PROLEFUT

20/01/2015

Sobre futebol e migalhas

INTRODUÇÃO

“Temos esportes em quantidade. Para que metermos o bedelho em coisas estrangeiras? O futebol não pega aqui, tenham a certeza. Não vale o argumento de que ele tem ganho terreno nas capitais de importância. Não confundamos, as grandes cidades estão no litoral, isto aqui é diferente, é sertão.”(RAMOS, 1946)
 

O futebol, como previu Graciliano Ramos, não foi fogo em palha. O autor alagoano considerava que agente tísica, mirrada, franzina, de músculos fracos e miseráveis corporeamente falando do Sertão não poderia se apropriar a um esporte de “cultura física”:

Ocorre que o futebol no Brasil não rendeu, mas foi rendido, no início do século XX, pelas camadas populares, com o evidente (e dificultoso) consentimento das elites para que o jogo nascido e trazido para ela se expandisse. Graciliano não levou em consideração que o sertão também existia nas periferias das grandes cidades. E em cada esquina ou botequim das zonas norte, um clube de futebol se formava. As primeiras décadas republicanas experimentaram um processo de ruptura de um passado colonial/monárquico passando a compreender a vivência de novas experiências culturais, como o novo regime político e a tentativa de acompanhar os ideais europeus de civilidade e modernidade (SEVECENKO, 1992).

O fenômeno de participação cultural e democrática foi dessa forma permitido ao futebol, ao passo que deveria ficar limitado naquele ambiente, e impedido de ocorrer em outras esferas sociais.
Trazido por Charles Miller da Inglaterra, o foot-ball aristocrático transcendeu-se, em poucas décadas, no futebol da massa. Dali, outras elites emergiram e se dispuseram a controlar seumodus operandi. Discutir-se-á a relação de alienação cultural e submissão econômica imposta pelos que se gabam de vanguarda, poder e glória a um produto que pertence ao povo.


GRANDES VS. PEQUENOS

A segregação da massa remonta as primeiras décadas do Século XX, quando os clubes da elite do footballcomeçaram a se queixar da queda do nível social dos jogadores e torcedores. Tumultos em torno da “tensão social” durante as partidas se tornavam paulatinamente mais frequentes.

Em 1913, a entrada do Corinthians na LPF (Liga Paulista de Football), e do Ypiranga, três anos antes, clubes tidos como “populares”, foi pretexto para primeira cisão do Campeonato Paulista. Paulistano, Mackenzie e AA das Palmeiras, os “grandes” da época, decidiram fundar a APEA (Associação Paulista de Esporte Atlheticos)e estabeleceram paralelamente ao campeonato organizado pela LPF, uma liga “de elite”. O cronista Antônio Figueiredo, escreveu em “O Estado de S. Paulo”: “Achamos muito justos que os operários, os humildes, participem das refregas, mas os operários e os humildes que compreendem seu dever de sportsman.”
A METRO (Liga Metropolitana de Esportes Terrestres) governou o futebol carioca de maneira exclusiva até 1924, quando a pedido de Botafogo, Flamengo, Fluminense e América, clubes então fortuitos, burgueses e aristocratas, descontentes com a administração populista praticada pela instituição, enviaram uma proposta de reforma do estatuto da METRO. No ano anterior, o Vasco da Gama venceu o Campeonato Carioca com um time formado por negros, mulatos e brancos pobres, uma façanha à época.

A reforma reivindicava uma maior cota de poder para os “grandes” em detrimento dos “pequenos”, por meio de propostas como a formação de um conselho deliberativo da METRO com nove membros, cinco deles indicados pelos membros e o restante originário dos clubes idealizadores da reforma. Como se não bastasse, foi proposto que a participação das equipes no Campeonato Carioca estivesse vinculada ao desempenho em outras modalidades esportivas. Convém ressaltar que, com exceção do Vasco da Gama, os demais times eram especializados apenas no futebol, e certamente seriam retaliados. Não por acaso, os pequenos votaram contra a proposta, que foi rejeitada perante assembleia.

Os “grandes”se retiraram da METRO e fundaram a Associação Metropolitana de Esportes Athleticos (AMEA), contando com apoio do Bangu. Pouco depois, os “pequenos” São Cristóvão, Andarahy, Helênico AC e SC Brasil fizeram o mesmo caminho. A AMEA concedia óbvios privilégios esportivos e administrativos aos fundadores, além de um controle rigoroso sobre os clubes quanto a manutenção do amadorismo, de maneira que estivessem protegidos por investirem mais que os outros e cederem seus estádios para a disputa das partidas. E por quê as quatro equipes aceitaram a se submeter a tais condições, freadas quando ainda pertenciam à METRO? A argumentação tem resposta mercadológica. Os grandes clubes ofereciam melhores estádios e propiciavam aos subalternos, repercussão e rendas interessantes.

O Vasco da Gama chegou a se filiar a AMEA, mas não tardou em retornar a METRO, uma vez não concedidos a si, os privilégios do então grupo de elite. O clube de colônia portuguesa incomodava por integrar jogadores negros em sua equipe (e ter obtido êxito com o título de 1923 com tal prática). Até então, negros sem profissão ou nome familiar de prestígio dentro das quatro linhas, davam margem a prática do abominável profissionalismo.

A submissão dos pequenos aos grandes, ocorrida há um século, é, hoje, exacerbadamente mais agressiva. Alguns personagens retratados mudaram, se extinguiram, foram extintos, trocaram de lado, como os “ex-pequenos” Vasco e Corinthians ou o “ex-grande” América. O futebol,de segregado virou segregador. Os fracos, regidos pela incapacidade de atração mercantil, não tem vez alguma. A selvageria capitalista guia o efeito globalizador, cuja integração só traz resultados benéficos aos ricos e poderosos, capazes de absorver fatias vorazes do que é produzido por um todo de partes mal concebidas. Na globalização capitalista há tanta desigualdade quanto homogeneização, segundo Giddens:

“O resultado não é necessariamente, ou mesmo usualmente, um conjunto generalizado de mudanças atuando numa direção uniforme, mas consiste em tendências mutuamente opostas. A prosperidade crescente de uma área urbana em Singapura pode ter suas causas relacionadas, via uma rede complicada de laços globais, ao empobrecimento de uma vizinhança em Pittsburgh cujos produtos locais não são competitivos nos mercados globais” (GIDDENS, 1991)
 

A arrecadação financeira permeia a distribuição de poderes de um clube sobre determinados grupos de influência e conduz critérios que alimentam a disparidade entre vencedores e ditos fracassados. O número de torcedores e a repercussão de sua exposição midiática conduz o interesse de investimento das marcas, que desejam alavancar seus lucros e a imagem atrelada ao poder, traduzido em conquistas, de maneira que esse círculo vicioso jamais seja interrompido.

As agremiações brasileiras dependem fundamentalmente das cotas de televisão para se sustentarem. A audiência, portanto, é um fator significativo para a distribuição do dinheiro, logo, os times com maior torcida são os maiores beneficiados, pois recebem as quantias mais polpudas. Regularidade quanto ao desempenho nos campeonatos anteriores não significa absolutamente nada. Rebaixado em 2012, o Palmeiras disputou a Série B do Campeonato Brasileiro no ano seguinte e não deixou de ganhar um centavo a menos da detentora dos direitos de televisão. Seu orçamento superava em 40 vezes a de algumas equipes do mesmo campeonato. O modelo de distribuição de renda efetua um mecanismo de “proteção” que impede (ou deveria)o fracasso de uns, bloqueando e desafirmando o sucesso de outros, com tradição e fanatismo equivalente.

MÍDIA

Os instrumentos de comunicação em massa tiveram papel relevante na dissipação e consolidação do futebol como esporte mais popular do planeta. No Brasil, o rádio, massificado durante a presidência de Getúlio Vargas, foi politicamente utilizado para sistematizar a cobertura jornalística do futebol, dando início a transmissão das partidas. O surgimento dos jornais impressos especializadoscomo oJornal dos Sports, no Rio de Janeiro, e A Gazeta Esportiva em São Paulo, durante as décadas de 1930 e 1940, fomentaram torcedores, criariam mitos, slogans, mascotes, acirraram rivalidades e incrementaram o futebol no cotidiano tupiniquim.

O tricampeonato mundial em 1970 cercou-se por um inédito e provocante ufanismo, aquecido pelo governo ditadorial e impulsionou transformações com consequências eloquentes no futebol local: criou-se a loteria esportiva, sob a batuta do regime militar. Estádios faraônicos foram construídos. O campeonato nacional de clubes, oficialmente unificado, não tardou a virar artifício político: o número de vagas crescia de acordo com a necessidade do partido de sustentação dos militares. Em 1979, nada menos que 94 times participaram da edição do Brasileiro.
 

“Onde a ARENA vai mal, mais um clube no nacional. E onde a ARENA vai bem, mais um clube também”.
 

Na década seguinte, a exploração do esporte-bretão como grande negócio começou a vir à tona. A publicidade passou ser vista ao redor dos gramados e dentro deles, com autorização estatal para que os uniformes pudessem exibir patrocinadores.
 

“O futebol entrou na era da televisão, com vídeo –tapes do jogos sendo transmitidos. No entanto, os clubes não recebiam dinheiro pelas transmissões. A partir de 1987 iniciaram-se as transmissões ao vivo, gerando uma polêmica sobre o esvaziamento dos estádios e as compensações financeiras dos contratos assinados pelos clubes com a televisão” (HELAL, 1997).
 

Desde 1992, a Rede Globo detém os direitos de transmissão dos principais campeonatos de futebol do país. O monopólio da emissora cariocacresceu abruptamente nas últimas décadas e abrange transmissões de modo exclusivo na TV fechada, no sistema pay-per-view, na internet e para o exterior. Apenas as partidas na TV aberta possuem concorrência, que ainda assim, é pelega.

A Globo não faz questão de economizar nos contratos, estabelecidos trienalmente e estrategicamente elaborados de modo individual e sem alarde. As equipes, reféns da própria (in)capacidade de organização administrativa e financeira, costuram uma relação umbilical e traiçoeira. Os horários e as distribuições dos jogos no decorrer da semana estão vinculados aos interesses comerciais e a programação de outras atrações do canal. Diante disso, não se estranha mais o fato de um clube, por exemplo, jogar em Recife, e dois dias depois atuar em Porto Alegre, a mais de 3000 km de distância. Ou de um jogo terminar durante a madrugada. O nível técnico dos confrontos e os estádios com públicos muito menores do que os sugeridos estão em segundo ou terceiro plano. O número de assinantes dos pacotes pague-pra-ver, em contrapartida, é alavancado a cada ano.

É factível que a maioria esmagadora maioria dos torcedores de futebol passou, em função do conforto financeiro e social, a torcer pela poltrona. Uma pesquisa realizada em 2003 pela Mori, concluiu que 45% dos adultos britânicos se interessam por futebol. Já os índices de frequência média nos estádios de Inglaterra e Escócia do referido grupo cai para 3%.Todavia, a capacidade de público nos campos de futebol nesses lugares beira a lotação, enquanto o Brasil ocupa a 18ª colocação na média de espectadores in loco. Os números, na verdade, apontam realidades semelhantes em universos distintos.

Para a televisão, não é interessante que os estádios estejam constantemente abarrotados. É mais confortável e seguro que as pessoas se reúnam para torcer, sim, mas dentro de salas, apartamentos, bares, com a TV ligada. O consentimento da Confederação Brasileira de Futebol, dos próprios clubes e do poder público em forma de descaso não é algo novo. O passar do tempo e o fator “Rede Globo”, acabaram por agravar problemáticas condições de planejamento, distribuição de ingressos, segurança e mobilidade urbana defasada, fazem do chamado “torcedor de arquibancada”, um herói, um resistente, como bem descreve Nick Hornby no clássico britânico FeverPitch. Um mito, que tem sido pouco a pouco derrubado para abrigar outro tipo de gente, mais abastada, exigente, consumidora, talvez menos fiel.
 

“Na minha concepção, um evento desportivo fora sempre uma diversão paga, assim como uma noite no cinema; uma troca: você entregava uma pequena parcela de seus proventos, sendo recompensado com um intervalo de tempo (uma ou duas horas) de prazer (…) Podia ver que estava equivocado. (…) A impressão era de que, em troca de algumas libras, você obtinha uma hora e 45 minutos caracterizado pela máxima exposição às piores condições climáticas possíveis e ao maior número de obstáculos – transporte precário, ausência de estacionamento, um aglomerado progressivamente perigoso na saída, um tanque repelente e infecto para urinar, mudanças de última hora quanto ao horário da partida – a desencorajá-lo de alguma vez tornar a comparecer a um jogo. No entanto, ali estavam todos, passando seu sábado.” (BULLFORD, 1991)

 

ESTÁDIOS

A construção de estádios como o Pacaembu em 1940, sobretudo, o Maracanã, dez anos mais tarde, consagraram o esporte-bretão como espetáculo das multidões. “A época em que a arquibancada do Fluminense mais parecia um bouquet de flores(…) em que o futebol era coisa chique”, como escreveu Mário Filho, fora deturpada. Não se tratava mais de reunir 10, 15 ou 20 mil cabeças. Tornou-se comum,torcedores se amontoarem nos campos de futebol em centenas de milhares. Na final da Copa do Mundo de 1950, foram 200 mil. O mesmo evento, 64 anos depois, contará com, no máximo 74.000 mil espectadores. O “maior do mundo” virou lenda.

O Maracanã, outrora personificação física da popularidade do futebol brasileiro, permaneceu referência, mas de elitização. As constantes reformas a partir do novo milênio dividiram as arquibancadas em setores diferenciados por localizações e preços, findaram com a Geral, setor mais popular do estádio, diminuíram a capacidade de lotação, tendo em vista o alcance do “padrão FIFA”. O estádio foi refeito. O nome permanece, a alma não. É bem possível que esse Maracanã seja um tanto mais moderno que o antigo, mas não chore mais pela derrota de 1950, como citou Galeano, e esteja menos parecido com o Centenário, em Montevidéu “ que ainda suspira nostalgia das glórias do futebol uruguaio”, e mais próximo do Rei Fahd, na Arábia Saudita, “de palco de mármore e ouro, mas sem memória nem grande coisa a dizer.”

Outros irmãos do Velho Maraca tiveram o mesmo (triste) destino: o Olímpico Monumental em Porto Alegre, a Fonte Nova em Salvador, o Palestra Itália em São Paulo. Todos eles viraram ou estão virando, arenas multiuso a exemplo de outras dezenas delas, erguidas do zero.
 

“As novas exigências transformaram a economia do esporte. Para financiar a reconstrução de seus estádios, os antigos proprietários, na maioria pequenos empresários que se fizeram por conta própria, importaram montanhas de capital novo. Grande parte dele veio de espertos investidores urbanos que percebiam que o futebol tinha um mercado cativo gigante e sólidas fontes de lucro inexploradas. As novas instalações incluíam luxuosas suítes executivas alugadas a grandes empresas.” (FOER, 2005)
 

O exemplo inglês de eliminação dos hooligans e a criação de uma liga elitizada e poderosa são supracitados. As constantes tragédias ocasionadas pelas torcidas organizadas foram combatidas com remodelação dos estádios. As arquibancadas,compostas majotariamente pela classe operária, deram lugar a lugares numerados e cobertos por cadeiras, destinado à classe média:
 

“Os clubes lançaram ações na bolsa de valores, aumentaram o preço dos ingressos e venderam os direitos de transmissão dos jogos da Liga ao serviço de TV por satélite de Rupert Murdoch. O plano funcionou perfeitamente. Um novo tipo de torcedor, mais abastado, começou a frequentar os jogos em estádios mais seguros e confortáveis.” (FOER, 2005)
 

O caos promovido pelos vândalos, não deixou de existir, mas apenas suprimido dos estádios para não ser visto pelas câmeras de TV. As camadas socialmente mais baixas foram culpadas pelo farsante Relatório Taylor por tragédias beligerantes, como a de Hillsborough em 1989. Seu castigo veio em forma de restrição velada aos acessos para o jogo, tendo em vista a promoção socioeconômica do esporte.
 

“Jovens trabalhadores e homens de classe média baixa trazem consigo problemas complicados e ocasionalmente perturbadores; os diretores e presidentes podem argumentar que eles tiveram sua chance e a desperdiçaram, e que as famílias de classe média – o novo público-alvo – não irão se comportar bem, como pagar muito mais para fazê-lo” (HORNBY, 1997)
 

O Relatório Taylor vem sendo, de certa forma, adaptado para a realidade brasileira sob a égide da FIFA e suas exigências protocolares ao Mundial: uma parcela bem restrita da população terá a oportunidade de vivenciar os jogos de Copa do Mundo. A higienização da classe operária nos estádios será um dos grandes legados deixados pela entidade máxima do esporte mais popular do mundo ao “país do futebol”, potencializada pelo vislumbre dos clubes locais em cativar camadas sociais cujo poder de consumo é enorme e que tem se fortalecido ainda mais, com políticas que favorecem o aumento do crédito e da renda.

SINTONIA

Azevedo (2001) estabelece a relação entre o teatro e o futebol junto ao processo de saída dos espetáculos das praças públicas e espaços externos rumo às “salas” internas, de cunho oficial, aristocrático e excludente. As encenações, ao longo da história, passaram, de modo paulatino, a excluir a participação do povo. No teatro Elizabethiano, na qual o maior expoente é William Shakespeare, as arquibancadas dispostas em até três andares tinham os ricos na galeria e os pobres em pé. A analogia palco-plateia, campo de futebol-arquibancada são bastante representativas. O palco e o campo de futebol são os espaços específicos onde tudo tem significado e inteligibilidade próprias.

A transformação da arquibancada em plateia fere o caráter espontâneo e carnavalesco dastorcidas de futebol: bandeirões, bumbos, balões, foguetes, serpentinas, pó de arroz, percussão, papeis higiênicos, faixas, máscaras, fantasias. A festa e o ritmo desmedido do barulho provido dos torcedores incendeiam e se enraizaramno espetáculo futebol.

João Borba, presidente do consórcio que administra o Novo Maracanã, deu declarações imprensa afora reprimindo a manifestação espontânea de um torcedor de futebol para defender a implantação de uma filosofia de (re)educação comportamental em um estádio. Propôs o fim de torcidas rivais, expansão do ambiente gourmet, especificidade de trajes, e a exclusão de bambus, surdões e ao hábito de se permanecer em pé durante o jogo. A exclusão da ação de torcer, em resumo, em um estádio de futebol.
 

“O Arsenal, o Manchester United e todo o resto têm a impressão de que as pessoas pagam para ver Paul Merson e Ryan Giggs, e é claro que elas fazem isso. Mas muita gente – o pessoal das cadeiras que custam vinte libras, e os caras dos camarotes-executivos – também paga para ver a torcida que foi lá ver Paul Merson (ou para escutar a torcida gritar com ele). Quem iria comprar um camarote-executivo se o estádio estivesse cheio de executivos?” (HORNBY, 1997)
 

As propostas de Borba visam à adequação do público pós-Mundial. Durante o evento da FIFA, as camadas populares terão ínfima participação no palco dos jogos. O objetivo é durante os campeonatos nacionais, é não deixar com que o “nível” social caia, a ponto de ser tomado pelo “povão”.

O privilégio aos sócio-torcedores somado ao aumento abusivo preço dos ingressos, além das existentes condições midiáticas e infraestruturais são repugnantes, sobretudo, porque a primeira circunstância citada deveria trazer resultados benéficos à relação torcedor-time em um âmbito mais amplo.

A paixão e o gosto pelo futebol não desaparecerão, por mais chutados que sejam, os torcedores humildes, porque estão enraizados.
 

"apesar dos danos causados ao jogo pelos proprietários bilionários e franquias de TV, o coração do futebol ainda é desafio em que era no início do jogo: 22 jogadores chutando uma bola ao redor do campo e um público de vários milhares de apoiantes principalmente da classe trabalhadora que comemoram sua solidariedade comunitária”. (KUHN, 2012)
 

CONCLUSÃO

Para se provar espetáculo, o futebol tem se afastado de suas origens para ser rentável. Se industrializou. A pasteurização desse esporte não atingiu os campinhos de areia ou terra batida, que abrigam canelas finas, pés descalços e peleadores atrás de uma laranja, um pé de meia, ou qualquer coisa minimamente redonda e rolável.

O futebol é cultura popular, sinônimo de paixão, razão de viver e sua função social perdura nos meios em que o lucro põe-se abaixo do prazer de jogar. É o jogo pelo jogo e a imaginação a favor. O “futebol-arte” que tanto é especulado, treinado, sistematizado, pleiteado, adaptado, espetacularizado, põe-se pleno quando há simplesmente um jogo de bola com os pés, espontâneo, e mais nada.

O recorrente processo de (des)humanização do futebol quanto ao jogo praticado e a forma de segui-lo e admirá-lo, vão matá-lo. Até que se perceba que o sustenta essa invenção do homem é o próprio homem.

 

BIBLIOGRAFIA

AZEVEDO, Débora Freire – O teatro entre as quatro linhas: uma analogia do teatro com o futebol (2001)

BULFORD, Bill – Entre os Vândalos. Companhia de Bolso(1991)

CASTELLARI, Ademir Ângelo – O tradicional e o moderno no futebol brasileiro: do moderno e de elite a uma elitização. (2010)

DAVIDSON Nick, HUNT ,Shaun– Modern Football isRubbish: An A-Z ofallthatwrongwiththebeautiful game”

FILHO, Mario – O Negro no Futebol Brasileiro.Civilização Brasileira (1964)

FOER, Franklin – Como o Futebol Explica o Mundo: Um Olhar Inesperado sobre a Globazliação. Jorge Zahar (2005)

GALEANO, Eduardo – Futebol: ao sol e à sombra. L&PM (2004)

GIDDENS, Anthony – As Consequências da Modernidade. UNESP (1991)

HELAL, Ronaldo – Passes e Impasses –Futebol e Cultura de Massa no Brasil. Vozes (1997)

HELAL Ronaldo, SOARES, LOVISOLO Hugo – A Invenção do País do Futebol:(2001)

HORNBY, Nick – Febre de Bola.Rocco (1997)

KUHN, Gabriel – Soccer vs The State: Tacking Football and Radical Politcs. (2012)

KING, Anthony – EndofTerraces: The TransoformationofEnglish Football

KUPERSimor, SZYMANSKI, Stefan – Soccernomics. Tinta Negra(2010)

RAMOS, Graciliano – Linhas Tortas (1976, p. 10)
 

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