Dos princípios do jogo à análise do jogo e à estruturação pedagógica

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Os princípios dos jogos desportivos coletivos

Pensemos um jogo que tenha uma bola, cuja posse é disputada por duas equipes que atuam em um campo com dois alvos e cujas ações do jogo sejam reguladas por regras pré-estabelecidas.

Essas duas equipes alternam-se nos seguintes momentos do jogo: a equipe que mantém a posse de bola deve progredir em direção ao alvo adversário buscando marcar um ponto ou gol. Já a equipe defensora, em contrapartida e simultaneamente, deve procurar proteger seu alvo, impedindo a progressão da equipe adversária e buscando a recuperação da posse de bola, para poder se organizar ofensivamente.

Que esporte é esse? Futebol, claro!

Mas e o basquete, handebol, hóquei, futebol americano, o rúgbi…? Por que não poderiam ser estes os jogos coletivos dessa descrição?

Vejam como uma análise simples como essa pode ser estendida a toda a classe dos jogos desportivos coletivos, principalmente sob a ótica das modalidades de invasão de território e luta direta pela posse de bola.

As análise sobre essas seis categorias (3 ofensivas e 3 defensivas), que estão estruturadas de maneira interdependente na tabela 1, são descritas por Dietrich et al (1984) e definidas por Bayer (1994) como os Princípios Operacionais do Jogo.
Tabela 1. Análise dos Princípios do Jogo – Retirado de Bayer (1992, p.53).

, Universidade do Futebol

Vejam a grandiosidade que uma descrição tão simplificada de um jogo pode nos significar. A partir de reflexões dessa natureza torna-se possível determinar os princípios inerentes aos jogos desportivos coletivos. Ou seja, as relações descritas anteriormente são um primeiro passo para observarmos o jogo em busca de sua compreensão e de identificar sua lógica interna, ou seja, seus aspectos estratégicos e táticos.

Claro que futebol não é handebol e rúgbi não é basquete, exatamente porque outros fatores – regras; forma, peso e medida do implemento ou bola; quantidade de jogadores; entre outros – tornam cada modalidade diferenciada entre si. Porém, temos que concordar que a lógica primária dos jogos desportivos coletivos está evidenciada nesses princípios descritos até o momento.

Dos princípios do jogo à análise tática do jogo

Pensando um dos princípios como a “manutenção da posse de bola”, por exemplo, inicialmente constata-se que e um jogo analisado a partir da relação da posse da bola, uma das funções das equipes é lutar para mantê-la. Apesar de já ser uma interpretação desse princípio, trata-se de uma visão ainda bastante simplificada sobre esse princípio, devendo ser entendida em sua radicalidade.

Aprofundando as análises sobre esse princípio ofensivo tendo como o foco o futebol, pode-se discutir e analisar aspectos como:

(1) em que faixa do campo a equipe mantém posse da bola;
(2) por quanto tempo;
(3) a bola circula em que sentido: lateralmente ou em profundidade (em direção ao gol adversário);
(4) quem são os principais articuladores da equipe;
(5) os jogadores realizam algum trabalho de movimentação sem bola e trocas de posição durante essa manutenção;
(6) como a equipe reage à investida adversária? A bola é passada pra trás? Tenta-se o drible? Perde-se a bola?

Enfim, podemos ver uma infinidade de observações mais profundas à aquele princípio do jogo, que podem ser multiplicadas por infinitas vias de análise sobre a ótica da tática do jogo.

Análise dos princípios de recuperação da posse de bola – reorganizações ofensivas e defensivas

Destaco, porém, o princípio da “recuperação da posse de bola”, pois este é um momento do jogo no qual existe as situações de transição ofensivo-defensiva e cujas análises podem ser muito ricas.

Pode-se observar, por exemplo, como a equipe que perdeu a posse de bola se comporta, a partir d reflexões da seguinte natureza:

(1) ela busca imediatamente recuperá-la?;
(2) existe alguma estratégia de reposicionamento em campo?;
(3) a equipe define em atitudes individuais a busca da recuperação da bola ou reorganizando sua defesa na tentativa de impedir ataques rápidos e contra-ataques?

Também é possível analisar como a equipe que recuperou essa posse se comporta, com critérios como:

(1) a equipe possui alguma estratégia de transição rápida buscando um contra-ataque?;
(2) existem jogadores específicos que são imediatamente requisitados após essa recuperação?;
(3) como ela se comporta quando imediatamente pressionada?

Para cada princípio operacional do jogo pode-se desenvolver inúmeras formas de analisá-lo sob sua perspectiva estratégico-tática, além dessas descritas acima.

E vale a pena destacar novamente: esses seis princípios são o alicerce para a busca de análises táticas e estratégicas mais profundas do jogo, basta explorá-los para que o desenvolvimento de formas inteligentes de análise do jogo possa surgir.

Dos princípios do jogo à estruturação pedagógica

Inicio este item com a seguinte questão: será possível agregar os Princípios Operacionais do Jogo como ferramenta de organização e estruturação de aulas/treinos?

É possível imaginar o ensino do futebol tendo como temas principais para a estruturação das aulas/treinamentos assuntos como: “recuperação de posse de bola e conservação da posse” ou “progressão em busca da meta adversária em contraposição a ações de proteção do alvo”?

Se pensarmos o futebol como tradicionalmente se faz, como um jogo de chute a gol, desmembrado dos passes, desmembrado da marcação, a resposta seria possivelmente não.

Porém, se temos como ponto de partida os aspectos ligados à lógica do jogo, como são os Princípios Operacionais do Jogo, se faz impossível imaginar como estratégia de ensino aquele pautado no determinismo, uma vez que esta forma de abordagem pedagógica acaba por retirar por completo do aluno/atleta a capacidade de refletir e responder aos problemas do jogo, sendo pautada na idéia de que o futebol é uma prática de habilidades fechadas e que se somadas, formam o jogo.

A lógica de uma proposta de ensino que adéqüe a compreensão dos Princípios Operacionais do Jogo acabará por valorizar a jogabilidade como aspecto fundamental de sua prática. Será através de jogos que evidencie cada um dos Princípios e suas relações já implícitas com os outros princípios que as aulas deverão ser estruturadas e pensadas.

Atividades desenvolvidas a fim de trabalhar, por exemplo, a manutenção da posse de bola e da recuperação, transforma uma aula/treinamento num momento de intensa atividade, através de jogos, na qual todas as capacidades físicas, técnicas, emocionais, estratégicas estariam ali contidas. Não há outra forma a não ser através de atividades jogadas de trabalhar essas relações.

Uma atividade enfatizando a “progressão em direção à meta adversária” e a “tentativa de impedir essa progressão” acabaria trabalhando jogos para o desenvolvimento de estratégias defensivas e ofensivas, preenchimento do espaço de jogo, abordagem de diferentes formas de marcação (individual, zonal, mista), ênfase em atividades com trocas de posição no processo ofensivo com finalidade de estabelecer formas de transições ofensivas mais eficientes, etc..

Atividades pensando a “finalização ao alvo” e a “proteção do alvo”, por exemplo, poderiam ir além daquela idéia do chute a gol, elaborando atividades de relação de inferioridade ou superioridade numérica, a final, não é só o goleiro o responsável pela proteção do alvo, mas também o jogador de linha.

Outras possibilidades de relação estariam em atividades de transição ofensivo-defensiv
a, trabalhando atividades jogadas nas quais a possibilidade de manutenção da posse de bola pela equipe atacante seja diminuída através, por exemplo, da inferioridade numérica dessa equipe ou limitação do espaço de atuação da equipe atacante, facilitando a recuperação da bola pela equipe defensiva.

Atividades assim trabalham:
(1) a transição ofensiva através de diversas formas de estratégia – contra-ataques, ataques com sobrecarga numérica de jogadores em determinadas regiões do campo, enfatizando a compactação e amplitude ofensivas; e
(2) a transição defensiva através de diversas estratégias coletivas para “abafar” contra-ataques, recuperar imediatamente a posse de bola, influenciar a equipe em transição defensiva ao erro, trabalhar a rápida reorganização defensiva de acordo com a estratégia determinada (marcação em zona, individual, mista) entre outras possibilidades.

Trata-se, portanto, de uma forma de pensar a estruturação das aulas/treinos sob uma perspectiva diferente daquela tradicional, uma vez que os princípios do jogo em nada nos remetem para o pensamento do futebol sob a ótica tecnicista, mecanicista ou puramente biológica, mas nos leva a pensar o jogo de futebol através da compreensão da interação de seus processos, levando, portanto, à elaboração de atividades que enfatizem no jogo e na vivência, o mais específica possível, uma forma de abordagem pedagógica motivante, lúdica e de qualidade.

Conclusão

Compreender que o futebol pertence a uma gama de atividades conhecida como os Jogos Desportivos Coletivos possibilita a análise de sua lógica sob a perspectiva dos seus Princípios Operacionais – logo uma visão bastante abrangente e não específica – o que nos remete à sua compreensão sobre a ótica de suas interações estratégicas e táticas.

Tendo a tática do jogo como principal foco, transcender a visão do “futebol apaixonado” – que ainda impera no meio do chamado “futebol profissional” – para um “futebol estratégico” em busca de respostas a partir de sua prática acaba sendo questão de tempo e esforço.

Tendo a tática do jogo como principal lente de observação do futebol, as aulas tornam-se muito mais do que um espaço de repetição de movimentos, mas de conscientização daquilo o que se faz e da busca por otimizar o tempo de intervenção através da utilização de atividades que venham a preencher o espaço de aprendizagem com jogos baseados nesses princípios do jogo, criando um ambiente motivante e específico de aprendizagem.

Bibliografia

BAYER, Claude. La Enseñanza de los Juegos Deportivos Colectivos. 2. ed. Barcelona: Hispano Europea, 1992.
DAOLIO, Jocimar & MARQUES, Renato Francisco Rodrigues. Relato de uma experiência com o ensino de futsal para crianças de 9 a 12 anos. In. Motriz – Rio Claro, v.9, n.3, p.169-174, set./dez. 2003. [clique aqui]
DIETRICH, K., DÜRRWÄCHTER, G., SCHALLER, H.J. Os grandes jogos. Metodologia e prática. Ao Livro Técnico. Rio de Janeiro, 1984.
LEONARDO, Lucas. O desenvolvimento de modelos de análise do jogo através da compreensão do jogo. (42f.) – Trabalho de Conclusão de Curso (graduação) – Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, 2005. [clique aqui]
LEITÃO, Rodrigo. Futebol : Analises qualitativas e quantitativas para verificação e modulação de padrões e sistemas complexos de jogo. Dissertação (mestrado). Faculdade de Educação Física, Universidade Estadual de Campinas, 2004 [clique aqui]

* Lucas é bacharel e licenciado em Educação Física pela UNICAMP, trabalha no InfoCenter Campus Pelé, é membro do setor de pedagogia do esporte do Projeto Campus Pelé e coordenador pedagógico da Associação Campineira de Handebol.

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