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Sócrates

Cachaça, que não se perca pelo nome, é um dos tantos grandes amigos que Sócrates Brasileiro Sampaio de Souza Vieira de Oliveira (o mais longo e mais decorado nome de craque da história do futebol brasileiro) curtiu em 57 anos de vida. E que vida.

É dele a melhor e mais completa e complexa definição de um craque indefinível.

“O Sócrates é um artista”.

A explicação socrática: “Ele é um artista porque dizem que foi craque – e só jogava de costas, de calcanhar; dizem que é médico – e nunca operou nem uma galinha. Enfim, o cara é mesmo um artista: dizem que foi craque e médico. E não foi nem uma coisa e nem outra”.

Sócrates adorava a história. Fazia questão de contá-la sempre nas tantas vezes que saímos para jogar conversa dentro, para fazer eventos onde ele contava histórias e estórias onde ele também era a própria história. Embora adorasse apenas se colocar entre tantos operários dessa obra inacabada e imperfeita do futebol que ele soube fazer como arte e ideologia como raros. Mais um operário dentro da máquina que ele adorava contestar com ideias e ideais raros. Até os utópicos. Utopia que o encharcava mais que as cervejas e os vinhos que jamais renegou.

Ou melhor, deixou de lado para se preparar para capitanear o grande Brasil de 1982. Quando emagreceu, parou de beber, ganhou o físico que nunca quis ter. E foi exemplar até o antidoping contra a Escócia, em Sevilha. Quando tomou tudo que podia para colher o material e ser recolhido no vestiário por um velho amigo.

Ainda assim, como todo o Brasil, fez um grande Mundial. Não ganhou a Copa, mas conquistou o mundo. Como, meses depois, começaria a ganhar o respeito do país comandando uma revolução que começou no Parque São Jorge e correu o Brasil. A Democraria Corintiana. Que se garantia em campo no bi paulista de 1982-83. Mas, fora dele, fez muito mais. E não só pelo clube. Pelo torcedor, pelo cidadão. Pela liberdade.

Livre. Era assim o Sócrates que brilhava no Botafogo de Ribeirão Preto até ser comprado pelo Corinthians, em 1978. Onde ficou até o Congresso dizer “não” para as Diretas Já, em abrir de 1984, e ele ir de mala e cuia para Florença. Para receber o primeiro salário na Fiorentina, esquecer de pegar o resto, e ficar só um ano por não jogar o muito que sabia, e não se dar com quem nem sempre dava tudo pelo time e pelo futebol.

Flamengo com Zico, Santos com Wladimir de outras batalhas, e o ponto final na carreira. Médico, músico, comentarista do Sportv (onde trabalhamos juntos em 1995), apresentador de TV (tínhamos um projeto conjunto de programa de TV que nunca conseguimor realizar), e mais um monte de atividades. Tantas quantas mulheres e filhos. Tantos quantos amores e paixões.

Com a bola, não era atleta como o “pivete” Raí, craque-bandeira do São Paulo. Mas era mais genial. Cerebral. Mágico. Brilhante. O artista, na definição do amigo Cachaça. O cara que aceitou do amigo Mazinho o pagamento em cerveja perpétua de diferença em venda de imóvel.

Um amigo leal. Um craque. Um gênio. Um Brasileiro.

“Só quem entende a beleza do perdão pode julgar seus semelhantes”, disse Sócrates, o que não sabia jogar bola.

Só quem viu jogar e teve o privilégio da amizade pode entender a beleza que não admite julgamentos.

Obrigado, doutor honoris causa.

O Brasil, mais que o futebol, agradece a coragem.

P.S.: Escrevi este texto no Pacaembu, 12h30 deste domingo quando perdemos Sõcrates.

Onde um dia, ainda pelo Botafogo, nos anos 70, o Doutor chegou tarde para um jogo pelo Paulistão. À tarde ele havia ficado em Ribeirão Preto para fazer prova na Faculdade de Medicina. Chegou em cima da hora ao estádio onde não havia atuado. Mal sabia por onde entrar. Sem documento algum, nem RG, foi duro convencer que ele poderia entrar no estádio. Não sabia onde era o vestiário. Mais difícil ainda foi fazer entender ao porteiro que ele era jogador com aquele jaleco e com aquela magreza toda.

Mal chegou, mal se aqueceu, e foi o maior em campo.

Para interagir com o autor: maurobeting@universidadedofutebol.com.br

*Texto publicado originalmente no blog do Mauro Beting, no portal Lancenet.

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Doutor da Alegria

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Doutor da Alegria

O futebol brasileiro hoje derrama lágrimas e risos.

Nunca havia sido disputado um campeonato nacional tão eletrizante como em 2011 – seja na parte de cima, seja na parte de baixo da tabela.

Risos para os que foram campeões ou se classificaram para as competições internacionais.

Lágrimas para quem se foi para a Série B.

Mas a torcida corintiana – que, junto com a do Botafogo, sempre se diz predestinada aos desígnios dos mistérios da bola – teve um domingo especial.

Agridoce.

Comemorou seu quinto título brasileiro, no mesmo dia em que perdeu, talvez, seu maior ídolo. Ironia desse esporte das multidões.

Sócrates. O Doutor.

Se não fosse pela graduação universitária, assim deveria ser chamado pela nobreza técnica dentro de campo.

E pelo ativismo político-social fora dele. Enquanto jogava também, é bom ressaltar. Não apenas ao pendurar as chuteiras para vestir o jaleco.

A Democracia Corintiana, contemporânea do movimento para as Diretas Já, teve em seu DNA a participação de Sócrates, naquele movimento que se pretendia um microcosmo representativo dos anseios do povo brasileiro pela liberdade de expressão e organização política.

Levou toda sua capacidade de mobilização e pensamento crítico para fortalecer a Fundação Gol de Letra, da qual seu irmão Raí é instituidor, junto com Leonardo.

Ainda, fazia parte da ONG Atletas pela Cidadania, cuja missão era:

“Defender causas importantes para que o nosso país tenha um desenvolvimento social mais justo.

A estratégia é simples: aproveitar a popularidade e a credibilidade dos atletas para chamar a atenção e mobilizar os brasileiros, informando e agindo para todos vivermos numa sociedade melhor.

Cada atleta é admirado, respeitado e seguido como um exemplo de quem aproveitou as oportunidades que a vida ofereceu para batalhar pelas suas vitórias.”

O “Magrão”, como também era conhecido, conseguiu mobilizar e inspirar inúmeras pessoas ao longo de sua vida.

Mas, como tantos outros ícones do esporte, não venceu um dos demônios pessoais, que o levou.

Pelo menos, num domingo de futebol.

Com a faixa de campeão no peito.

A maior condecoração que o Doutor poderia receber.

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br

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Treino: é preciso olhar antes para o jogo

Venho discutindo bastante questões que envolvem todo o processo de treino. Abordei teorias, métodos, atividades, intervenções, etc.

Nesta semana vou abordar algo que deve nortear todo esse processo: o jogo!

Todo o processo de treino deve ser orientado pelo e para o jogo. A visão que temos desse fenômeno é que orientará toda a sistematização, intervenção e elaboração das atividades.

Em décadas passadas, o jogo era visto como a soma de suas partes; logo, o treino buscava treinar cada parte isoladamente a fim evoluir o todo, em que cada uma delas seria somada às demais e assim o todo era formado.

Atualmente, os paradigmas que norteavam essa prática vêm se modificando e o paradigma da complexidade ganha cada vez mais “adeptos” que notam a necessidade de olhar para o jogo não mais como uma soma de partes, mas como um fenômeno complexo onde as partes se relacionam, se influenciam, integram e constituem o próprio o todo.

Partindo desse pressuposto, devemos buscar mais referências para intervir e orientar um processo, pois não basta dizer que é complexo e ponto!

É preciso entender o caos!

Entender que mesmo em um ambiente caótico, há padrões e esses padrões podem ser observados e representados através de diagramas. Será?

Para isso é preciso estudar a geometria desde a analítica até a fractal.

É preciso entender de sistemas!

Mas o que tudo isso tem a ver com o jogo?

Tudo a ver!

Como afirma Manuel Sérgio:

“Quem quiser entender de futebol só estudando futebol, nunca vai saber tudo sobre futebol.”

Devemos refletir sobre o que devemos estudar, então…

Cada um terá sua resposta, pois a leitura, assim como o treino, depende de nossa interpretação, que é orientada por paradigmas e por experiências prévias…

Tentemos, então, olhar para o jogo como ele é e pensar sobre o que devemos saber para entendê-lo um pouco mais.

Peço licença e gostaria de terminar com dois “parágrafos abertos” para o Professor Doutor Wilton Santana, a quem tive o privilégio de conhecer pessoalmente no último fim de semana:

Um dos primeiros livros que li foi: “Futsal : apontamentos pedagogicos na iniciação e na especialização”. Nele vi que o processo de ensino poderia ser organizado de uma forma diferente. Naquele momento muitas dúvidas foram geradas e os paradigmas começaram a ser superados e quero te agradecer por isso. Assim como ao Rodrigo Leitão, que me indicou essa excelente leitura.

Espero que um dia você volte para prática, de preferência em uma equipe da liga nacional, pois precisamos mudar muitas coisas no campo e na quadra. Enquanto esse dia não chega, espero que continue disseminando seus conhecimentos e mudando paradigmas assim como ocorreu comigo.

Obrigado e até a próxima!

Para interagir com o autor: bruno@universidadedofutebol.com.br

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Whey Protein no ambiente do futebol

O whey protein é prescrito para atletas que desejam aumentar ou manter a massa muscular. Ele é feito através da proteína do soro do leite, que é um subproduto resultante da fabricação de queijo. Essa proteína é considerada de alto valor biológico e possui o perfil de aminoácidos muito similar ao das proteínas do músculo esquelético.

A utilização por jogadores de futebol geralmente ocorre pela sua alta digestibilidade, sendo rapidamente absorvido e estimulando a síntese de novas proteínas nos tecidos, recuperando o desgaste pós treinamentos e jogos.

Nos últimos estudos publicados foram comprovados outros benefícios, como aumento da saciedade contribuindo na redução da gordura corporal, podendo dessa forma ser prescrito no planejamento alimentar dos atletas que necessitam diminuir o peso. O alto teor de leucina, valina e isoleucina, os famosos BCAA’s melhoram o metabolismo energético tendo um consumo melhor de energia.

Outro benefício constatado é de que as proteínas irão aumentar a resposta imunológica dos atletas, pois aumenta os níveis de glutationa celular diminuindo o risco de infecções e lesões. A oferta de alimentos que melhoram a imunidade dos atletas é sempre muito válida tendo em vista que o nível de treinamento e o pouco tempo de descanso irão alterar a imunidade.

Para a melhor utilização do suplemento, é importante nutricionista, médico e comissão técnica utilizarem os exames bioquímicos para constatar o real desgaste do atleta. E após isso o nutricionista deverá planejar uma alimentação balanceada e adequada respeitando a individualidade do atleta.


*Nutricionista do Porto Alegre Futebol Clube e especialista em Nutrição Esportiva e Treinamento Físico

Contatos: nutricionistadenisepinto.com ou denise.entrudopinto@gmail.com

Referências:

HARAGUCHI, Fabiano Kenji; ABREU, Wilson César de; PAULA, Heberth de. Proteínas do soro do leite: composição, propriedades nutricionais, aplicações no esporte e benefícios para a saúde humana. Rev. Nutr., Campinas, v. 19, n. 4, Aug. 2006 .

Lönnerdal B. Nutritional and physiologic significance of human milk proteins. Am J Clin Nutr. 2003; 77(6):1537-43.

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A relação entre os princípios operacionais e os meios táticos

As discussões acerca de um determinado tema sempre possibilitam crescimento. No conflito de opiniões de interpretações da realidade, cada indivíduo defende seu ponto de vista fundamentado em experiências, vivências e conhecimentos diversos. Nessas discussões, um ambiente favorável, a liberdade de expressão e a ausência de julgamento de valor são pré-requisitos para que o crescimento seja potencializado.

Em 2009, participei de muitas discussões. Naquele ano, minha capacitação técnica em relação ao futebol teve um salto de qualidade. Uma das pessoas que contribuiu para meu desenvolvimento profissional foi Lucas Leonardo, estudioso da pedagogia dos JDC e, na ocasião, companheiro de trabalho. Lucas, então coordenador do Departamento de Pedagogia, desenvolveu um pequeno material (que recebeu alguns ajustes), estabelecendo uma relação entre os princípios operacionais dos jogos coletivos de invasão e os meios táticos do futebol.

Basicamente, o objetivo deste material era auxiliar a comissão técnica que, ao definir os conteúdos de trabalho em seu planejamento semanal, deveria saber exatamente em qual nível funcional dos jogos elaborados as intervenções ocorreriam.

Por fatores diversos, a discussão sobre este tema nunca foi encerrada; porém, a oportunidade de escrever para um conceituado portal permite que tal discussão, iniciada por um pequeno grupo de pessoas, ganhe o mundo e contribua no aperfeiçoamento da atuação profissional de cada um dos leitores/profissionais do futebol.

Na presente coluna, será apresentada somente a relação entre os princípios operacionais e os meios táticos defensivos, estabelecida com base no Currículo de Formação já abordado integralmente.

Sabe-se que as Referências Operacionais Defensivas dos jogos coletivos de invasão são: impedir progressão ao alvo, proteção do alvo e recuperação da posse de bola.

Já como Meios Táticos Defensivos do futebol, apresentam-se: bloco, cobertura defensiva, compactação, direcionamento, equilíbrio, flutuação, pressão, pressing, recomposição e retardamento.

Cada meio tático se relaciona em níveis hierárquicos com as referências operacionais como mostra a tabela abaixo:

Tabela – Relação entre os Meios Táticos Defensivos e as Referências Operacionais Defensivas

 

Perceba que algumas ações táticas se relacionam com as três referências operacionais, outras ações com apenas duas e há ainda as que se relacionam somente com uma referência, mais especificamente a de recuperação da posse de bola.

Na organização defensiva, a recuperação da posse de bola é o objetivo principal. Porém, é certo que orientar diretamente todas as ações individuais e coletivas exclusivamente para este mecanismo não é o procedimento mais eficaz.

Durante a ocorrência desse momento do jogo, é coerente que a equipe tenha comportamentos (previamente treinados) que, em dadas situações do jogo, estejam orientados (num primeiro nível hierárquico) para uma ação operacional distinta da recuperação da posse de bola.

Ao pensar a semana de treinamento em relação aos conteúdos defensivos, não se esqueça de que, no Jogo, as aplicações destas ações táticas se inter-relacionam e emergem (quer você queira, quer não) de acordo com os inúmeros e imprevisíveis problemas do Jogo. Problemas que, quanto mais experiências de qualidade os treinamentos permitirem aos atletas, mais bem serão solucionados.

Que esta tabela auxilie as comissões técnicas em suas reuniões de planejamento para que um treino criado não fuja das reais necessidades da equipe.

Em relação à tabela dos princípios operacionais e meios táticos ofensivos, escreverei em outra oportunidade.

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

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Os clássicos na última rodada e o Estatuto do Torcedor

Neste fim de semana será realizada a última rodada do Campeonato Brasileiro e a grande sensação é que, pela primeira vez, todos os cálculos serão realizados na derradeira ronda.

Destarte, um dos princípios que rege o Estatuto do Torcedor é o da transparência, motivo pelo qual, com o objetivo de aproximar o torcedor das entidades organizadoras propiciando intercâmbio e clareza das informações, foi criado, pelo Estatuto do Torcedor, o Ouvidor das competições.

Nos termos do artigo 6º, do Estatuto do Torcedor, toda competição deve ter um Ouvidor que possui o dever de recolher as sugestões, propostas e reclamações que receber dos torcedores, examiná-las e propor à respectiva entidade medidas necessárias ao aperfeiçoamento da competição e ao benefício do torcedor.

É, ainda, assegurado aos torcedores o amplo acesso ao Ouvidor da Competição, mediante comunicação postal ou mensagem eletrônica, bem como o direito de receber do Ouvidor da competição as respostas às sugestões, propostas e reclamações, que encaminharam, no prazo de trinta dias.

No que concerne ao regulamento das competições, a entidade responsável organizadora, antes do seu início, designará o Ouvidor da Competição, fornecendo-lhe os meios de comunicação necessários ao amplo acesso dos torcedores.

O Ouvidor tem o dever de recolher as sugestões, propostas e reclamações que receber acerca do regulamento, examiná-las e propor à respectiva entidade medidas necessárias ao aperfeiçoamento da competição e ao benefício do torcedor.

Tais propostas, sugestões ou reclamações devem ser enviadas ao Ouvidor, no prazo de dez dias da divulgação do regulamento.

O Ouvidor da competição elaborará, em setenta e duas horas, relatório contendo as principais propostas e sugestões encaminhadas.

Após o exame do relatório, a entidade responsável pela organização da competição decidirá, em quarenta e oito horas, de maneira justificada, a conveniência da aceitação das propostas e sugestões relatadas.

Somente após este período, será divulgado o regulamento definitivo da competição, obedecendo-se a antecedência mínima de quarenta e cinco dias do início do campeonato.

No início de março de 2010, foi divulgada a tabela e o regulamento do Campeonato Brasileiro da Série A daquele ano.

Com o intuito de contribuir e evitar eventuais dúvidas acerca da lisura das partidas, como ocorrido na última rodada do Brasileirão de 2009, na época devida encaminhei ofício ao Ouvidor sugerindo que a tabela fosse planejada de forma que todos os clássicos ocorressem na rodada derradeira.

Na última rodada do Campeonato Brasileiro de 2009, o Internacional de Porto Alegre dependia da vitória de seu maior rival (Grêmio) sobre o Flamengo para tornar-se campeão brasileiro.

Durante toda a semana, muito se especulou acerca da possibilidade do Grêmio atuar com a equipe reserva ou de entregar a partida.

A própria torcida do Grêmio era favorável à derrota para prejudicar o rival.

Na partida, o Grêmio, apesar de entrar em campo sem o seu time titular, abriu o placar e o Flamengo venceu de virada, o que, de certa forma, afastou os comentários acerca de eventual “corpo mole”.

O Fundamento do meu requerimento foi a afirmativa de que a realização dos clássicos na ultima rodada, além de trazer emoção e interesse para clubes que não estejam disputando posições, evitaria desconfianças e especulações, bem como traria extrema lisura e transparência à competição e atenderia ao que estabelece o art. 5º, da Lei 10.671/2003, Estatuto do Torcedor.

A referida sugestão foi enviada ao Ouvidor da Série A, o Sr. Ronald de Almeida Silva, pelo endereço eletrônico divulgado no sítio da CBF, qual seja: ronald.ouvidor@cbffutebol.com.br

Até o dia 15 de maio, ainda não havia obtido resposta, oportunidade em que reenviei a sugestão, tendo o “email” retornado sem cumprimento. Pesquisando em outras fontes que não o site da CBF, constatei que o endereço eletrônico havia sido alterado para: ronald.ouvidor@cbf.com.br.

A resposta somente foi efetivada em 28/05/2010, sessenta dias após o envio da sugestão, em desacordo com art. 9º, do ET, eis que, o prazo para a resposta é de cinco dias (quarenta e oito horas para o Ouvidor relatar à CBF e setenta e duas horas para a entidade responder).

O Ouvidor respondeu informando que tal sugestão seria encaminhada para o Campeonato de 2011. Assim, tamanha foi a minha surpresa quando a tabela de 2011 estabeleceu que os clássicos regionais fossem disputados na última rodada.

De fato, mesmo antes da derradeira rodada, já se percebe que a alteração na tabela foi um sucesso. O comentário da semana de norte a sul do país é sobre a satisfação de o Atlético rebaixar o Cruzeiro, de o Palmeiras melar a festa corintiana ou de o Flamengo conferir ao Vasco “mais um vice”. Isso sem falar nas demais sete partidas.

Portanto, aguardemos as fortes emoções que o fim de semana reserva aos torcedores de todo o país.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br

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Do céu ao inferno em 90 minutos e o vestibular da bola

No próximo domingo saberemos quem será o Campeão Brasileiro de 2011.

Na disputa estão apenas Corinthians e Vasco que poderão viver situações opostas.

Se analisarmos a condição dos treinadores das duas equipes eles também poderão viver situações bem diferentes.

Tite começou o campeonato arrasador batendo o recorde histórico de aproveitamento nas primeiras rodadas, teve queda de rendimento ao longo da disputa e até teve seu cargo ameaçado.

Já Ricardo Gomes ganhou a Copa do Brasil, iniciou o Campeonato Nacional sem muito destaque, sofreu um AVC no início do segundo turno do certame e desde então ficou afastado por razões óbvias. Curiosamente, mesmo com seu afastamento, o time do Vasco melhorou e conseguiu chegar de forma honrosa à semifinal da Copa Sul-Americana e também disputa o título brasileiro (ainda que não dependa exclusivamente de si mesmo).

Aproveitando a onda de disputa em nível nacional, imagine se a Fuvest (vestibular mais concorrido no Brasil que se iniciou domingo passado) fizesse para seus candidatos as seguintes questões:

01 – Calcule, em percentil, o peso da contribuição do treinador no resultado final de uma equipe ao término do Brasileirão 2011.

02 – O que acontecerá, respectivamente, com quem vencer ou perder a edição deste Nacional?

Mesmo que você não seja um vestibulando na vida real, gostaria de convidá-lo a enviar sua resposta.

Na próxima semana, com o campeonato já definido, iremos saber o que de fato aconteceu com cada equipe vencedora ou perdedora e as respostas que mais se aproximaram da verdade serão publicadas.

Vamos ver se você acerta essa!

Boa sorte a todos!

Para interagir com o autor: cavinato@universidadedofutebol.com.br

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Caso Dodô: acerto no presente, prudência para o futuro

Caros Leitores,

Leio há alguns dias as manifestações o resultado do Caso Dodô, que foi julgado pelo STJD, na última segunda-feira (28/11/11). Gostaria, aqui, de tecer algumas linhas sobre este importante episódio da Justiça Desportiva nacional. Antes, porém, permitam-me fazer uma pequena digressão antes de enfrentar a matéria.

Alguns temas trazidos a baila me remeteram a um debate que existiu aqui em nosso TJD, quando a pena da agressão física tinha como mínimo o prazo de 120 dias (antigo art. 253). Imagino que noutras Cortes também os julgadores se sentiam mal em aplicar esta sanção, principalmente, quando se tratava de condutas que provocaram quase (ou nenhuma) repercussão visível. Lembro-me que não eram poucas as desclassificações de agressões para ato hostil ou até mesmo jogada violenta. Senti e vivi isso como defensor dativo e depois, padeci como procurador.

Pensava à época que tal disposição era inconstitucional, porquanto malferia a proporcionalidade entre ação/resultado. Recordo que a suspensão desportiva era superior à pena mínima imposta ao delito de lesões corporais (art. 129, CP). Nós que militamos nos TJDs, distante do grande palco e das luzes, víamos atletas não profissionais ou adolescentes ser suspensos por um tapa ou uma descrição do árbitro de teria ocorrido uma agressão – nutro a suspeita (quase certeza) de que nem sempre o fato (agressão) chegou a existir.

Aquilo, ao menos em mim, causava dor. Sabe-se que a norma (refiro-me à penal, que tem natureza análoga à disciplinar) deve ser abstrata e genérica, para poder o maior número de pessoas e evitar o excesso de especificidades. E o CBJD tem como guia o desporto profissional, especialmente o futebol. Esquecem-se que a grande parte dos seus praticantes – profissionais ou não profissionais – não estão entre os 20 maiores clubes. Enfim, sigamos.

Não sem razão o CBJD, neste particular, foi alterado, inserindo a punição por jogos e corrigindo aquela aberração.

A inserção deste parágrafo obrigando o condenado a somente retomar o exercício profissional após o retorno do atleta adversário é noviça para o tipo de jogada violenta, não havia na redação anterior, nem no quase esquecido CBDF. Exista na antiga redação do CBJD a hipótese do art. 253, par. 2º, onde, se a lesão fosse grave e o atleta ficasse impossibilitado de retomar suas atividades normais, o atleta agressor poderia ser afastado até o seu pronto regresso, respeitando-se o limite de 720 dias.

O novel legislador aproveitou este dispositivo e o inseriu na redação da jogada violenta, alterando significativamente o prazo limite para 180 dias. Ou seja, por força do próprio CBJD o afastamento do atleta condenado só poderá ser mantido até 180 dias.

Sinceramente, entendo que existe suporte para se impor limitação ao exercício profissional, sem que isso signifique ofensa à Constituição. O CBJD é o diploma legal que regulamenta as condutas no âmbito do esporte, é ele quem diz o que é permitido e o que é proibido. Outrossim, traz as sanções que se devem impor nos casos em que houver burla às suas regras.

Naturalmente, não se está a impedir que o atleta exerça seu mister, está a se impedir que o atleta que exerceu mal o seu mister possa prontamente retornar tranquilamente a exercê-lo. Para isso, o legislador construiu um arcabouço jurídico como meio de efetivar a ampla defesa e o contraditório. E digo mais, vai além, permite que qualquer cidadão tenha direito a um triplo grau de jurisdição, o que, no direito secular, sequer existe.

Voltando os olhos para o caso Dodô, a CD, com arrimo no vídeo, interpretou que o atleta foi além do que se permite no futebol, violou as suas regras disciplinares, revelando um “animus laedendi” (vontade de lesionar), se afastou a imprudência ou inconsequência. A prova produzida foi valorada pelo tribunal. Nada mais. E, dada a gravidade da sua conduta, melhor dizendo, do resultado por ele provocado, foi apenado em quatro jogos, como determina o “caput”, e, por conseguinte, caso cumpridos, ficasse suspenso até o retorno do jogador. Aqui se levou em consideração como dito, a extensão do resultado da conduta por ele praticada.

Com efeito, não se pode falar em pena perpétua ou sem fim, porquanto o próprio parágrafo 3º, impõe como limite máximo o prazo de 180 dias. Destarte, fielmente se atende ao princípio da legalidade, sem aviltar-se a CF/88 e sequer se vislumbra a hipótese de “bis in idem”.

Por certo, os tribunais não têm o costume de utilizar este parágrafo, o que não quer dizer que ele não existe juridicamente. Somente é recomendável que seja utilizado de forma excepcional, afinal, o futebol é esporte que contempla choques físicos naturais e lesões, como consequência, em lances de falta ou mesmo normais de jogo.

Temo que as Procuradorias saiam numa caça às bruxas a todo o tempo e a qualquer custo pedindo que se aplique o referido parágrafo. Para mim, devem ser reservados os casos em que se sobressaia o dolo do agente, somado com as nefastas consequências.

Enfim, sigamos o debate!

*Advogado Criminalista, Conselheiro Estadual da OAB/BA, Conselheiro do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária/Ministério da Justiça, Professor de Direito Penal, Mestre em Políticas Sociais e Cidadania pela UCSal, Procurador e ex-Defensor Dativo do Tribunal de Justiça Desportiva do Futebol da Bahia, Diretor Presidente do Instituto de Direito Desportivo da Bahia.

Contato: mjordao@iddba.com.br.