A evolução dos clubes de futebol e a Copa do Mundo de 2014

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A história recente de diversos clubes brasileiros revela que os dirigentes e os conselhos deliberativos representavam, até há pouco, o continuísmo elitista do futebol. Alguns dirigentes, para sustentar a apropriação do poder e seus interesses pessoais, mantinham suas gestões amparadas por modelos estereotipados, prontos, acabados e referenciados em experiências práticas fechadas em si mesmas. Não aceitavam as relações de forma integrada; apenas perseguiam, individualmente e a qualquer preço, resultados fragmentados, que pudessem garanti-los no poder. Assim orientados, eles dificultavam o intercâmbio das informações, das expressões dissonantes e de novas idéias no interior de seus clubes.

Como decorrência da cultura organizacional dominante, os departamentos de futebol mantinham o monopólio da informação, limitavam os canais de comunicação em suas unidades funcionais, obstruíam processos de relações, e rechaçavam com veemência qualquer ameaça de invasão. Muitos treinadores reinavam como soberanos, inatingíveis, no seu território do saber; frequentemente, ultrapassavam as fronteiras do seu campo de atuação, interferindo nas diferentes áreas do clube. Era comum, por exemplo, que exercessem um domínio desmedido sobre as categorias de base, os setores de saúde, as negociações, a administração e a logística.

Tais treinadores, autocentrados, explicavam toda a realidade de maneira fracionada, apenas pela especificidade dos resultados de campo. A relação recíproca com a linha de pensamento dos dirigentes reforçava a visão individualista e conservadora, que geralmente resistia às inovações tecnológicas, econômicas, científicas, culturais, administrativas e mercadológicas.

Nesse desenvolvimento histórico, muitas matérias fundamentais à existência dos clubes foram tratadas de forma irresponsável e amadora, de modo a salvaguardar, em determinadas situações, os interesses ilícitos de alguns colaboradores ou integrantes da cúpula diretiva. Essas atitudes levaram muitos clubes brasileiros a uma situação financeira falimentar, com astronômicas dívidas e patrimônio hipotecado.

No momento em que o Clube dos Treze potencializa os recursos financeiros dos clubes – com as negociações dos direitos de transmissão da TV – e estreita o diálogo com a CBF acerca da forma de disputa do campeonato brasileiro, o panorama muda. Os clubes do futebol nacional começam a ter perspectivas de ocupar um espaço privilegiado no mundo global dos negócios e na indústria do entretenimento.

Na esteira dessa transformação, uma forte pressão social, na última década, determinou alterações na legislação desportiva brasileira. Os clubes iniciaram, então, um processo de mudanças que rebateu a ineficácia política e administrativa na gestão. Como reflexo, os mandatários políticos passaram a liderar movimentos de alteração de estatutos e regimentos internos, a propor eleições diretas para presidente e eleições proporcionais para o conselho deliberativo, e, em linhas gerais, a induzir um novo modelo de comportamento político-organizacional nos clubes.

A partir daí, o mercado consumidor e a nova legislação estabelecem uma aproximação dos torcedores com o clube. Os aficionados passam a representar o mais expressivo patrimônio do clube – por fidelidade, amor, entusiasmo, paixão e, decorrência disso tudo, pelo potencial de gerar receitas. Os torcedores, assim, são estimulados a se associar ao clube, para participar do colégio eleitoral e, nessa via, eleger o presidente, aspirar a cargos políticos, escolher representantes para o conselho deliberativo, enfim, tomar parte de sua vida política.

Alguns clubes brasileiros, portanto, começam a viver uma transição política que os impele ao dinamismo e à eficácia das gestões. Há a introdução gradativa de modelos sistêmicos atrelados aos novos conceitos administrativos de planejamento e o fomento de estratégias voltadas a potencializar a criatividade, a eficiência, o lucro, as relações com o mercado consumidor, a formação permanente dos jogadores, a excelência do desenvolvimento competitivo e a efetiva participação dos atores no cotidiano do clube.

No campo da profissionalização da gestão técnica e administrativa, esses clubes partiram para o ataque. Foi a vitória irrevogável da modernização dos processos de gestão sobre as mentalidades anacrônicas do antigo dirigente. A redescoberta do torcedor, a valorização do quadro social, a transformação do emblema e das cores em marca licenciada, o estabelecimento de parcerias públicas e privadas visando ao desempenho mercadológico, a implantação de planejamentos estratégicos, a inovação tecnológica no interior do clube, o investimento em novos estádios e campos de treinamento, e, sobretudo, o incremento técnico no processo de formação de jogadores: são, todos, indícios dessa vitória.

Os clubes que modernizaram seus processos de gestão, constituídos sob padrão empresarial e comandados por dirigentes e profissionais capacitados, já começam a desfrutar os benefícios: uma economia mais forte e consolidada, um elevado quadro de associados, resultados relevantes na formação de jogadores e, fundamental, conquistas de títulos expressivos. As cotas de televisão hoje representam, em média, 35% de sua arrecadação mensal; os outros 65% dizem respeito a: transferências de jogadores, sócios, bilheteria, patrocínios e publicidade.

Lamentavelmente, uma parcela significativa de clubes brasileiros ainda não se adaptou às novas exigências do mercado. Tais clubes continuam evocando um modelo centralizador, egocêntrico e conservador; estão acomodados com os rendimentos da televisão, que representam em torno de 85% de seu faturamento mensal. Permanecem, naturalmente, acumulando avultadas dívidas.

A Copa do Mundo de 2014, é bem provável, contribuirá para impulsionar o crescimento dos clubes do futebol brasileiro, sobretudo através da mobilização de empreendimentos e de parceiras públicas e privadas. Para tanto, os clubes, por meio da mobilização dos seus dirigentes e torcedores, necessitam se adaptar à modernidade técnica e administrativa. Esse é o divisor de águas na transformação de suas estruturas coorporativas, antes obsoletas e fechadas, em estruturas abertas, dinâmicas, evolutivas. É um avanço que se traduz no enquadramento a uma nova perspectiva da gestão do futebol brasileiro e, em última instância, ao próprio mercado internacional.

*Elio Carravetta é especialista em Ciência do Esporte pela Faculdade Católica de Medicina de Porto Alegre, com mestrado em Métodos e Técnicas de Ensino pela PUC-RS e doutorado em Filosofia da Ciência da Educação pela Universidade de Barcelona, na Espanha.

Também é coordenador de Preparação Física do Sport Club Internacional e professor do Centro Universitário Metodista IPA.

O artigo foi baseado no livro de sua autoria, intitulado ‘Modernização da Gestão do Futebol Brasileiro. Perspectivas para qualificação do rendimento competitivo’. Porto Alegre: AGE, 2006

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