A ortopedia e a evolução na recuperação

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A realidade era drástica: por conta da falta de preparo, lesões simplesmente não eram tratadas. Um trauma de grandes proporções podia representar um grande período de recuperação e até limitações funcionais perenes. Esse era o cenário da humanidade antes do advento (e do desenvolvimento) da ortopedia e da traumatologia.

Entre os fósseis mais antigos de seres humanos que se tem notícia, por exemplo, fica explícita a ausência de tratamento para lesões. Há casos de fraturas em que a união dos ossos aconteceu com um bom alinhamento, o que sugere até que já existia um tipo rudimentar de tala ou tipóia. Entretanto, a maioria dos casos mostra que o tratamento era baseado apenas no repouso e na limitação de movimentos.

No Egito, o tratamento de lesões ganhou algum refinamento. Há registros de talas feitas com bambu, cana e madeira, e uma estátua da tumba de Hirkouf apresenta o primeiro uso de muletas que teve registro na história. Os egípcios dividiam as lesões em três categorias: as que deviam ser tratadas, as que não deviam ser tratadas e as que deviam ser combatidas.

Outras contribuições importantes para o desenvolvimento do estudo da ortopedia aconteceram na Grécia. Hipócrates, considerado o pai da medicina moderna, realizou estudos sobre fraturas de joelhos, cotovelos e quadris, além de luxações em ombros e problemas de infecções posteriores às fraturas compostas.

Também datam desse período os primeiros registros de próteses artificiais, como pernas de madeira e mãos de ferro (com técnicas extremamente rudimentares de confecção e ligação), e do surgimento de equipamentos como brocas, serras e cinzéis.

No século VII d.C., o grego Paul de Aegina trabalhou em Alexandria e desenvolveu uma série de livros chamados “O epítome de medicamento”, livremente baseados nas obras de Hipócrates. Essas obras foram divididas em sete volumes, e o sexto deles foi direcionado às fraturas e luxações.

Quando a Alexandria foi invadida pelos muçulmanos, esses livros foram traduzidos para o árabe. E o resultado disso é que os árabes foram os primeiros a usar gesso para cuidar de casos de fraturas e traumas ósseos. O gesso era produzido com água e um pó de sulfato de cálcio desidratado.

O termo “ortopedia” só foi usado pela primeira vez no século XVIII, e o responsável por isso foi Nicholas Andry. Ele lançou um livro chamado “Ortopedia: a arte de corrigir e prevenir deformidades em crianças”, que classificava os distúrbios do esqueleto como um resultado de desvios posturais e encurtamento muscular.

Alguns anos mais tarde, o britânico Percival Pott criou outro marco para a ortopedia. Em uma queda de um cavalo, ele sofreu uma fratura composta oblíqua do terço distal da tíbia. Normalmente, não existia tratamento recomendado para esse tipo de problema e a solução era a amputação. Todavia, Pott inovou em dois aspectos: primeiro porque exigiu uma maca ou uma estrutura sólida para transportá-lo, já que o chacoalhar das carruagens poderia prejudicar ainda mais a lesão. Além disso, em vez da amputação, ele preferiu um tratamento convencional e teve sucesso. Tanto que esse tipo de fratura é conhecido até hoje como fratura de Pott.

No fim do século, um aluno de Pott causou uma revolução ainda mais contundente na medicina ortopédica. Com base em pesquisas feitas com animais e no período em que trabalhou no exército, John Hunter desenvolveu técnicas como a imobilização até o controle de inflamações em casos de doenças ou traumas articulares.

Hunter também estudou corpos livres articulares, pseudoartrose e consolidação de fraturas. Ele descreveu a transformação do hematoma da fratura em calo fibrocartilaginoso, a deposição do osso novo, a trabeculação, o restabelecimento do canal medular e a reabsorção do tecido ósseo em excesso.

O principal nome da ortopedia no século XIX foi o britânico Hugh Owen Thomas, um dos grandes responsáveis pela popularização da área. Inventor de uma série de equipamentos para auxiliar a ação médica – como a férula de Thomas, utilizada até hoje -, ele foi o primeiro a reconhecer os sinais precoces de patologias articulares no quadril. Trabalhava em sua casa, que ficava em Liverpool, e tornou-se um ícone nacional por conta de sua eficiência no tratamento de lesões.

Esse desenvolvimento técnico e tecnológico da ortopedia teve como marco a descoberta dos exames de raio-X, no início do século XX. Esse tipo de avaliação aumentou a precisão de atuação da área e sua eficiência na recuperação (principalmente em situações que exigiam intervenção cirúrgica).

O desenvolvimento da área a partir do século XX possibilitou à ortopedia extrapolar os limites do Reino Unido – que até então era o principal pólo de produção cultural sobre o tema. A disciplina começou a se desenvolver de forma contundente em outros países e se consolidou de forma autônoma depois da 1ª Guerra Mundial.

Esse posicionamento foi fundamental para ampliar a difusão da ortopedia, que se tornou ainda mais presente na recuperação de traumas e desenvolveu técnicas para fazer isso a partir de diferentes perspectivas. Ao contrário da realidade da antigüidade, a maioria dos distúrbios passou a ser tratável e uma das razões para isso é o diagnóstico mais minucioso.

Bibliografia

PEREIRA, Ricardo Jorge. Atlas da ortopedia e traumatologia clínica. Editora Iatria, 2006.
CAMARGO, Osmar Pedro; SANTIN, Roberto Attilio & ONO, Nelson Kese. Ortopedia e traumatologia. Editora Roca, 2003.
HEBERT, Sizinio & XAVIER, Renato. Ortopedia e traumatologia. Editora Artmed, 2003.
CANNAVAN, Paul. Reabilitação em medicina esportiva – um guia abrangente. Editora Manole, 2001.
SAFRAN, Marc; McKEAG, Douglas & VAN CAMP, Steven. Manual de medicina esportiva. Editora Manole, 2002.

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