olhar o vídeo da audiência, o que me faz chorar, é ver indiano, chinês, filipino, minha mãe estavá lá, brasileiro, tem um pouquinho de tudo. Tem gay, tem hetero, tem mulher, tem homem, tem velho, tem novo. Esse é o nosso esporte. É por isso que o futebol é um esporte global.

UdoF: Qual o papel do torcedor e a relação com a comunidade, estabelecidos como um dos pilares do SF Deltas?

Andrés: Torcedores são o coração, o sangue do clube. Sem eles o futebol não é nada. Não adianta ter todo dinheiro do mundo, ganhar todos os jogos: sem os fãs não somos nada.

Não acredito, sinceramente, que somos nós que fundamos o clube, nesse escritório. É um projeto da torcida. Sou fundador no sentido de colocar a primeira semente, não quer dizer coloquei toda a grana e nem que fiz tudo sozinho. A audiência na Prefeitura é uma demonstração de que o Deltas não é meu ou do Ricardo. Os torcedores mostraram que é nosso. Sem eles não teríamos conseguido o estádio.

Entender como é a nossa cidade, as suas diferentes comunidades é muito importante. No dia do lançamento do nosso projeto contamos com a presença do prefeito de San Francisco. Aqui já temos os campeões de Beisebol, os Giants, temos os campeões de basquete, os Warriors, agora queremos os campeões Deltas no futebol.

Na Colômbia a comunidade do futebol é muito homogênea. Todo mundo fala espanhol, é católico e gosta de dançar salsa. Aqui não. É como se tivéssemos um encontro das Nações Unidas no estádio, fazendo uma coisa linda.

O interessantes dos nossos torcedores é que tem gente de todo tipo. Tem o cara que vendeu a empresa dela por meio bilhão de dólares, temos vários latinoamericanos que trabalham duro pelo seu sustento. E o mais legal de tudo é que as pessoas estão virando amigas por conta do Deltas. A gente quer ser campeão, com certeza, mas estamos fazendo mais que isso aproximando a comunidade.

UdoF: Por isso a política de ingressos populares?

Andrés: Na Colômbia, o cara mais rico e o cara mais pobre podem ir no estádio e ver o mesmo jogo. Aqui nos EUA, os ingressos “baratos” são muito caros. Então, o que a gente fez é separar 30% do nosso estádio para ingressos com desconto. Vão ser baratos, mas baratos de verdade.

Penso inclusive que deveriam ser para as pessoas que tem três trabalhos, as que trabalham muito, e que muitas delas, são pessoas da America Latina, lutando, lutando, lutando.

A gente está fazendo uma coisa para todos os níveis sócio-econômicos. O esporte é uma coisa que dá pra esquecer, às vezes, das partes difíceis da vida. Então, vai parecer um pouco espiritual, mas nós estamos pensando na alma do nosso clube, que sao os nosso fãs.

É aquilo de ter dois ouvidos e uma boca. Escutar e escutar. As pessoas pediam: “escolham um nome que dê para gente pronunciar”. Tem nomes de times nas ligas que não dá para quem fala português ou espanhol falarem. Deltas é perfeitamente pronunciável em inglês, espanhol, português. Na maioria das línguas é fácil pronunciar.

Estamos trabalhando de uma forma em que as pessoas normalmente não levam a esse nível do detalhe. Nunca saiu da minha cabeça ou do Ricardo. Os fãs são nossos chefes. Os torcedores são os nossos donos, eles dizem para gente fazer e fazemos.

UdoF: Que tipo de inovações tecnológicas o SF Deltas vai apresentar?

Andrés: Tem um monte de coisa mas vamos implementando aos poucos. Queremos trabalhar também com a realidade virtual. Em Stanford tem um laboratório dedicado à realidade virtual, o Virtual Human Interaction Lab. Conheci o professor responsável, fiz vários módulos e é incrível. Temos que trazer isso para melhorar o treinamento do jogador, mas também para os torcedores. Todos nós sonhamos em ser jogador de futebol. Com a realidade virtual podemos levar o torcedor ao vestiário, ao lado do goleiro, do zagueiro, ver o treinador motivando os atletas. É incrível.

Vamos inserir a inteligência artificial para a compra dos ingressos, para você escolher não só onde você senta, mas com quem você senta. Numa cidade como San Francisco é muito importante por conta da diversidade. Eu sou colombiano, mas também falo inglês, espanhol e português, gosto do Millonários mas também gosto do Real Madrid. Você tem várias conexões com diferentes mundos e às vezes você quer sentar com um grupo, às vezes com outro. Essas coisas podem ser facilitadas com tecnologia.

Os fãs estão sendo chamados a votar tipos de food truck teremos no Estádio. Certo que teremos hamburguer, pizza, mas perguntamos aos brasileiros, vocês não gostariam de pão de queijo? Aos mexicanos, vocês não querem tacos?

UdoF: Como é a relação com o poder público? Existem incentivos e apoio do governo local?

Andrés: O poder público não gasta um centavo. Todo o investimento do Deltas é privado. Agora que conseguimos a autorização para uso do Estádio, após audiência na Prefeitura, conseguiremos aumentar o número de pessoas na equipe, buscar patrocinadores, já que vamos começar a jogar em 2017.

UdoF: Qual o perfil dos investidores?

Andrés: Analisamos e buscamos investidores a partir de 4 filtros. 1) Tem que ser pessoas que conhecemos de verdade, não apenas superficialmente. A maioria das pessoas conheço há mais de 10 anos e uma há mais de 20;

2) Pessoas inteligentes que vão agregar valor ao projeto, não apenas dinheiro;

3) Tem que amar o esporte;

4) Por fim, o que acho o mais importante, tem que ser pessoas do bem. Não bem sucedidas, pessoas do bem no sentido de boas de coração.
Com esses 4 filtros conseguimos reduzir muito o número de pessoas. Já que não é todo mundo que é do bem e eu conheço. Com os latinos eu ficava à vontade de acordo com o último filtro. Os americanos ficavam nervosos quando falavámos de emoções. (risos)

UdoF: Vocês pretendem investir no futebol de base e feminino?

Andrés: Agora que conseguimos nosso estádio, começamos a encaminhar as questões da montagem do futebol. (José Carlos Brunoro foi contratado como Diretor de Futebol). Em termos de base e futebol feminino eu adoraria.

A mentalidade americana de futebol é uma cidade, um time. Um modelo diferente do nosso. Na Colômbia você tem um monte de times, um estádio compartilhado com vários times. Queremos trabalhar com essa mentalidade colombiana, brasileira, essa mentalidade colaborativa do Vale do Silício.

Já nos encontramos com vários times amadores de San Francisco, nos apresentando, e falamos com 50 mulheres, líderes dos times de futebol feminino. Nosso sonho é dividir o estádio com pelo menos mais dois clubes, um feminino e um masculino. Seria o máximo.

UdoF: O que inspira o trabalho de vocês?

Ricardo: Uma coisa que nos inspira é que, primeiro, quando rola a bola todo mundo esquece que é Brasil, Colômbia, Chile, Equador, EUA. Todos se unem na língua do futebol. Segundo, estamos acompanhando o sucesso do Audax. Que coisa incrível. Um futebol assumindo riscos, um futebol inovador e o resultado vem. Não vem instantaneamente, mas mantiveram a filosofia deles.

Realmente é de tirar o chapéu o que eles vem fazendo. E a inovação que vamos trazer talvez não seja 100% criada por nós. A gente vai pegar o melhor daqui, o melhor dali e misturar, por um tempero local do Vale para fazer uma coisa especial.

Comentários

  1. Murilo Araújo disse:

    Excelente. Pra cima deles Deltas 👍🏼👏🏼

  2. Claudinei de Oliveira disse:

    Um grupo de professores está se inspirando no San Francisco Deltas e criando seu próprio time empresa.
    Estamos precisando de investidores!!!
    Contato:14-98804-5094 Professor Claudinei de Oliveira

  3. Claudinei de Oliveira disse:

    Estamos Criando o Atlético São Paulo. Seremos a quinta força do futebol paulista. Fale comigo para ser um investidor.
    Contato:14-98804-5094 Professor Claudinei de Oliveira

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