Universidade do Futebol

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30/12/2015

A mudança

Se queremos mudanças de fato, é preciso começar na base do sistema esportivo, que para o caso do futebol são os clubess

O ano de 2015 poderá ser lembrado como o ano que as pessoas mais falaram em “mudança”. Da política ao esporte, o termo foi pauta em uma série de movimentos e debates Brasil afora. No futebol, uma série de análises e teses foram construídas a partir do famigerado 7 a 1, que, apesar de trágico, tem sido fundamental para repensarmos muitas das posições existentes no ambiente esportivo em geral.

É lógico que eu, assim como muitos profissionais ligados à indústria do esporte, quero e trabalho por mudanças. Mas nas minhas últimas reflexões, estou tendente a questionar: será que estamos fazendo isso da maneira mais adequada possível? As reivindicações estão de fato atingindo os objetivos que se deseja? Como fortalecer os ciclos de mudança?

Cada vez mais estou convencido que a tentativa de mudar de cima para baixo é inócua. Ela serve para fazer espuma e, muito por isso, tem baixa eficiência no processo de limpeza em geral. Na realidade, a escolha pela crítica aos grandes controladores de uma determinada área é, a bem da verdade, a forma mais confortável para se criticar, já que estes, mais das vezes, não são alcançáveis quando se está fora do sistema.

Para a nossa realidade, o que quero dizer é que, se queremos mudança de fato, é preciso antes começar na base do sistema esportivo, que para o caso do futebol são os clubes. Eles controlam 100% do sistema eleitoral – sim, são eles que votam nos presidentes de Federações que, por sua vez, formam o colégio eleitoral da Confederação, juntamente com os clubes das Séries A e B.

Em 1972, o professor Lamartine DaCosta concedeu uma entrevista ao jornal O Estado de São Paulo (21-setembro-1972), que deveria ser revisitada periodicamente por todos aqueles que buscam construir mudanças no sistema esportivo e na gestão do esporte no Brasil. À época, ele já relatava sobre o engessamento político das organizações esportivas, que respondia pela legislação de 1941. Em 1972 já falava que o sistema era antiquado para responder as demandas da época. Pois bem, passados mais de 40 anos, continuamos respondendo para a mesma legislação de Getúlio Vargas e temos o mesmo sistema esportivo, mesmo com a promulgação de uma diversidade de leis do esporte.

Desde sempre, a impressão que se tem é que a opinião pública bate em um inimigo que parece invencível, por mais estudos e evidências que se apresente. Einstein já dizia que “fazer as mesmas coisas, repetidas vezes, e esperar resultados diferentes é a mais pura insanidade”.

Embora o impacto da mudança, quando iniciado pelos clubes, seja menos veloz do que aquele que necessitamos, uma vez que se fragmenta o movimento, parece muito mais lógico por ser, inclusive, mais próximo daqueles que estão na linha de frente pela mudança, caracterizado principalmente pelo movimento dos atletas, que são figuras respeitadas pela opinião pública. Aliás, já teci diversos comentários sobre a importância do movimento de atletas para a conquista histórica de mudanças estruturais no sistema esportivo mundo afora. No Brasil e no mundo, atletas respeitados possuem um apreço e um poder inimaginável quando vinculados às instituições em que são eternamente lembrados como ídolos!

A mudança é fundamental para a sociedade. Nos faz pensar e evoluir em atitudes, por mais que os paradigmas reinantes pareçam os mais coerentes possíveis. No caso do futebol brasileiro, a ideia de lutar por mudanças é válida e a oportunidade do momento é espetacular para a conquista de um esporte mais sustentável e justo para todos. Talvez a forma é que precisa ser melhor repensada para que as reivindicações se concretizem efetivamente!

O texto de final de ano responde também ao fechamento de um ciclo meu dentro da Universidade do Futebol. Depois de pouco mais de 5 anos como colunista na área de gestão e marketing esportivo, me despeço para poder me dedicar melhor a outros projetos, também ligados ao ensino e à construção de conteúdos e novas propostas que visam o desenvolvimento do esporte no Brasil.

Agradeço imensamente a equipe da Universidade do Futebol pelo espaço e pela acolhida neste período em que dediquei semanalmente algum tempo para refletir sobre minhas posições e discorrer sobre as mais diversas questões ligadas ao mundo do futebol. Levo a experiência como um grande aprendizado!

Sigo à disposição dos leitores pelo geraldo.campestrini@camper81.com.br. Forte abraço a todos e que possamos colocar nossos ideais em prática a partir dos anos vindouros.

 

Comentários

  1. Juvêncio Campestrini disse:

    Valeu Geraldo Ricardo. E que suas ideias e seus ideais se frutifiquem e alcancem os verdadeiros e necessários destinatários.

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