Universidade do Futebol

NF-FMH

30/05/2012

A importância de adaptar a metodologia de treino aos princípios do Modelo de Jogo da equipe

Modelo de Jogo como linha condutora de todo o processo de treino e suas implicações metodológicas torna-se, atualmente, num dos principais temas de reflexão e alvo de exaustivos estudos teóricos e práticos, assim como, num dos mais opinados e discutidos no seio dos agentes especializados e envolvidos na área do treino.

Consensualmente, concluiu-se que considerar os sistemas de jogo como instrumento modelar de todo o processo organizacional da metodologia de treino seria um ideal demasiadamente redutor, no que diz respeito à elaboração do planeamento de um microciclo, mesociclo ou macrociclo de uma temporada e/ou temporadas desportivas da equipe, apesar de se constituir como um elemento fundamental na construção do modelo.

Esse conceito teve a sua dissuasão natural em detrimento de uma nova corrente, motivada por um conceito atual de construção de um ideal de jogo, baseado em princípios e comportamentos, individuais e coletivos, originando, assim, uma reformulação dos métodos para ensinar, desenvolver e consolidar a forma como se pretende aplicar em competição a ideia de jogar.

Quando se idealiza um Modelo de Jogo de uma equipe, será conveniente projetar um esboço final em termos globais do que se pretende aplicar em competição, e daí extrair e aprofundar todo o processo de etapas e distribuição de conteúdos organizados hierarquicamente que implicam o preenchimento deste “desenho”.

Neste sentido, dividindo cada etapa por níveis de prioridade de desenvolvimento, após primariamente ser formulado minuciosamente o conjunto de todos os princípios do Modelo de Jogo que se pretende aplicar, torna-se primordial definir qual a melhor forma para ensinar consistentemente todos os traços do modelo, isto é, como construir a metodologia de treino adequada ao contexto (as características do país, da região, da cidade, do clube, dos elementos constituintes da equipe, das idades), ao enquadramento estratégico-tático e aos objetivos intermédios e finais a alcançar pela equipe.

Para que o grau de incerteza de aplicabilidade prática em competição do modelo reduza, considero fundamental que a metodologia de treino esteja em perfeita sintonia com o ideal de jogar. A construção do planejamento anual e/ou plurianual, independentemente da distribuição de conteúdos ao longo de cada ciclo, deverá ter sempre como linha condutora os elementos constituintes do Modelo de Jogo.

As ferramentas necessárias para que o jogador conheça e aplique de forma consistente os princípios do Modelo de Jogo idealizado pelo treinador aprendem-se e desenvolvem-se essencialmente no processo de treino, através de exercícios que contenham os conteúdos informacionais, energéticos, motivacionais e de transferência para o jogo, repetidamente, com graus de exigência constantemente graduais e adequados ao nível demonstrado. As utilizações de meios auxiliares ao treino de campo, tais como, o recurso aos sistemas de vídeo, aos sistemas de tracking, aos meios de informação informática, entre outros, tornam-se elementos importantes de complemento ao treino, encerrando em si as funções de aperfeiçoamento das tarefas individuais e coletivas da equipe, proporcionando aos jogadores maior qualidade de informação e conhecimento mais aprofundado dos resultados da sua performance.

Nos escalões de formação das idades mais jovens, na fase de aprendizagem do jogo, o conceito de Modelo de Jogo deverá servir para balizar uma forma de jogar simplificada do esboço final a alcançar num escalão de referência. Considero que esta forma de jogar deverá ser definida, sob o ponto de vista vertical de organização dos escalões de formação, pela equipe referência da organizaçao.

Cada etapa de formação deverá ter em si definidos quais os conteúdos e princípios que cada jovem deverá conhecer, executar e ter capacidade para que, quando terminar o ciclo, esteja preparado adequadamente para responder eficiente e eficazmente as exigências do treino e da competição da etapa seguinte.

A ordem crescente do grau de complexidade do jogo ao longo das etapas competitivas sugere que, na base piramidal dos escalões de formação, a prioridade de planejamento e sua metolodologia de treino tenha uma gestão dos conteúdos que considere a necessidade primordial de ensinar ao jovem as ações básicas (os diversos tipos de passe e recepção de bola, cabeceio, arremate, etc.) e os princípios básicos do jogo (contenção, noção das coberturas, etc.) e que estas tenham um grau de transferência eficiente naquilo que são as características e o perfil coletivo da equipe, ou seja, no Modelo de Jogo.

A proximidade ao topo da pirâmide de formação deverá implicar que a metodologia de treino esteja cada vez mais ajustada ao nivel de exigência da competição, e que, assim, permita a aquisição de um número acrescido de “ferramentas” que se irão agregar de forma sequencial lógica às das etapas anteriores.

O uso inadequado de exercícios descontextualizados aos traços do perfil do Modelo de Jogo, ao longo de uma unidade de treino, comprometerá as respostas do jogador nos momentos de aplicação em competição. Isso porque será necessário criar exercícios de treino que permitam identificar o jogador com o que é constantemente solicitado.

Por exemplo: se um dos princípios que define o momento de transição ataque-defesa da equipe é pressionar imediatamente o portador da bola e as suas linhas de passse mais próximas, deixará de ter sentido construir exercícios onde existam momentos de transição ataque-defesa que, após a perda da bola, não haja a preocupação de realizar este comportamento.

Se multiplicarmos esta lógica pelo número de unidades de treino ao longo de uma semana, de um mês, de um conjunto de meses, o resultado final da equação traduzir-se-á na dificuldade de aplicação deste princípio em competição.

O treino e os exercícios que o constituem são um meio privilegiado para proporcionar aos jogadores “ferramentas” individuais e coletivas de aplicação no jogo, com o objetivo de promover melhor qualidade das decisões, melhor seleção das respostas e maior capacidade de executar com sucesso constantemente.

O planejamento de uma sequência de exercícios de complexidade e dificuldade progressiva ao longo de uma unidade de treino e/ou ciclo deverá provocar no atleta e na equipe o aumento da capacidade para responder as exigências, promovendo o desenvolvimento da capacidade de reinventar sucessivamente as suas respostas em função dos diversificados problemas que o jogo oferece, respostas estas condicionadas pela orientação dos princípios do Modelo de Jogo.

Uma metodologia de treino interdependente do Modelo de Jogo, sob o ponto de vista do planejamento do processo de treino e condução de uma equipe, permitirá reduzir significativamente a diferença entre aquilo que se pede e aquilo que deverá ser feito, permitindo, assim, aos treinadores ter maior controle sobre os fatores que influenciam o desenrolar do jogo.

*Treinador de Futebol de Formação do Sport Lisboa e Benfica

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