Universidade do Futebol

Colunas

20/08/2016

A necessidade de resiliência do futebol brasileiro

Ser resiliente não significa perder sua essência, suas raízes, mas entender como é a melhor forma de otimizar suas características no cenário atual

“Não é o mais forte que sobrevive, nem o mais inteligente, mas o que melhor se adapta às mudanças. ”

Leon C. Megginson

Olá!

Em minha primeira coluna “Crise Técnica do Futebol Brasileiro” busquei instigar os leitores a refletirem sobre o atual momento do nosso futebol, aproveitando a recorrente ideia de que “não possuímos mais tão bons jogadores como antigamente”, presente na maioria das discussões sobre o futebol brasileiro dos dias de hoje. A participação dos leitores tanto no site da Universidade do Futebol, como em sua página no Facebook, foi muito bacana, e a maioria dos comentários levam à conclusão de que nosso futebol necessita de mudanças em toda a sua estrutura.

Nestes tempos em que os Jogos Olímpicos têm dominado todas as mídias, me deparei com um vídeo muito interessante. Este apresentava a diferença entre as competições de ginástica da década de 1950 para a Olímpiada do Rio de Janeiro 2016.

Segue o vídeo:

A diferença entre a ginástica praticada há mais de 60 anos para a atual é gigante! Ao longo dos anos a modalidade foi ganhando mais dinâmica, novos movimentos, novos métodos de treino, etc. Tudo conduziu para a modalidade se tornar o que é hoje, e a tendência é que ela continue se modificando…

Motivado por esse vídeo, decidi fazer o mesmo com o futebol, porém em um espaço de tempo de 20 anos. Para isso, resolvi assistir às finais das Copas de 1970, de 1990 e de 2010 para buscar identificar as mudanças mais visíveis na modalidade.

Seguem os vídeos:

1970

1990

2010

Ficam visíveis algumas diferenças no modo de jogo em cada um deles.

1970

1990

2010

Fase Ofensiva

Pouca mobilidade; troca lenta de passes (a bola quase fica parada); as equipes atacam com poucos jogadores no último terço do campo.

Maior mobilidade; troca de passes mais rápida; maior quantidade de jogadores chegando ao último terço de campo.

Grande mobilidade, principalmente no campo ofensivo; troca rápida de passes; praticamente todos os jogadores entrando no segundo e último terço de campo; utilização dos goleiros como opção de passe.

Fase Defensiva

Quase não se exerce pressão sobre o portador da bola até o último terço do campo (exceto nos atacantes); referências predominantemente individuais; os atacantes praticamente não participam desta fase do jogo.

Aumento de pressão sobre o portador da bola já no segundo terço de campo; há um misto maior entre referências individuais e zonas de marcação, os jogadores do ataque dão maior contribuição nesta fase do jogo; utilização do líbero.

Pressão constante e em todo o campo ao portador da bola; referências zonais de marcação bem definidas; todos os jogadores contribuem ativamente nesta fase do jogo; goleiros realizam coberturas constantemente.

Transições

São mais lentas e quase não há tentativas de recuperação imediata da posse de bola ou no campo ofensivo.

Já são mais rápidas tanto para atacar quanto para defender; mas ainda predominando a intenção de impedir que o adversário progrida imediatamente ao seu gol.

Muito rápidas tanto para atacar quanto para defender; já com uma intenção maior de recuperar imediatamente a posse da bola.

Além destes aspectos, destaco também:

  • Em 1970 são raras as marcações de impedimento, mais comuns em 1990 e 2010.
  • O contato físico entre os jogadores aumenta bastante em 1990 e 2010.
  • Os jogadores de defesa utilizam-se bastante da vantagem de poder recuar a bola, com os pés, para o goleiro pegar com as mãos em 1970 e 1990.
  • A distância entre as linhas das equipes, tanto para atacar quanto para defender, é muito grande em 1970, menor em 1990 e diminui muito em 2010. Os jogadores passam a estar mais próximos e as equipes mais compactas.
  • O jogo de hoje exige maior versatilidade dos jogadores.
  • As situações de 1×1 são menos constantes em 2010 do que em 1990 e 1970.

Uma análise mais profunda e detalhada poderia identificar outras inúmeras diferenças. Destaco estas por serem de mais simples visualização a partir dos vídeos e ficarem bem claras a qualquer um. Um dado interessante que se pode verificar em estudos científicos e na base de dados do site da FIFA, reforçando a crescente dinâmica do jogo, é o aumento da distância média percorrida pelos atletas e pelas equipes, o tempo efetivo de jogo (bola rolando) e a quantidade de passes trocados.

A intenção aqui não é julgar valor, não é dizer que o jogo de hoje ou de ontem é melhor, mas sim entender que o jogo mudou e continua mudando, este é o fato que não se pode negar. Sendo assim, estando o jogo em constante mutação, aqueles que não souberem acompanhar e se adaptar a estas mudanças, terão grandes dificuldades em se manter competitivos, aí entra a necessidade de resiliência do futebol brasileiro que mencionei no título desta coluna.

Ser resiliente não significa perder sua essência, suas raízes, mas entender como é a melhor forma de otimizar suas características no cenário atual. Acredito que nosso futebol tem sido pouco resiliente, tem sido resistente à muitas mudanças que ocorreram no futebol, principalmente no que tange a métodos de treinamento, capacitação profissional e gestão esportiva. O Brasil não acompanhou com a mesma velocidade estas mudanças no jogo, mas felizmente ainda é tempo, ainda possuímos matéria prima suficiente para sermos extremamente competitivos e vitoriosos e, como alguns leitores comentaram, não é simplesmente copiando o que se faz lá fora, mas entendendo e adaptando as nossas demandas, as nossas necessidades e capacidades. Isso é o que nossos adversários fizeram e continuam fazendo. O Brasil não pode ficar estagnado na ideia de que vivemos uma “crise técnica”, todo brasileiro aprecia um jogo plástico, com refino técnico, e esse jogo é possível de ser praticado!

Se desejamos continuar a ostentar a alcunha de “País do Futebol”, precisamos acompanhar e nos adaptar às mudanças do esporte e, para isso, não é necessário perdermos nossa essência, a qual esteve ao longo dos anos e ainda continua presente desde a Champions League até o famoso dez minutos ou dois gols.

Final de 1970 – http://www.dailymotion.com/video/x1ht8qc_fifa-world-cup-1970-final-brazil-vs-italy-full-match_sport

Final de 1990 – http://www.dailymotion.com/video/x1jo4iu_fifa-world-cup-1990-final-deutschland-argentinien-full-match_sport?GK_FACEBOOK_OG_HTML5=1

Final de 2010 – http://www.dailymotion.com/video/x2i3y2a_2010-fifa-world-cup-final-netherlands-vs-spain_sport

 

Comentários

  1. Márcio Gonçalves disse:

    uma bela visao de nosso futebol,sempre se houve falar de jogadores jovens que na Europa aprendeu a marcar,a fechar o corredor ….a base e o fundamento principal para a mudança do futebol brasileiro para gerações futuras…e ali e o ponto de partida para que aprendam o tático para somar a técnica que já está no sangue.

    • Olá Márcio! A questão é que nosso futebol necessita olhar para si e identificar os pontos em que precisa melhorar, evoluir, só assim iremos maximizar todo o potência que possuímos. Abraço!

  2. Joel disse:

    ótima visão com conteúdo, e nota-se que a velocidade, com e sem a bola, é diretamente proporcional ao condicionamento físico, de cada época.Como novidade tática, e revolucionária que tivemos,foi na Copa do Mundo da Alemanha, em 1974,com o “Carrossel Holandês”, criado por aquele que na Europa é considerado como um “mago”do futebol: Rinus Michels.

    • Olá Joel! Tudo é em decorrência da evolução do jogo, ele não é algo estático ao logo do tempo, mas se modifica, reinventa, e quem não acompanha isso, consequentemente acaba ficando para traz. Abraço!

    • Olá Joel! Tudo é em decorrência da evolução do jogo, ele não é algo estático ao logo do tempo, mas se modifica, reinventa, e quem não acompanha isso, consequentemente acaba ficando para trás. Abraço!

  3. Raphael Brito e Sousa disse:

    Joel, sugiro ler o livro Inverting the Pyramid para que você perceba que não foi só o “Carrossel Holandês” que eles trouxeram de novo. Tem muita coisa além disso.

  4. ISAIAS disse:

    Boa noite;
    São pessoas com essa visão e esse tipo de entendimento e conhecimento, que teriam que ocupar as posições de decisões, e mudanças no nosso futebol. não somente no campo teórico, mas , no prático também. então cabe ao torcedor Brasileiro também, procurar entender mais sobre o produto que ele compra e gosta, para que ele possa cobrar e exigir um produto melhor , tecnicamente, taticamente, teoricamente e com resiliência sempre. porque , a falta de mesma em qualquer momento, será o mesmo que sentar na zona de conforto.

    • Olá Isaias, obrigado pela contribuição, como grande consumidor do futebol, o torcedor tem também papel importante na transformação do mesmo em nosso país. E entrar na zona de conforto é o primeiro passo do fracasso. Grande abraço!

  5. A manga é o fruto da mangueira, portanto, “a árvore se conhece pelo fruto”, independente se o fruto é ruim ou bom. No entanto, toda novidade requer um bom “fruto” para ser identificada como EVOLUÇÃO. Em 1970 o Brasil adaptou-se muito bem às novidades da Preparação Física e aliou-as ao excelente nível técnico existente e venceu, mesmo a “andando em campo” (segundo os padrões de hoje). Em 1974, vimos uma Holanda taticamente inovadora, sem o bom fruto da vitória (mas já indicando um novo e bom caminho), em detrimento de uma Alemanha pragmática. Jogar bonito nem sempre significa ganhar título. Em 1978, a Argentina começou a ganhar quando o Brasil empatou com ela, levando 3 na trave e em seguida comprou o Peru. Na Argentina ganhou da Holanda (sem “carrossel”), e na garra e provou que isso também vale e deve ser um dos componentes de qualquer atleta. Em 1982, o Brasil fantástico de “Zico & Cia”, jogou lindamente, e foi e é admirada até hoje por isso, foi desclassificação por “Paolo Rossi & Sozinho”, porém o fruto nasceu anos depois no Barcelona de Guardiola (como eles demoraram, pra sacar que o negócio era a posse de bola, hein ? … mas essa demora ninguém fala… só a brasileira….), Em 1986, ao contrário da Holanda de 1978, nosso futebol vistoso, não caiu na obsolescência prática (porque os gringos ainda acreditavam que a “força sozinha”, poderia superar o “toque de bola sozinho”), mas foi eliminada, nos penaltys, por uma França feia (tão feia, que ficou em 4º lugar) e porque Zico jogou com uma perna só. e não tínhamos um plano B, para a “Zicodependência”. Faltou peito, pra “cortar o Galinho” e substituí-lo por alguém em condições atléticas para o jogo (O Brasil ainda estava pensando que se ganha jogo com o nome e com a camisa. Mais vale um Adílio bem e no auge, do que um “galo sem uma asa”. Em 1990. sim, a nossa pior Copa em tudo. Preterimos totalmente a técnica e tentamos aderir totalmente à força. Deu no que deu. A Alemanha “sem sal” ganhou da Argentina, de Maradona. Menos mal. Que novidade tática trouxe a Alemanha ? Em 1994, o Parreira trancou tudo e ganhamos com Romário, Bebeto e Ronaldão kkkk nos penaltys e sem nenhum fruto bom, só o título engasgado. Em 1998, viemos bem, até os gols de cabeça do Zidane. mas ninguém teve peito pra vetar o Ronaldo e colocar o Edmundo meRmo. O que a França apresentou de novo ? Já em 2002, em primeiro lugar o Romário, não foi convocado, por achar que o Brasil dependia dele para ganhar título. Nem do Pelé, meu filho !!! Começamos a evoluir… aliamos força, técnica e tática (a tática do Felipão nessa época, ainda era vencedora), Ganhamos sem contestação. Em 2006, perdemos, novamente, porque sempre que o Brasil, ganha uma Copa, acha que vai ganhar a outra, mole. Mas deu Azurra. Que novidade tática trouxe a Itália ? Em 2010, até que enfim, a Espanha, aproveitando-se de tudo o que o Guardiola fez com o seu famoso “tic-tac”, ganhou merecidamente. No entanto em 2014, ao tentar repetir o que já havia sido massacrado pelo Brasil, na final da Copa das Confederações, se ferrou. Enquanto o Brasil, (diferentemente da Argentina em 1978) chorava de emoção antes mesmo de entrar em campo, a Alemanha meteu 7×1 e graças a Deus, derrotou a Argentina, senão a catástrofe seria maior. A Alemanha, sim mostrou um futebol, mais evoluído do que o Brasil de 2002. Se o Brasil não tivesse dado mole em 1950 e 1982 seríamos heptacampeões. Porém, a primeira semente foi plantada, empiricamente, por Zagallo em 1958, que voltava pra marcar… um absurdo na época… Viva ao jogador Zagallo, Viva Rinus Michels, Viva Telê Santana, Viva Guardiola… Viva ao Brasil !!!

    • Olá Marcelo, obrigado por contribuir com sua reflexão e análise. Quanto a alguns questionamentos em relação ao que alguma seleções apresentaram de evolução, seria necessário uma análise mais profunda e detalhada, porém, um jogo nunca é igual ao outro, e consequentemente, uma Copa do Mundo num intervalo de 4 anos. Sempre existe alguma mudança, algum tipo de evolução, é isso que fez e faz o futebol evoluir, novas equipes e jogadores vitoriosos surgirem, a primeira Copa foi em 1930, e o primeiro título do maior campeão da competição só veio em 1958, neste intervalo de 28 anos, algumas mudanças foram necessárias para que o Brasil conquistasse o título. Sempre há algo diferente, algo novo, cair na zona de conforto é grande perigo. Abraço!

  6. Moacyr Fernandes de Barros disse:

    Concordo com tudo que foi escrito pelas pessoas , tenho 45 de futebol , a principal mudança que o futebol brasileiro precisa São seus dirigentes em todas as esferas , clubes ,federações e CBF , pois essas pessoas que tem o comando do futebol só pensão no dinheiro que vão ganhar estão pouco se importando com o desenvolvimento do futebol no mundo , é muitos dos nos treinadores deixarem de copiar o modelo de trabalho que existe na Europa , fui treinador em Portugal e Espanha e é impossível para nós colocarmos em prática tudo que os treinadores europeus conseguem com seus atletas , é uma questão de Cultura e educação , essa é apenas minha opinião obrigado

    • Olá Moacyr! Muito obrigado por sua contribuição, visto sua experiência de trabalho internacional, sinta-se a vontade para compartilhar mais dela conosco. Concordo que necessitamos de mudanças também na esfera administrativa do nosso futebol, e reitero que “resiliência” é a capacidade de saber se adaptar, e não de copiar. Abraço!

  7. Johny River disse:

    Eu tenho 19 anos, sempre tive o sonho em ingressar na carreira de jogador, porém vejo que deixei com o tempo esse sonho passar. Agora como não estou tendo essa possibilidade, pretendo seguir a carreira de treinador, porém não tenho um acompanhamento, alguém poderia me dar algumas sugestões.

    • Marcelo disse:

      Leia tudo do site UNIVERSIDADE DO FUTEBOL (os Profissionais envolvidos, são de alto nível). Faça o Curso de Graduação em Educação Física. Procure o Sindicato dos Jogadores de Futebol e também o dos Treinadores de Futebol. Faça estágio em clubes de futebol. Organize ou se engaje numa escolhinha de futebol. Há também cursos na CBF (caríssimos) e na Escola de Educação Física do Exercíto.

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