Brasil vs EUA: aprendendo e ensinando de formas diferentes

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A Universidade do Futebol tem apresentado vários trabalhos e discussões comparando algumas formas de ensinar/aprender futebol, entre eles: nos clubes vs na várzea; de forma fragmentada (físico, técnico, táctico e psicológico) vs integrada (através de jogos).

Esse artigo visa focalizar o processo de formação dos Estados Unidos e fazer uma breve comparação com o Brasil. Ao final, serão apresentadas algumas reflexões do que poderia ser útil ao futebol brasileiro, procurando unir o que considero ser o melhor de cada um destes dois processos.

Desde 2008, faço parte do Soccer ODP (Olympic Development Program), um programa de Desenvolvimento Olímpico para Futebol dos Estados Unidos. Assisti a alguns dos jogos do mundial de futebol feminino do ano passado e das Olimpíadas deste ano durante o “Region I camp”, ou seja, a semana de treinamentos intensivos para as atletas da “região 1” dos Estados Unidos.

Estava assistindo juntamente com cerca de 30 outros treinadores, de alguns diferentes países, e cerca de 300 garotas de 16 anos, que representavam os respectivos estados e lutavam durante os treinos naquela semana para serem escolhidas entre as cerca de 25 atletas que representariam a região no “National Camp”.

O processo de seleção funciona da seguinte forma: cada estado tem um processo inicial para escolha das garotas que representarão o estado no Regional Camp. Ao chegar ao camp, elas serão divididas aleatoriamente em aproximadamente 12 equipes que jogarão entre si. Durante as partidas, uma equipe de treinadores estará avaliando as jogadoras e ao final do dia, será feita uma (longa) reunião entre os treinadores onde serão escolhidas as primeiras a fazerem parte do “pool” (selecionadas/seleção).

No dia seguinte, serão realizados novos treinamentos e partidas, tanto entre as atletas do “pool” quanto as não selecionadas. Logo cedo, o dia começa com as atletas do “pool” jogando entre si e todos os treinadores assistindo à partida, para que se possa fazer em detalhes uma avaliação destas.

Após estas primeiras partidas, os treinadores retornarão para as equipes designadas com as atletas não selecionadas e um grupo de técnicos irá treinar as atletas do “pool”. Ao final de cada dia, após os treinamentos e jogos, será feita uma nova reunião e algumas novas atletas serão selecionadas para fazer parte do “pool”, enquanto outras serão excluídas.

Os critérios de avaliação incluem não somente as capacidades físicas, técnicas e tácticas, mas fatores comportamentais como: dedicação durante o treinamento e capacidade de adaptação e trabalho de grupo.

Devido ao dinâmico processo de seleção, grande concorrência e valores ligados ao empenho, que a maioria dos treinadores dos Estados Unidos apresenta, as atletas têm, desde os 13 anos quando começam a fazer parte deste processo de seleção, uma clara expectativa de que, para seguir em frente no processo, além do “talento” é necessário grande empenho e dedicação para permanecerem no seleto elenco.

As atletas que estarão no “pool” no último dia de treinos, serão as que representarão a região no “National Camp” e concorrerão com as atletas selecionadas pelas outras regiões às vagas na seleção americana da respectiva categoria. O mesmo processo ocorre no futebol masculino.

Em termos de metodologia de treinamento, existem diferentes tipos de progressões. Por exemplo, a progressão para aprimoramento técnico se inicia a partir de uma parte chamada de “fundamental” (onde não existe pressão do adversário), passa pela fase “game related” (onde começa a se colocar pressão do adversário, mas com regras para permitir a execução do movimento), chegando à fase “game condition” (onde a atividade não pode ter restrições para se pressionar a bola). A fase final será o “functional training”, onde o jogador terá que executar os movimentos na mesma função que executa durante as partidas.

Uma grande diferença “cultural” é que o treinador americano não assume que o atleta saiba executar com perfeição as ações requeridas pelo jogo e, por isso, tantas ações técnico/táticas são “quebradas” para serem trabalhadas de forma metodológica. Para exemplificar, podemos citar casos relacionados com a abordagem individual na marcação.

Desde cedo as atletas, incluindo atacantes, aprendem técnicas e táticas de aproximação na marcação, posicionamento do corpo, tipo de “passada”, formas de atacar a bola e forçar o jogo na direção que o esquema tático da equipe necessita. O conhecimento desse tipo de abordagem levou-me a ter uma visão de análise de partidas diferente da que eu tinha antes de chegar aos Estados Unidos. Certas deficiências típicas de jogadoras e jogadores brasileiros se tornaram claras de serem individualizadas.

Obviamente, o processo de formação americano não é perfeito. Gostaria de apontar quatro dos maiores defeitos.

Primeiramente, a falta de uma “pedagogia da rua” criativa como a brasileira. Enquanto os jogadores brasileiros nos primeiros anos de vida estão expostos a um ambiente criativo e recheado de futebol, que os permite desenvolver uma coordenação motora fina, nos Estados Unidos a maioria das crianças ficam expostas somente ao treinamento formal nos clubes de futebol.

O segundo defeito é que a maioria dos clubes de futebol nos Estados Unidos tem como treinadores das equipes até 13 e 14 anos os pais de alunos e não professores de Educação Física (que são pouco valorizados no país, mas essa é outra história) ou mesmo ex-jogadores. Muitos desses pais não tiveram nenhuma experiência sequer praticaram o esporte. Eles têm como base para os treinos um modelo muito controlado, às vezes baseado na cultura do futebol americano.

O terceiro grande defeito é que o futebol é quase um esporte elitista, já que a participação em clubes e torneios após certa idade pode custar muito dinheiro.

O quarto e último defeito é que a influência cultural no futebol dos Estados Unidos é quase que exclusivamente inglesa, já que a maioria dos treinadores estrangeiros veio do Reino Unido. Uma maior variedade seria benéfica ao desenvolvimento do futebol naquele país.

Uma breve análise das diferenças

Em termos de futebol feminino, a atleta brasileira tem vantagem em relação à americana na possibilidade de crescer em um ambiente de futebol mais criativo, mas tem também a grande desvantagem de ter menos estrutura e organização para o desenvolvimento da própria carreira.

Já no futebol masculino, o atleta brasileiro tem não só a vantagem de crescer em um ambiente propício ao desenvolvimento de capacidades motoras finas relacionadas ao futebol nos primeiros anos de vida, como a vantagem de ter mais oportunidades de desenvolvimento da carreira nas categorias de base dos clubes profissionais.

No entanto, o atleta brasileiro, tanto masculino como feminino, tem a limitação durante seu processo de desenvolvimento de estar exposto somente a técnicos de sua nacionalidade que ensinam no “estilo brasileiro”, já que não existem muitos treinadores estrangeiros no Brasil.

Não estamos falando em mudar o estilo brasileiro de jogar futebol ou inibir a criatividade de nosso jogador – que nos levou à conquista de cinco Copas do Mundo –, mas somente reconhecer que o esporte evolui e que deveríamos dar mais atenção a certos aspectos que às vezes negligenciamos e que poderiam aperfeiçoar nosso desempenho.

Cheguei aos Estados Unidos formado em Educação Física, com experiência como jogador profissional, treinador e preparador físico em categorias de base de uma equipe profissional brasileira.

Achei que estaria vindo aos Estados Unidos, país com pouca tradição no futebol masculino, somente para ensinar e, embora acredite estar contribuindo para o esporte neste país, divulgando um estilo diferente do comumente praticado por aqui, aprendi durante os meus anos aq
ui a respeitar o conhecimento e dedicação de treinadores locais e de outros países e reconhecer que o processo de treinamento no Brasil pode evoluir em muitos aspectos.

Por fim, gostaria de opinar dizendo que o sistema usado pelo “Soccer ODP”, além dos objetivos principais do programa que são: identificar os melhores atletas de cada idade e oferecer a eles treinamento com uma variedade de treinadores experientes, serve como forma de ensinar aos atletas, desde cedo, que além do “talento” é necessário muita dedicação à diversidade de aspectos do jogo para alcançar uma seleção nacional.

Isso ocorre porque ao invés de escolher os atletas apenas observando como jogam para seus clubes e escolhendo os melhores através do seu desempenho em jogos, o ambiente do ODP, com a alta rotatividade dos jogadores no “pool”, faz com que estes se acostumem a ter que adaptar-se rapidamente a diferentes estilos de jogo e a ter que manter o nível do desempenho durante todos os treinos e partidas em todo o processo de seleção. Esse ambiente desenvolve nos jogadores, desde cedo, uma cultura que valoriza o trabalho, a dedicação e a entrega total à equipe.

Apesar dos resultados do futebol masculino dos Estados Unidos não ajudarem a afirmar essa teoria, pelos defeitos apontados anteriormente e também pelo fato de o futebol não ser o principal esporte do país, não consigo deixar de imaginar como seria se os jogadores de nossa seleção de futebol tivessem crescido sendo expostos a treinadores com uma maior variedade de exigências e um processo de treinamento e seleção competitivo (como o Soccer ODP).

Poderíamos ter hoje seleções com a mesma qualidade técnica que possuímos atualmente, porém mais organizadas defensivamente, com uma melhor velocidade de jogo e capazes de operações táticas mais eficazes durante as partidas.

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