Universidade do Futebol

Artigos

24/03/2016

A desmoralização do futebol

Miguel Real, filósofo e escritor, admirável e com a força dos homens que se não dobram, escreveu um livro, “Portugal – um país parado no meio do caminho: 2000-2015” (Antígona, Lisboa, 2015) que continua e desenvolve o espírito que percorre o “pequeno volume” de Manuel Antunes, editado pela Multinova, em 1979, “Repensar Portugal”. Tanto Miguel Real como Manuel Antunes são dois autores que não dispenso, no meu dia-a-dia de modestíssimo “amante da sabedoria”. Manuel Antunes pergunta: “Que espécie de sociedade desejamos? Que espécie de sociedade deseja o povo português? Ouso interpretar. De resto é essa uma das funções, senão a principal função do intelectual na cidade. Para além, claro, da missão de defender o seu próprio ideal e as suas próprias opiniões, mesmo quamdo esse ideal e essas opiniões não vão ao sabor dos senhores da hora. O intelectual não deve ter medo de ser ou de parecer diferente dos outros, de querer escapar ao nivelamento universal em que, por via de regra, esses mesmos senhores pretendem razoirar os que, de uma certa forma, lhes estão sujeitos” (pp. 19/11). Por sua vez, Miguel Real, depois de salientar as “duas profundíssimas revoluções mentais e culturais que os portugueses sofreram”, ou seja, a perda do Império, em 1975 e a assunção do destino europeu de Portugal, não esconde que o nosso país, “do ponto de vista ético, se transformou num país existencialmente desorientado, historicamente bloqueado nas suas legítimas ambições europeias, descendo, na escala dos valores, a um nível de rebaixamento e humilhação ímpares, trocando dignidade e consciência histórica por dinheiro (…). Por motivos semelhantes, a população saiu à rua em 1890, aquando do Ultimatum inglês. Hoje, recolhe-se a casa, vendo telenovelas e relatos de futebol” (op. cit., p. 19). De facto, vivemos num mundo onde se sacraliza o lucro e se cantam loas ao neo-liberalismo atomista e excludente, onde grande parte dos próprios políticos parecem pessoas de duvidosa proveniência e onde o poder se exerce mais contra o povo do que em seu favor e proveito.

Nesta sociedade, onde o Poder é reconhecido como qualidade primeira do Estado mas em que, demasiadas vezes, o Estado se encontra nas mãos de pessoas impreparadas para uma verdadeira democracia; nesta sociedade, onde alguma Comunicação Social parece “mais tendente ao supérfluo do que ao acolhimento dos grandes valores nacionais” (Baptista-Bastos, Tempo de Combate, Parsifal, Lisboa, 2013, p. 165); nesta sociedade, onde os escândalos financeiros se repetem, perante o sonambulismo inalterável do povo português – nesta sociedade, o desporto mais aplaudido não é neutro politicamente, como não é neutra qualquer infra-estrutura e super-estrutura social. O desporto, quase sempre na sua forma de espetáculo, é uma instituição que pode servir (e serve, frequentemente) à criação de hábitos de subserviência à competição, ao rendimento, à medida, típicos da “sociedade de mercado” que nos governa. O habitual espectador de futebol, se acéfalo e acrítico, aceita, com naturalidade, a competição económica e social da sociedade capitalista. E aceita, com a mesma naturalidade, os mitos e os semi-deuses, que por aí proliferam, pois que o seu papel na sociedade é este mesmo: aplaudir, embevecido, os muitos mitos e semi-deuses do desporto, da economia, da política. Como já o tenho dito, sou um amante do futebol e, no futebol, encontrei amigos que não esqueço. Mas, assim como o capitalismo é um sistema, com as suas categorias específicas, a alta competição desportiva, designadamente o futebol-espetáculo, reflete (e leva à interiorização) as mesmas medidas que servem ao progresso e desenvolvimento da sociedade de mercado. Como já o tenho referido inúmeras vezes, eu não sou contra uma “sociedade com mercado”, como na social-democracia; sou contra, de facto, uma “sociedade de mercado”, como no sistema neoliberal, onde a hostilidade à presença do Estado, na regulação social, visa a sua substituição por mecanismos não estatais, nomeadamente o mercado.

O Messi que, pela quinta vez, mereceu o galardão de Bota de Ouro-2015, ou seja, foi justamente reconhecido como o melhor futebolista do mundo, em 2015, o Cristiano Ronaldo, com a força iluminante, empolgante do seu futebol e o Neymar que se apresta para ser, também, dentro em breve, o melhor futebolista do mundo (e mais nomes poderia citar) têm lugar, e com destaque, na minha Utopia, quero eu dizer; no meu sonho de um mundo mais justo e mais fraterno. Para mim, são artistas fora do comum e, como tal, deverão admirar-se, estudar-se e aplaudir-se. Mas que neles se descortine também uma compreensão da sociedade de que são produto; que deles desponte “uma pedagogia da pergunta” inarredável: por que há tanto dinheiro para nós e tão pouco, para a educação, para a saúde, para a segurança social, etc., etc.? Eles, porque os seus “feitos” chegam ao mundo todo, são um fator de massificação. Mas só de jogadas e golos, magistrais? Se assim é, o seu valor resume-se a transitórios êxitos, não passam de máquinas de mais ou menos espantosas “performances”. Não, não se lhes pede uma variada erudição. “Um jornalista francês que recentemente redigiu um espesso volume, anunciado para renovar todo o debate de ideias, alguns meses depois explicava o seu falhanço pelo facto de que lhe teriam faltado leitores, mais que faltado ideias. Declarava portanto que estamos numa sociedade onde não se lê e que, se Marx publicasse hoje O Capital, iria uma noite explicar as suas intenções numa emissão literária da televisão e, no dia seguinte, já se não falava disso” (Guy Debord, Comentários Sobre a Sociedade do Espectáculo, 1995, pp. 114/5). Mas, se não se lhes pede erudição extensa e variada, que brilhasse em tudo o que dizem “a coisa mesma” que, em termos hegelianos, significa não só o conteudo do discurso, como também as múltiplas relações que o sustentam. Porque afinal, no meu modesto entender, em tudo há circunstância. Em poucas palavras: tudo é sistema! E assim que, ao falarem do futebol, de que são grandes e singularíssimos intérpretes, não esquecessem as relações que existem entre o “desporto-rei” e o “espírito do tempo”. Porque, sem este, aquele não se compreende.

Começa, também aqui, a des-moralização do futebol em especial e do desporto em geral. “Começa também, aqui?” perguntar-me-ão surpresos alguns leitores. Sim, na falta de ética! E vou distinguir já a ética da moral. A ética, no meu pensar, é uma reflexão sobre os fundamentos da moral. O que a ética designa? Não um conjunto de regras próprias de uma cultura, como a moral, mas uma “metamoral”, desconstrutora, fundadora, enunciadora dos princípios ou fundamentos últimos da moral. Só que, com a “morte de Deus” e a “morte das ideologias” e ainda a “morte das grandes narrativas”, descambou-se num niilismo tal que é um deserto axiológico o que se estende à nossa frente e… a perder de vista! E assim nasceu o individualismo! Como uma clausura irremediável. Surge então o indivíduo doentiamente narcísico, que olha em seu redor e descobre uma sociedade atomizada numa poeira infinita de coisas sem valor. Por isso, Apel e Habermas apontam a necessidade de uma macroética e Hans Jonas de uma ética da responsabilidade.O vazio ético assusta, de facto, deixando inoperantes as morais tradicionais. Sem referências éticas, a des-moralização torna-se inevitável. Há portanto necessidade de uma “metamoral”, de uma teoria fundadora, para além dos enunciados morais particulares. Poderia folhear Spinoza, Kant, Nietzsche, Wittgenstein e Heidegger mas quedo-me pelas minhas pobres ideias, vinculando-me a uma nova razão prática, assente num consenso universal (Habermas, Rawls). Há, em Portugal, um Código de Ética Desportiva, elaborado pelo Instituto Português do Desporto e Juventude. Mas… quem o lê e o vive? Não são, de certo, aqueles dirigentes que discursam, diariamente, verdadeiros monumentos de hipocrisia. A impreparação, o arrivismo, o mórbido clubismo desta gente são o principal obstáculo ao progresso do nosso desporto. Só que eles são incapazes de uma auto-crítica e os que os aplaudem, pacoviamente, também. Termino com um abraço ao Miguel Real, para além de um ser humano excecional, um intelectual… com todas as letras! Este artigo nasceu da leitura de um livro da sua autoria.

Comentários

Deixe uma resposta