Universidade do Futebol

Geraldo Campestrini

03/06/2015

A necessária revolução na gestão das entidades esportivas

Na semana passada tivemos dois fatos diretamente ligados a FIFA e a seus dirigentes, que impactaram não somente na imagem da entidade como também abalaram o prestígio da modalidade futebol.

No primeiro fato, como forma de chamar a atenção para as condições de trabalho utilizadas nas obras no Qatar com vistas a Copa de 2022, designers internacionais criaram uma série de “anti-logos” utilizando como base as logomarcas oficiais das grandes multinacionais patrocinadoras do mundial naquele país. O trabalho pode ser visto pelo link http://goo.gl/OzJq4R.

No segundo, 8 dirigentes do alto escalão da entidade foram presos, acusados de diversos crimes, entre eles, pagamentos de propinas e subornos em diversos níveis. Neste mesmo processo, também estão envolvidos alguns empresários, donos das agências responsáveis por negociar os principais ativos da entidade e acusados de operar e distribuir os recursos do esquema.

No dia 02 de junho, Joseph Blatter anuncia sua renúncia ao cargo de Presidente da FIFA, confirmando apenas o início de um processo que pode transformar amplamente a gestão do mundo do futebol.

Infelizmente e pela forma mais dolorosa, tudo indica que desta vez a entidade irá finalmente entender que o esporte é um dos segmentos da indústria do entretenimento e, como tal, não está isolada do mundo e isenta de sofrer as consequências pelos atos que emanam de seus poderes.

Apenas em pouco mais de uma semana e após a notícia das prisões, as repercussões demonstram que como qualquer outra empresa, a entidade precisa entender e se preocupar como suas ações impactam nas empresas que se dispõe a investir em seus produtos, na mídia que os divulga e nas pessoas que se propõe a consumi-lo.

A ocorrência de escândalos na entidade que rege o maior esporte do mundo tem sido tão frequente e intensa que a credibilidade da modalidade e de suas instituições está profundamente abalada, ameaçando inclusive a percepção do público sobre as marcas que com ela se relacionam.

A Visa, por exemplo, em uma tentativa clara de resguardar sua imagem, foi a primeira das patrocinadoras a deixar claro por um comunicado oficial público que irá reavaliar sua posição de manter o patrocínio a entidade se algo não mudar rapidamente.

Os fatos ocorridos nos últimos dias corroboram uma tendência que vem aos poucos se consolidando principalmente na Europa. É necessário que as entidades de administração do esporte incorporem ao seu dia a dia os conceitos da boa governança. Conceitos como transparência, equidade, formato adequado de prestação de contas, responsabilidade corporativa e profissionalização da estrutura diretiva devem ser colocados em prática o mais rápido possível.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) é um exemplo de entidade que historicamente já tem e agora vem reforçando sua preocupação em relação ao movimento olímpico, que é, no final de tudo, o seu maior ativo!

A partir de inúmeras reflexões que remetem a vários questionamentos sobre o movimento olímpico, que vão desde os gastos assustadores e desproporcionais nas últimas edições dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos (de verão e de inverno) até a percepção sobre o afastamento significativo do público jovem de suas ações, o COI publicou em dezembro de 2014 a Agenda 2020 (pode ser acessada aqui: http://goo.gl/0OtH6j), que nada mais é do que um conjunto de 40 recomendações que visam mostrar claramente para a sociedade como ele, COI, pretende resgatar seu prestígio e se reaproximar dos valores olímpicos.

A governança das entidades tem lugar especial na Agenda 2020. E a lógica para o COI é óbvia e reta: é preciso afastar qualquer malversação de processos que denigram a imagem do esporte. Isto é fator básico para a sobrevivência das organizações que atuam neste setor.

Além disto, os debates e fóruns que discutem os princípios de governança no ambiente das entidades esportivas vem ocorrendo com muito mais frequência também. Movimentos como o do “Play the Game” (www.playthegame.org), além de realizar conferências sobre o tema, vem desenvolvendo em conjunto com 6 universidades europeias e o Centro Europeu de Jornalismo uma ferramenta para analisar e avaliar a qualidade da governança nas entidades de prática e administração do esporte.

Mesmo aqui no Brasil, temos realizado trabalhos para algumas entidades esportivas com o intuito de iniciar a aplicação destes conceitos no dia a dia de suas atividades. E por mais que o termo “governança” às vezes assuste um pouco, na realidade temos pontuado que se trata de um processo que está ao alcance de todos e, com um pouco de boa vontade, é possível realizar ações estruturantes que de fato irão impactar no desenvolvimento do esporte como um todo.

A verdade é que está cada vez mais claro que os conceitos da boa governança não se aplicam apenas para o mercado corporativo. Eles também não são direcionados exclusivamente a megacorporações com ações cotadas na Bolsa de Valores. Os princípios da boa governança se aplicam a todas as instituições que de alguma forma tem que se relacionar com a sociedade.

Independentemente dos devidos processos legais, que devem sempre ocorrer, neste momento os fatos colocam em suspeição os envolvidos em negócios com a FIFA. Aqueles que tem seu nome e/ou marca ligados a entidade passam a ser vistos com desconfiança e isso, naturalmente, não é bom para ninguém, mesmo para aqueles que não praticaram atos ilícitos.

A sociedade tem clamado por atitudes verdadeiras e coerentes. Esta tem sido a nossa evolução natural. O fato de participar de um movimento com mais pontos de interrogação do que de exclamação sugere uma reflexão mais profunda e a escolha por caminhos mais corretos por parte de todos. Em se tratando do mercado do esporte, cada vez mais, a paixão cega menos. A tolerância está cada vez menor e, por isso, precisamos de mudanças que sejam exequíveis e que falem a verdade.

Para finalizar, deixo algumas questões para reflexão: Você gostaria que a marca da empresa que seu pai fundou e você dirige estivesse na lista de logos citada acima, ou na homepage do site de uma entidade envolvida em um escândalo de tamanha proporção? Como acionista daquelas multinacionais duramente criticadas por seus clientes, por manter relação com uma entidade supostamente corrupta, como você agiria? Vale a pena estimular seus filhos a participar de um ambiente que vá claramente contra seus princípios fundamentais e contra aquilo que ele mesmo defende?

Talvez, antes que o ambiente externo responda estas questões pelo sistema esportivo, é de extrema urgência que as organizações do esporte se antecipem em dar melhores respostas se quiserem se manter vivas no coração e na mente das pessoas e nos investimentos das empresas, governos e veículos de mídia. Se o esporte não mudar por si, alguém mudará pelo esporte! 

 

*Autor original do texto: Luis Felipe Monteiro de Barros, sócio-diretor da Inspire Sport Business

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