Universidade do Futebol

Geraldo Campestrini

11/08/2010

A dança dos treinadores

Tem uma música “das antigas” de Gabriel o Pensador que começava assim…

Essa é a dança do desempregado
Quem ainda não dançou tá na hora de aprender
A nova dança do desempregado
Amanhã o dançarino pode ser você

É impressionante como essa música faz sentido para o futebol brasileiro. Apesar que, neste caso, poderíamos falar em dança das cadeiras ou algo do tipo, pois treinador, nestas terras de Cabral, pulam de galho em galho. O assunto já é batido, muita gente já teceu comentários (inclusive nesta semana) sobre tal fato que é recorrente para nós e evidente, mais uma vez, no Brasileirão 2010.

E o pior, a “mudança” dificilmente resolve ou modifica de forma drástica, em questão de meses, o panorama de insucesso que se desenhava anteriormente, salvo raríssimas exceções. Mas ser “genial” para nossos dirigentes perante o fracasso dentro de campo, que ele mesmo ajudou a construir, é trocar de comando técnico.

Vamos recorrer a um pouquinho de teoria para aguçar este debate. No livro AGÔN – Gestão do Desporto, o Prof. Dr. Gustavo Pires coloca: “nas organizações, a taxa de aprendizagem deve ser sempre superior a taxa de mudança”.

Isso quer dizer o que, caros leitores? Que as organizações são feitas de pessoas e, portanto, de inúmeros conhecimentos acumulados ao longo do tempo. Cada organização tem uma característica peculiar, uma cultura diferente. Nos clubes a lógica é exatamente a mesma, cada qual instalado em uma cidade, com um povo de diferentes visões, com torcedores, rivais, concorrente com múltiplos interesses distintos, com um elenco de jogadores distintos um do outro, com uma equipe operacional de trabalho (massagistas, roupeiros, serviços gerais, supervisores etc.) diferente uma da outra e por aí vai.

Cada elemento desses influencia, cada qual a sua maneira, diretamente no trabalho de uma equipe técnica e multidisciplinar de um departamento de futebol. Se trocamos pessoas, começa-se um novo ciclo de aprendizagem, de entendimento dos processos, de adaptação à estrutura de trabalho, conforme Pires nos quis revelar.

Como no futebol o tempo é curto para tudo, muitas vezes não é possível aferir resultados de imediato. Pior que isso, as mudanças ocorrem, em muitos casos, apenas na carteira de trabalho, pois a concepção e a percepção dos treinadores que estão no mercado parecem ser basicamente as mesmas: pedir para reforçar o elenco, colocar o “coração na ponta da chuteira” e amontoar 11 jogadores em campo para ver no que vai dar. E se perder, reclama-se da arbitragem, que pelo menos um lateral vai inverter ao longo de todo o jogo para o adversário.

Para finalizar, o que mais me intriga é o seguinte: “se o sujeito não deu certo nos últimos 4-5 clubes que passou; a falta de resultados expressivos é recorrente nos últimos anos; ele não estudou, não fez uma especialização, não participou de nenhuma capacitação no exterior, não se aperfeiçoou e continua com o mesmo discurso – que diabos os dirigentes pensam para acreditar que agora vai dar certo no seu amado clube???”

E segue a vida. Os dirigentes fingindo que tomam atitude e os treinadores fazendo de conta que vão mudar alguma coisa. E dá-lhe rescisão contratual para tudo que é lado – depois ninguém sabe explicar porque as dívidas dos clubes estão maiores que sua capacidade de pagamento, e a culpa acaba ficando com a tal “Lei Pelé”.

E vai levando um pé na bunda vai
Vai pro olho da rua e não volta nunca mais
E vai saindo vai saindo sai
Com uma mão na frente e a outra atrás…

Para interagir com o autor: geraldo@universidadedofutebol.com.br

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