Preparação física no futebol de base: entendendo os porquês das 'coisas'

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Caro leitor, lanço um desafio a você neste exato momento: eu aposto (e ganho!) que alguma vez em sua vida você fez ou foi obrigado a fazer algo sem entender por quê! Ganhei, certo?

Todos nós, seja na escola, quando tivemos que decorar fórmulas de física, matemática e química (com ajuda de “musiquinhas” e associações para facilitar a memorização), seja no trabalho (quando se é obrigado a cumprir regras e imposições inflexíveis e sem um respaldo plausível) ou mesmo na relação pais e filhos (quem é que já não foi punido sem saber por quê?) já passamos por isso.

E no contexto do futebol de base (onde se supõe que haja uma preocupação com o aprendizado do atleta), essa máxima de fazer as “coisas” (leia-se “treinos”) sem entender o porquê também prevalece? Ou será que nesse âmbito eu perderia a aposta? A partir desse momento, discorrerei sobre essa temática no que concerne à preparação física.

Ainda hoje, apesar da divulgação maciça da mídia e dos meios de comunicação sobre a importância da preparação física no futebol moderno – desde a maior dinâmica do jogo, responsável pelo aumento da distância percorrida e do número de ações até resultados positivos de trabalhos bem conduzidos com atletas específicos (como o caso do Kaká, quando ainda estava no São Paulo Futebol Clube) – ela ainda é mal quista e sofre resistência por grande parte dos jogadores.

Por que isso acontece? O problema está nos atletas que são “preguiçosos” e dão o famoso “migué” ou no processo a que são submetidos desde a base? Há uma real preocupação didática do profissional que se responsabiliza por essa área em explicar e discutir os treinos? Ou simplesmente obrigam-se os jovens atletas de forma arbitrária, a partir da escala hierárquica, a realizar as atividades em intensidade máxima (com ajuda das famosas palminhas e dos gritos enraivecidos) como se estes fossem verdadeiros “robocops”?

A área da preparação física é bastante ampla e envolve campos que vão desde a bioquímica/fisiologia do exercício, passando pelos princípios do treinamento chegando até a pedagogia. Infelizmente, em muitos casos, dá-se uma atenção muito grande para os meios e métodos que serão utilizados e acaba por se esquecer da pedagogia do treinamento. Pensando-se em categoria de base, isso é temeroso, visto que quanto mais cedo se der o processo de conscientização dos atletas que dão início à especialização, maiores serão as chances de futuros atletas críticos e inteligentes. O problema é que o contrário também é verdadeiro.

Dessa forma, penso que a necessidade de se explicar por que um jovem futebolista faz um trabalho de coordenação complexa no início do processo de especialização, por que é necessária e para que serve a avaliação periódica de determinadas capacidades físicas ao longo de uma temporada (sendo obrigatória a devolutiva dessas avaliações por parte do profissional responsável para os atletas que tanto se esforçaram para melhorar!) é tão importante quanto o planejamento e execução dos treinos. Aliás, a demanda de tempo requerida para tais explicações deve ser contabilizada desde o planejamento dos treinos e não ser vista como “perda de tempo”.

A partir dessas iniciativas, o jovem atleta começa a ser parte pensante desse processo chamado “preparação física” e passa a entender porque alguns treinos “cansam” e isso deve ocorrer (como treinos de capacidade aeróbia ou resistência de sprint) enquanto em outros, o cansaço não é objetivado (como em treinos de velocidade ou força explosiva). O jogador entende porque alguns treinos são sempre realizados no início da sessão, a utilidade de um treino de saltos (com certeza a justificativa não é para que cabeceiem mais alto no jogo!) ou porque alguns tipos de treino predominam no início da temporada e outros mais no fim.

Em um ambiente de aprendizagem rico e que incita a autonomia e a discussão, o jovem atleta da categoria de base passa a sensibilizar-se da importância de sua opinião quanto ao que está sentindo para adequação da magnitude de carga de treino (afinal o treinamento tem sim um componente empírico que não deve ser desconsiderado), assim como os riscos envolvidos quando não se comunicam com a comissão técnica e treinam com dor (isso sem falar na importância de ensiná-los a diferenciar uma dor muscular tardia, da dor decorrente de uma possível lesão muscular, algo que os atletas jovens fazem tanta confusão!).

Esse mesmo atleta passa a ter voz ativa na construção dos treinos (já que sabem o contexto da atividade proposta), propiciando um ambiente de treinamento mais agradável sem que o preparador físico perca sua autoridade ou seu grau hierárquico pelo simples fato de ouvir e porque não acatar uma sugestão de um atleta.

Enfim, a idéia desse texto, não é questionar metodologias de treino (treino dentro ou fora do contexto de jogo, periodização em bloco ou ondulatória), mas sim a conduta desse profissional responsável por essa área. Posso ser tachado como romântico por alguns, mas sou da opinião de que quando entendemos aquilo que estamos fazendo, nossa dedicação e motivação para execução daquilo aumentam exponencialmente, independentemente da área. Por isso penso ser um dever da figura do preparador físico, buscar alternativas e ferramentas que aumentem sua didática no sentido de criar atletas críticos, questionadores e inteligentes nas categorias de base.

Dar treino “físico”, não é simplesmente colocar cones, medir dimensões, quantificar volume e intensidade e atingir ápices e platôs de performance. Com certeza, esses atletas mais conscientes e inteligentes, passarão a divulgar a importância da preparação física e mais do que isso, exigirão qualidade profissional daqueles que tiverem em seu comando.

Para terminar, cito um ditado bastante utilizado pelo mestre Telê, o qual tive a oportunidade de ler em sua biografia “Fio de Esperança”:

“Aquele que não sabe e sabe que não sabe é humilde, ajude-o;
Aquele que sabe e não sabe que sabe está dormindo, acorde-o;
Aquele que não sabe e pensa que sabe é ignorante, afaste-o;
Aquele que sabe e sabe que sabe é sábio, siga-o”.

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