Universidade do Futebol

Alcides Scaglia

18/10/2009

A cultura lúdica e sua produção a partir do jogo: implicações importantes às novas tendências metodológicas de ensino do futebol

Primeiramente, cultura lúdica, segundo o francês Gilles Brougère, um dos mais importantes estudiosos sobre o tema jogo da atualidade, pode ser entendida como um conjunto de procedimentos, regras e significações próprias do jogo, que o jogador adquire e domina no contexto do mesmo.

Logo, podemos dizer que a cultura lúdica é a que permite a emergência da brincadeiras, exigindo assim a necessidade de adquiri-la para interpretar como jogos algumas atividades que poderiam não parecer, principalmente aos olhos de quem não tem referências para julgá-las.

Nas palavras do francês: “Assim é que são raras as crianças que se enganam quando se trata de discriminar no recreio uma briga de verdade e uma briga de brincadeira. (…) Não dispor de referências é não poder brincar. Seria por exemplo reagir com socos de verdade a um convite para uma briga lúdica.”

A cultura lúdica, sendo parte integrante da cultura geral, está sujeita às constantes modificações, pois a cultura lúdica se apodera inevitavelmente de elementos da cultura do meio ambiente da criança para aclimatá-la ao jogo.

É nesse sentido que Gilles Brougère diz que seria interessante nos debruçarmos em estudos para levantarmos hipóteses sobre o processo ao qual se dá a produção dessa cultura lúdica, pois ela é produzida pelos indivíduos (crianças) que dela participam. Brougère afirma: “Existe na medida em que é ativada por operações concretas que são as próprias atividades lúdicas”.

Podemos dizer então, em consonância com Brougère, que existe um duplo movimento interno e externo, evidenciando certa cumplicidade estabelecida entre jogo e cultura, pois a criança adquire e constrói sua cultura lúdica brincando (jogando).

A criança, a partir do jogo, vivência a experiência do processo cultural, da interação simbólica em toda a sua complexidade. É no conjunto de suas experiências lúdicas acumuladas que se encontra o seu enriquecimento cultural, pois a cultura lúdica não é transmitida de indivíduo para indivíduo, ela é co-construída, como saliente Brougère, ela se origina a partir da interação social, na participação em jogos com companheiros, na manipulação de brinquedos, na criação de jogos simbólicos, na necessidade de seguir regras convencionadas pelo grupo ou pela tradição…

Enfim, a criança é agente no seu processo de aquisição cultural, porém sua autonomia é cerceada e ao mesmo tempo estimulada, numa relação complexa, pela cultura geral, global, da sociedade em que está inserida, estabelecendo os pré-requisitos para o jogo, ou seja, a cultura lúdica será diversificada conforme o indivíduo, o sexo, a idade e o meio social, entre outros.

Se o meio social modifica e delineia a aquisição e produção da cultura lúdica, logo o jogo é também transformado e ou adaptado segundo as exigências impostas. Obviamente, isto irá refletir em nossa cultura corporal de movimento, mais especificamente nas técnicas corporais, simulando uma reação em cadeia, pois o corpo é moldado, modificado, pela cultura, que é concebida em simbiose com o jogo. Como salienta a antropóloga Margareth Mead: “… o corpo é expressão da cultura. Portanto cada cultura vai expressar diferentes corpos, porque se expressa diferentemente enquanto cultura”.

Portanto, apresento preliminares elementos para discussão sobre cultura lúdica, almejando imbricá-la com a formação dos nossos jovens futebolistas. É evidente que nossa cultura lúdica foi responsável pelo estabelecimento de um estilo peculiar do brasileiro jogar futebol. O futebol-arte foi desse modo lapidado, em meio a um processo que, inicialmente, o professor João Batista Freire chamou de pedagogia da rua.

Contudo, também é evidente que a nossa cultura lúdica vem sofrendo profundas alterações, as quais já se refletem na formação de jovens futebolistas brasileiros, o que vem justificar a premente necessidade do desenvolvimento de metodologias que resgatem a nossa tradição lúdica de brincar com a bola nos pés, ressignificando-a em meio à sua sistematização, enquanto processo de iniciação e especialização no futebol.

Para interagir com o autor: alcides@universidadedofutebol.com.br

Comentários

  1. IMPORTANTISSIMO a parte ludica no futebol actual, falando da nossa realidade aqui em ANGOLA em particular na AFA cada vez mais isso tem tido papel importante no crescimento desportivo/soçial/humano dos nossos atletas.. nota se diariamente nos seus comportamentos e já é difícil planificar um treino sem a vertente lúdica,portanto sou a FAVOR em continuar neste caminho, saudações desportivas

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