A culpa é do treinador? “O balançar da roseira” no futebol brasileiro

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Após a realização de mais uma rodada do Campeonato Brasileiro e, sobretudo, a demissão do treinador Dorival Junior, do Santos Futebol Clube, me senti motivado a dedicar uns minutos a escrever esse texto e tratar das frequentes, e equivocadas no meu entendimento, demissões dos treinadores do futebol brasileiro. Antes de entrar propriamente na minha análise, gostaria de ressaltar que este tema está contemplado em um dos capítulos da minha tese de doutorado – “O futebol profissional e o processo de formação de grupo” – defendida recentemente na Universidade de São Paulo (USP) e, portanto, minhas considerações se encontram sustentadas pelo estudo realizado.

Ao final da quarta rodada do Campeonato Brasileiro, foi demitido o treinador que há mais tempo estava no cargo dentre os clubes da série A. O agora ex-treinador do Santos Futebol Clube, deixou o comando da equipe após 189 jogos, 111 vitórias, 34 empates e 44 derrotas, obtendo, portanto, 65% de aproveitamento dos pontos disputados. Mais do que isso, vale ressaltar que o treinador conquistou nesta passagem pelo clube o título do Campeonato Paulista de 2016 e atualmente obteve a classificação, em primeiro lugar do grupo, na Copa Libertadores, e o acesso às quartas de final da Copa do Brasil. A título de curiosidade, o campeão brasileiro em 2016 obteve 70% dos pontos disputados e o vice-campeão, justamente a equipe comanda por Dorival Junior, o Santos Futebol Clube, conquistou 62% dos pontos, aproveitamento inferior ao obtido neste ano até o momento da sua demissão.

Poucas semanas atrás, foi também demitido o treinador Eduardo Batista com uma campanha, em 23 jogos no comando da equipe palmeirense, de 66,6% de aproveitamento com 14 vitórias. Penso também que o treinador Rogério Ceni, se não representasse o que representa para o clube e torcida, já teria sido demitido após as três recentes eliminações. Mas afinal, quais são as justificativas para demissão dos treinadores no futebol profissional?

Em entrevista à mídia esportiva, o atual presidente do Santos disse que precisava “balançar a roseira”, dar uma mexida no grupo. Em minha tese, após seis meses de observação e onze horas de entrevistas transcritas obtidas em investigação em três clubes profissionais do futebol brasileiro (séries A, B e C), constatei que além da ausência de resultados positivos/vitórias (apontado como maior motivo para as demissões), também foram mencionados como justificativa: a cultura do futebol brasileiro, que não dá o devido tempo para que as comissões técnicas desenvolvam seus trabalhos; a pressão sofrida pela torcida e mídia para que se realize a troca; o ambiente ruim entre jogadores e treinador e, consequentemente, a perda de comando/liderança por parte deste último.

Por que, afinal, pretende-se “balançar a roseira”, mexer o grupo? Espera-se com isso motivar o grupo de atletas a treinar e jogar mais, e melhor. Entretanto, ainda que não desconsidere o aumento da motivação em alguns casos, sobretudo dos atletas que não desempenhavam o papel esperado (de titular, destaque, de importância) na equipe, tal mudança provavelmente promoverá uma desorganização no funcionamento grupal, desequilibrando aquilo que já é conhecido e está conservado, fazendo emergir, mais do que a motivação, as ansiedades básicas relacionadas à aprendizagem: medo da perda e medo do ataque. Ou seja, o medo de perder a titularidade, o espaço (simbólico, inclusive) dentro do clube e equipe ou até o contrato de trabalho, bem como o medo de perder suas defesas diante do que virá pela frente e de não estar preparado para enfrentar esse desconhecido – um método de treino e esquema tático, por exemplo – trazendo ao grupo sentimento de insegurança, hesitação e insegurança para lidar com o novo.

Mesmo que a ausência de resultados positivos seja tida como a grande vilã no que se refere à demissão de treinadores, a relação entre elas – a troca de comissão técnica e produtividade – não pode ser estabelecida em condições de causa e efeito. Ainda assim, no entendimento de grande parte dos profissionais que pude entrevistar/conversar, essa relação se mostrou negativa, pois possivelmente impedirá a concretude do sentimento de pertencimento, prejudicará a comunicação entre os membros do grupo, bem como a elaboração do Esquema Conceitual Referencial e Operativo grupal – conceito trazido por Pichon-Rivière (2005) que, na leitura coloquial do futebol brasileiro, pode ser entendido como a “filosofia” -, cristalizará o desempenho e mobilidade dos papeis e promoverá a estereotipia da tarefa e aprendizagem.

Estou querendo com este texto afirmar que em hipótese alguma deve-se realizar a troca de treinador? Não! Mas espero com essas palavras esclarecer que os motivos para a troca de comissão devem extrapolar a relação direta e imediatista com o resultado. Conflitos são inerentes a qualquer relacionamento grupal e as mudanças, como geradoras de ansiedade, devem ser realizadas com cuidado e após muita reflexão e elaboração psíquica por parte do grupo.

*Rafael Moreno Castellani é doutor em psicologia social pela Universidade de São Paulo.

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Vagner Reolon Marcelino
Vagner Reolon Marcelino
3 anos atrás

Grande Rafael ! Primeiro parabéns pelo texto. Compartilho das suas ideologias com relação ao número excessivo de equívoco(se podemos assim denominar) da direção dos clubes, em demitir os treinadores com boas campanhas nas competições, com a justificativa que o grupo de atletas precisa de “um novo animo” para alcançar os seus objetivos. Porém, essa situação de demitir treinadores extrapola o nosso território nacional, e arrisco em afirmar que essa condição vem se tornando uma prática global. Como exemplo, podemos citar a demissão do treinador Claudio Ranieri, conquistador do título inédito do Leicester na Premier League na temporada de 2015/2016, e… Read more »

RAFAEL MORENO CASTELLANI
RAFAEL MORENO CASTELLANI
3 anos atrás

Fala Vagner!! Muito obrigado pela leitura e comentário!
Tenho acompanhado também alguns episódios que denotem esse comportamento no futebol europeu, por exemplo. Mas ainda acho que são exemplos irrisórios frente à proporção que as mudanças ocorrem no Brasil. De qualquer forma, daria um belo estudo verificar isso!

Eduardo Barros
3 anos atrás

Parabéns pelo texto, Rafael! Excelente reflexão!!! A demissão em massa dos treinadores “desresponsabiliza” os principais agentes do jogo, os jogadores. Numa cultura em que com 66% ou 65% de aproveitamento demiti-se pois é preciso “mexer” com os jogadores, não favorecemos, minimamente que os atletas (que tem significativo papel social) aprendam a resolver conflitos, buscar a harmonia para o bem do todo, superar dificuldades e a conviver coletivamente, com todos buscando oferecer o melhor de si para a equipe. Os impactos dessa cultura para o jogo e para a vida são bem negativos! É possível ter acesso a sua tese?

RAFAEL MORENO CASTELLANI
RAFAEL MORENO CASTELLANI
3 anos atrás
Reply to  Eduardo Barros

Boa tarde Eduardo!! Muito obrigado pela leitura e comentário!
Sem dúvida, concordo contigo. Como ouvi de alguns entrevistados: “é mais fácil mandar um embora do que seis, sete”.
Em breve a tese estará disponível aqui na Universidade do Futebol e na Usp, mas já antecipo o link do CEV , onde consegue acessá-la.
http://cev.org.br/biblioteca/o-futebol-profissional-e-o-processo-de-formacao-de-grupo/
Abraço!

walerio araujo de melo
walerio araujo de melo
3 anos atrás

Após a Copa de 2014, ingenuamente, pensei que o futebol brasileiro iria entrar num processo de evolução um tanto quanto acelerado, no entanto, continuamos a passos de tartaruga. A CBF continua sendo dirigida por bandidos que não querem mudança alguma, pois o único objetivo da máfia é usar o futebol em benefício próprio. As federações pertencem à rede mafiosa e cada uma delas é semi autônoma e comanda seu próprio crime organizado, mas todas devem uma fidelidade suprema ao Capo di tutti i capi, ou seja, o chefão supremo de todos os chefões, que ocupa a cadeira de presidente da… Read more »

RAFAEL MORENO CASTELLANI
RAFAEL MORENO CASTELLANI
3 anos atrás

Boa tarde Walerio! Primeiramente, obrigado pelo comentário.
Sempre pensamos que o futebol brasileiro vá evoluir, mas tal evolução, quando se dá, ocorre de modo limitado e vagaroso. No entanto, há exceções dentro do futebol, a Universidade do Futebol é uma delas, que lutam e vem construindo condições (com cursos, pesquisas, discussões, ações etc) para um futebol melhor. Temos que nos apoiar neles e dar força para os movimentos renovadores e progressistas!
Quanto à união dos técnicos, seria um belo tema de pesquisa! Né?
Valeu!
abraço!

Andrey Piffero
Andrey Piffero
3 anos atrás

No contexto brasileiro o imediatismo está corroendo a nossa cultura. Profissionais com inovações e vontade de mudar o contexto do ensino do futebol, se encontram por vezes em um certo desanimo. Temos por vezes trabalhos com números significativos tal como abordado no artigo e mesmo assim estamos sempre sendo ameaçados. Empresários, patrocínios, gestores, entre outros..comandam os clubes muitas vezes parece que por afinidade. Quem dera fosse apenas a parte do ensino..quem dera fosse só cursar uma faculdade de educação física e buscar se especializar cada vez mais..quem dera no nosso país termos um modelo de gestão político tão corrupto que… Read more »

RAFAEL MORENO CASTELLANI
RAFAEL MORENO CASTELLANI
3 anos atrás
Reply to  Andrey Piffero

Oi Andrey!! Obrigado pelo comentário!
Não podemos desanimar, né? Há exceções em todos os segmentos de atuação e devemos continuar lutando por um futebol melhor.
Deixei o link da tese no comentário do Eduardo. Se interessar….
Qualquer coisa, estou à disposição também.
Abraço!

Emerson
Emerson
3 anos atrás

A culpa é do treinador sim!
99% dos treinadores não tem noção exata de como vencer.
Vencer não é questão de tatica, é questão de escalação.
Sou empreendedor e venci na vida dessa forma.
Existe formula cientifica pera vencer e ela se baseia em tecnica, não em tatica.
Não sou treinador, mas venço qualquer treinador só usando técnica.

RAFAEL MORENO CASTELLANI
RAFAEL MORENO CASTELLANI
3 anos atrás
Reply to  Emerson

Olá Emerson!
Discordo veemente da sua opinião, mas a respeito.
De qualquer forma, estou curioso para conhecer essa fórmula científica para vencer. Agradeço se puder compartilhar conosco.
abs

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