Universidade do Futebol

Geffut

02/02/2012

A fadiga do hábito e o hábito da fadiga

Para se jogar futsal ou futebol é imperiosa uma capacidade e habilidade de precisão decisória. As tomadas de decisão devem ser feitas mirando determinados objetivos e sempre balizadas em ideias pretendidas para a equipe, e que abordem diversos raciocínios, conjecturas, conceitos e comparações.

E quando estamos cansados, como decidimos? Temos problemas para tomar decisões? Conseguimos estar concentrados no jogar que pretendemos? Ou tendemos pelos “caminhos mais fáceis”?

Em conversa recente entre amigos, divagamos nesta temática pertinente, contudo descurada e desentendida pelos treinadores de todos os níveis competitivos aqui no Brasil. Claro, fora daqui, sim, é outra história.


 

Estava nosso amigo treinador a nos narrar um caso que aconteceu dias passados com suas equipes de futsal feminino, nas categorias sub-14 e sub-16. Com um trabalho precoce (menos de um mês), seus objetivos passavam por implementar globalmente uma cultura de jogo que objetivava valorizar a bola e buscar um entendimento coletivo do jogo. Segundo ele, a quantidade de treinos semanais para a categoria era de dois treinos por semana.

 

 
 

Mesmo sabendo das dificuldades contextuais e da modificação brusca em termos de treino e jogo, ele aceitou participar de uma competição regional. Em função de problemas, duas jogadoras foram utilizadas nos 10 jogos que realizou (competição concentrada com um dia de duração). A categoria sub-14 fora realizada pela manhã e a sub-16 pela tarde.

Segundo ainda nosso amigo, estando pela manhã as jogadoras obviamente descansadas, a equipe sub-14 jogou seus cinco jogos com uma dinâmica fluente, conseguindo colocar em prática o jogar que ele havia treinado (posse de bola sempre e uma intencionalidade coletiva).

Durante a tarde ele teve que utilizar duas jogadoras do sub-14 na categoria sub-16. Claramente que a equipe não apresentou a mesma dinâmica, já que as duas jogadoras (fadigadas) não conseguiram decidir de forma rápida e inteligente (diferentemente de quando qualquer pessoa está descansada), especialmente quando com a posse da bola.

Faziam escolhas mais simples que por vezes eram de se livrar da bola rapidamente ou tentar o jogo individual (sem êxito), sem estarem atentas à dinâmica coletiva pretendida.

Contudo, o interessante da conversa que tivemos foi a informação de uma outra equipe que teve o mesmo problema (poucas jogadoras), jogando os 10 jogos também, e nos cinco jogos da tarde esteve com o “rendimento” parecido com o da manhã, conseguindo assim chegar à final da competição. Segundo nosso camarada, a forma de jogar dessa equipe era simples e apenas exigia o domínio da bola longa e o 1 x 1.

 
 

O fato nos fez pensar se: há diferença na fadiga entre uma forma de jogar mais elaborada e complexa, com uma forma de jogar mais simples? Até mesmo nos fez pensar sobre o pouco tempo de treino que nosso amigo teve, não estando habituadas à forma de jogar que ele queria. Então, o que pode ter acontecido com a equipe do nosso amigo? Será que por não estarem habituadas completamente às ideias de jogo (e fadigadas por este motivo), suas jogadoras optaram pelas simples decisões, fugindo das ações complexas que desempenharam nos jogos pela manhã? Existe uma grande probabilidade de a resposta ser “sim”.

Diferentemente de decisões triviais, decisões complexas envolvem um conjunto maior de dimensões interdependentes. Quando estas não estão habituadas (automatizadas), se demanda muito esforço, o que acaba conduzindo a um estado de fadiga. Justificando quando falamos de habituação, diversos estudos concluíram que em tarefas demasiadamente complexas, quando na tentativa de automatizá-las, maior é a “ativação cerebral”, especificamente nas áreas do córtex parietal, córtex pré-motor e o cerebelo.

Quando acontece a automatização, a atividade em áreas do cerebelo aumenta e a atividade cortical diminui. As conexões subcorticais com os gânglios da base[1] ( e o tálamo[2]) são as que controlam a execução, de maneira que esta já não necessita de um controle consciente (Correa, 2007).

Quando tratamos de mencionar o termo fadiga, temos que ter um olhar global sobre a mesma, sendo que ela irá influenciar diretamente sobre o aprendizado de novos hábitos.

 

 
 

A fadiga é um conjunto de manifestações produzidas por trabalho ou exercício prolongado, que tem como consequência a diminuição ou dano na capacidade funcional de manter ou continuar o rendimento (o jogar coletivo) esperado com a concentração e intensidade elevadas. No nível bioquímico, podemos considerar a fadiga periférica sendo uma perda da força e potência que ocorre independe da ação neuronal. Já a fadiga central é uma redução progressiva do direcionamento voluntário do potencial de ação para os neurônios motores durante o jogo.

Desta forma, estivemos pensando que, no momento que as jogadoras adquirirem novos hábitos (memória implícita), haverá uma economia de energia e um menor desgaste e antecipação da resposta, reduzindo consideravelmente a fadiga (central e periférica, com seus níveis de lactato respectivamente[3]).

Agora, quando as jogadoras estarão habituadas totalmente? Não sabemos! Mas por qual razão não sabemos? Pelo fato complexo do hábito ser modelado constantemente. Mas sabemos que uma questão é certa: o que determinará novos hábitos será sempre o processo de treino. Este deverá sempre promover hábitos “mecânicos-abertos” e hábitos “criativo-contextuais”, que acabam por diminuir a temida fadiga, ou seja, se “habituando para a fadiga”, e ao mesmo tempo “deixando espaço” para novas possibilidades.

Para ilustrar o que o nosso amigo relatou, mencionamos aqui o estudo de Silva et al., (2000) onde os autores relataram que “um futebolista lateral está acostumado a atacar o adversário (será que está mesmo?) em constante velocidade e voltando rapidamente para a zona de defesa (em que contexto seria o rapidamente?), portanto, solicitando muito a via lática”. No mesmo estudo ainda: “Esse jogador fez um primeiro tempo com grande desenvoltura (em que sentido?), mas, na segunda etapa, andou em campo” (andou em campo porque está habituado a andar nos treinamento bem possivelmente, ou seja, treina errado, ou, treina com ineficácia).


 

O estudo acima condiz plenamente com a complexidade do jogar futebol e está relacionado perfeitamente com o relato do nosso amigo. Fato é: existem níveis de desempenho individuais e coletivos. Quando se olha apenas para o aspecto individual isolado, como no caso do estudo supracitado, comete-se um erro colossal que muitos pesquisadores entendidos da fisiologia (Balikian, Lourenção, Ribeiro, Festuccia, & Neiva, 2002) o fazem, que é “preparar fisicamente” os jogadores sem a bola, ou de maneira integrada (onde a bola está em todos os momentos, porém ineficaz também) como muitos gostam, sem olhar as interações posicionais e sem considerar o aspecto complexo do jogar futebol.

Por fim, nosso amigo, quando ler esse artigo (seguramente), deve ficar mais seguro dos “porquês” da falta de funcionalidade fluída de sua equipe sub-16 nessa competição, e seguramente na próxima competição, suas decisões-ações complexas terão uma regularidade maior e um desgaste menor, pois o treino condicionará isso. Como? O treino diminui a fadiga ao invés de cansar? Que loucura é essa? Nosso amigo conhece bem essa loucura. Agora, como fazer os “treinadores delinquentes obsessivos pelo suor” compreenderem essa questão? E eles sabem o que é treino, hábito, fadiga e futebol?

Bom, temos certeza de que nosso amigo prefere um jogar complexo-criativo que demore “um período” para ter fluidez a um jogar “comunzinho” que demore dois treinos para os jogadores estarem “habituados”. Quase todos estão no jogar “comunzinho”, os videntes-metodológicos já anteciparam há tempo!

[1] Determinada área do cérebro responsável de forma geral pelo controle motor.
[2] O tálamo atua como estação retransmissora de impulsos nervosos para o córtex cerebral.
[3] Ide & Secher (2000) mostraram substanciais evidências de que o cérebro também consome lactato, particularmente durante exercícios intensos, continuando a consumi-lo durante um período de 30 minutos de recuperação.

Pedimos para que dúvidas, críticas, sugestões ou demais comentários que achem pertinente sejam feitos logo abaixo. O retorno para nós é muito importante. Buscaremos sempre melhorias!

Referências

Balikian, P., Lourenção, A., Ribeiro, L. F. P., Festuccia, W. T. L., & Neiva, C. M. (2002). Consumo máximo de oxigênio e limiar anaeróbio de jogadores de futebol: comparação entre as diferentes posições. Rev Bras Med Esporte, 8(2), 32-36.

Correa, M. (2007). Neuroanatomía funcional de los aprendizajes implícitos: asociativos, motores y de hábito. Rev Neurol, 44(4), 234-242.

Ide, K., & Secher, N. H. (2000). Cerebral blood flow and metabolism during exercise: implications for fatigue. Progress in Neurobiology, 61, 397-414.

Silva, P. R. S., Inarra, L. A., Vidal, J. R. R., Oberg, A., Fonseca Júnior, A., Roxo, C., Machado, G. S., et al. (2000). Níveis de lactato sanguíneo, em futebolistas profissionais, verificados após o primeiro e o segundo tempos em partidas de futebol. Acta Fisiátrica, 7(2), 68-74.

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