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28/07/2015

A mentalidade vencedora – parte 4

Nesta quarta e última parte da série “A Mentalidade Vencedora”, mostrarei como é importante para o treinador, principalmente nas categorias de base, não só treinar a equipe, mas também criar e manter um ambiente que motive seus atletas a otimizar as próprias oportunidades de desenvolvimento.

Muitos conceitos e ciências podem ajudar no processo de criação de um ambiente de desenvolvimento. Esse artigo irá apresentar os que considero mais importantes. Com o objetivo de facilitar a leitura do mesmo – e não deixar o artigo longo demais – a maioria desses conceitos/ciências serão apenas citados ou brevemente apresentados. Pretendo em um futuro breve explicar mais detalhadamente alguns desses conceitos.

Até alguns anos atrás, eu considerava que ser um bom treinador era a consequência de fatores como: ter um grande conhecimento do jogo de futebol; ser capaz de, durante uma partida, identificar as mudanças e correções que resultariam no sucesso de minha equipe; ser capaz de desenvolver dinâmicas táticas que levariam a equipe ao sucesso através de uma metodologia baseada na progressão pedagógica; elaborar treinos competitivos e relacionados à realidade do jogo, cujos objetivos poderiam ser amplamente utilizados durante as partidas.

Também sempre considerei fatores comportamentais. Entre eles: ser capaz de motivar meus atletas a jogarem com a maior garra possível e ser capaz de desenvolver a união e entrosamento da equipe.

Enquanto continuo acreditando que todos os princípios anteriormente citados são importantes, nos últimos anos, três importantes fontes de conhecimento me fizeram perceber que alguns itens fundamentais não estavam sendo observados. Foram elas: o mestrado em Educação, o livro “Mindset” (DWECK, 2006) (http://www.universidadedofutebol.com.br/Artigo/15676/A-Mentalidade-Vencedora) e o livro “InsideOut Coaching” (EHRMANN, 2011).

Essas fontes, aliadas a minha experiência de vida – como estudante, treinador e jogador –, me fizeram compreender qual seria a minha filosofia como treinador: “criar um ambiente de desenvolvimento”.

A ideia desse ambiente é aquela de motivar e guiar os atletas ao desenvolvimento da própria carreira, não só através de instrução, mas tornando-os mais independentes para que sejam capazes de refletir sobre os próprios objetivos e para que encontrem a forma de alcançá-los.

O mestrado em Educação me fez refletir muito no processo de ensino/aprendizagem começando pela aprendizagem, não pelo ensino. Antes disso, quando eu queria ensinar algo, me preocupava primeiro em como explicaria o conteúdo. Agora percebi que antes de decidir qual estratégia usar para ensinar é importante descobrir como os alunos aprendem e se motivam.

Por definição, todos os alunos são motivados (SLAVIN, 2006). A diferença está no que motiva cada um. No caso do futebol, a grande maioria dos alunos/atletas está motivado a jogar. Quando o assunto é treinar ou estudar algo relacionado ao jogo, o nível de motivação pode variar muito de acordo com o tipo do treino, conteúdo e forma como é apresentado. Assim sendo, a grande maioria não atingirá boa parte do próprio potencial.

Maslow define self-actualization como “o desejo de tornar-se tudo o que uma pessoa é capaz de se tornar”. De acordo com sua hierarquia, menos de 1% dos adultos alcançam uma plena self-actualization. Para que um estudante ou um atleta busque o pleno desenvolvimento, ao invés de simplesmente seguir os passos da maioria na conformidade, é necessário que ele acredite que o professor/treinador irá responder de maneira justa e motivadora, sem o ridicularizar ou punir por cometer erros honestos. (SLAVIN, 2006, p. 320-321).

Essa postura do treinador é fundamental para implementar o ambiente de desenvolvimento, que permitirá a atletas com uma mentalidade de crescimento explorar uma infinidade de áreas que leve cada um a seu próprio desenvolvimento. O papel do treinador é gerir, enganchar e guiar os atletas nesse processo.

A psicologia da educação e a psicologia social são duas das ciências mais importantes para que um treinador (agindo como um professor eficiente) possa criar um ambiente de desenvolvimento. Dentro da psicologia da educação, as teorias comportamentais do aprendizado (behavioral learning theories), teorias sociais do aprendizado (social learning theories) e teorias cognitivas do aprendizado (cognitive learning theories) fornecem importantes informações na gestão do grupo.

Por exemplo, alguns princípios das teorias comportamentais do aprendizado que podem ser facilmente implementadas na prática no dia a dia de uma equipe são: o papel das consequências, motivadores, punições, imediatismo das consequências, formação, extinção, programas de reforço, manutenção e o papel dos antecedentes (SLAVIN, 2006, p. 138). Como dito anteriormente, o objetivo deste artigo não é explicar e discutir cada um desses fatores, porém, o conhecimento de cada um deles pode fornecer importantes informações na gestão e motivação do grupo.

A psicologia social fornece importantes dados que ajudam a compreender como uma pessoa forma o self-concept (a soma dos próprios conceitos), incluindo a social comparison theory, ou seja, a forma como a pessoa se avalia através da comparação com as habilidades e opiniões das pessoas a seu entorno. Esses conceitos afetarão a autoestima da pessoa e uma variedade de consequências práticas, positivas ou negativas, poderão ser observadas no comportamento. Entre muitas, o self-handicapping é diversas vezes observada.

O self-handicapping é uma forma de sabotar o próprio desempenho para proteger a autoestima no caso de derrota e aumentá-la em caso de sucesso (BREHM et al., 2005). Apesar de ser uma estratégia engenhosa, a consequência da mesma pode tornar-se uma falha considerável no desenvolvimento. O self-handicapping é um dos termos que pretendo explicar melhor em um futuro artigo, já que ele ocorre frequentemente e pode acarretar sérias consequências.

Mesmo com todo o conhecimento das ciências da educação, claramente o treinador precisa ser “crítico e criativo” (MARCELLINO, 1983). Não basta todo o conhecimento científico sobre metodologia, ciências da educação e sociais e sobre o esporte com o qual trabalha, o treinador precisa ainda ser capaz de refletir constantemente sobre as próprias práticas e criar situações para alcançar os objetivos da equipe ao longo do tempo.

Apesar da oportunidade de aprender todos os dias com os atletas, é importante lembrar que o treinador deve cuidar dos interesses da equipe, e não a equipe cuidar dos interesses do treinador. O trabalho de Joe Ehrmann mostra bem como o passado e as experiências pessoais de um treinador podem fazer com que este não guie a equipe com propriedade. Ele cita os tipos mais comuns de comportamento de treinadores: o ditador, o bully (valentão), o narcisista, o santo e o misfit (desajeitado, complexado) (EHRMANN, 2011).

No livro, ele exemplifica comportamentos típicos de cada treinador de acordo com essa classificação, e as consequências mais frequentes para a equipe de cada um desses comportamentos. Assim como com outros conceitos, neste artigo não iremos nos aprofundar em cada um desses comportamentos, mas, com certeza, a ideia é colocar os interesses e as dificuldades de cada atleta na frente das do treinador. Guiar a equipe de forma franca e sem influência das próprias necessidades é seguramente um desafio muito difícil de ser alcançado. No entanto, é também uma motivação para que um treinador siga dando o máximo de si em busca da excelência na profissão.

O último – nem por isto menos importante – item da minha lista básica de elementos para se criar um ambiente de aprendizagem que otimizará as possibilidades dos atletas de se desenvolverem, é a empatia. A capacidade de se colocar no lugar de cada atleta, compreender sua visão e guiá-lo na superação dos desafios é essencial para um bom líder.

Considerações finais

Este artigo fecha a série “A Mentalidade Vencedora”, que buscou explicar quais são os tipos de mentalidade, como desenvolver a mentalidade de crescimento, quais são as implicações de cada mentalidade no dia a dia do treinamento e, finalmente, neste último artigo, como criar um ambiente de desenvolvimento que permitirá aos atletas de uma equipe se motivarem a buscar o desenvolvimento de todo seu potencial.

Esse processo é mais trabalhoso do que apenas o discurso direto, onde o treinador comanda e o atleta faz, mas as possibilidades de desenvolvimento são também muito maiores. A primeira grande barreira é romper o conceito de que a maioria dos atletas para se desenvolver não terá de refletir sobre o próprio desenvolvimento, mas somente seguir os comandos do treinador.

A maioria dos atletas cresce seguindo esse tipo de filosofia, assim, modificar tal conceito não é tarefa fácil. Os conhecimentos e passos apresentados nos três primeiros artigos desta série poderão ser fundamentais para a mudança da cultura. Cada treinador enfrentará um desafio diferente, já que cada grupo é formado por indivíduos únicos e imersos nos mais variados conceitos de vida e sociais.

Seguramente, muitos treinadores de sucesso, mesmo sem o conhecimento formal dos trabalhos e ciências citados nesta série, são capazes de solucionar os próprios problemas e alcançar os objetivos almejados através do próprio conhecimento, empatia e criatividade. De qualquer forma, o conhecimento de todas as experiências, conceitos e trabalhos aqui brevemente apresentados (ou somente mencionados) poderão sempre adicionar importantes informações na busca do desenvolvimento e sucesso.

Referências bibliográficas

BREHM, Sharon S.; KASSIN, Saul; FEIN, Steven. Social Psychology. Boston, MA: Houghton Mifflin Company, 2005.

DWECK, Carol S. (Ph.D). Mindset, The New Psychology of Success. New York, NY: Random House, 2006.

EHRMANN, Joe. InsideOut Coaching – How Sports Can Transform Lives. Simon & Schuster: New York, NY, 2011.

MARCELLINO, Nelson C. Lazer e Humanização. Campinas, SP: Papirus, 1983.

SLAVIN, Robert E. Educational Psychology – Theory and Practice. Boston, MA: Pearson Education, Inc., 2006.

 

Leia mais:

A Mentalidade Vencedora
A mentalidade vencedora – parte 2
A mentalidade vencedora – parte 3

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