Treino na areia para futebolistas!

Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade
Entre para nossa lista e receba conteúdos exclusivos e com prioridade

Esse post eu o apelidei de post da responsabilidade, como profissional do futebol que preza pela melhoria do nosso esporte, pela evolução das práticas, tenho a responsabilidade de compartilhar e divulgar o conhecimento aos novos profissionais e estudantes. Uma dessas informações que precisam ser combatidas por nós preparadores físicos é: o treino na areia para futebolistas.

Dei-me um trabalho de fazer uma  busca no Pubmed, lilacs e Scielo, encontrei 9 artigos (1 revisão bibliográfica) de 2006 até 2016, as  palavras-chave utilizadas na busca foram: sand, sand and grass, sand training soccer, surface training.

Na busca encontrei apenas dois artigos relacionados ao futebol profissional e um de futebol amador recreacional, nenhum deles relacionam o treino na areia com desenvolvimento do jogar, apenas comparando treinos na grama e treino na areia. Encontrei mais uma revisão bibliográfica, um artigo que discorre sobre a pliometria na areia, dois artigos relacionam o treino na areia em esportes em geral, um outro relaciona a caminhada com o gasto energético nos dois tipos de piso e um relacionado ao hóquei na grama e netball. Já percebemos uma dificuldade em publicações referentes à modalidade em questão.

Adicionei a pesquisa dois posts de dois renomados nomes do nosso futebol, Sandro Sargentim e Rodrigo Leitão para encorpa-lo para aqueles que vão argumentar que é só teoria. Segue os pontos mais importantes.

Treinar na areia deixa o jogador de futebol lento

Par entendermos essa afirmação irei recorrer a física. Existe uma força chamada peso ( P=m.g),  essa força exerce uma ação no chão chamada de força normal, ou seja , o solo devolve a energia gerada pelo movimento (3ª lei de Newton) impulsionando o corpo de volta.

Segundo Galdino (2012), o componente elástico muscular (responsável pela transformação da energia cinética em elástica e depois cinética novamente) na areia acaba perdendo energia cinética sobre forma de calor, justamente por ficar muito tempo em contato com o solo em cada passada.

Imagem1
Imagem2 Crédito: P. Coutinho et al/Journal of Science and Medicine in Sport 16 (2013) 271-275

Para reforçar esta ideia utilizo as palavras de Rodrigo Leitão: “para se deslocar em alta velocidade, um jogador necessita que o tempo de aplicação de força no solo (no gramado onde joga) seja muito pequeno, mas que promova movimentos muito rápidos, de maneira que a aplicação da força pelo pé do atleta no campo e a reação do campo sobre o pé se expressem de maneira extremamente reativa e explosiva. O tempo de contato a cada movimento entre pé (chuteira) e solo (gramado) deve ser mínimo, e nele (no tempo mínimo) a expressão da força (que garanta a ação rápida) deve ser relativamente máxima e suficiente para a necessidade da própria ação. E isso é justamente o contrário do que a “caixa de areia” propicia. Quando um atleta tenta fazer corridas rápidas na areia tem dificuldades, pois o tempo de contato entre o seu pé e o solo, a cada movimento, é maior do que quando realizado na grama, ou outra superfície mais dura. Isso quer dizer que a frequência de movimentos que acaba sendo capaz de fazer na areia é menor do que no gramado e que, portanto, a exigência neuromuscular para a ação não se configura como sobrecarga que estimule respostas adaptativas no sentido do aumento da velocidade”

Para embasar ainda mais a discussão trago algumas particularidades e adaptações que os autores utilizam para induzir uma determinada informação, Brito (2012), adaptou para fins de análise de dados, a corrida na areia em comparação a quadra de futsal e a grama artificial:

Alta velocidade de corrida (areia: 13-18 km/h; grama artificial e quadra: 16-22 km/h) 

Sprint (areia: >18 km/h; grama artificial e quadra: >22 km/h). 

Se o leitor não lê o artigo por completo com essa adaptação, lê apenas o resumo, pode ser induzido ao erro. Como aconteceu no artigo onde as velocidades máximas atingidas foram diferentes (figura abaixo) significativamente, mas enquadradas na mesma categoria. Ou seja, o autor já assume e antecipa que na areia os praticantes serão mais lentos.

Imagem3
Crédito: J. Brito et al/Human Movement Science 31 (2012) 946-956

Areia não é o melhor terreno para se treinar pliometria
Segundo o criador do método, o russo Yuri Vergoshansky, esse tipo de treino foi desenvolvido para aumentar a velocidade de reação muscular, o que os treinadores chamam de reatividade. Para que isso ocorra o indivíduo deve ficar APENAS 0,1 segundo em contato com o solo e assim aumentar a velocidade de resposta, só com esse argumento já era suficiente para não utilizar a areia para este tipo de treino.
Vou além: apesar de tendencioso na sua conclusão (leiam a metodologia) Impellizzeri (2007) reforça a ideia e mostra que existe diferença significativa no grupo grama, que melhoraram a sua CMJ (p = 0,033) e CMJ/SJ (p = 0,005) significativamente (p <0,001) ao contrário dos jogadores do grupo areia. Segundo o autor, treinar na grama é mais eficiente para melhorar o CMJ e o CMJ/SJ que treinar na areia.
Custo elevado de energia
Em uma revisão bibliográfica (Binnie, 2013) menciona que superfícies de areia podem oferecer um custo mais elevado de energia (CE) e menor estímulo de treinamento/impacto em comparação com locais de treinamento mais firmes e mais tradicionais do esporte de equipe, como a grama.
Cetollin e colaboradores (2010) estudando atletas de beach soccer, observaram que o solo arenoso apresenta uma exigência 15% maior ao terreno com uma maior compactação. Isto indica que parece haver uma exigência mais elevada no solo arenoso em comparação ao piso de grama mais compacto.
Ainda vemos profissionais que utilizam esse método na reapresentação do atleta, geralmente 48 horas, no pico de dor tardia do atleta. Se o objetivo é desgastar seu atleta a areia pode ser uma boa opção, mas em tempos de economia de energia, recuperação dos atletas, jogos três vezes na semana tenho certeza que essa não será a estratégia que utilizará depois de ler esse post.
Prevenção de lesões
Jan Ekstand citado por Brito (2012) explica que existe diferença nos mecanismos de lesões no futebol quando jogado em diferentes tipos de superfícies, bem como um aumento do risco com alternâncias frequentes de superfícies. Segundo o autor, apesar destas sugestões, existe uma falta de evidência direta ligando superfícies de areia com qualquer aumento ou diminuição da incidência de lesão, quando comparado com as superfícies mais firmes.
O que Impellizzeri (2008) sugere é que uma superfície de areia pode ser útil para atletas que retornam de lesão.
Especificidade

“sob o ponto de vista da complexidade, essa discussão nem faria sentido. Mas que ainda assim, mesmo não me pautando nela (na complexidade), o treino na “caixa de areia” para melhora do desempenho na velocidade de deslocamento dos jogadores de futebol ou da sua força explosiva não faria sentido algum em etapa alguma da preparação atlética do futebolista”

     Rodrigo Leitão

+ posts

Compartilhe

Compartilhar no facebook
Compartilhar no twitter
Compartilhar no linkedin
Compartilhar no whatsapp
Compartilhar no email
Compartilhar no pinterest

Deixe o seu comentário

Deixe uma resposta

Mais conteúdo valioso