Daniel Gamba, cônsul do Grêmio em Los Angeles (EUA)

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O Grêmio Foot-Ball Porto Alegrense possui representação consular em mais de 30 países ao redor do mundo, fazendo-se presente em quase todos os continentes. E Nos Estados Unidos – mais especificamente em Los Angeles – não poderia ser diferente. Na maior cidade do estado da Califórnia, Daniel Gamba trabalha diariamente para fazer com que o tradicional clube gaúcho se torne cada vez mais reconhecido, a partir do estabelecimento da marca própria.

A inserção deste gremista de coração no ambiente do futebol, porém, começou dentro das quatro linhas do campo de jogo. Ele atuou no São Paulo, clube amador de Bento Gonçalves-RS, passando a jogar mais tarde no Clube Esportivo de Bento Gonçalves e ainda no próprio Grêmio. Sempre em categorias de base.

Ao obter o diploma em Comércio Exterior pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, recebeu uma bolsa para estudar e jogar futebol universitário nos Estados Unidos. Lá, graduou-se em Gestão Esportiva na Alliant International University de San Diego, CA, e fez um estágio para uma marca de material esportivo na Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão em 2002.

Desde então, Gambá vem se aprimorando por intermédio de estágios e trabalhos em diversos projetos e eventos esportivos de grande porte relacionados ao esporte, mas principalmente ao futebol. Em 2009, ingressou na Cartan Global, agência que possui os direitos de comercialização dos ingressos para as Olimpíadas e dos pacotes de hospitalidade com ingressos para as Copas do Mundo da Fifa em diversos países, mas na grande maioria da América Latina – onde trabalha até hoje.

“Meu único objetivo sempre foi, e será, de colaborar com o Grêmio na medida do possível, através dos meus contatos no futebol mundial, sempre em busca de uma aproximação de marcas mundiais investindo no esporte com o clube, além de apresentação de novas oportunidades no exterior para expandir a marca Grêmio em novos mercados e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores”, afirmou Gamba, nesta entrevista à Universidade do Futebol.

De acordo com ele, cada consulado do clube tricolor tem basicamente uma função representativa: em outras palavras, deveria ser a imagem do clube em respectivo país, estado e cidade nos quais os mesmos estão localizados.

A atuação de cada um destes núcleos varia, passando pela organização de eventos de confraternização, atividades em busca de novos sócios na comunidade local e até excursões para jogos oficiais do Grêmio. Tal planejamento estratégico, diz Gamba, depende unicamente do respectivo cônsul e de seus adjuntos, uma vez que em grande parte os consulados não recebe um aporte financeiro para a realização dessas ações.

“Infelizmente, até hoje, poucos projetos saíram do papel, em grande parte por falta de interesse do próprio Grêmio em explorar esses mercados no exterior. Recentemente, o atual departamento de marketing do clube demonstrou maior interesse em buscar novos mercados, sendo assim, já estamos buscando viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente aqui nos Estados Unidos”, revelou o especialista em marketing esportivo.

Gamba entende que o Grêmio deve, sim, buscar uma expansão de sua marca e conquistar novos sócios-torcedores nos países vizinhos da América Platina, mas o foco deveriam ser os “mercados emergentes do futebol” e potencialmente os de gigantesca força na economia mundial, como a China.

“As oportunidades estão batendo na porta dos clubes brasileiros, não só do Grêmio. Quem acordar primeiro e souber capitalizar isso o mais rápido possível estará abrindo uma vantagem considerável em se comparando aos outros times do Brasil”, acrescentou Gamba.

, Universidade do Futebol

Relacionamento com a área esportiva: de cima para baixo, Gamba com Guardiola, Francescoli e Havelange

 

Universidade do Futebol – Daniel, em primeiro lugar, fale um pouco sobre a sua formação acadêmica e sua atuação profissional no ambiente do futebol.

Daniel Gamba – Em primeiro lugar, eu gostaria de agradecer à equipe da Universidade do Futebol pela oportunidade. Espero em breve ver mais entrevistas nesse sentido de proporcionar aos leitores uma visão diferenciada sobre os aspectos extra campo, mas que influenciam de uma maneira geral, o esporte mais praticado no mundo.

O meu envolvimento e a paixão pelo esporte, principalmente o futebol, começou desde os cinco ou seis anos de idade jogando futebol nas categorias de base do São Paulo (um clube amador de Bento Gonçalves-RS, onde o Grêmio realiza suas pré-temporadas), passando a jogar mais tarde nas categorias de base do Clube Esportivo de Bento Gonçalves e ainda no próprio Grêmio.

Depois de obter o meu diploma em Comércio Exterior pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos, recebi uma bolsa para estudar e jogar futebol universitário nos Estados Unidos. Estudei Gestão Esportiva na Alliant International University de San Diego, CA, e fiz um estágio para uma marca de material esportivo na Copa do Mundo da Coréia do Sul e do Japão em 2002.

Desde então, eu venho me aprimorando através de estágios e trabalhos em diversos projetos e eventos esportivos de grande porte relacionados ao esporte, mas principalmente ao futebol. Além dos trabalhos de consultoria, eu estou desde o início de 2009 na Cartan Global, uma agência que possui os direitos de comercialização dos ingressos para as Olimpíadas e dos pacotes de hospitalidade com ingressos para as Copas do Mundo da Fifa em diversos países, mas na grande maioria da América Latina.

Universidade do Futebol – Como surgiu a ideia de criar um consulado do Grêmio nos Estados Unidos? Há outros consulados ligados às cores preta, azul e branca pelo mundo?

Daniel Gamba – Quando fiz minha mudança em definitivo aos Estados Unidos há mais de 10 anos, já havia alguns consulados do Grêmio por aqui. Anteriormente, eu, mesmo muito jovem, já era muito atuante no futebol no interior do Rio Grande do Sul, como cônsul adjunto do Grêmio em Bento Gonçalves-RS, minha cidade natal. Desde então, solicitei minha transferência para começar a representar o Grêmio aqui em Los Angeles, CA, onde estou vivendo já há alguns anos.

O Grêmio, um clube de reconhecimento mundial, possui representação consular em mais de 30 países ao redor do mundo, fazendo-se presente em quase todos os continentes.

, Universidade do Futebol

Gamba na final da Copa do Mundo da África do Sul (acima) e na premiação dos melhores do Mundial do mesmo ano

 

Universidade do Futebol – O que representa um consulado ligado a um clube de futebol brasileiro em um país estrangeiro e qual é a sua função cotidiana à frente dele?

Daniel Gamba – Cada consulado do Grêmio ao redor do mundo tem basicamente uma função representativa – assim, deveria ser a imagem do clube em respectivo país, estado e cidade nos quais os mesmos estão localizados. O objetivo primordial é fazer do Grêmio um dos clubes mais reconhecidos do mundo, tendo sua marca presente nos mais diversos países.

Alguns consulados são muito mais atuantes do que outros, organizando eventos de confraternização, atividades em busca de novos sócios na comunidade local, e até excursões para jogos do Grêmio ao redor do Brasil e do mundo, entre outras diversas ações. Esse trabalho depende unicamente do respectivo cônsul e de seus adjuntos, uma vez que em grande parte os consulados não recebe um aporte financeiro para a realização dessas ações.

Universidade do Futebol – Como se dá a integração entre você, como representante oficial do clube, e a diretoria tricolor?

Daniel Gamba – No meu ponto de vista a relação é muito boa, não somente com a atual diretoria, mas também com diretorias de anos anteriores. A grande maioria dos clubes brasileiros é de grande influência de grupos políticos dentro do próprio clube. Imagino que, devido ao fato de eu não fazer parte de nenhum grupo político, posso ter esse diálogo aberto com distintas diretorias dos mais diversos e diferentes grupos políticos.

Meu único objetivo sempre foi, e será, de colaborar com o Grêmio na medida do possível, através dos meus contatos no futebol mundial, sempre em busca de uma aproximação de marcas mundiais investindo no esporte com o clube, além de apresentação de novas oportunidades no exterior para expandir a marca Grêmio em novos mercados e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores.

Infelizmente, até hoje, poucos projetos saíram do papel, em grande parte por falta de interesse do próprio Grêmio em explorar esses mercados no exterior. Recentemente, o atual departamento de marketing do clube demonstrou maior interesse em buscar novos mercados, sendo assim, já estamos buscando viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente aqui nos Estados Unidos.

A perspectiva é muito boa, uma vez que o mercado de marketing esportivo no Brasil vive um momento de muita euforia e entusiasmo com as possibilidades de crescimento nos próximos anos. Essa evolução do mercado deve-se a diversos fatores, dentre eles o mais importante é o iminente, e em alguns casos até já em andamento, fluxo de investimentos que serão gerados por conta da Copa de 2014 e dos Jogos Olímpicos de 2016, e de como os esses eventos globais podem impactar positivamente na geração de novos negócios no esporte brasileiro, principalmente no futebol.

Mas precisamos estar preparados com administradores capacitados para saber receber e tirar melhor proveito desses investimentos internacionais.

, Universidade do Futebol

Em interação com dirigentes gremistas, Gamba revela que pretende viabilizar alguma oportunidade para o Grêmio principalmente nos Estados Unidos

 

Universidade do Futebol – Ações ligadas ao departamento de marketing também são discutidas em conjunto?

Daniel Gamba – Na teoria, isso seria fantástico, mas na prática, lamentavelmente, não é bem assim com o consulado daqui em Los Angeles, e também com outros consulados com quem eu mantenho contato aqui nos Estados Unidos e no Brasil.

Imagino que possa haver uma consulta do departamento de marketing com o nosso departamento consular, o qual representa todos os consulados de um modo geral, mas isso não é o suficiente, nem representa o conhecimento local de cada consulado e suas respectivas regiões.

O ideal seria ter um diálogo aberto com os principais consulados em mercados emergentes do futebol de alto poder aquisitivo, buscando oportunidades de novos negócios nesses países.

Universidade do Futebol – Em recente entrevista, o Paulo César Verardi sinalizou que “quem é do Sudeste não tem muita ideia do tamanho do apelo que o Grêmio tem no país”, e previu uma expansão de marca – não apenas de lojas – na Argentina e no Uruguai. Como você avalia isso?

Daniel Gamba – De que a marca Grêmio é forte, eu acho isso indiscutível. Mesmo com a escassez de títulos de expressão nos últimos anos, basta você verificar as diversas pesquisas com o número de torcedores e de reconhecimento de marca publicadas nos mais diversos meios de comunicação do país, e você irá quase sempre constatar que o Grêmio é, de um modo geral, a quinta maior marca do futebol brasileiro, sempre como o primeiro clube fora do eixo RJ-SP.

Sendo assim, imagino que possa haver uma expansão da marca Grêmio, não apenas de lojas, na Argentina e no Uruguai, mas mesmo assim, na minha opinião, não vai ser muito significativa em termos de um aumento significativo em receitas para o clube.

O Grêmio deve, sim, buscar uma expansão de sua marca e na esperança de conquistar novos sócios-torcedores nos países vizinhos da América Platina, mas o foco deveriam ser os mercados emergentes do futebol e potencialmente os mais opulentos na economia mundial, como os Estados Unidos e a China.

 

Universidade do Futebol – Nos Estados Unidos haveria espaço e mercado consumidor para ideia semelhante?

Daniel Gamba – Sem sombra de dúvidas o mercado americano é um dos mais propícios para isso, afinal o seu povo é altamente consumista. Como já falei anteriormente, uma boa estratégia de marketing, combinada a uma ação estratégica direcionada aos consumidores locais, tem tudo para na prática ser um sucesso.

Se a tudo isso pudéssemos agregar o fato de abrir franquias globais com a marca Grêmio no mercado local, combinada à negociação do licenciamento da marca Grêmio, atrelada a uma parceria com um clube local da MLS, além da realização de uma pré-temporada no exterior, a receita é, no papel, de sucesso.

As oportunidades estão batendo na porta dos clubes brasileiros, não só do Grêmio. Quem acordar primeiro e souber capitalizar isso o mais rápido possível estará abrindo uma vantagem considerável em se comparando aos outros times do Brasil.

 

 

Universidade do Futebol – A questão do licenciamento é uma cultura que não é forte no Brasil, muito pela dificuldade de negociação, dos pontos de venda e da pirataria. Como você avalia o trabalho desta ferramenta pelo departamento de marketing do Grêmio?

Daniel Gamba – Eu também acho que os clubes estão deixando de faturar, e muito, com o licenciamento no Brasil. Além dos fatores mencionados, de dificuldade de negociação dos pontos de venda e da pirataria, eu adicionaria o fator qualidade dos produtos licenciados como outro fator que também afeta esse processo.

Muitas vezes, certos produtos licenciados são de qualidade muito baixa, e em alguns casos até inferior a produtos similares que não são licenciados. Cabe ao clube supervisionar esses produtos, afinal, é a marca do clube que está em jogo, e na minha opinião, é inconcebível e inaceitável ver a marca dos clube mais populares do país atrelada a produtos de baixa qualidade.

O consumidor brasileiro tem poder de compra e está cada mais exigente, sempre em busca de produtos de qualidade – cabe ao clube exigir dos licenciados produtos de acordo com a grandeza do clube.

Em relação ao Grêmio, o clube vem fazendo um trabalho bom na área de licenciamento, mas assim como alguns outros clubes, alguns dos seus produtos licenciados, são de preços elevados e não condizem com a nobreza do clube, uma vez que são de acabamento de qualidade duvidosa e de baixíssima categoria.

 

Grêmio projeta expansão na Argentina e no Uruguai

 

Universidade do Futebol – O Grêmio prevê arrecadar R$ 100 mi anuais com sua nova arena – número este que engloba desde a venda de camarotes, cadeiras cativas e espaços comerciais para restaurantes e lojas, por exemplo, até ingressos. É possível alcançar este patamar?

Daniel Gamba – São números bem otimistas e em até certo ponto viáveis a longo prazo. Acredito que nos próximos três, quatro anos, o Grêmio possa alcançar esse patamar de faturamento com a sua nova arena, mas esse salto de faturamento, se comparado aos números atuais, não virá da noite para o dia, e sem um trabalho árduo.

Além da venda dos camarotes e dos espaços comerciais, a ideia é maximizar o uso da arena nos dias que não haja jogos, com distintas atividades. A receita do “matchday” também será importante, uma vez que o torcedor busca conforto e qualidade, e até não se importa em pagar bem por um serviço, se o mesmo for de qualidade.

O que me deixa tranquilo quanto a isso é o fato de que a Grêmio Empreendimentos, empresa gestora da nova arena em conjunto com a construtora OAS, possui um planejamento estratégico bem definido aliado a excelentes ideias e conceitos, além de ser administrada por vários profissionais capacitados.

A transição dos sócios do Olímpico para a Arena será uma tarefa árdua, mas tenho certeza de que num futuro muito próximo o clube ainda vai arrecadar muito mais com seus novos clientes sócios-torcedores, afinal, já é um fato evidente de que se o torcedor não for sócio, dificilmente assistirá a jogos na arena mais moderna do Brasil.

Os torcedores precisam se conscientizar de que não haverá espaço para todos e vale muito a pena se associar, afinal, além de estar colaborando com o clube do coração, o sócio-torcedor tem inúmeras vantagens e descontos com empresas associadas, além de estar adquirindo ingressos a preços mais acessíveis, sem depender dos “temerosos” cambistas em tempos de jogos decisivos.

Grêmio prevê arrecadar R$ 100 mi anuais com arena

 

Universidade do Futebol – Que paralelo você traça entre a Indústria do Futebol e a Indústria dos Esportes Americanos?

Daniel Gamba – O mercado de futebol nos Estados Unidos é o que mais cresce localmente. Além do número de praticantes aumentar a cada ano, a liga local, MLS, já ultrapassou a NBA em média de público por partida, sendo agora a terceira liga que mais leva público em média aos seus estádios.

A tendência é de que isso venha ainda a melhorar nos próximos anos, uma vez que a chamada “geração futebol” nos Estados Unidos, que cresceu vendo o desenvolvimento do esporte desde criança, está entrando num período de geração de novos consumidores, ou seja, as crianças e adolescentes da década de 90 já se tornaram ou estão se tornando pais, e os seus dependentes irão crescer num ambiente familiar futebolístico, uma vez que seus pais já cresceram vendo futebol, muito diferente das gerações anteriores.

O esporte nos Estados Unidos, assim como em diversos lugares do mundo, é uma tradição familiar, em que o fanatismo histórico dos torcedores dos times de beisebol e de futebol americano passa de geração para geração. Vejo essa “tradição” com bons olhos, e espero que o mesmo possa ocorrer com essa “geração futebol” que já está formando novos torcedores para dar sequência a essa filosofia.

 

A globalização do futebol brasileiro

 

Universidade do Futebol – Um dos problemas da gestão do futebol brasileiro é a falta de qualificação profissional no comando dos clubes. Ainda esbarramos na falta de administradores capazes de romper a barreira da saturação mercadológica local na busca da consolidação das estruturas e das marcas no exterior? Como avançar nesta questão?

Daniel Gamba – A política que impera nos ambientes futebolísticos do Brasil é um atraso para o nosso futebol. Sou ciente de que na teoria a política deveria ser eliminada do futebol, mas que para isso acontecer na prática é muito difícil, ou até impossível.

Atualmente, o futebol brasileiro movimenta bilhões de reais anualmente, e na minha percepção é inadmissível que o mesmo continue sendo administrado por “voluntários”. O futebol brasileiro tem que ser administrado por pessoas capacitadas, com diploma em suas respectivas áreas, sob o supervisão de um Conselho.

O ex-jogador de futebol quer assumir cargo executivo no clube em que ele atuou e foi ídolo pode fazer isso sem problemas, mas desde que ele vá primeiramente se aperfeiçoar e estudar para obter o conhecimento necessário para ser um administrador, afinal, a história dentro de campo foi de sucesso, mas é passado, e isso não significa que o mesmo ocorrerá fora dele.

Há vários casos de jogadores extraordinários dentro de campo, mas medíocres como treinadores ou gestores de futebol. A política atrapalha essa profissionalização, afinal, precisamos de pessoas capacitadas e especialistas em administração esportiva para comandar os nossos clubes. As mesmas, estariam sujeitos a normas e regras de uma empresa qualquer, onde o bom trabalho realizado é devidamente recompensado, enquanto que as falhas e os erros são cobrados perante risco de demissão.

A fórmula parece simples, mas o difícil é colocá-la em prática: o nosso futebol ainda é político demais para isso. Alguns clubes, já possuem executivos especializados em cada área administrativa, com cargos remunerados, mas a grande maioria deles ainda é “administrada” por voluntários, e enquanto isso for praxe, dificilmente conseguiremos mudar esse cenário. Quem mais perde com isso é o futebol brasileiro.

, Universidade do Futebol

A política que impera nos ambientes futebolísticos do Brasil é um atraso para o nosso futebol”, acredita Gamba

 

Universidade do Futebol – Em um artigo de sua autoria, publicado na Universidade do Futebol –, você questiona a razão pela qual ninguém se preocupa em divulgar os clubes brasileiros em mercados emergentes, bem como explorar a captação de novos “torcedores” ou fãs. Por que isso ocorre e quais estratégias podem ser criadas?

Daniel Gamba – O mercado brasileiro no futebol está praticamente saturado. Quem nasce gremista, por exemplo, dificilmente trocará de time. E isso ocorre em diversos times em todo Brasil, onde o futebol é paixão, quase uma religião.

Você sempre vai encontrar algumas pessoas que no decorrer da vida até trocam de time, mas as chances de obter sucesso são maiores se você tentar conquistar novos consumidores que ainda não foram “tocados”. Consumidores os quais são apaixonados pelos atletas brasileiros, amantes da nossa seleção, mas de conhecimento quase nulo sobre o nosso campeonato local e os nossos times tradicionais.

Os clubes devem buscar novos mercados no exterior, e há muitos mercados emergentes no futebol ainda carentes de ídolos e de identidade com equipes locais, vide a América do Norte e a Ásia. Mas de nada adianta você contratar um jogador americano ou chinês na esperança de consolidar a sua marca nesses mercados, se não houver uma estratégia correta e forte de marketing.

Em minha opinião, o clube deveria primeiramente tentar conquistar os consumidores nesses mercados com ações voltadas especificamente a esses clientes potenciais, para depois fazer uma ação nesse sentido de contratar um jogador, dando sequência, assim, à ação inicial. A busca por um jogador de qualidade, também é muito importante. Não se pode esquecer que o objetivo é fortalecer a marca no exterior, mas não se pode ignorar que isso será mais viável, se a equipe for de qualidade e estiver disputando títulos.

Outro fator importante seria a adaptação ao mercado internacional. Parabenizo o pioneirismo e a iniciativa do Corinthians na contratação do chinês Chen Zizao, entretanto, tenho receio de que a iniciativa possa ser um tremendo sucesso. Primeiramente, achei equivocada a ação de colocar um apelido no atleta, “abrasileirando” o jogador, quando na realidade você teria que estar internacionalizando o Corinthians, adaptando o mesmo ao mercado asiático. Em segundo lugar, as informações que nos chegam pelos meios de imprensa é de que o objetivo do Corinthians é vender mais camisas no mercado asiático, mesmo que duvide da afirmativa.

Desde os tempos em que o Manchester United contratou o coreano Park, jamais os seus executivos e diretores falaram em uma aquisição para aumentar as receitas do clube nesses mercados, mesmo que na realidade era evidente que esse fora um dos objetivos primordiais. Além de ser um dos maiores clubes do mundo e de forte reconhecimento no mercado asiático, o United conseguiu contratar um excelente jogador e de qualidade diferenciada se comparada à de alguns de seus conterrâneos asiáticos.

O fato de o clube tratar a contratação do jogador como um acréscimo de qualidade ao seu elenco colaborou para aumentar a confiança e o reconhecimento do povo asiático com a agremiação, uma vez que os mesmos enxergavam os ingleses confiando no potencial do jogador asiático.

O clube brasileiro que souber capitalizar isso e focar em uma ação pioneira nesse sentido estará, de certa forma, ganhando presença vital em mercados importantes. Agora, se o projeto é contratar um jogador chinês, só com o objetivo de vender mais camisas no mercado internacional, realmente, não acho um esforço viável, nem recomendável.

, Universidade do Futebol

Para Gamba, clube brasileiro que souber capitalizar e focar em uma ação pioneira com a contratação de um grande jogador estrangeiro estará, de certa forma, ganhando presença vital em mercados importantes; Zizao é o caso?

 

Universidade do Futebol – Certa vez, o Grêmio teve a possibilidade de realizar uma de suas pré-temporadas nos Estados Unidos, mas o processo acabou não sendo concretizado. Por quê?

Daniel Gamba – O que realmente ocorreu foi uma questão de datas, uma vez que a oportunidade chegou muito tarde ao Grêmio, e os investidores nos Estados Unidos precisavam de uma resposta imediata. Não foi possível no ano passado, mas a perspectiva pro futuro é boa.

A ideia seria incorporar a pré-temporada no exterior com um conjunto de ações voltadas ao marketing global do clube no respectivo país. Imagino que o departamento de marketing do clube esteja trabalhando para isso, e espero que em breve o Grêmio possa anunciar algumas novidades bem interessantes aos seus torcedores.

Universidade do Futebol – A rivalidade com o Internacional pode render frutos comerciais ao Grêmio, ou a animosidade potencializada por alguns dirigentes inviabiliza, por exemplo, ações administrativas e de marketing conjuntas entre estes clubes?

Daniel Gamba – Eu sou da opinião de que a rivalidade tem que ficar para a torcida e dentro de campo quando um esteja enfrentando o outro. Fora isso, os dois deveriam estar unidos. A grandeza de um só existe por causa das façanhas do outro.

Porto Alegre deveria se orgulhar do fato de ser a cidade brasileira, juntamente com São Paulo, com maior número de títulos (4) da Libertadores, o torneio mais importante em nível de clubes em toda a América, sem falar nos títulos mundiais e nas inúmeras conquistas nacionais dos dois clubes mais importantes da região Sul do país.

O que inviabiliza um maior investimento “estrangeiro” no estado, na minha opinião, é de certa forma o pensamento muitas vezes bairrista e provinciano do povo da região. Uma prova disso são os patrocínios regionais nas camisetas dos dois clubes desde 1995 – ou seja, há quase 20 anos os dois clubes expõem patrocínios regionais. De 1995 até 1997, o Inter teve o Grupo Aplub e o Grêmio as Tintas Renner como seus patrocinadores. A partir daí começaram os patrocínios em conjunto.

Para uma marca investir no futebol do Rio Grande do Sul é praticamente seguro afirmar que a mesma tem que estar fortemente associada com a cultura gaúcha. A partir da instalação de sua fábrica naquele estado, a General Motors se “tornou gaúcha” (numa visão do povo local), e a mesma passou a investir em patrocínio conjunto aos dois maiores clubes de lá de 1998 até 2000.

, Universidade do Futebol

Desde 2001, os dois clubes gaúchos possuem o Banrisul, um banco regional, como seu patrocinador máster. Eu, na minha modesta opinião, não acho que os clubes gaúchos souberam capitalizar de uma melhor maneira a grandeza dos dois maiores clubes do Brasil fora do eixo RJ-SP. Se os dois clubes se unissem mais fora do campo, poderiam apresentar para as marcas “internacionais” com potencial de patrocínio um estado forte, de elevado poder aquisitivo (se comparado com algumas outras regiões do Brasil), com muito potencial vencedor (justificado pelo passado de muitos títulos importantes de ambos), onde mesmo fora da mídia nacional e apoio do eixo RJ-SP, consegue resultados fantásticos dentro de campo. Sem falar no fato de que o custo de patrocínio para uma marca no Rio Grande do Sul ser muito abaixo dos valores cobrados para cariocas e paulistas.

O potencial é grande, as oportunidades são muitas, e os resultados são quase garantidos; não se sabe se são as marcas “de fora” que não estão se dando conta do fato que o estado possui dois grandes clubes, sempre brigando por grandes títulos, com alta exposição na mídia nacional e mundial, além de um valor de patrocínio muito abaixo do mercado nacional; ou se são os clubes que não estão unidos o suficiente para fazer o seu “sales pitch” (espécie de argumento de venda) para essas marcas “multinacionais”.

É fato que devido a essa cultura provinciana que predomina no Rio Grande do Sul, dificilmente uma marca de fora investirá somente num clube, deixando de investir no outro. Os dirigentes da dupla precisam deixar a “corneta” para a torcida e focar em ações em conjunto que serão benéficas aos dois clubes. Exemplos ao redor do mundo não faltam (vide o Bayern Munich chegar ao extremo de doar dinheiro para evitar a falência do Borussia Dortmund há alguns anos, mantendo assim a alta competitividade da Bundesliga), mas para isso os dirigentes precisam deixar essa animosidade de lado e trabalhar coletivamente.

Leia mais:
Oliver Seitz, gerente de marketing do Coritiba

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