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Jogo de Damas

Neste breve período de férias merecidas, um dos livros ao qual dediquei meu ócio criativo intitula-se “Jogo de Damas”, de David Coimbra.

O escritor é também editor de esportes do Jornal Zero Hora, de Porto Alegre.

Além disso, faz as vezes de cronista do veículo, com textos que me chamavam a atenção por entrelaçar a relação dos homens com as mulheres ao futebol.

No livro, Coimbra faz um apanhado de personagens femininas, desde a Grécia Antiga até nosso século XX, referindo-se à vida destas célebres mulheres como dínamos do processo civilizatório na história da humanidade.

O autor entende que, antes do protagonismo feminino – embora relegado aos bastidores dos palácios e casas reais, ou nas alcovas efervescentes dos amantes – o mundo estava jogado ao homem e sua selvageria, ao caos, à confusão, ao desejo de conquistas e acúmulo de riquezas.

Com efeito, ao dissecar estes episódios históricos abordados no livro, o autor evidencia como as mulheres dominaram o ímpeto dos homens e suas consequências em prol de nossa evolução.

E, como não poderia deixar de mencionar o futebol, assevera:

“Bem que tentamos nos adaptar à civilização. O esporte é a prova cabal das nossas boas intenções. O esporte nada mais é do que uma regressão à Era de Ouro pré-civilização. Um esporte coletivo, como o futebol, dá ao homem a satisfação atávica de lutar em grupo por um objetivo comum. Antes, o time cercava o mamute: três ou quatro atraíam o monstro para uma clareira, outros seis guarneciam os flancos, mais sete ou oito artilheiros muniam-se de lanças pontudas para feri-lo de morte. Um perfeito trabalho de equipe para a derrota do adversário. O futebol.”

Messalina, Mata-Hari, Lou Salomé, Cleópatra, Lucrécia Borgia, dentre outras mulheres, são objeto de textos bem-humorados e astutos para descrever como, e forma ardilosa, sutil, inteligente ou firme estas musas domaram seus homens.

Portanto, para reconhecer a devida importância às mulheres em nossas vidas e também no futebol, alguns fatos recentes relevantes:

1.Sereias da Vila: apesar da suscitada dificuldade financeira alegada pelo Santos para por fim à equipe, apelo para que a CBF crie uma liga econômica e esportivamente sustentável, visando a expansão e consolidação da modalidade no Brasil.

2.Holanda: o Ajax sofrera punição para jogar com portões fechados e sem público, diante de uma invasão de seu campo ocorrida em 21/12. Solicitou que a pena seja convertida em deixar apenas mulheres e crianças assistirem ao jogo. Isso foi inspirado em algo que ocorreu na

3.Turquia: no ano passado, essa pena alternativa levou 41 mil mulheres e crianças ao jogo do Fenerbahce. A segurança foi feita apenas por policias mulheres, e nenhuma ocorrência foi registrada.
David Coimbra, com humor inteligente, convoca as mulheres para assumirem postos de liderança no lugar dos homens, antes que o mundo acabe:

“Mas, se não acabar, se a mulher conseguir dar um jeito neste projeto mal enjambrado que é a Civilização, bem, aí as coisas vão enfim acontecer do jeito que tem de acontecer: a mulher vai comandar famílias, empresas, cidades e nações, enquanto a nós, homens, caberão as funções típicas de seres mal-adaptados ao mundo feminino, de sonhadores inatos, de românticos atávicos, como nós, e então nós nos dedicaremos aos esportes, à música, à poesia, à literatura, às artes plásticas, à culinária, a todas essas atividades criativas que não prescindem do espírito selvagem do homem.”

Como seria o futebol se fosse gerido com mais tempero feminino?

Existiria? Ou o mundo acabaria antes de isso acontecer?

Para interagir com o autor: barp@universidadedofutebol.com.br
 

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Que venha a pré-temporada: treino físico x treino tático

Depois das peladas de final de ano, festas e merecidas férias, chega o momento da volta e com ela a temida pré-temporada.

Neste momento, o objetivo geral é colocar os jogadores em forma e prepará-los para o período competitivo, certo?

Sabemos que não é bem assim em grande parte de nossas equipes, inclusive as de base…

No futebol, temos um “micro período” de preparação antes do período competitivo, que se estende por quase todo o ano. Sendo assim, o que podemos fazer nesse curto espaço de tempo antes das competições?

Como vocês bem sabem, o objetivo da coluna não é trazer conteúdos prontos nem receitas de bolo, então para começar bem o ano, vamos refletir sobre as afirmações do atual treinador do Real Madrid, José Mourinho, sobre o período preparatório no livro “Mourinho: Porquê tantas vitórias?”:

“As semanas preparatórias incidem, de forma sistemática, na organização táctica, sempre com o objetivo de estruturar e elevar o desempenho colectivo. As preocupações técnicas, físicas e psicológicas (como a concentração, por exemplo) surgem por arrastamento e como conseqüência da especificidade do nosso modelo de operacionalização”

Esse trecho reflete o pensamento da Periodização Tática, onde a tática (como o nome já sugere) é o norte para a estruturação do processo de treino; sendo assim, as demais componentes do jogo se desenvolvem, paralelamente e subjugadas à tática. Mas será que não teremos problemas com isso?

Será que colocar a tática acima das demais vertentes do jogo não é o mesmo que colocar a técnica sobre as demais?

Voltemos para a pré-temporada…

Através das palavras de José Mourinho, podemos observar que desde o início da temporada o objetivo é o desenvolvimento do Modelo de Jogo da equipe. Aparentemente, não há uma preocupação prioritária com o desenvolvimento das capacidades biomotoras dos atletas.

Devo, então, idealizar meu modelo e desenvolvê-lo desde o primeiro dia de trabalho, correto?

Mas isso é viável, hoje, no futebol brasileiro?

Tudo o que é feito na preparação física de nossos atletas deve ser deixado de lado?

Penso que a preparação física é importante para se jogar futebol, assim como a pré-temporada, contudo a mesma deve ser subjugada não à tática, mas ao jogo.

Desse modo, a preparação física deverá ser desenvolvida de maneira especificamente fractal, e a preparação agirá diretamente na performance de jogo dos atletas.

A pré-temporada deve ser vista como um momento de preparação geral de jogo em que todas as componentes devem ser desenvolvidas relativamente de maneira ótima.

Mas e a Periodização Tática?

Colocar a tática sobre as demais componentes do jogo é como subjugar as demais componentes do jogo à técnica ou ao físico.

As partes fractais do jogo devem se desenvolver tendo o jogo como norte e não uma ou outra parte fractal, mas deixemos essa discussão para um outro momento…

Por hora, agradeço ao Rodrigo Azevedo Leitão pela Periodização Complexa de Jogo.

Nossa pré-temporada de colunas já começou com muitas perguntas, mas as respostas virão com o tempo!

Um excelente ano para todos nós!

Até a próxima!

Para interagir com o autor: bruno@universidadedofutebol.com.br 

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A relação entre os princípios operacionais e os meios táticos – parte II

Olá a todos!

Definitivamente, a bola (a vida e o tempo) não para! Menos de um mês após o péssimo desempenho do Santos na final do Mundial de Clubes no Japão, as calorosas manifestações a respeito do ocorrido, além das possíveis soluções para que daqui a um ano a história seja diferente, já se esfriaram.

Neste período, novos gols e notícias contribuem para o esquecimento do dia em que o futebol brasileiro “não viu a cor da bola”.

Como membro integrante deste futebol brasileiro, porém, sem sofrer da mazela do esquecimento, minha breve pausa para as comemorações de fim de ano já deu espaço para novos estudos. Afinal, para um dia chegar “lá” (sim, na final do Mundial de Clubes), não vejo outra solução que não seja a de debruçar numa busca diária por conhecimento e autoconhecimento (competências bem diferentes) no que se refere à capacitação teórica-prática para intervenção na modalidade.

Antes de me aprofundar no tema semanal, abro espaço para um comentário em relação à publicação da semana anterior, em que recebi alguns e-mails mencionando a alta complexidade da atividade em questão e sobre a dificuldade de aplicá-las em atletas em formação. A resposta individual aos leitores já foi devidamente realizada, no entanto, resolvi mencionar também neste espaço por julgar como um questionamento feito por outros leitores.

De fato, a atividade apresenta um excessivo número de regras e complexidade para ser aplicada de uma única vez em atletas sem experiência prévia. Mas, para atletas com histórico em treinamento por meio de jogos, que tenham referências coletivas comuns, facilidade para a compreensão da lógica do jogo elaborado e numa equipe em que este jogo seja um facilitador para o aperfeiçoamento do momento ofensivo (previamente estabelecido e conhecido pelos jogadores), jogar este jogo é perfeitamente possível.

Se vocês se lembrarem, quando redigi o Jogo 1, mencionei a importância de quaisquer atividades que viessem a ser publicadas serem desenvolvidas respeitando um importante princípio metodológico da Periodização Tática: a progressão complexa. Portanto, para criar uma atividade mais ou menos complexa, conheça o nível da sua equipe!

Aproveito também para responder as inquietações de outros leitores: não sigo ou copio livros de jogos e/ou atividades prontas. Recorro a elas eventualmente para que me surjam ideias e me apoio firmemente nas leituras de Frade, Bayer, Garganta, Leitão, Scaglia, Gomes, Greco, Weineck, Bompa (sim, também leio sobre treinamento físico) e nos membros da Comissão Técnica com quem trabalho para elaborar os treinos.

Escolhi publicar um jogo “difícil” para mostrar ao leitor um mundo de possibilidades. E neste mundo de possibilidades, não se esqueça de desenvolver os jogos que façam sentido ao seu Modelo e a Lógica do Jogo de Futebol.

Lógica que, para cumpri-la, fazer gols será indispensável. E para auxiliá-lo nesta tarefa, apresento uma tabela de relação entre os meios táticos ofensivos e os princípios operacionais ofensivos:

Se o objetivo da fase defensiva é a recuperação da posse de bola, o objetivo da organização ofensiva a todo o momento deve ser o de fazer o gol. E da mesma forma que para recuperar a posse, muitas vezes, a melhor forma de fazê-la é orientar funcionalmente a equipe (lembre-se que ela é uma unidade complexa) para outro comportamento, na ação ofensiva, para desfazer-se dela, ou seja, finalizar, orientações hierárquicas anteriores deverão ocorrer.

Amplitude não faz gol! Entretanto, Dani Alves e Tiago Alcântara abriram caminhos no meio-campo santista ao “prenderem” Danilo e Léo nas faixas laterais do campo.

Mobilidade e Desmarcação podem ser trabalhadas num tradicional jogo de “Passa 10” e que fará simplesmente sua equipe “andar em círculo”. A Mobilidade e Desmarcação (as mesmas do “Passa 10”, mas diferentes) do trio Xavi, Iniesta e Fábregas permitiam a aproximação do alvo na confusa marcação santista através da manutenção da posse.

Demais relações podem ser estabelecidas para todos os outros meios táticos. Como podem perceber, não sofro da mazela do esquecimento.

Se um dia chegaremos “lá”? A vida e o tempo dirão! Enquanto isso, façamos o que nos cabe…

Para interagir com o autor: eduardo@universidadedofutebol.com.br

Leia mais:
A relação entre os princípios operacionais e os meios táticos

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Investimento no consumidor dos esportes: temos muito que aprender

Aproveitando o merecido descanso de fim de ano, tive a oportunidade de conhecer as lojas oficiais da NBA, da NHL e da NFL. Assisti, tambem, à uma partida da NBA e estive no Madison Square Garden para um jogo de hóquei. Nestas situações, percebi o quanto temos que aprender quanto ao tratamento do esporte como um negócio. Essas experiências serão detalhadas na próxima coluna.

Nesta oportunidade, gostaria de retornar em um ponto que já tenho mencionado em palestras e em artigos. Trata-se do investimento no torcedor como um negócio.

Destarte, o futebol movimenta milhões, criando outros tantos empregos e transformando todos habitantes e adeptos do planeta em potenciais consumidores. O adepto de futebol tem direitos que devem ser respeitados, sobretudo levando em consideração que o futebol deve sua magnitude às imensas multidões. Desta forma, os clubes, tendo em vista um investimento futuro, devem adequar as suas estruturas e iniciativas aos anseios e necessidades dos adeptos.

A criação de excelentes condições para os torcedores traz resultados financeiros e desportivos, como se constata nas inúmeras iniciativas da “Premier League” inglesa, do Barcelona e, no Brasil, do Internacional. O adepto, cada vez mais exigente, irracional e apaixonado, capaz de distorcer a realidade pelo seu clube, deve ser tratado como protagonista.

Os cinco principais direitos do adepto como investimento futuro:

[1] As competições devem possuir regulamentos transparentes e critérios técnicos, bem como arbitragem justa e independente.

[2] Os bilhetes devem ser vendidos de forma organizada, sendo garantida a celeridade, eficiência e segurança na venda. A mesma deve ser feita em diversos locais e por diversos meios (ex. internet).

[3] Os estádios devem ser acessíveis por transportes públicos, devendo possuir como infraestrutura: estacionamento, restaurantes, WCs, etc. Tudo, com acessos amplos, facilitando a entrada dos adeptos, além de assegurar acessibilidade aos deficientes.

[4] O torcedor tem direito de receber informações claras por recepcionistas, ou funcionários do clube, bem como o direito de acomodar-se num assento confortável e numerado. A numeração deve corresponder à do ingresso.

[5] Finalmente, a segurança deve ser garantida no interior e exterior dos estádios. A mesma deve estar presente durante, antes e após as partidas, com policiamento visível, monitorização por câmaras e limitação do acesso a adeptos sem ingresso.

Estas medidas trarão, além de benefícios aos torcedores, uma fidelidade ao clube, aos eventos e aos seus participantes. Adeptos bem tratados são sinônimo de estádios e cofres cheios, independentemente dos resultados desportivos, da venda de bilhetes, de direitos de TV, ou de produtos licenciados. Percebe-se o resultado do respeito aos direitos do adepto pelas receitas da “Premier League” inglesa, a terceira mais rentável do mundo (atrás das norte-americanas MLB – Beisebol – e NFL – futebol americano).

Os jogos da Liga Inglesa têm em média uma ocupação de 91%, independentemente da classificação do clube, e em alguns casos, como o Manchester United, 100%. Esta fidelidade coloca nove clubes ingleses entre os 25 mais ricos do mundo, dois entre os 10 mais valiosos nas diversas modalidades e três entre os seis com maiores patrocínios.

O respeito pelos adeptos conduz ao resultado desportivo, como se apreende de exemplos como o Barcelona, que é o atual campeão do Espanhol, da Copa e da Supercopa da Espanha, da Uefa Champions League e do Mundial de Clubes; e o Internacional, que conquistou a Libertadores da América e o Mundial de Clubes em 2006, a Copa Sul-Americana em 2007, tendo sido, em 2009, vice-campeão Brasileiro e da Copa do Brasil.

Assim, mais do que atender aos direitos da imensa comunidade de adeptos, a atenção aos seus anseios corresponde a um investimento com retorno financeiro, de visibilidade e em títulos.

Os Estados Unidos mostram, como ninguém, a forma de se organizar um evento esportivo, com atenção ao público e com retorno milionário e vitorioso exteriorizado pela valorização do seu desporto e, também, pelo imenso número de medalhas olímpicas e títulos mundiais.

Para interagir com o autor: gustavo@universidadedofutebol.com.br
 

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Controle da carga de treinamento aplicado ao futebol

O corpo humano é controlado pelo sistema nervoso que é divido anatomicamente em sistema nervoso central e periférico e funcionalmente é dividido em sensorial, somático ou autonômico. O sistema sensorial capta as informações, o somático é responsável por nossas ações voluntárias e o autonômico regula nossas funções sem nossa consciência.

À medida que os estímulos (internos ou internos) interagem entre si, o organismo se ajusta frente a cada situação para garantir a sobrevivência.

A elevação da frequência cardíaca e da respiração durante a prática de exercício físico são exemplos dessas respostas assim como a produção de hormônios, a sudorese, o sono, etc.

No treinamento esportivo, uma das formas de controlar a carga ocorre pela monitoração da frequência cardíaca em conjunto com escalas de percepções subjetivas de esforço. Em modalidades intermitentes como o futebol, apesar de algumas limitações, essas ferramentas têm sido utilizadas com frequência e auxiliam bastante na preparação dos atletas.

Pelo fato de o sistema nervoso autônomo se estressar frente a estímulos físicos e mentais, além da condição física, também é possível verificar o nível de estresse que cada jogador se encontra.

Mas como saber o momento de dar descanso ou um novo estímulo para cada atleta?

Recentemente, a monitoração do controle autonômico surgiu como alternativa para verificar se o atleta está recuperado e pode receber uma nova carga de estímulo ou se ele ainda necessita de um período de descanso maior.

Com um eletrocardiograma ou um frequencímetro que permita o registro do intervalo de tempo entre cada batimento cardíaco, existe a possibilidade de se realizar alguns cálculos que expressam a variabilidade da frequência cardíaca e consequentemente verificar a modulação autonômica de cada sujeito.

No geral, se a condição de estresse é alta, espera-se maior participação da atividade simpática. Se a condição de estresse é baixa, então a modulação da atividade parassimpática é quem deverá predominar

De forma bem simplista é como se nosso corpo funcionasse sobre uma gangorra. Num dos lados da gangorra temos o sistema nervoso parassimpático (ativado em condição de calmaria) e do outro o simpático (ativado em condição de estresse).

Em condições normais esses dois sistemas deixam a gangorra em equilíbrio e no caso de um sistema pesar mais do que o outro esse desequilíbrio pode significar problemas.
Imagine, por exemplo, um atleta que se estressa em uma condição de treino e se recupera bem rápido e outro que se estressa igualmente, porém demora muito tempo para se recuperar. Nesse caso, se a mesma carga de treino for ministrada para ambos, obviamente que eles terão respostas diferentes ao ponto de um poder melhorar muito sua condição, enquanto o outro poderá até correr riscos de saúde ou de lesão.

Para que isso não ocorra, a monitoração do controle autonômico cardiovascular pode servir como parâmetro de controle de carga interna e consequentemente evitar que os atletas entrem, por exemplo, em supertreinamento.

Apesar da complexidade do assunto, espero que sua gangorra esteja perfeitamente equilibrada já que esse também é um bom indicativo de saúde cardiovascular.

Até a próxima!

Para interagir com o autor: cavinato@universidadedofutebol.com.br

Para saber mais:

Bricout VA, Dechenaud S, Favre-Juvin A. Analyses of heart rate variability in young soccer players: the effects of sport activity. Auton Neurosci. 2010 Apr 19;154(1-2):112-6.

Buchheit M, Mendez-Villanueva A, Quod MJ, Poulos N, Bourdon P. Determinants of the variability of heart rate measures during a competitive period in young soccer players. Eur J Appl Physiol. 2010 Jul;109(5):869-78.

Yu S, Katoh T, Makino H, Mimuno S, Sato S. Age and heart rate variability after soccer games. Res Sports Med. 2010 Oct;18(4):263-9.

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Aposentadoria dos campos: o difícil processo de transição na vida de um atleta profissional

Um dos pontos cruciais na carreira de um atleta profissional é estabelecer o momento certo para se aposentar. Por ser uma atividade que exige muita dedicação e preparo, são poucos os casos de atletas que conseguem atuar em bom nível até mais do que 30 anos de idade. Por isso, é importante que passem por um processo correto de ajuste nas esferas de vida ocupacional, financeira, social e psicológica, pois essa processo pode ser acompanhado por problemas emocionais.

Atualmente, não são incomuns os exemplos de ex-jogadores que, sabendo da sua condição inapropriada para seguirem dentro de campo, decidem permanecer ligados ao futebol de outra maneira, seja como técnicos, dirigentes, preparadores de goleiros, etc. Outro ramo procurado por alguns é o da política, visto o carisma que certas figuras da modalidade possuem.

Para tornar-se um atleta de elite, no mundo moderno, é necessário ter disciplina para treinar por muitos anos, dedicação quase que exclusiva para o esporte e, em geral, iniciar a carreira em idade muito precoce.

Em “O lado mental do futebol”, capítulo do livro “Ciência do Futebol”, de autoria da nutricionista Isabel Guerra, doutoranda da Universidade de São Paulo (USP), em parceria com Turíbio Leite de Barros Neto, fisiologista da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), os autores afirmam que é grande a expectativa dos jogadores de alto nível de se tornarem atletas de sucesso nacional e internacional, já que essa conquista mobiliza a atenção de investimentos financeiros e tem grande espaço na mídia.

Nesse contexto, os atletas profissionais ganham, como consequência, vantagens econômicas, notoriedade e, de fato, prestígio. Para os atletas de alto rendimento, o esporte é a energia que move a vida, é o marco de sua identidade.

Entretanto, após anos de dedicação, por razões diversas, defrontam-se com o processo final de carreira do esporte. É quando a maioria dos jogadores se conscientiza de não ter sido preparado para enfrentar a vida pós-esporte, pois negligenciou esse processo. Dessa forma, a aposentadoria pode gerar uma situação de estresse e de crise de identidade para muitos atletas.

Para a Federação Européia de Psicologia do Esporte e Atividades Corporais (FEPSAC), identidade esportiva deve ser conceituada como a força e a exclusividade em que o esportista identifica a si mesmo com o esporte; essa identificação exclusiva é fortalecida pelo reconhecimento social e sucesso econômico que acompanham os resultados positivos da carreira esportiva. Sendo assim, terminar a carreira esportiva pode se tornar um dos momentos mais difíceis da vida de um atleta, já que a mudança no estilo de vida requer uma adaptação de papéis sociais e profissionais.

A maioria dos atletas não percebe a importância de outras fontes de identificação em outros âmbitos da vida (outra profissão ou atividade), indispensáveis para a manutenção do equilíbrio durante e ao término da carreira. Essa percepção errada da realidade, em muitos casos, é ratificada por técnicos, dirigentes e membros da família. Em “O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo”, Katia Rubio afirma: “na relação entre o ego e o desempenho de papéis sociais, muitas vezes o atleta se vê identificado com a figura espetacular sugerida pela condição de esportista, aquele capaz de realizar grandes feitos, dificultando sua participação em situações da vida cotidiana e em outras atividades sociais”.

A transição de carreira esportiva significa mudança de uma fase da carreira para outra, acompanhada por concomitantes mudanças nas características psicológicas e sociais do atleta, e da necessidade de recursos para lidar com o momento. De acordo com o que é apresentado em “Career transition and concomitant changes in athletes” (“Transição de carreira e concomitantes mudanças em atletas”, em tradução livre), a carreira esportiva é composta de uma sequência de sucessivas fases, com períodos de transição, identificadas como: a transição do esporte infantil para o juvenil, seguida da transição para o júnior e, finalmente, para o adulto; a transição do esporte amador para o profissional e a transição para o término da carreira esportiva.

Cada uma requer exigências específicas e ajustes nas esferas da vida ocupacional, financeira, social e psicológica do atleta e, fundamentalmente, sempre será necessário o esforço pessoal para a adaptação à nova fase.

Dessa forma, a natureza desse ajustamento à aposentadoria, para cada atleta, dependerá da interação de múltiplos fatores. Entretanto, um fator isolado não garante se um ajustamento será fácil e tranquilo. Somente uma análise da complexa interação entre diversos fatores é que levará à compreensão de como determinado atleta conviverá com o fato de se aposentar.

Um dos pontos que deve ser levado em consideração é que, por vezes, o jogador encerrará a sua carreira de maneira voluntária, mas, em outras ocasiões, isso poderá ocorrer forçadamente. Com isso posto, pode-se citar como algumas das causas das aposentarias de atletas profissionais: a idade, novos interesses emergentes, fadiga psicológica, dificuldades com a equipe técnica, resultados esportivos em declínio, problemas de contusão ou de saúde, e a ausência do seu nome entre os relacionados para os jogos.

Partindo do fato de que a transição de carreira esportiva é um processo, Jim Taylor e Bruce Ogilvie desenvolveram o “Modelo Conceitual da Transição de Carreira”, que integra, além da informação teórica da Psicologia do Esporte, a investigação empírica. De acordo com os estudiosos, as características da transição incluem: duração, mudanças de posição social, grau de estresse, desafios enfrentados e, fundamentalmente, a percepção de estresse nesse momento.

Determinadas áreas específicas, consideradas moduladoras do ajustamento ao momento da aposentadoria e facilitadoras de adaptação adequada, também podem ser avaliadas: percepção de controle; identidade esportiva; suporte social; experiências anteriores (outras transições); envolvimento com atividades relacionadas com esporte depois da aposentadoria; grau de planejamento profissional; status socioeconômico; habilidades (persistência, competitividade, metas, etc.); objetivos relacionados com esportes; e foco depois da aposentadoria.

Portanto, toda transição de carreira tem o potencial de ser uma crise, alívio, ou uma combinação de ambos, dependendo da avaliação dos atletas frente à situação.

Um estudo publicado pela Revista Brasileira de Medicina do Esporte, em dezembro de 2008, com 79 ex-atletas de futebol e basquete, por meio de entrevistas semi-estruturadas, apontou que 75,9% dos indivíduos avaliados decidiram encerrar a carreira esportiva de forma voluntária. A transição de carreira ocorreu de maneira gradativa e natural, como eles mesmos citaram nas entrevistas. Para a maioria dos ex-atletas (68,4%), esse momento foi oportuno, ou seja, aconteceu na época certa, enquanto que, para 27,9% dos entrevistados, a decisão de parar de competir profissionalmente ocorreu muito cedo e de forma prematura.

Ainda segundo esse estudo, as causas mais frequentes relacionadas à saída do esporte em ordem decrescente foram: idade (49,4%), surgimento de outros interesses (43,0%), mudanças no estilo de vida (17,7%), problemas de saúde (16,5%), problemas de lesões (15,2%), ausência de perspectivas futuras (13,9%), problemas de relacionamento com dirigentes (13,9%), “declínio dos resultados” (12,7%), cansaço psicológico (11,4%), relacionamento com o técnico (10,1%), cansaço físico (7,6%), relacionamento com a família (7,6%) e relacionamento com a equipe (3,8%).

Em relação às consequências emocionais por conta do processo de finalização da carreira esportiva, algumas emoções preponderaram. Em ordem decrescente: 50,6% dos ex-jogadores
sentiram tristeza no momento da transição esportiva para uma nova carreira e 36,7 % se sentiram conformados. Além disso, a pesquisa apontou que 17,7% da amostra sentiram felicidade nesse momento, 6,3% se sentiram tensos, 5,1% sentiram medo, 5,1% ficaram deprimidos, 3,8% sentiram raiva, 3,8% ficaram ressentidos, 1,3% sentiram culpa e nenhum dos entrevistados fez referência a sentimentos de desespero.

Por fim, no que tange os aspectos físicos, a pesquisa indicou que, ao encerrar a carreira esportiva, 43% dos entrevistados tiveram a percepção de que a aptidão física piorou. Segundo dados coletados, o peso dos sujeitos aumentou e eles tornaram-se quase que totalmente inativos. A condição física não melhorou para nenhum dos avaliados.

Portanto, deixar a arena esportiva tende a ser um momento difícil da vida de um atleta, pois sempre requer adaptação de papéis sociais e profissionais. Fica claro que essa adaptação torna-se ainda mais difícil quando o atleta tem forte identificação com a figura de esportista. Em geral, apresenta dificuldades psicológicas e vivencia momentos de tristeza, depois de anos de exclusiva dedicação à carreira competitiva.

Além disso, nota-se que a idade é um fator limitador da performance e desencadeador da aposentadoria, o que acaba levando a um sentimento de conformismo e, ao mesmo tempo, motivando para outros interesses e objetivos emergentes, tais como o desejo de poder passar mais tempo com a família.

Outro ponto relevante é a piora na saúde física dos ex-atletas e o quanto a diminuição planificada e gradativa da carga física a que foram submetidos durante o período ativo é necessária, ao se pensar na qualidade de vida pós-esporte.

Portanto, seria interessante que, tanto do campo científico, como por meio de uma iniciativa da direção dos clubes de futebol, fossem desenvolvidos programas de aposentadoria que tenham como objetivo principal capacitar atletas em transição de carreira a lidarem melhor com esse momento e, principalmente, utilizar esses programas no início da carreira para minimizar a ansiedade com relação ao futuro.

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Entrevista: Dr. José Kawazoe, presidente da Sociedade Brasileira de Medicina do Esporte (SBME)

Bibliografia

Orlick T. From hero to zero. In: In pursuit of excellence: how to win in sport and life through mental training. 2nd ed. Champaign: Human Kinetics, 1990;167-75.

Brandão MRF. O lado mental do futebol. In: Barros Neto TL, Guerra I, editores. Ciência do futebol. Barueri: Manole, 2004;203-20.

FEPSAC. Position statement: sports career termination, 1999. Biel: FEPSAC; c2003a [cited 2006 Jan 9]. Available from: http://www.smartstep.se/ssp/ sportpsychology/module.asp?page=detail& XModuleId=8243& ProductId=2670.

Rubio K. O atleta e o mito do herói: o imaginário esportivo contemporâneo. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2001.

Alfermann D. Career transition and concomitant changes in athletes. In: Proceedings of the 11th World Congress of Sport Psychology; 2005 Aug 5-19; Sidney, Austrália. Sidney: International Society of Sport Psychology, 2005.

Taylor J, Ogilvie BC. A conceptual model of adaptation to retirement among athletes. J Appl Sport Psychol 1994;6:1-20.

Sinclair DA, Orlick T. Positive transitions from high-performance sport. Sport Psychol 1993;7:138-50.

Lavallee D. The effect of a life development intervention on sports career transition adjustment. Sport Psychol 2005;19:193-202.

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Futebol alemão – capítulo 2

Conforme prometido no final de 2011, estamos fazendo uma breve análise do desenvolvimento do futebol alemão à luz de reportagem publicada na edição de outubro da revista Sport Business International. O alcance de um patamar de sucesso pode estar centrado na profissionalização e na governança da liga e dos clubes.

E isso começou quando os clubes, orientados pela liga, passaram a adotar uma gestão que acompanhou os rumores daquilo que se tornou o “Fair Play Financeiro”, proposta pela Uefa e que será exigido para todos os clubes europeus a partir da próxima temporada, em uma tentativa de melhor regular a questão financeira dos mesmos.

O que os clubes alemães fizeram foi antecipar-se à mudança. Sabendo que o modelo anterior seria insustentável no longo prazo, nada mais natural do que perceber esta transição e se adaptar a ela gradativamente, ao invés de abruptamente, como serão obrigados a fazer os clubes e ligas de outros países.

O resultado começa a aparecer no médio-longo prazo e agora passa a ser um modelo a ser seguido. O simples registro vale como uma lamentação ao ver que nenhum clube no Brasil ou a principal organizadora das competições nacionais são capazes de lançar e adotar uma forma de gestão com olhar para o futuro e não olhando para o retrovisor.

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br
 

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Evolução do futebol brasileiro: elementos para uma reflexão política

Via de regra, um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol, com mais ou menos importância. Mas o dia 18 de dezembro de 2011 poderia ser considerado um marco, um divisor de águas para o futebol brasileiro. A derrota da equipe do Santos – considerada por muitos, a melhor do Brasil – para o Barcelona por 4 a 0, pela final do Mundial de Clubes, foi uma aula de futebol, como afirmou de forma madura o talentoso e promissor jogador santista Neymar. Contudo, mais do que uma aula, bem que este jogo poderia ser também um ponto de partida para uma verdadeira mudança de paradigma da ainda tradicional e arcaica estrutura do futebol brasileiro.

Costuma-se dizer que o futebol imita a vida, como também se afirma que o vigor da economia de um país define sua saúde em todos os outros aspectos. Há tempos que comemoramos vários e importantes progressos em nossa economia, com reflexos sociais mais diretos na ascensão de milhões de brasileiros que estão saindo da miséria ou da linha da pobreza para níveis de vida mais dignos.

Tais conquistas, entretanto, não podem esconder o enorme atraso que ainda temos em muitos indicadores sociais, culturais, educacionais, bem como esportivos. Ou seja, não podemos nos enganar, pois ainda somos um país pobre em muitos aspectos. E para comprovar isso, basta atentarmos para o nosso nível de educação, em que somente 10% da população economicamente ativa possui um diploma universitário. Isso é muito mais baixo do que se pode encontrar, por exemplo, em países como Rússia, Índia e China, que, como o Brasil, são considerados emergentes.

Sem contar os números de nosso analfabetismo funcional, cujos dados são muito imprecisos, mas que devem chegar próximo à casa dos 50% de nossa população total. O que é trágico e vergonhoso, para dizer o mínimo.

Mas vamos, nesta breve reflexão crítica, apenas tentar entender o cenário em que se assenta o nosso atraso futebolístico atual. E não gostaria que o leitor entendesse minhas considerações como de alguém com visão pessimista que não valoriza o que é nosso e não quer enxergar nosso progresso. Não significa também que tenhamos que reassumir, diante de nações mais desenvolvidas, nosso histórico complexo de “vira-lata”. Não se trata disso, mas sim de entender que, apesar de nossas virtudes e enorme potencial, se não fizermos um correto diagnóstico de nossas mazelas, jamais nos instrumentalizaremos no sentido de superá-las de forma consistente e sustentável.

Nossas lentas, porém evidentes conquistas democráticas, têm nos permitido denunciar, contestar e debater criticamente nossos problemas sociais, talvez como nunca tenhamos conseguido em nossa história enquanto país institucionalizado. Portanto, estamos em um momento adequado para questionarmos alguns dos nossos pressupostos que nos fizeram ser o que somos. E isso vale para o país, como também para o nosso futebol pentacampeão mundial.

Não acredito mais que possamos recuperar todo o nosso atraso nos próximos dois, três ou quatro anos, até que cheguem a Copa do Mundo (2014) e os Jogos Olímpicos (2016) a serem realizados no Brasil. Mas é preciso começar de verdade. E o começo começa com consciência. Em se tratando de futebol, enquanto continuarmos em dúvida se ainda somos ou não os melhores do mundo, estaremos perdendo tempo.

E uma das primeiras evidências que temos que enxergar é que nada muda do dia para a noite. Principalmente se estivermos falando de evolução social, cultural e esportiva. Não podemos resumir o desenvolvimento de um país apenas com construção de aeroportos, rodovias, ferrovias e belos estádios de futebol. Isso representa apenas uma parte, pequena – diga-se de passagem – de nosso crescimento. O principal é entender que temos condições objetivas de mudanças e isso nos permitirá tomar consciência de que para termos uma nação forte é preciso muito mais do que simplesmente algumas melhorias em nossa infraestrutura.

Mas para ficarmos apenas no terreno esportivo, cabem aqui algumas questões que teremos que resolver nos próximos anos, se é que ainda temos pretensões de estar entre os grandes do futebol mundial.

Um dos principais aspectos que tem atrapalhado muito nosso progresso nesta área é a visão empírica e superficial que ainda prevalece no futebol. Se ela foi suficiente para nossas conquistas anteriores e para sermos o que somos hoje, fica cada vez mais evidente que sem investimentos na capacitação profissional e em uma política mais clara, que defina metas de médio e longo prazos para o futebol brasileiro dentro de uma visão mais sistêmica e integrada dos fenômenos que compõem este esporte, seremos dentro de algum tempo apenas coadjuvantes dos grandes espetáculos globalizados em que se está transformando o altamente competitivo futebol profissional. Ou não foi este o papel desempenhado pelo Brasil, representado pelo Santos, na partida com o Barcelona?

Para evitarmos que isso se torne rotina é preciso que comecemos a responder algumas perguntas, urgentemente:

Quando os nossos dirigentes vão se profissionalizar ou pelo menos se atualizar para darem conta das demandas do futebol globalizado deste século XXI, deixando de olhar apenas para o seu entorno mais próximo e cuidando apenas de seus interesses particulares?

Quando os órgãos de comunicação vão entender o seu papel estratégico nestas mudanças e os jornalistas esportivos se prepararem melhor antes de formular seus elogios e críticas, muitas vezes estéreis e descontextualizados?

E os treinadores? Será que vão perceber que, dentro deste novo cenário, não basta mais ter sido jogador de futebol ou mesmo ter frequentado uma Escola de Educação Física para ser um profissional bem sucedido? Quando vão entender que esta função, hoje em dia, além de certas características de personalidade, exige profundos conhecimentos sobre liderança de grupos, tática e estratégia de jogo, metodologia científica de treinamento, cultura geral, “media training”, entre outros requisitos?

Quando os clubes, através de seus dirigentes, serão capazes de estabelecer uma política clara para seus departamentos de futebol, não só no terreno da gestão, como também no terreno técnico (sim, o dirigente tem que entender o suficiente deste aspecto para poder contratar e acompanhar seus treinadores e funcionários dentro do perfil desejado pela política estabelecida).

E a formação de nossos jovens atletas? Será que vamos finalmente compreender que é preciso superar urgentemente a visão tecnicista que ainda predomina nas categorias de base e nas escolas de futebol espalhadas pelo Brasil, para adotarmos uma abordagem interdisciplinar formando o atleta integralmente e preparando-os para a vida profissional, pessoal e social?

E quando as instituições que dirigem o nosso futebol (CBF, Federações, Sindicatos, Associações) serão pressionadas o suficiente para entenderem que seus interesses particulares não podem conflitar com os interesses do desenvolvimento do futebol brasileiro? E o governo, através do Ministério do Esporte, será que não poderia ajudar na formulação de uma política esportiva mais atuante para o país?

Enfim, estes são alguns dos questionamentos que precisam entrar na pauta de todos aqueles que desejam e torcem por um futebol melhor, mesmo que estas providências cheguem tarde demais para podermos disputar de igual para igual a próxima Copa do Mundo.

*João Paulo Medina é Diretor Executivo da Universidade do Futebol

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Tecnologia para monitorar comportamento fora do campo: será necessário?

Olá, amigos!

Que este ano que se inicia possa trazer grandes frutos e conquistas a todos e que possamos seguir neste espaço a debater sempre com seriedade, conhecimento, trocando nossas experiências acerca de diversos temas que nos despertam as curiosidades relacionadas ao universo do futebol. Um grande 2012 a todos!

No texto desta semana, trago para discussão um aplicativo divulgado recentemente para que qualquer usuário possa se motivar e fiscalizar a prática de exercícios. É o GymPact.

Nesse aplicativo, a pessoa vincula o GPS às metas estabelecidas de sua presença a locais específicos para a prática de atividades físicas. Assim, se ela se ausenta num dia programado, o aplicativo debita um valor em dinheiro da conta da pessoa; se a pessoa freqüenta, ela recebe como prêmio.

“O usuário só pode se cadastrar fornecendo um cartão de crédito, e o GPS é usado o tempo todo para saber se você realmente está na academia. Se você falta à aula, o aplicativo tira US$10 de sua conta e coloca no “bolo”. É desse bolo – o bolo dos perdedores, aqueles que não foram à academia e ainda perderam o troco – que também sai o pagamento caso o pacto seja mantido. Os pactos são feitos semanalmente – bom para aqueles com ritmos bem inconstantes”.

É interessante e inusitada a proposta, porém quando recebi a indicação desta reportagem, enviaram-me junto o seguinte questionamento:

“Será que não vale a pena os clubes investirem nisso para que seus jogadores sejam mais controlados principalmente no período de férias?”.
 


 

Entendo a preocupação, dados os frequentes deslizes de muitos atletas quanto aos cuidados com suas condições físicas. Temos que deixar claro que o período de férias é importante na lógica do treinamento, já que se trata de um período transitório que deve ser respeitado. E complementamos ainda que tais deslizes não se dão só no período de férias – é possível observar tais fatos em pleno decorrer da temporada competitiva.

Acredito sempre que a tecnologia contribua com os processos desportivos, porém temos de separar bem, e sobretudo definir, o que é feito como imposição do que é feito com clareza e discernimento.

Assim como no futebol brasileiro muitos pregam que é impossível culturalmente liberar os atletas das concentrações (veja coluna em que debatemos o tema), pelo mesmo motivo se justificaria tal recurso tecnológico de fiscalização do atleta.

Seria possível se desenvolver diferentes níveis de controle, desde a presença ou não no local indicado, até mensurações de atividades realizadas, ou não. Ainda que alguns sejam criativos o bastante para burlar qualquer forma de controle, seja tecnológicou ou mesmo a famosa cartilha dos técnicos mais tradicionais, concordamos que poderia surtir algum efeito.

Entretanto, da mesma forma que defendo a tecnologia no esporte, defendo também o desenvolvimento de pessoas mais inteligentes (com o risco do termo não ser o mais adequado) nos quesitos de compreensão do grande campus esportivo (termo oriundo dos estudos de Bourdieu). Falamos tanto em formar atletas inteligentes, modelagem de jogo, capacitação dos profissionais do futebol, atualização tecnológica, enfim, em diferentes níveis discutimos uma valoração dos aspectos voltados a inteligência no futebol.

É nesse ponto que acredito a tecnologia deve ser pensada, para facilitar o controle de treinos, mensurações, diagnósticos e planejamentos. Mas à medida que se torna um instrumento de punição, de controle, de aposta na má fé, reforça-se cada vez mais o caráter descompromissado de quem já tem essa intenção.

A punição, na minha opinião, para o atleta que não adota uma postura profissional hoje, não é fiscalizar o que faz ou que não faz, e sim analisar o quanto isso afeta ou não seu desempenho em campo. A partir disso, tomam-se as medidas contratuais cabíveis, renegando o passar a mão na cabeça ou a bronca ao atleta.

Para interagir com o autor: fantato@universidadedofutebol.com.br
 

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1-3-4-3: dinâmicas da organização defensiva e ofensiva

“A autonomia organizada no jogo de futebol (dos seus elementos),
pressupõe liberdade e sentido para a ação”
(Leitão, 2009)

 

A disposição dos jogadores em um campo de futebol costuma dizer pouco sobre o que realmente é a equipe. A partir de um desenho pré-definido para a ocupação do espaço de jogo, há uma intenção (jogadores – individual e equipe – coletiva) em manter essa organização durante a partida, pois isso é visto como algo vantajoso para o êxito dentro de campo. O esquema tático ou plataforma tática (Leitão, 2009) varia entre as equipes e dentro da mesma equipe ao longo dos jogos. Passando para as possibilidades dentro das plataformas, essa variedade se torna praticamente infinita.

Serão exploradas algumas situações pontuais dentro do sistema defensivo e ofensivo do 1-3-4-3 (equipe amarela nas figuras) com o meio de campo estruturado em um losango. Neste momento, não serão abordadas situações de transição (ofensiva e defensiva) especificamente.

Sistema Defensivo: basicamente, as situações estão relacionadas à ocupação do espaço.

Figura 1 – Flutuação e Equilíbrio Horizontal
 

Na figura 1, a equipe amarela flutuou para o lado da bola na tentativa de gerar superioridade numérica, com as linhas de defesa (três jogadores) e meio (quatro jogadores) bem agrupadas permitindo pressionar a bola nessa zona do campo. Como consequência desse movimento, o lado oposto fica fragilizado podendo ser explorado pelo adversário.

No “1-3-4-3 losango”, as linhas de defesa e meio são “estreitas”, a de defesa pelo número de jogadores (3) e a linha de meio-campo pela disposição no espaço (a figura de um losango). Isso faz com que os atacantes que jogam abertos tenham que trabalhar muito defensivamente, aquele do lado da bola pressionando o espaço (na figura acima ele está gerando pressão por trás do portador da bola) e o outro atacante deve ocupar a faixa contrária à da bola, mantendo um bom equilíbrio horizontal.

Figura 2 – Estruturação do espaço na Pressão Alta

Numericamente, o 1-3-4-3 favorece a ocupação do campo adversário. Porém, deve-se concentrar em não permitir que a bola saia do campo de ataque de maneira confortável para o adversário, pois essa vantagem numérica se reverte em desequilíbrio defensivo. Para isso, duas questões são fundamentais: pressão na bola e gestão eficaz do espaço.

Na figura 2, pode-se observar dois desenhos de meio-campo pressionando alto, um com uma figura de maior área (à esquerda) e outro com uma figura de menor área (à direita). Com maior espaço ocupado, pode-se pressionar a bola em zonas mais variadas caso o adversário consiga manter uma boa circulação sob pressão. Um losango menor mantém mais jogadores próximos à bola dificultando sua saída dessa região do campo. É uma questão de leitura (individual e coletiva) e aplicação da melhor resposta de maneira circunstancial.

– Sistema Ofensivo: as situações abordadas relacionam-se à primeira fase de construção e ao ataque ao espaço na última linha.

 

Figura 3 – Circulação da bola no campo defensivo
 

A forma como os jogadores da equipe em posse que estão sem a bola ocupam o espaço tem total interferência na capacidade de circulação e de retirada da bola das zonas de pressão construídas pelo adversário. Na figura 3, num primeiro momento (à esquerda), o portador da bola tem duas opções de passe, uma bola curta e outra média com certo risco de perda. Nenhuma opção de passe em progressão.

Com duas movimentações (à direita), foram construídas quatro opções de passe, sendo uma em progressão e o campo foi aumentado para trás (goleiro). Com mais opções, fica dificultada a ação pressionante da equipe vermelha – essa situação gera mais momentos de indecisão à equipe sem bola.

 

Figura 4 – Ataque ao espaço pelo meia ofensivo
 

O meia ofensivo do losango pode criar superioridade numérica na linha de ataque sempre que atacar os espaços na linha de defesa no tempo correto. Jogando contra equipes que atuam com linha de quatro defensores e marcam individual por setor sustentando um defensor “na sobra”, realizando a cobertura na zona central, haverá espaço nos corredores entre os zagueiros e os lateriais conforme está destacado na figura 4.

Além dessa situação descrita especificamente, o entendimento do conceito de atacar o espaço nos corredores da linha sempre se tornará um comportamento vantajoso, independentemente se a bola for passada ou não. Caso enfrente uma equipe que marca por zona, esse movimento poderá contribuir para “empurrar” a defesa para trás quando não houver pressão na bola, criando espaços na frente da linha defensiva.

Tão importante quanto entender essas questões estratégicas, é perceber como a equipe responde aos problemas e se essa resposta está sendo efetiva para solucioná-los. É fundamental que os atletas entendam o significado de cada movimento da equipe para que possam alinhar com sua percepção do jogo.


Referência Bibliográfica
:

Leitão, R.A.A. O jogo de futebol: investigação de sua estrutura, de seus modelos e da inteligência de jogo, do ponto de vista da complexidade. Tese de Doutorado em Educação Física. Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). 2009. Campinas. 2009.