Universidade do Futebol

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31/07/2014

A grama do vizinho é mais verde, sim!

Mesmo que egos e orgulhos dificultem a nossa visão da realidade, existem fatos e “marcos” que fazem a realidade ser jogada na nossa cara sem dó e nem pudor. E a realidade diz: "A grama do vizinho é mais verde, sim!".

O problema é crônico e não agudo. O futebol brasileiro carece de reformulação e organização e não é de hoje, mas essa situação é ignorada e/ou mascarada há um bom tempo. A ilusão de cinco títulos mundiais nos engana e por termos bons valores individuais (não como antes, é claro!) causa esse efeito. Não há menosprezo à historia, as conquistas, aos que ganharam e perderam!

A reflexão tem que ser mais abrangente e mais intensa! Enquanto nos iludíamos, um país tricampeão mundial percebeu há 14 anos que estava ficando pra trás! Jogadores com idade avançada, formação de base deficitária, futebol pouco competitivo.

Egos e orgulhos deixados de lado e um pensamento de mudança e reestruturação. Alguns pensamentos corretos mantidos (como a busca jogadores inteligentes) e outros revistos, como forma de jogar, adaptação da metodologia e reorganização administrativa e técnica do Campeonato Brasileiro.

Fica a oportunidade de uma grande reflexão sobre o processo de formação e desenvolvimento do futebol alemão, que desde a saída de bola praticavam a formação ofensiva com a primeira etapa de construção muito bem elaborada, equilibrando o posicionamento em termos de largura e profundidade.

Em março de 2012, foi publicado na Universidade do Futebol um artigo sobre este novo conceito de gestão do futebol. Um consistente plano de gestão técnica para a formação de jogadores foi implantado e vem sendo desenvolvido já há mais de 10 anos.

Hoje há mais de 350 centros nacionais de treinamento distribuídos por todo o país, atendendo cerca de 30 mil crianças e jovens (garotos e garotas) entre 9 e 17 anos. A metodologia adotada dá ênfase aos aspectos técnicos e inteligência de jogo e não mais aos tradicionais métodos que destacavam essencialmente a força física e a disciplina tática.

Outro exemplo muito claro de evolução após reconstrução é o espanhol. Sim, o país eliminado na primeira fase do mundial (quiçá em nossa chave teriam avançado e nós na chave deles teríamos ficado para trás?).

O país que antes do ocorrido neste mundial, havia vencido uma Eurocopa (2008), um mundial (2010) e novamente a Eurocopa (2012). A federação do país investiu em ferramentas para auxilio dos clubes (todos os clubes da 1ª e 2ª divisão da Liga Espanhola recebem os dados da ferramenta Prozone sobre suas respectivas equipes. Tudo bancado pela Federação Espanhola) e possui um sistema de monitoramento de atletas em todo o país ainda no futebol de 7 aos 12 anos de idade.

As ligas regionais, com profissionais coordenados e treinados pela federação, são incumbidas de acompanhar jogos e treinamento, realizar visitas técnicas aos clubes, coletar dados de evolução física, técnica, tática e emocional destes atletas e de tempos em tempos, de forma regional e de acordo com a evolução dos mesmos, estes são convocados para períodos de treinamentos de uma semana, que ocorrem em suas próprias regiões. Ao final tudo é utilizado de forma centralizada pela federação.

O que dói e o que mais nos aperta o calo, é que nosso país segue caminho totalmente contrário a estes países que se reestruturaram quanto a formação. E o problema começa mesmo antes da CBF.

O Ministério da Educação, órgão Federal, seguindo ideia absurda que surgiu na Secretaria de Educação de Minas Gerais, aboliu a obrigatoriedade de aulas ou professores de Educação Física nas aulas de 1ª a 4ª série. Na fase onde se introduz a iniciação esportiva, o nosso país faz o caminho inverso e…CORTA! E tudo isto com um fim único e descabível: redução do que deveria ser investimento, mas que em nosso país encara-se como custo!

Não bastasse isto, clubes brasileiros são proibidos de trabalhar futebol de forma orientada com atletas abaixo de 14 anos. Resolução do Ministério do trabalho. Interessante que, tal medida, só atinge o futebol. Nos demais esportes e no meio artístico, em que bebês às vezes recém nascidos participam de gravações de novelas e comerciais, tudo bem.

De acordo com a proibição de se alojar crianças. De retirá-las da convivência da família. Mas, proibir os clubes de trabalhar com crianças da região, que possam fazer o trajeto casa–escola–clube? Não dá pra entender. Nem pra aceitar. Aliás, alguém aceita sim! Aceita e venda os olhos para fazer de conta que não é com ela.

Se não se pode jogar com orientação nas escolas. Se não se pode jogar nos clubes, restam os projetos sociais e escolas de futebol. Mas… de que forma? Colocando crianças de 10, 11, 12, para correr em campos de 105 x 68 com uma bola tamanho e peso de adultos nos pés? Infelizmente, em nosso país, é o que mais se vê hoje.

Não foi só a vitória da Alemanha sobre o Brasil. Foi a vitória da humildade de quem viu que estava errado e decidiu se reconstruir, investindo principalmente em formação profissional e condição de aulas e treinos (foram construídos via Federação Alemã 1387 campos nos últimos 10 anos. 1000 mini-campos, com as dimensões do futebol de 7. A CBF construiu no mesmo tempo, os três da Granja Comary).

Dá tempo. Mas… há esperança? Fica agora a torcida pelo aprendizado da lição, e da aceitação de conceitos que direcionem o trabalho a ser desenvolvido nos próximos anos.

*Este texto foi produzido pelo CIB, Centro de Inteligência Brasileiro, criado e composto pelos professores Marcelo Xavier, Glauber Caldas e Dr. Alessandro Fidelis Junior.

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