A necessidade de resiliência do futebol brasileiro

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“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças. ”

Leon C. Megginson

Olá!

Em minha primeira coluna “Crise Técnica do Futebol Brasileiro” busquei instigar os leitores a refletirem sobre o atual momento do nosso futebol, aproveitando a recorrente ideia de que “não possuímos mais tão bons jogadores como antigamente”, presente na maioria das discussões sobre o futebol brasileiro dos dias de hoje. A participação dos leitores tanto no site da Universidade do Futebol, como em sua página no Facebook, foi muito bacana, e a maioria dos comentários levam à conclusão de que nosso futebol necessita de mudanças em toda a sua estrutura.

Nestes tempos em que os Jogos Olímpicos têm dominado todas as mídias, me deparei com um vídeo muito interessante. Este apresentava a diferença entre as competições de ginástica da década de 1950 para a Olímpiada do Rio de Janeiro 2016.

Segue o vídeo:

A diferença entre a ginástica praticada há mais de 60 anos para a atual é gigante! Ao longo dos anos a modalidade foi ganhando mais dinâmica, novos movimentos, novos métodos de treino, etc. Tudo conduziu para a modalidade se tornar o que é hoje, e a tendência é que ela continue se modificando…

Motivado por esse vídeo, decidi fazer o mesmo com o futebol, porém em um espaço de tempo de 20 anos. Para isso, resolvi assistir às finais das Copas de 1970, de 1990 e de 2010 para buscar identificar as mudanças mais visíveis na modalidade.

Seguem os vídeos:

1970


1990

2010

Ficam visíveis algumas diferenças no modo de jogo em cada um deles.

1970

1990

2010

Fase Ofensiva

Pouca mobilidade; troca lenta de passes (a bola quase fica parada); as equipes atacam com poucos jogadores no último terço do campo.

Maior mobilidade; troca de passes mais rápida; maior quantidade de jogadores chegando ao último terço de campo.

Grande mobilidade, principalmente no campo ofensivo; troca rápida de passes; praticamente todos os jogadores entrando no segundo e último terço de campo; utilização dos goleiros como opção de passe.

Fase Defensiva

Quase não se exerce pressão sobre o portador da bola até o último terço do campo (exceto nos atacantes); referências predominantemente individuais; os atacantes praticamente não participam desta fase do jogo.

Aumento de pressão sobre o portador da bola já no segundo terço de campo; há um misto maior entre referências individuais e zonas de marcação, os jogadores do ataque dão maior contribuição nesta fase do jogo; utilização do líbero.

Pressão constante e em todo o campo ao portador da bola; referências zonais de marcação bem definidas; todos os jogadores contribuem ativamente nesta fase do jogo; goleiros realizam coberturas constantemente.

Transições

São mais lentas e quase não há tentativas de recuperação imediata da posse de bola ou no campo ofensivo.

Já são mais rápidas tanto para atacar quanto para defender; mas ainda predominando a intenção de impedir que o adversário progrida imediatamente ao seu gol.

Muito rápidas tanto para atacar quanto para defender; já com uma intenção maior de recuperar imediatamente a posse da bola.

Além destes aspectos, destaco também:

  • Em 1970 são raras as marcações de impedimento, mais comuns em 1990 e 2010.
  • O contato físico entre os jogadores aumenta bastante em 1990 e 2010.
  • Os jogadores de defesa utilizam-se bastante da vantagem de poder recuar a bola, com os pés, para o goleiro pegar com as mãos em 1970 e 1990.
  • A distância entre as linhas das equipes, tanto para atacar quanto para defender, é muito grande em 1970, menor em 1990 e diminui muito em 2010. Os jogadores passam a estar mais próximos e as equipes mais compactas.
  • O jogo de hoje exige maior versatilidade dos jogadores.
  • As situações de 1×1 são menos constantes em 2010 do que em 1990 e 1970.

Uma análise mais profunda e detalhada poderia identificar outras inúmeras diferenças. Destaco estas por serem de mais simples visualização a partir dos vídeos e ficarem bem claras a qualquer um. Um dado interessante que se pode verificar em estudos científicos e na base de dados do site da FIFA, reforçando a crescente dinâmica do jogo, é o aumento da distância média percorrida pelos atletas e pelas equipes, o tempo efetivo de jogo (bola rolando) e a quantidade de passes trocados.

A intenção aqui não é julgar valor, não é dizer que o jogo de hoje ou de ontem é melhor, mas sim entender que o jogo mudou e continua mudando, este é o fato que não se pode negar. Sendo assim, estando o jogo em constante mutação, aqueles que não souberem acompanhar e se adaptar a estas mudanças, terão grandes dificuldades em se manter competitivos, aí entra a necessidade de resiliência do futebol brasileiro que mencionei no título desta coluna.

Ser resiliente não significa perder sua essência, suas raízes, mas entender como é a melhor forma de otimizar suas características no cenário atual. Acredito que nosso futebol tem sido pouco resiliente, tem sido resistente à muitas mudanças que ocorreram no futebol, principalmente no que tange a métodos de treinamento, capacitação profissional e gestão esportiva. O Brasil não acompanhou com a mesma velocidade estas mudanças no jogo, mas felizmente ainda é tempo, ainda possuímos matéria prima suficiente para sermos extremamente competitivos e vitoriosos e, como alguns leitores comentaram, não é simplesmente copiando o que se faz lá fora, mas entendendo e adaptando as nossas demandas, as nossas necessidades e capacidades. Isso é o que nossos adversários fizeram e continuam fazendo. O Brasil não pode ficar estagnado na ideia de que vivemos uma “crise técnica”, todo brasileiro aprecia um jogo plástico, com refino técnico, e esse jogo é possível de ser praticado!

Se desejamos continuar a ostentar a alcunha de “País do Futebol”, precisamos acompanhar e nos adaptar às mudanças do esporte e, para isso, não é necessário perdermos nossa essência, a qual esteve ao longo dos anos e ainda continua presente desde a Champions League até o famoso dez minutos ou dois gols.

Final de 1970 – http://www.dailymotion.com/video/x1ht8qc_fifa-world-cup-1970-final-brazil-vs-italy-full-match_sport
Final de 1990 – http://www.dailymotion.com/video/x1jo4iu_fifa-world-cup-1990-final-deutschland-argentinien-full-match_sport?GK_FACEBOOK_OG_HTML5=1
Final de 2010 – http://www.dailymotion.com/video/x2i3y2a_2010-fifa-world-cup-final-netherlands-vs-spain_sport
 

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Márcio Gonçalves
Márcio Gonçalves
4 anos atrás

uma bela visao de nosso futebol,sempre se houve falar de jogadores jovens que na Europa aprendeu a marcar,a fechar o corredor ….a base e o fundamento principal para a mudança do futebol brasileiro para gerações futuras…e ali e o ponto de partida para que aprendam o tático para somar a técnica que já está no sangue.

Joel
Joel
4 anos atrás

ótima visão com conteúdo, e nota-se que a velocidade, com e sem a bola, é diretamente proporcional ao condicionamento físico, de cada época.Como novidade tática, e revolucionária que tivemos,foi na Copa do Mundo da Alemanha, em 1974,com o “Carrossel Holandês”, criado por aquele que na Europa é considerado como um “mago”do futebol: Rinus Michels.

Raphael Brito e Sousa
Raphael Brito e Sousa
4 anos atrás

Joel, sugiro ler o livro Inverting the Pyramid para que você perceba que não foi só o “Carrossel Holandês” que eles trouxeram de novo. Tem muita coisa além disso.

ISAIAS
ISAIAS
4 anos atrás

Boa noite;
São pessoas com essa visão e esse tipo de entendimento e conhecimento, que teriam que ocupar as posições de decisões, e mudanças no nosso futebol. não somente no campo teórico, mas , no prático também. então cabe ao torcedor Brasileiro também, procurar entender mais sobre o produto que ele compra e gosta, para que ele possa cobrar e exigir um produto melhor , tecnicamente, taticamente, teoricamente e com resiliência sempre. porque , a falta de mesma em qualquer momento, será o mesmo que sentar na zona de conforto.

marcelonunes50
4 anos atrás

A manga é o fruto da mangueira, portanto, “a árvore se conhece pelo fruto”, independente se o fruto é ruim ou bom. No entanto, toda novidade requer um bom “fruto” para ser identificada como EVOLUÇÃO. Em 1970 o Brasil adaptou-se muito bem às novidades da Preparação Física e aliou-as ao excelente nível técnico existente e venceu, mesmo a “andando em campo” (segundo os padrões de hoje). Em 1974, vimos uma Holanda taticamente inovadora, sem o bom fruto da vitória (mas já indicando um novo e bom caminho), em detrimento de uma Alemanha pragmática. Jogar bonito nem sempre significa ganhar título.… Read more »

Moacyr Fernandes de Barros
Moacyr Fernandes de Barros
4 anos atrás

Concordo com tudo que foi escrito pelas pessoas , tenho 45 de futebol , a principal mudança que o futebol brasileiro precisa São seus dirigentes em todas as esferas , clubes ,federações e CBF , pois essas pessoas que tem o comando do futebol só pensão no dinheiro que vão ganhar estão pouco se importando com o desenvolvimento do futebol no mundo , é muitos dos nos treinadores deixarem de copiar o modelo de trabalho que existe na Europa , fui treinador em Portugal e Espanha e é impossível para nós colocarmos em prática tudo que os treinadores europeus conseguem… Read more »

Johny River
4 anos atrás

Eu tenho 19 anos, sempre tive o sonho em ingressar na carreira de jogador, porém vejo que deixei com o tempo esse sonho passar. Agora como não estou tendo essa possibilidade, pretendo seguir a carreira de treinador, porém não tenho um acompanhamento, alguém poderia me dar algumas sugestões.

Marcelo
Marcelo
4 anos atrás
Reply to  Johny River

Leia tudo do site UNIVERSIDADE DO FUTEBOL (os Profissionais envolvidos, são de alto nível). Faça o Curso de Graduação em Educação Física. Procure o Sindicato dos Jogadores de Futebol e também o dos Treinadores de Futebol. Faça estágio em clubes de futebol. Organize ou se engaje numa escolhinha de futebol. Há também cursos na CBF (caríssimos) e na Escola de Educação Física do Exercíto.

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