Universidade do Futebol

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17/12/2012

A compreensão de um futebol solidário

Para falar sobre futebol tem de se ter em mente a dinâmica das relações humanas, pois estamos falando de um esporte no qual o comportamento coletivo entre os diferentes indivíduos se faz necessário para chegar aos objetivos comuns. O futebol praticado de maneira organizada e solidária, na busca da integração e interação em equipe, é a tendência para o sucesso.

Para um completo entendimento, é relevante enfatizar um futebol coletivo sob a perspectiva de uma organização tática, fato este, que foi um enorme aprendizado que obtive através de um trabalho observatório que fiz nos dois gigantes clubes portugueses: F.C. Porto e S.L. Benfica.

Recentemente, tive a oportunidade de vivenciar integralmente a rotina de treinamentos das equipes de formação do F.C. Porto, e conhecer a estrutura física e operacional do S.L. Benfica. O que vi e vivenciei durante esse período foi um despertar enriquecedor para o surgimento de uma nova compreensão de futebol.

Para dar sentido a essa proposta de futebol disciplinado e organizado taticamente, se faz necessário um retorno à história do ocidente para uma abordagem das filosofias cartesiana e pós-moderna, e seus respectivos modelos de pensamento.

Apoiada nos pensamentos analítico e mecanicista, a filosofia cartesiana tem como princípio a supervalorização da dimensão física do homem, e a divisão e separação do objeto de estudo em partes isoladas a fim de melhor entender, estudar e analisar o todo.

É a filosofia que rege a educação física, referindo-se à tradicional proposta do futebol brasileiro que trabalha de forma fragmentada os componentes técnicos (passes, cruzamentos e finalizações), táticos (sistemas defensivo e ofensivo, transições), físicos (aeróbios, anaeróbios, etc), e psicológicos, para então ordená-los integralmente em equipe durante os jogos.

Paradoxalmente, a filosofia pós-moderna embasada no pensamento sistêmico-complexo se sustenta na compreensão do todo com o propósito de entender o ser e a existência com a ajuda do sistema. Reflete em absoluto, uma moderna proposta de futebol fundamentada no próprio jogar o jogo em equipe (o todo), na qual as valências técnicas, físicas e psicológicas ficam subordinadas à organização tática.

Volto à experiência em Portugal, onde ao longo da observação detalhada de diversos jogos em diferentes campeonatos, de categorias de base a profissionais, pude comprovar a eficácia e a beleza de um futebol coletivo e taticamente estratégico.

De maneira geral, os clubes europeus implementam muito bem o comportamento coletivo nas equipes, visto de forma prática por meio da compactação e agrupamento das linhas de marcação, do balanço defensivo/ofensivo, da precisão e velocidade da troca de passes, das ações coletivas de pressing nas distintas zonas do campo, entre outros.

Contudo, é preciso destacar a excelência do sistema de trabalho do F.C. Porto, uma referência mundial no que diz respeito à proposta tática de jogo. Clube que padroniza em todas as suas categorias à intitulada Periodização Tática, uma metodologia de treinamento alicerçada no processo de organização tática em equipe.

Ilustrando esse pragmatismo de futebol, cito o estilo único de jogo do time juvenil do F.C Porto. Uma equipe que operacionaliza seu jogo em posse de bola, através de uma formatada linha de passes, uma marcação pressão à qual a equipe reage de forma organizada e coletiva à perda de bola, e também a constante movimentação e inversão das posições em seu sistema ofensivo, buscando invariavelmente conquistar superioridade numérica de jogadores para atacar o gol.

De Portugal à Espanha – imanente a esse contexto – menciono o catalão Barcelona que encanta o mundo com seu futebol de ações coletivas e organizadas ao qual a individualidade e genialidade de atletas como Messi, Xavi e Iniesta evidenciam-se a todo instante, porém complementares à equipe, ao todo.

Neste passo, devido à obsoleta proposta de futebol e, por consequência, a ausência de um trabalho específico no desenvolvimento dos padrões de comportamento coletivo nos nossos atletas, é preciso reconhecer que o futebol brasileiro está taticamente atrasado em relação ao jogo praticado no Velho Continente. Em contrapartida, é necessário destacar que em termos de talentos individuais, ainda permanecemos como a grande referência do futebol mundial.

Analisando e transpondo tais informações à realidade brasileira, em minha opinião, é preciso (re)caracterizar o futebol brasileiro como um esporte ao qual a solidariedade em equipe, por meio dos passes e posse de bola, prevaleça em detrimento aos dribles, firulas e ações individuais sem propósito. Não me refiro ao futebol mecânico e sem criatividade que acomete várias equipes, mas sim a um futebol moderno onde a habilidade individual e o improviso dos nossos atletas continuem presente, porém a serviço da equipe, do todo.

Por fim, vivemos num mundo globalizado onde independentemente da área de atuação, a informação e o conhecimento se fazem cada vez mais necessários à evolução e a qualificação dos profissionais, portanto é fundamental que treinadores, professores, e dirigentes de futebol, avaliem novos conceitos e ideias a fim de avançarmos no cenário futebolístico mundial.

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