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15/08/2017

A cultura organizacional no futebol

A importância de definir a missão, a visão, os valores e do trabalho a longo prazo

Filosofia: Amigo da sabedoria, ou amor pelo saber, estudo dos problemas fundamentais ligados à existência, ao conhecimento, à verdade, aos valores morais e estéticos. Do grego Φιλοσοφία.

Para uma organização (esportiva ou não) implementar uma filosofia de trabalho (a verdade e os princípios morais dela), com base em sua missão, visão e valores, requer tempo. Ela é importante para a adaptação de um colaborador e o estabelecimento de uma rotina, assim como é um dos fatores responsáveis por proporcionar entrosamento em suas equipes, dentro e fora de campo. É a representação da cultura de uma instituição. Em muitos casos, a implementação de uma filosofia de trabalho vem acompanhada por uma cartilha de direitos e deveres do colaborador.

Em um primeiro momento parece “papo de administrador”, mas faz toda a diferença porque é conceito-chave em quaisquer organizações. Instituições centenárias, ou mais recentes porém sólidas, baseiam-se em uma cultura que se reforça ao logo do tempo.

E tudo isso se resume a um lema incorporado à instituição, que serve como ‘slogan’. Um exemplo disso é o “mais que um clube” (“més que un club”, em catalão), do Barcelona. Todo um conceito de comunicação e imagem é construído e transmitido para as categorias de base e comissões técnicas até o plantel principal. É passado aos jovens atletas e aos que são incorporados ao longo da temporada uma filosofia de trabalho que influencia na atuação dos seus funcionários, sejam eles ou não atletas. É uma das hipóteses que explica o porquê de o Guardiola ter sido bem sucedido como treinador da equipe. No São Paulo Futebol Clube, o Centro de Treinamento em Cotia tinha poucos funcionários terceirizados, pelo mesmo motivo (funcionários do clube se identificam com ele, têm a essência do clube).

Talvez este seja um dos problemas do futebol no Brasil. A busca a qualquer custo e com pouco tempo por resultados e títulos compromete o planejamento de longo prazo, que praticamente não existe. Patrick Vieira (hoje técnico do New York CFC, do mesmo grupo do Manchester City/ING), não quer ser treinador na Liga Inglesa porque acredita não terá tempo suficiente de implementar uma cultura de trabalho. Ele declarou à revista “FourFourTwo”: “It’s all about winning. There’s so much pressure” (Tudo é questão de vitória. É muita pressão).

RiverFFT

“Mas algo se destaca, a coisa mais importante foi filosofia. Nós voltamos às nossas origens, desde as categorias de base até a equipe principal, de respeitar o estilo que nos tornou grandes e a nossa maneira de se jogar futebol”. 

(tradução nossa, revista ‘Four Four Two’, Julho/2016)

O River Plate (Buenos Aires/ARG) foi rebaixado no campeonato nacional em junho/2011. Fora de campo, afundado em dívidas. Realizaram eleições e assumiu um novo presidente – remunerado e de dedicação integral -, responsável por criar uma equipe de gestores que daria a volta por cima com o clube anos mais tarde, e conquistaria a Taça Libertadores de 2015. Algumas das mudanças mais significativas foi o resgate da filosofia do clube e o estabelecimento de uma cultura e ética de trabalho.

Contratou-se para treinador Marcelo Gallardo, alguém com enorme identificação com o clube capaz de relembrar suas origens e maneira de jogar, e replicar isso em todos os seus escalões. Resgatar os seus valores (ganhar, divertir e golear). Muitos dizem que o River Plate, sendo River Plate, foi o principal responsável pela guinada que a instituição deu ao longo da década.

Impossível dissociar a pressão do ambiente do futebol profissional. No entanto, é preciso se perguntar: onde quer estar o clube daqui a 30 anos? Como a organização esportiva quer ser reconhecida dentro da sua área de atuação? Tudo isso deve ser indagado a fim de um crescimento com solidez e sustentabilidade. Há algumas décadas o mercado do futebol não demandava estas perguntas de partida. Entretanto, a sua indústria desenvolveu-se de tal maneira que hoje é preciso fazer estes questionamentos e trabalhar para essas respostas.

Com tudo isso, é cada vez mais necessária a formação especializada em gestão dos profissionais ligados ao futebol, porque infelizmente – como diz o Professor Doutor Gustavo Pires, no esporte muitos projetos têm origem nos resultados e não os projetos que dão origem aos resultados.

Comentários

  1. Kayan Serante disse:

    Ótimo texto caro Virgílio, que os atuais e os futuros presidentes, gestores dos clubes possam ler e refletir sobre os questionamentos apontados acertivamente pelo Sr, e que o nosso futebol progrida para gestões mais profissionais e qualificadas pensando em longo prazo e não no imediatismo dos resultados.

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